35 anos do acidente na usina de Chernobyl – 26 de abril de 2021

Reator 4 da Usina de Chernobyl | Fonte: Matt Shalvatis via Flickr
35 anos do acidente na usina de Chernobyl - 26 de abril de 2021 3

Este dia, 26 de abril, foi marcado pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma data para relembrarmos o acidente na usina de Chernobyl, na Ucrânia, que completa hoje 35 anos. O nome Chernobyl ainda hoje segue sendo associado a traumas e mortes. Porém, também está relacionado a curiosidade de muitos que se interessam por assuntos relacionados à energia nuclear e ao risco de acidentes em centrais nucleares.   

Para entendermos com mais propriedade o que aconteceu neste dia, é importante expormos como funciona uma usina nuclear e o porquê de o acidente ter ocorrido. Posteriormente, traremos as reverberações da explosão da central nuclear de Chernobyl nos âmbitos ambiental, social, sanitário e político. Por último, faremos uma reflexão em relação a viabilidade das usinas nucleares na atualidade, tendo em mente este acidente nuclear. Para a elaboração deste marco histórico foi necessário a leitura de artigos e notícias sobre esta temática. 

Como funciona uma usina nuclear? 

Em essência, uma usina nuclear é composta por um reator, um pressurizador, um gerador de vapor, um condensador e uma turbina (ver figura 1). Inicialmente, o urânio 235 (235U) – isótopo radioativo proveniente do enriquecimento do urânio 238 (238U) – presente no interior do reator é bombardeado com nêutrons, possibilitando a fissão deste e, consequentemente, a liberação de uma grande quantidade de energia. Esta energia, por sua vez, é a responsável por aquecer a água presente no gerador e transformá-la em vapor. Este gerador gira as pás da turbina transformando a energia cinética em energia elétrica, a qual após passar por uma série de etapas será direcionada para a nossa casa (GOLDEMBERG, 1985, p. 17-21). 

Funcionamento de uma usina nuclear
Princípios de funcionamento de uma usina nuclear | Fonte: Wikimedia Commons  

Um fator importante que deve ser observado, é que durante o processo de fissão do urânio, ocorre a liberação de nêutrons, os quais proporcionam que este processo se desenvolva por meio de uma reação em cadeia. Entretanto, a fim de evitar que a fissão deste material ocorra de maneira desenfreada, barras de controle, geralmente feitas de boro ou cádmio – elementos que absorvem nêutrons –, são dispostas no interior do reator (CHARPAK; GARWIN, 1997). 

Além das barras de controle, outra medida de segurança, como o uso de um agente refletor, é essencial neste processo. O agente refletor tem como função desacelerar os nêutrons provenientes da etapa de fissão, reduzindo as suas velocidades de 1600 km/s para 1,6 km/s, a qual possibilita com o processo de quebra dos próximos átomos ocorra de forma mais eficaz e organizada. Um exemplo de agente refletor, comumente utilizado, é o grafite, o qual também foi empregado no interior do reator número 4 da usina de Chernobyl (CHARPAK; GARWIN, 1997).

Retomando uma etapa mencionada anteriormente, o urânio empregado nos reatores precisa passar por um processo prévio de enriquecimento. Esta etapa está relacionada com a obtenção do isótopo radioativo através do dióxido de urânio (UO2) encontrado na natureza – composto por 99,281% de 238U e 0,71% de 235U.  Este enriquecimento visa aumentar a concentração do 235U para 3%. Salienta-se que para se fazer uma bomba atômica a concentração deste deve ser próxima a 90%, logo, em tese, seria pouco provável que uma explosão atômica ocorresse em uma usina nuclear, entretanto estes podem acontecer (GOLDEMBERG, 1985); e aconteceram, como o ocorrido no acidente da usina de Chernobyl, localizada na Ucrânia.

O que ocasionou o acidente na usina de Chernobyl

Durante um teste realizado durante a madrugada do dia 26 de abril de 1986, no reator 4 da usina, ocorreram problemas provenientes da redução significativa de sua potência, que diminuiu para valores inferiores a 700 MW. Segundo relatórios, este evento – previsto como perigoso de acordo com os procedimentos previamente definidos – foi apontado, por alguns, como falha humana por parte dos operadores do turno (CHARPAK; GARWIN, 1997).

