Explosões em Beirute

An aerial view shows the massive damage done to Beirut’s port AFP / Getty Images

Em 4 de agosto deste ano, o mundo foi surpreendido por uma explosão de grande proporção no Porto de Beirute, capital do Líbano. Contudo, mesmo meses após o ocorrido, ainda há dúvidas do que tenha gerado a explosão e quem seriam os culpados.

Esta análise visa apontar a escala de destruição da explosão, comparando-a com explosões convencionais e até mesmo nucleares; abordar possíveis causas da explosão e como a comunidade internacional respondeu a este ocorrido. Também apontaremos a reverberação interna para a política e economia libanesa.

Escala de Destruição e Prováveis Causas:

 De acordo com a Global News, logo após as explosões foi verificado que mais de 130 pessoas haviam morrido e mais de 5 mil haviam ficado feridas. Ainda não há confirmação precisa do que causou a primeira detonação, de pequena escala, que possivelmente levou à ignição da segunda explosão, mais especificamente, do nitrato de amônio – substância química, altamente inflamável, que é utilizada como fertilizante e para a criação de explosivos. Em um dos depósitos do Porto de Beirute haviam mais de 2,75 mil toneladas deste composto químico (DANGERFILED, 2020).

Ao se buscar a origem desta substância, foi descoberto que em 2013 um navio russo, porém com a bandeira da Moldávia, realizou uma parada técnica no porto de Beirute após apresentar problemas enquanto transcorria com a carga de nitrato de amônio da Geórgia para Moçambique. O responsável da embarcação, o russo Igor Grechushkin, não pagou as taxas portuárias, ocasionando a apreensão do navio e de sua carga. O navio posteriormente foi liberado, contudo, a carga de nitrato de amônio continuou no porto.

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Até este exato momento não se sabe o que gerou o primeira explosão. As hipóteses variam de sabotagem a negligência, em que esta última ganha mais força, já que a compilação de vários problemas podem ter gerado a primeira e poderiam explicar a escala de destruição da segunda. O Hezbollah, por exemplo, chegou a insinuar que Israel poderia estar por trás da explosão do porto de Beirute. Da sua parte, o governo israelita se eximiu de qualquer acusação neste sentido.

Para Boaz Hayoun, responsável pela empresa Tamar Group, a qual é especializada em explosivos, ao analisar filmagens de momentos antes do segundo estouro, verificou faíscas e luzes as quais podem indicar que fogos de artifício podem ter acarretado o primeiro disparo. A explicação mais plausível é que a primeira detonação ocasionou a segunda ao expor o nitrato de amônio ao intenso calor. Outros fatores podem ter contribuído para que a explosão chegasse ao nível destrutivo alcançado, que, segundo Hans Kristensen, são: a existência de combustível estocado perto do nitrato de amônio e a falta de cuidados técnicos (DANGERFILED, 2020).

Aparentemente a teoria de Hayoun parece estar correta. O jornal The Guardian descobriu, através de entrevista com ex-funcionários do porto, que haviam mais de 30 pacotes de fogos de artifício no mesmo depósito em que estavam estocados os mais de 2,7 toneladas de nitrato de amônio. Posteriormente, também foram descobertas filmagens que confirmam que fogos de artifício realmente foram colocados no mesmo depósito onde estava o nitrato de amônio.

Apesar do veredito final não ter saído, uma série de fatores e de culpados podem ser apontados para explicar o porquê da explosão:

  1. A manutenção de 2,75 toneladas no porto em condições insalubres; autoridades do Canadá já haviam informado o risco no nitrato de amônio para o governo libanês, que nada fez para contornar a situação. Logo, não era novidade para o governo do Líbano as condições nas quais esta substância química estava estocada. Autoridades libanesas – o diretor geral da alfândega e o gerente do porto, respectivamente, Badri Daher e Hassan Koraytem – também tinham alertado sobre os perigos desta substância química;
  2. A falta de gerência do porto, respectivamente dos seus funcionários, de manter este material inflamável fora das condições ideais de proteção e por não ter impedido que fogos de artificio fossem estocados próximos ao nitrato de amônio. Até agora, mais de 20 pessoas relacionadas com a explosão foram presas e as autoridades libanesas já pediram a prisão do dono do navio e do capitão desta embarcação o russo Boris Prokochev.

Não é a primeira vez que o nitrato de amônio é responsável por uma grande explosão. Episódios semelhantes já ocorreram no passado, como, por exemplo: Em 1947, nos EUA, o contato de um cigarro com 2,3 toneladas desta substância química levou à explosão que ocasionou uma série de efeitos colaterais. Nesta situação, por volta de 500 pessoas perderam suas vidas. Na China, em 2015, a explosão do nitrato de amônio em um depósito teria ocasionado a morte de mais de 110 pessoas (DANGERFILED, 2020).

A explosão em Beirute foi tão forte que chegou a ser ouvida do Chipre, país que está a 240 km de distância do Líbano. Dezenas de prédios ao redor do porto sofreram diferentes escalas de destruição devido à segunda detonação, além disso, deixou uma cratera com 45 metros de profundidade, e ainda foi registrado um abalo sísmico de 3,3 na escala Richter. Fontes apontam que o poder destrutivo da explosão tenha sido de 0,24 kilotons ou até 1 a 2 kilotons, sendo possível compará-la ao rendimentos das armas nucleares, pois, kilotons é a medida do poder de destruição das armas nucleares; cada kiloton representa o poder destrutivo de uma tonelada de TNT explodindo de forma conjunta.

