A Política Externa do Olavismo

Foto: Marcos Brandão/Senado Federal

A emergência de Jair Bolsonaro, bem como a trajetória política de seu governo, é um demonstrativo claro de certos elementos da conjuntura política internacional atual. A crise que perpassa a ordem liberal, confrontada por aspirações de um novo nacionalismo que ressurge com ares de conspiração, encontrou sua forma tupiniquim e ganhou representatividade encarnada através do movimento bolsonarista. Mas o atual presidente da república não é o único astro do movimento populista brasileiro, envolto neste contexto, o ambiente do debate público vem sendo influenciado por uma figura curiosa, mas gostando ou não, importante para entender o Brasil atual e boa parte da mentalidade que rege ações governistas.

Me refiro a Olavo de Carvalho, ex-astrólogo, autoproclamado filósofo e conhecido por ser o grande ideólogo do bolsonarismo. É fato que o olavismo não é a única facção que ronda a administração Bolsonaro nem que o levou ao poder, o bolsonarismo tem variadas facetas, algumas contraditórias, além do fato de que seu governo vem sendo remodelado constantemente devido a própria instabilidade institucional que é pavimentada pela sua política. Entretanto, não seria exagerado afirmar que as bases da agenda bolsonarista se alimentam predominantemente da mente de Olavo de Carvalho e seus discípulos. Portanto, entender a influência de seu pensamento político se torna importante para compreender não apenas o fenômeno Bolsonaro como uma manifestação doméstica, mas para compreender o próprio cenário internacional e a influência dessa nova onda no que tange aos impactos de uma política externa feita por Bolsonaro.

Antiglobalismo como Política de Estado

A figura de Ernesto Araújo é um grande exemplo do papel ideológico para o qual a política externa tem se direcionado. Olavista assumido, Ernesto coloca como prioridades o combate ao marxismo cultural e ao globalismo. Como afirma em seu blog Metapolítica, “quero ajudar o Brasil e o mundo a se libertarem da ideologia globalista.” Assim descreve, “Globalismo seria a globalização econômica que passou a ser pilotada pelo marxismo cultural”. Em suma, as teorias em torno do globalismo não são de exclusividade nacional, nem nasceram com Olavo de Carvalho e seus pupilos.

Importada de teóricos paleoconservadores norte-americanos, a tese do marxismo cultural surge na década de 1990 como uma forma de reação aos movimentos de transformação da sociedade americana no ambiente dos costumes. Tais transformações causadas por uma conjuntura histórica particular levou a uma tônica combativa que tirava dos conservadores americanos a atenção da já finada ameaça comunista, se focando, portanto, na emergência dos movimentos minoritários e de liberação sexual vinham ganhando espaço nos ambientes europeu e norte-americano desde a década de 1960.

Como bem expõe David Magalhães em ensaio intitulado “Quem tem medo do globalismo”, o principal proeminente da tese, William S. Lind, sistematizou sua construção narrativa em palestra denominada “Origens do Politicamente Correto”, proferida na American University, em Washington DC. no ano de 2000. Lind afirmava que após o fim da primeira guerra o socialismo soviético teria encontrado barreiras em seu objetivo de Internacionalização. Com isso, surgiram intelectuais, em especial Georg Lukács e Antonio Gramsci, que passaram a defender a tese de que a consciência de classe, tão importante para o despertar do movimento revolucionário e sua expansão, teria encontrado barreiras devido às bases culturais e ideológicas que sustentam o ocidente capitalista, em suma o cristianismo e seus valores costumeiros. A proposta do “novo marxismo” seria, portanto, empreender, nos termos de Gramsci, “uma longa marcha para as instituições”, aparelhando jornais, escolas, igrejas e as instituições culturais em busca de subverter os valores ocidentais e assim abrir espaço para a expansão revolucionária. Mais ainda, essa teoria teria encontrado eco na formação da escola de Frankfurt que formou a tão prestigiada teoria crítica e que, para Lind, seria o braço intelectual de propagação do marxismo cultural no mundo e principalmente na sociedade norte-americana, haja visto que, devido a perseguição nazista, boa parte dos integrantes da escola frankfurtiana se refugiaram nos EUA no contexto da segunda guerra.

A teoria conspiratória começa a ficar mais obscura quando se coloca na equação a noção de um projeto de dominação mundial orquestrado por uma elite internacional de grandes bilionários que teriam o suposto interesse de promover a queda do conceito de Estado Nação em busca de estabelecer uma governança mundial. O marxismo cultural seria, nada mais, do que um braço desse projeto de poder chamado por globalismo. O mesmo globalismo que Ernesto afirma alegadamente ter por objetivo denunciar e confrontar. Essa postura antiglobalista, tendo por base as teorias da conspiração já citadas, se apresenta hoje como um fenômeno internacional que pauta uma das principais contradições da ordem liberal vigente. A ascensão do próprio Bolsonaro se alinha de maneira explícita a emergência de movimentos políticos como o trumpismo, o Brexit, os movimentos nacionalistas na Polônia, na Hungria, Turquia e etc. Todos, sem exceção, carregam esse pilar de afirmação de um nacionalismo extremado e um distanciamento das agendas de Internacionalização e interdependência propostas pela ordem liberal globalizada. De tal maneira se vê forte confrontação aos organismos internacionais, como ONGS e Organizações Internacionais como a própria ONU, sem contar a constante oposição a conceitos como multiculturalismo e fronteiras abertas.