No entanto, apesar do teste ter sido exigido pelo Comitê Estatal, por temer a utilização do reator em caso de ataques durante a Guerra Fria, o então engenheiro chefe Anatoly Syatlov buscava avaliar outras condições como, por exemplo, a realização do teste a uma potência de 200 MW para a preservação da água de resfriamento do reator. Todavia, sua potência foi reduzida a zero por possíveis erros de operação.

Mesmo assim, o engenheiro chefe não desistiu do teste e tomou a decisão fatal de reativar o reator sem que os seus sistemas de segurança – as barras de controle –  fossem recolocadas em contato com o urânio enriquecido, apesar de os operadores terem avisado sobre a situação de extremo perigo. Sendo assim, visto que estas barras atuam no controle do processo de fissão nuclear, determinando se o reator funcionará com menor ou maior potência, e que das 211 barras espalhadas no interior do reator da usina, apenas 6 foram mantidas em sua posição inicial, a potência do equipamento aumentou muito mais rápido do que o esperado, até pelo mesmo por Anatoly Syatlov (CHARPAK; GARWIN, 1997).

Tendo em vista que o teste consistia em desligar as turbinas que resfriavam o reator, a fim de testar os geradores de emergência a diesel, em caso de problemas, a água de refrigeração não seria suficiente para frear o calor gerado pelo equipamento. Logo, como uma alternativa para desacelerar o aumento repentino na potência do reator e o acúmulo de radioatividade na base deste, devido à baixa quantidade de barras – apenas 6, sendo que o valor tido como mínimo são 30 – as remanescentes foram acionadas (apesar de que estas nunca deveriam ter sido retiradas durante a operação) (CHARPAK; GARWIN, 1997).

O problema é que quando esta decisão foi tomada, o fato das barras possuírem grafite em suas pontas não foi levado em consideração. O grafite, por sua vez, reduziu a velocidade dos nêutrons, o que aumentou as chances de esses entrarem em contato com átomos de urânio, que consequentemente aumentaram ainda mais a efetividade do processo de fissão nuclear, a potência do reator e a produção de vapor.

Dessa forma, devido à alta pressão do vapor de água existente no reator em conjunto com a reação entre a água aquecida, as temperaturas próximas a 1000ºC, e o grafite, – ocasionando a geração de monóxido de carbono e gás hidrogênio (extremamente inflamável) – resultou na explosão que despedaçou a tampa (ver figura 2), de aproximadamente 1200 toneladas, do equipamento. Ressalva-se que não houve uma explosão nuclear e que a radioatividade emitida foi causada pelo material radioativo arremessado para fora durante este evento.

35 anos do acidente na usina de Chernobyl - 26 de abril de 2021 4
Imagem real do reator 4 da usina de Chernobyl após a explosão | Fonte: Wikimedia Commons

Além disso, ainda houve um grande incêndio quando o grafite, do interior do reator, foi aquecido, o qual permaneceu queimando por vários dias. Embora tentativas de cessar o fogo tenham sido realizadas por bombeiros, operários e civis, não foi possível apagar o incêndio, fazendo com que o conteúdo de várias bombas de Hiroshima fosse lançado na atmosfera. Este conteúdo, por sua vez, foi espalhado pela ação do vento até uma boa parte do território europeu.

Entretanto, após aproximadamente 10 dias, no dia 06 de maio de 1986, por meio de uma massiva operação militar, que consistiu em despejar toneladas de chumbo e areia, com a ajuda de helicópteros, o fogo foi finalmente controlado. Caso o incêndio não tivesse sido contido, estima-se que a precipitação radioativa seria 100 vezes maior do que a combinação das bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão.

Após o acidente, uma estrutura de concreto e aço foi construída sobre o local contaminado, que recebeu o nome de sarcófago (ver figura 3). Este suporte foi substituído em 2019, após 33 anos do acidente, e estima-se que impedirá a liberação de 200 toneladas de material altamente radioativo durante os 100 anos descritos como sua durabilidade.

35 anos do acidente na usina de Chernobyl - 26 de abril de 2021 5
Estrutura/sarcófago construído sobre o reator 4 da usina nuclear | Fonte: Tim porter via Wikimedia Commons

Desdobramentos do acidente de Chernobyl 

A tragédia de Chernobyl gerou impactos em vários âmbitos, sobretudo: ambiental, social, sanitário e político. No que diz respeito ao primeiro ponto citado, a quantidade de material radioativo emitido pela explosão do reator 4 foi várias vezes maior do que o emitido com a explosão da bomba nuclear estadunidense Little Boy contra a cidade japonesa de Hiroshima.

