A chegada da COVID-19 na África: Antigos e Novos Desafios

Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, discursa sobre a evolução e estratégia da África do Sul para gerenciar a disseminação da COVID-19 | Foto: GCIS

O mundo atualmente se encontra em mais uma grande crise capaz de mudar a consciência e a forma de vida de grande parte da população planetária: o novo COVID-19 é a maior ameaça que assola mais de 180 países e territórios, fazendo com que o mundo parasse em uma quarentena sem precedentes.

A COVID-19 (coronavirus disease) é o nome da doença causada pelo novo tipo de coronavírus e sua disseminação foi caracterizada como pandemia pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020, após o seu surgimento em dezembro de 2019 na cidade de Wuhan, província de Hubei na China, e que, em questão de semanas se disseminou rapidamente pelo mundo. Cientistas afirmam que há sete tipos de coronavírus humanos descobertos, estes são extremamente comuns e principais responsáveis pelos resfriados, contudo, o novo tipo de coronavírus (intitulado SARS-CoV-2) é o que tem causado a doença COVID-19. (OPAS, 2020)

Pouco se sabe ainda sobre o novo coronavírus, contudo, tais estudos, realizados por cientistas do mundo todo, são usados como base para direcionar as políticas de diversos governos em que a doença tenha sido notificada. Como por exemplo, seus sintomas, que inicialmente são leves mas que podem se desenvolver depressa e se tornar letais, assim como sua forma de propagação, realizada através de gotículas liberadas no espirro ou tosse de um indivíduo que tenha sido infectado, fazendo com que ações básicas de higiene e isolamento social sejam as principais e mais eficientes medidas tomadas para evitar aglomerações e, consequentemente, sua disseminação em ampla escala (OPAS, 2020).

Logo, o desconhecimento de vacina e tratamento específico, a rápida contaminação e desenvolvimento dos sintomas e o lento tempo de recuperação dos pacientes diagnosticados é o que vem ocasionando o atual cenário pandêmico, causando a morte de mais de 500.000 pessoas e o diagnóstico em  12 milhões ao redor do globo, a quarentena estabelecida e o colapso em sistemas de saúde de diversos países, além de graves consequências a economia mundial (OPAS, 2020).

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Portanto, após ser identificada na China pela primeira vez e, pouco tempo depois, no mundo todo, em especial a Europa e a América, tal problemática acaba chamando a atenção para determinadas regiões do globo, como a África que, apesar de atualmente possuírem números baixos se comparados com os demais continentes, tem sido caracterizada como uma bomba relógio pois, a presença de outras doenças, seu frágil sistema de saúde e alto índice de pobreza em alguns países acabam por tornar a região um possível, quase inevitável, próximo epicentro do vírus no mundo.

Impacto na África

Terrorismo, conflitos armados, surtos de doenças como Ebola e Malária e extrema pobreza. Esses são alguns dos problemas enfrentados pela maioria das nações africanas nos dias atuais e que apesar de grande impacto na população, sua economia e turismo, não possuem, exceto em casos de benefícios próprios, atenção necessária das grandes potências mundiais ou da mídia internacional. Com o surto do novo coronavírus não seria diferente.

Atualmente, os países da região, cada um a seu modo, realizam medidas, adotadas com antecedência, de prevenção ao vírus, como isolamento social, toque de recolher e fechamento de fronteiras e, com isso, o continente conta com quase 430 mil casos confirmados e mais de 7.000 mortes, sendo a África do Sul o país com mais diagnósticos (OPAS, 2020). Apesar dos números relativamente baixos se comparados com o mais de 3 milhões de casos confirmados e 142 mil mortes nos Estados Unidos, atual epicentro do vírus, a sensação que pode ser sentida é de calmaria antes da tempestade.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que o continente possui grande chance de se tornar o próximo epicentro da COVID-19, podendo atingir mais de 10 milhões de casos nos próximos 3 a 6 meses. (O GLOBO, 2020) Um estudo feito pela organização diz que a doença poderá ser diagnosticada em 29 a 44 milhões de pessoas e causará a morte de 83 a 190 mil no primeiro ano de pandemia. Tal estudo foi baseado na gravidade da doença e seus riscos de transmissão, este último sendo observado de forma mais lenta devido a constante luta dos países da região contra doenças transmissíveis. Por outro lado, a lenta taxa de transmissão faz com que a doença se mantenha presente no continente por mais tempo (OMS, 2020). Além disso, a Comissão Econômica das Nações Unidas para África estima que 29 milhões de pessoas podem continuar na extrema pobreza (O GLOBO, 2020).

Tais panoramas evidenciam a fragilidade de uma das regiões mais ricas em recursos naturais do mundo. Apesar de haver possíveis vantagens contra o vírus, como medidas de prevenção terem sido adotadas com antecedência e a relativa juventude dos cidadãos da região, em contraste com o grande número de vítimas do vírus serem pessoas acima dos 65 anos, a grande preocupação está sendo o momento em que o vírus chegar na população mais pobre, se é que já não chegou. O diretor geral da OMS, o etíope Tedros Adhanom Ghebreyesus alerta que “a África deve se preparar para o pior”, pois os sistemas de saúde das nações africanas são extremamente precários, e estão longe de darem conta da onda de casos da nova doença que está por vir (O GLOBO, 2020).

