A influência norte-americana na Barra da Tijuca e a questão do não-lugar

Ainfluêncianorte americananaBarradaTijucaeaquestãodonão lugar

A Barra da Tijuca é uma região localizada na zona oeste do Rio de Janeiro de ocupação relativamente recente em comparação à outras tradicionais áreas da cidade, como a zona sul e a zona norte. Foi inicialmente projetada pelo arquiteto e urbanista brasileiro Lúcio Costa. Apesar do plano original ter sido modificado, o pensamento de Costa ainda é evidente no bairro e nas regiões adjacentes, com a manutenção de avenidas e ruas largas. O crescimento da ocupação da região foi alto. Possuía cerca de 24 mil habitantes na década de 1980, passando para cerca de 136 mil na década de 1990. Tornou-se um bairro de classe média-alta e com um alto índice de desenvolvimento. Com o crescimento demográfico, surgiram os grandes condomínios e os grandes shoppings.

Village Mall, Downtown, Barra Square Shopping Center, Barra Garden Shopping e New York City Center (que tem uma réplica da estátua da Liberdade em tamanho reduzido, na entrada do estabelecimento). Todos esses shopping centers com nomes em inglês são localizados na região da Barra da Tijuca na cidade do Rio de Janeiro. A própria palavra shopping center, que é inglesa, se popularizou no Brasil e dá nome à um conjunto de lojas que estão em um local específico, de preferência fechado e com ar-condicionado. Esta palavra poderia ser facilmente substituída por “centro comercial”, entretanto, a versão inglesa dominou o vocabulário dos frequentadores desse tipo de estabelecimento, fato que por si só não deixa de representar uma influência estrangeira no vocabulário do brasileiro.

A Barra da Tijuca e outras regiões próximas não retratam apenas o fenômeno da estrangeirização do nosso vocabulário, mas também o impacto do modo de vida norte-americano na arquitetura e na urbanização brasileira. No final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos viviam o Baby Boom, com ele a expansão do American Way of Life e de um modelo urbano baseado na utilização do automóvel como principal meio de transporte. Nesse período, os estadunidenses migraram aos milhões para os subúrbios buscando uma melhor qualidade de vida ao morarem em um lugar semelhante à uma cidade pequena. As casas enormes em grandes áreas verdes substituíram os apartamentos nos densos centros urbanos, os norte-americanos que tinham condições financeiras, fugiam da violência e da agitação da downtown em direção à tranquilidade da vida nos subúrbios. Dessa forma, deixando a população mais pobre mais próximas desses centros.

Inicialmente, a produção desse modelo foi incentivada pelo próprio governo norte-americano que indicava a construção de residências para os veteranos da Segunda Guerra e traçava a meta de 2.700.000 casas para solucionar os “problemas urbanos” dos Estados Unidos, como uma espécie de recompensa aos serviços prestados à nação. O The Veterans Emergency Housing Problem, foi um programa iniciado pelo presidente Truman apontava os seguintes termos: estimular a construção de casas nas maiores extensões possíveis, sem interferência; dar aos veteranos a prioridade na compra das casas; controlar os preços dos materiais de construção; auxiliar no planejamento das casas; produção de casas pré-fabricadas, etc (RAMINGTON, 1947).

Receba as principais análises


Boletins de análises todas as semanas no seu e-mail com artigos, entrevistas, resenhas e conteúdo exclusivo. Inscreva-se.

Este modelo urbano foi estimulado pelo baixo preço do petróleo e foi um grande incentivador para o desenvolvimento da indústria automobilística e imobiliária. Com o distanciamento das residências em relação aos serviços comerciais e ao local de trabalho, o custo da construção de transporte público aumentou consideravelmente. Além disso, locomover-se a pé tornou-se quase impossível devido ao aumento das distâncias devido ao crescimento horizontal das zonas urbanas. Dessa forma, o norte-americano “optou” pelo automóvel como o principal meio de transporte. A popularização deste modo de vida aumentou a demanda pelas casas, a partir disso, as construtoras puderam abrir quilômetros e quilômetro de área verde para construírem as residências que os estadunidenses desejavam.