Populismo e Identitarismo

O fenômeno dos novos nacionalismos carrega em si o reflexo do que pode ser considerado um dos mais pertinentes problemas políticos do século XXI, isto é, a questão da identidade. A questão identitária vem ao longo das últimas décadas sendo um pilar de sustentação de uma série de questões envolvendo tanto a política doméstica quanto a política externa. Não surpreendentemente toda a problemática em torno do marxismo cultural e antiglobalismo se relaciona diretamente com essas pautas identitárias, haja visto que surgem como reação tanto às políticas de identidade que pautam os movimentos minoritários em ambiente doméstico, quanto ao cosmopolitismo liberal que busca suplantar barreiras ligadas à identidade em busca da criação de um ambiente universalizado. Tal como a esquerda encontra eco na questão identitária na busca de afirmar suas pautas sociais e minoritárias, a direita também capta a questão da identidade na tentativa de reafirmar os valores tradicionais e se opor aos movimentos universalistas que supostamente ameaçam a configuração da soberania clássica que cada vez mais se torna irrelevante.

É como analisa John Gray em ensaio escrito em 2002 sobre a ascensão da extrema-direita europeia: “o que eles têm em comum é que eles usam o deslocamento social produzido pelo livre mercado, o atual bastião da modernização, como combustível para uma nova política de identidade”. Voltando ao contexto brasileiro, a figura de Olavo de Carvalho ganha o protagonismo no que tange a tradução dessas ideias no cenário nacional. Basta consultar seu artigo “Do marxismo cultural” para O Globo, de junho de 2002, além de muitas de suas falas em vídeos, palestras e afins para que se veja presente toda essa mesma narrativa que hoje impera como política oficial de governo.

Não obstante, sendo Ernesto seu discípulo dedicado, além da importante participação de Felipe G. Martins como assessor internacional de Jair Bolsonaro e um dos principais proponentes do olavismo, o antiglobalismo se apresenta como a pauta principal da agenda da nova política externa brasileira. E mais ainda, se torna o único fator minimamente decifrável da mesma, haja visto que toda a proposta em termos de política internacional se traduz em uma bagunça ideológica, na qual não se apresenta de fato um projeto de relevância, como aponta o Diplomata Dr. Paulo Roberto de Almeida, em entrevista ao El País ao ser perguntado sobre como o mesmo analisa a política externa do governo atual: “Difícil fazer uma avaliação sobre o que não existe. Não dispomos, até o momento presente, de nenhuma exposição clara, completa, racional, sobre qual seria essa política externa, até aqui marcada apenas por slogans: luta contra o globalismo, contra o marxismo cultural, contra o multilateralismo, contra o climatismo, o comercialismo, coisas totalmente bizarras, com efeito”.

Considerações Finais

O resultado da agenda conspiracionista tem sido apresentado de forma expressiva na maneira como a imagem do Estado brasileiro passou a ser associada a pautas obscuras e completamente contrárias a nossa tradição diplomática. Os exemplos são variados: como o alinhamento com os países islâmicos em votações referentes a pautas sexuais em Genebra; a política externa de de oposição as instituições multilaterais; o alinhamento automático sustentado em vínculos ideológicos; e mais recentemente a concretização efetiva de uma política de negação e subversão ao sustentar a provável mais inconsistente e negligente administração da crise pandêmica.

Enquanto o olavismo estiver tomando as rédeas do direcionamento da política externa deste governo através da figura de Ernesto e derivados, as ambições políticas que visam interações exclusivamente de cunho ideológico e personalista, o anseio antiglobalista de rejeição a interdependência e confrontação aos organismos internacionais, bem como o isolamento do Estado brasileiro da comunidade internacional continuará ocorrendo. No longo prazo, as consequências se tornarão cada vez mais insustentáveis. Essa tensão, todavia, está no ethos da mentalidade olavista, como aponta João Cezar de Castro Rocha ao analisar como que a aposta na guerra cultural e ideológica como chave de sustentação do governo, acaba por colocar em xeque qualquer viabilidade governança e pragmatismo, o que afeta diretamente a estabilidade do tecido social, como a o papel do Estado brasileiro frente o cenário internacional.

Referências Bibliográficas

ARAÚJO, Ernesto. About.

DE ALMEIDA, Paulo Roberto. “É inaceitável para os militares essa subserviência aos Estados Unidos”.

DE CARVALHO, Olavo. Do marxismo cultural.

DE CASTRO ROCHA, João Cezar. Introdução a ‘Guerra Cultural Bolsonarista – A Retórica do Ódio’.

GRAY, John N. Heresies: against progress and other illusions. UK: Granta UK, 2004.

MAGALHÃES, David. Quem tem medo do Globalismo.

Sobre o Autor

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade Cândido Mendes, com interesses de pesquisa voltados para a teoria política internacional, ética internacional e segurança internacional. Ensaísta, tendo publicado esporadicamente em portais como Revista Amálgama, Neoiluminismo, dentre outros. Membro pesquisador do Núcleo de Filosofia Política do Laboratório de Política, Comportamento e Mídia da Fundação São Paulo (Labô), com ênfase de pesquisa na obra de Michael Oakeshott.

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