Neste sentido, para conter o alastramento da radiação, foi estabelecida uma zona de exclusão de 30 km ao redor do local do acidente. Logo, florestas dentro deste perímetro tiveram que ser queimadas para evitar que a vegetação absorvesse, e se tornasse fonte de radiação. Assim como animais domésticos e silvestres tiveram que ser abatidos com este mesmo propósito. De acordo com as estimativas citadas por Dupuy (2017), as zonas próximas a Chernobyl devem ficar inabitadas por, pelo menos, 25 mil anos. 

Em relação ao sentido social do acidente, dois grupos de pessoas foram os mais impactados por este desastre nuclear, ou seja, as pessoas responsáveis por trabalhar na contenção dos danos causados por Chernobyl e a população que vivia nas proximidades desta usina (DUPUY, 2007). Os primeiros, foram desde bombeiros chamados para apagar as chamas da explosão do reator 4, a profissionais que foram escalados para trabalhar em decorrência do acidente de Chernobyl, estes últimos apelidados de “liquidadores”. É especulado pelo Fórum Chernobyl que por volta de 200 mil pessoas trabalharam para conter os problemas decorridos. 

Já os segundos, foram principalmente moradores que viviam próximos a Chernobyl, como os da cidade de Pripyat a 30 km de distância do local da explosão. Durante as operações de evacuação, 46 mil pessoas desta cidade foram deslocadas para outros lugares da União Soviética, assim como mais 70 mil pessoas que viviam em zonas próximas. Portanto, o deslocamento total aproximado foi de 120 mil pessoas. Apesar desta operação massiva, o Fórum Chernobyl acredita que 270 mil pessoas ainda continuaram vivendo em zonas contaminadas com radiação.  

Quanto ao aspecto sanitário deste evento, não se sabe ao certo o número de pessoas mortas e/ou que ficaram doentes por causa da radiação emitida. Entretanto, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta que 4 mil pessoas morreram diretamente devido a explosão e que, pelo menos, 50 mil foram contaminadas. Porém, é muito difícil apontar números concretos, já que o governo soviético buscou esconder os dados sobre este assunto. Dupuy (2007, p. 246) expõe a opinião de médicos e geneticistas sobre os efeitos e as consequências geradas por um evento como este: 

Médicos e geneticistas nos falaram longamente sobre os efeitos das doses fracas de radioatividade em dezenas de milhões de pessoas que vivem, bebem, se alimentam e se reproduzem em um meio contaminado: tumores cancerígenos, cardiopatias, fadigas crônicas, doenças inéditas e sentimento de desamparo afetam uma população imensa, e, no meio dessa, sobretudo crianças e jovens. E temem-se efeitos irreversíveis sobre o genoma humano.

Por último, devemos levar em consideração fatores políticos frente a este acontecimento. Naquela época, a URSS tinha como objetivo ampliar ainda mais a importância da energia nuclear frente a matriz energética nacional. Por conta disto, deu-se mais atenção a implementação rápida de reatores, do que aos aspectos de segurança requisitados por estes. De tal forma, devido a pressões políticas, o reator número 4 foi inaugurado antes do tempo previsto e, consequentemente, sem ter passado por todos os testes de segurança necessários (CHARPAK; GARWIN, 1997).

Isto explica a razão pela qual os soviéticos usavam os reatores do tipo RBMK, em russo “reator de alta potência”. Estes reatores apresentavam grandes instabilidades, pois utilizavam como matéria prima o urânio com baixo nível de enriquecimento e água, responsável pelo esfriamento do reator, para formar vapor e, posteriormente, mover as turbinas. Na contramão aos então obsoletos reatores, foram implementados sistemas PWR, ou seja, reatores de água pressurizada, como os que temos aqui no Brasil em Angra 1 e Angra 2. Diferentemente do sistema anterior, o PWR apresenta três circuitos independentes, nos quais o líquido radioativo não faz parte do sistema.

Politicamente, o desastre de Chernobyl denegriu a imagem da União Soviética perante a comunidade internacional. Isto se deve tanto pelo fato da exposição dos problemas técnicos, quanto pela tentativa inicial do Kremlin em esconder a explosão do reator do restante do mundo. Entretanto, apesar disto, esta foi descoberta pelos Estados por meio de imagens de satélites, feitas pelos Estados Unidos, e por medidores de radiação localizados em outros países europeus. De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU, 2020), apenas em 1990 a URSS decidiu pedir ajuda à comunidade internacional para lidar com os problemas gerados por Chernobyl. A prolongada demora e as consequências sanitárias geradas pelo acidente causaram grande revolta, sobretudo pela grande quantidade de pessoas impactadas por esta tragédia. 