Além da indústria automobilística e da construção civil, o American Dream produziu uma cultura consumista, estimulada pela propaganda. A casa nova pedia móveis novos e eletrodomésticos de última geração. A partir disso, as empresas passaram a utilizar as cenas de uma família perfeita norte-americana tendo uma vida feliz no subúrbio, utilizando uma geladeira produzida pelas fábricas da companhia. O modelo urbano norte-americano após a Segunda Guerra Mundial, não só serviu para ditar como os estadunidenses viveriam, mas também como uma forma de estímulo à vários setores da economia do país.

No final da década de 1950 e meados da de 1960, os arquitetos e urbanistas brasileiros, influenciados pelo modelo norte-americano, iniciaram uma série de grandes projetos baseados no automóvel como principal meio de locomoção. A Barra da Tijuca foi um dos principais símbolos dessa caracterização urbana baseada na influência dos Estados Unidos nesses urbanistas. Além dos enormes shopping centers com nomes em inglês, a Barra adotou um planejamento urbano em que o carro é altamente necessário. É improvável que um morador da Barra consiga se locomover pela região sem um automóvel, comprar alguma comida a pé, ou ir aos centros comerciais sem precisar dirigir.

A influência do padrão cultural norte-americano é tão grande na região e não só serviu de base para a questão do transporte. A disposição de moradia na Barra tenta imitar a estrutura dos subúrbios norte-americanos. Entretanto, não segue o padrão de maneira exata. O modelo da Barra não acompanhou 100% a produção em massa de casas, apesar de morarem em condomínios horizontais, a maioria dos barrenses vive em apartamentos em grandes condomínios verticais. O preço das residências da Barra não é tão convidativo como era nos Estados Unidos pós Segunda Guerra, dessa forma, passaram longe da democratização das moradias encontrada no país da América do Norte, sendo um lugar para a classe média-alta emergente do Rio de Janeiro.

Os grandes condomínios fechados tentaram traduzir a sensação de paz e segurança dos subúrbios norte-americanos. Assim como os shopping centers da região, alguns tem seu nome inspirado na língua inglesa. Como o Barra Ocean, Golden Coast, Blue Sea e o Sunset Drive. Alguns tem o nome em espanhol ou português como o Santa Mônica, o Santa Helena e o San Diego, entretanto, os dois foram inspirados em nomes de cidades norte-americanas.

A Barra da Tijuca e suas particularidades, nas suas devidas proporções, parecem constituir o que Marc Augé (1992) chama de “não-lugar”. Este termo representa uma situação específica na qual o seu contexto apresenta uma dissociação em relação ao panorama cultural local. O morador de outra região do Rio de Janeiro, ao passar pela Barra, sente-se diferente de todo o resto da cidade. Não há outro lugar como a Barra na cidade.

Dessa forma, pode-se concluir que a região da Barra da Tijuca simboliza mais do que uma influência da arquitetura e do urbanismo norte-americano no Brasil. Esta região carioca é a representação do forte impacto da cultura dos Estados Unidos no modo de vida de uma parte do Rio de Janeiro. Desde os nomes dos shoppings, até a enorme quantidade dos mesmos, as grandes avenidas, os condomínios fechados, a vida através do automóvel, o boom imobiliário, a réplica da estátua da liberdade. Tudo isso afeta a forma com que o carioca da Barra conduz a sua vida social. Todos esses elementos são sinais de que a Barra da Tijuca é um “microreverberação” da experiência urbana norte-americana no pós-segunda Guerra e um reflexo da tendência homogeneizadora da globalização, através da liderança norte-americana sobre às identidades culturais.

Tagged:
About the Author

Doutorando em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Relações Internacionais pelo PPGRI da UERJ. Graduado em Relações Internacionais pelo Grupo IBMEC (2013). Foi professor estagiário à docência em História das Relações Internacionais II e de Estudos Estratégicos no curso de graduação em Relações Internacionais na UERJ. Atualmente é professor estagiário à docência de Guerra e Paz, disciplina obrigatória do curso de Relações Internacionais, na UERJ.Tem experiência na área de pesquisa em Relações Internacionais, atuando principalmente nos seguintes temas: cultura, segurança internacional, terrorismo e movimentos jihadistas. Foi pesquisador voluntário no Laboratório de Simulações e Cenários na Escola de Guerra Naval e no Observatório de Estudos Transnacionais da Academia Nacional de Estudos Transnacionais (ANET).

Deixe uma resposta