Estados Frágeis

A falta do básico, como leitos, equipe especializada e demais equipamentos essenciais já é sentida a muito tempo, todavia, a pandemia de COVID-19 deu luz a mais uma outra grande deficiência: a ausência de respiradores, equipamento de extrema importância para pacientes em estado grave da doença. Os números são chocantes: a população de 5 milhões da República Centro-Africana conta com apenas 3 respiradores, em Burkina Faso são 11 para 19 milhões e 18 desse maquinário para 7,5 milhões de habitantes em Serra Leoa. Nesse mesmo nível ocorre a deficiência dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI), possuindo apenas 25 leitos para 17 milhões no Malauí, 55 para 43 milhões na Uganda e 15 leitos para quase 15 milhões de habitantes na Somália (BBC, 2020).

Contudo, mesmo com a grande preocupação e mobilização internacional para lidar com o novo vírus, a COVID-19 ainda não é prioridade em alguns países do continente africano. Isso ocorre devido à ainda presença do Ebola, Sarampo, Cólera e Malária que se prolongam em alguns países do continente e foram praticamente esquecidos pela mídia mundial.

Um destes países é a República Democrática do Congo (RDC) que, considerada um dos Estados em maior risco na África, estava a 48 horas de distância para dar fim, oficialmente, ao surto de Ebola, quando um jovem veio a falecer diagnosticado pelo vírus, que possui sua taxa de mortalidade 10 vezes maior que o novo coronavírus, precedendo então novos casos e adiando o fim da epidemia. Esta, que teve seu início em 2018, matou 2.266 pessoas e se tornou o segundo maior surto de Ebola na história (FOLHA DE SÃO PAULO, 2020). O mesmo país também enfrenta o Sarampo que, desde 2019, foram diagnosticadas 332 mil crianças e mais de 6.000 mortes, e a Cólera, que já tirou a vida de 540 congoleses (ONU NEWS, 2020).

Além disso, devido a grande mobilização para se prevenir do novo coronavírus, os países da África Subsaariana correm o risco de presenciar outro surto concomitante a pandemia. Com o desvio de atenção para a COVID-19, os esforços para se proteger de outras doenças vem diminuindo, é o caso da Malária que, após matar 360 mil pessoas em 2018, sendo 90% na África, pode fazer este número dobrar para 769 mil mortes, no pior cenário de diminuição da acessibilidade aos remédios recomendados (AL JAZEERA, 2020).

Entretanto, as doenças não são os únicos inimigos da população africana. A presença de grupos armados e continuação de guerras civis continuam ameaçando a segurança dos cidadãos de países como Líbia e Somália. Com o início da pandemia, um pedido de cessar-fogo imediato foi feito pela ONU com o objetivo de paralisar, temporariamente, os conflitos em curso ao redor do mundo. Muitos grupos optaram por abdicar de suas armas, todavia, na Líbia por exemplo, a guerra civil que ocorre a 9 anos prossegue matando milhares de cidadãos no país (RODRIGUES, 2020).

Assim como na Somália, onde o grupo jihadista Al-Shabaab controla regiões do sul e centro do país e são uma grande preocupação para o governo, uma vez que, com uma população de 2.6 milhões de desabrigados devido a instabilidade e 6.3 milhões passando fome, o grupo pode impedir que organizações humanitárias internacionais entrem no país (BBC, 2020).

Tais instabilidades, além de provocarem um alto número de imigrantes e refugiados internos fugindo da violência, o que aumenta a disseminação do vírus, estes também comprometem instalações médicas, o que impede o acesso ao sistema de saúde, que já é precário. Somado a isso, também há a escassez de água para a população mais pobre, como na Somália, onde cerca de 2.7 milhões de pessoas não têm acesso ao recurso ou saneamento básico, dificultando que as medidas mais simples de higiene básica para prevenção sejam realizadas (BBC, 2020).

Conclusão

A pandemia do novo coronavírus trouxe luz a questões emblemáticas: o impacto de uma doença viral em um mundo globalizado e como a desigualdade atua em um cenário de crise generalizada. Há quem diga que o COVID-19 fez com que todos os seres humanos estivessem, finalmente, “no mesmo barco”, assim, estando todos propícios a contrair o vírus, sem diferenças de classes e raças, sem privilégios.

A ausência de vacina faz com que tal afirmação não deixe de ser verdade, contudo, esta possui seus limites. É verdade que o vírus não respeita fronteiras e nem classes sociais, porém, a diferença pode ser percebida em sua prevenção, onde aqueles com melhores condições estão reclusos em suas casas, ao mesmo tempo em que outros são incapazes de aderir ao isolamento social, pois, além da necessidade de continuar saindo para trabalhar, estes também dividem cômodos pequenos com grande números de pessoas, e muitas vezes sem saneamento básico, o mínimo para se proteger.

Tal cenário pode ser percebido dentro de cada país impactado pelo vírus, contudo, pode ser observado com mais clareza a aplicação dessa realidade no âmbito internacional. Ao contrário dos continentes mais desenvolvidos, como Europa, a população da região africana, a qual boa parte já vivia de forma excludente e em situação de vulnerabilidade, sente o impacto de uma pandemia de forma mais acentuada ao resto do mundo e, junto a continuação da violência e prevalência de outras epidemias, tende a diminuir a esperança de dias melhores.

Referências

RODRIGUES, M. D. O. A efetividade do cessar-fogo global durante a crise sanitária: Em meio à pandemia do vírus Sars-Cov-2, a ONU solicitou a deposição das armas de todos os conflitos em curso.. Medium, Porto Alegre, v. 1, n. 1, p. 1, mai./2020. Disponível em: <https://medium.com/@marie_oliverr/a-efetividade-do-cessar-fogo-global-durante-a-crise-sanitária-e86b7693e8ff>. Acesso em: 16 mai. 2020.

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