O pós-Chernobyl: os desafios para a energia nuclear na atualidade  

A energia nuclear pode ser vista como uma alternativa para a redução das emissões de gás carbônico na atmosfera. Entretanto, mesmo que em pequena quantidade, o gás carbônico é produzido durante o enriquecimento do urânio 238, o qual é conduzido por meio da eletricidade gerada por combustíveis fósseis. Além disto, durante o processo de produção da energia nuclear, são gerados resíduos e outros gases prejudiciais à camada de ozônio.

Outro fator importante de ser destacado é a possibilidade da ocorrência de acidentes nucleares, visto que estes geram muitos debates até hoje pelos danos irreversíveis ao meio ambiente e à saúde humana que podem vir a ocorrer. Sendo assim, além da energia nuclear causar muitas ressalvas e discussões pelo peso que o termo nuclear carrega consigo, esta não pode ser considerada como energia limpa, apesar de muitos a tratarem desta forma.

Goldemberg (1985, p. 40-41) aponta que a probabilidade de acidentes em centrais nucleares acontecerem, eram estimadas em 0,0001 por reator nuclear na década de 1980. Apesar desta probabilidade ser baixa, em um país como os EUA que, em 1985 detinham 100 reatores nucleares em funcionamento, as chances de acidente nuclear por ano seriam de 1%, o que representa um número muito alto por causa dos riscos. 

Devido a explosão de Chernobyl, o cuidado com as centrais nucleares foi redobrado no mundo inteiro. Novos mecanismos de segurança foram desenvolvidos, a fim de garantir melhor efetividade das usinas nucleares. Mesmo assim, em 2011, ocorreu um vazamento de material radioativo – em uma área de pelo menos 150 mil quilômetros quadrados de extensão –, o qual foi expelido pela central nuclear na cidade japonesa de Fukushima. Este acidente ambiental foi gerado por um terremoto e, mais uma vez, serviu como comprovação de que as usinas nucleares não são 100% seguras. 

Por causa dos dados anteriormente citados, mesmo atualmente, ainda há uma grande resistência quanto a implementação de centrais nucleares. Esta se dá principalmente por Organizações Não-Governamentais (ONGs) ambientais que tem como objetivo advertir sobre o risco das centrais nucleares para o meio ambiente. É difícil pensarmos em um mundo sem este tipo de energia, já que ela corresponde a aproximadamente 17% de toda energia elétrica mundialmente produzida. Países como a França, por exemplo, dependem da fissão nuclear para gerar até 80% da sua energia. Além disso, como a Word Nuclear Association nos lembra, há cerca de 450 usinas nucleares espalhadas ao redor do globo, e este número só tende a aumentar com o passar dos anos. 

Por último, devemos levar em consideração o lobby feito por empresas que produzem energia nuclear. Por mais que acidentes, como os ocorridos em Chernobyl e em Fukushima, aconteçam, Dupuy (2007) acredita que a própria Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), responsável por fiscalizar as centrais nucleares ao redor do globo, serve como massa de manobra. Segundo ele, a AIEA age por meio de pressões tanto estatais quanto empresariais para fazer vista grossa perante eventuais problemas ambientais que podem ser gerados pela produção deste tipo de energia. 

Neste sentido, pode ser destacado o caso da usina nuclear de Almaraz, localizada na Espanha. Por mais que a agência indique que esta usina cumpra todos os requisitos de segurança, desde a década de 1980 há vários indícios de problemas graves, que podem transformar esta usina em uma futura Chernobyl. Neste caso, o lobby estatal exercido pelas empresas responsáveis por Almaraz para mantê-la em funcionamento, mesmo com um histórico preocupante, é evidente. 

Este marco histórico é um aviso para todos nós. Portanto, cabe a todos, como sociedade civil, pressionarmos os governos e os órgãos fiscalizadores para buscarmos que nenhum acidente como o da usina nuclear de Chernobyl ocorra novamente. 

Referências bibliográficas:

CHARPAK, George; GARWIN, Richard. Fogos Fátuos e Cogumelos Nucleares. Lisboa: Instituto Piaget, 1997.

DUPUY, Jean. A catástrofe de Chernobyl vinte anos depois.  In: Estudos Avançados 21, 2007. 

GOLDERBERG, José. O que é Energia Nuclear? São Paulo: Editora Brasiliense, 1985. 

Marcadores:

Deixe um comentário