Quando a segunda explosão ocorreu, vimos o surgimento de um cogumelo – semelhante com o que acontece em explosões de armas nucleares – com coloração vermelha e alaranjada. Estas cores se deram devido à composição química do nitrato de amônia. Caso fosse uma explosão nuclear, por exemplo, veríamos somente a coloração branca no cogumelo nuclear (DANGERFILED, 2020).

Porém, apesar do poder destrutivo ser semelhante, Kingston Reif, pesquisador da Arms Control Association afirma que se fosse uma arma nuclear, os efeitos seriam muito piores: deve ser levado em conta também a radiação nuclear e o pulso elétricomagnético que as armas nucleares causam ao serem disparadas.

A arma convencional, em outras palavras, não nuclear, mais poderosa do arsenal nuclear dos EUA é a GBU-43/B, conhecida como a “mãe de todas as bombas”. O poder destrutivo dela é de “apenas” 0,11 kilotons. Enquanto isso, as armas nucleares de menor rendimento no arsenal norte-americano são as bombas gravitacionais B61 nas suas modificações -3, -4 e -10, em que o rendimento mínimo é de 0,3 kilotons, ou seja, a explosão de Beirute, de certa maneira, pode ser comparada com o poder de destruição destas armas nucleares táticas – também conhecidas como armas nucleares subestratégicas e armas nucleares não-estratégicas –, quando estas são empregadas com suas respectivas menor opção de rendimento (KRISTENSEN, 2006).

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Figura 1. A explosão de Beirute danificou estruturas até mesmo há 10 km de distância

Explosivos químicos já foram utilizados pelos EUA para simular o emprego de armas nucleares sub-estratégicas. Em 1985, os Estados Unidos detonaram quase cinco toneladas de explosivos de forma conjunta, com rendimento de cerca de 4 kilotons, com este fim. Em 1989, visando o mesmo propósito, os EUA fizeram uma simulação com explosivos em que o rendimento foi cerca de 5 kilotons (KRISTENSEN, 2006).

Consequências Internas e Externas

Internamente, a explosão no Porto de Beirute teve consequências sérias para o então regime político do país. No primeiro fim de semana após a explosão, o então primeiro ministro do país, Hassan Diab, renunciou ao cargo. O governo de Diab já estava sofrendo pressão popular devido a vários escândalos de corrupção e também por problemas administrativos. A explosão ocasionada pelo nitrato de amônio levou ao ápice da insatisfação popular, que cominou em uma série de protestos populares contra o governo libanês. Mais de 10 mil protestantes se juntaram para criticar a atual conjuntura do país, havendo choque entre parte deste e a polícia libanesa em que mais de 100 pessoas saíram feridas (AS, 2020).

Externamente, após a explosão, vários países ofereceram ajuda ao Líbano, seja para atenuar o sofrimento e danos materiais e humanos ou seja para investigar as causas da explosão. O Líbano recebeu, em doações, só no mês de agosto cerca de 300 milhões de dólares advindos de outros Estados e doações individuais pela internet. Neste mesmo mês, o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que o seu país levaria a Beirute três aviões carregados com material hospitalar. A França, por sua vez, na figura do seu presidente, Emmanuel Macron, orquestrou uma série de doações ao Líbano, assim como o líder britânico, Boris Johnson, também alegou que o Reino Unido prestaria ajuda aos libaneses. Também neste interim, o Fundo Monetário Internacional (FMI) demonstrou disposição para auxiliar a reconstrução econômica do Líbano, alegando que redobrará seus esforços de auxílio a este país posteriormente a explosão no porto de Beirute. Porém, o FMI reportou que é fundamental que Beirute oriente suas ações econômicas seguindo o que é pregado por esta organização internacional intergovernamental (AS, 2020).

Vale lembrar, mais uma vez, que o Líbano, antes mesmo deste ocorrido, estava afundado em uma crise econômica severa, com 50% da população na faixa da pobreza, taxa essa que expandiu com a pandemia do coronavírus e da explosão do porto na sua capital, sendo este de extrema importância para a entrada e a saída de produtos do país. Com a destruição do porto, acredita-se que por volta de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do Líbano será comprometido (AS, 2020). Silos, uma espécie de depósito, que guardavam em torno de 85% dos grãos do país também foram perdidos com a segunda detonação. Desta forma, o prejuízo estimado com a explosão é de 15 bilhões de dólares.

O Brasil também participou de missões de auxílio ao Líbano neste episódio. O ex-presidente da república, de ascendência libanesa, Michael Temer, liderou uma missão humanitária brasileira ao Líbano. Nesta foram enviados seis toneladas de alimentos e medicamentos, através de aviões, e mais quatro toneladas de arroz foram enviados através da via marítima. Além do mais, Brasília também enviou para Beirute especialistas brasileiros para auxiliar na descontaminação de produtos químicos, os quais foram lançados nesta cidade após a explosão.  

A explosão afetou cidadãos de diversos outros países. De acordo com a Síria, 45 sírios foram mortos neste episódio. A França também teve cidadãos seus mortos neste incidente. Em novembro deste ano especialistas franceses foram enviados para tentar determinar as causas, sobretudo, da primeira explosão. Contudo, a causa desta ainda foi dada como inconclusiva, ou seja, apesar da negligência apontada no porto, não se pode concluir se sabotagem acarretou ou não a primeira detonação.

Considerações Finais

Apesar das acusações de sabotagem e a incerteza de quem ou o que teria gerado a explosão no nitrato de amônio no porto de Beirute, tudo indica que o culpado é a negligência de uma série de órgãos e pessoas, estas desde os funcionários do porto até o governo libanês que já havia sido alertado sobre o riscos que esta substância química poderia trazer. Como apresentado acima, o Líbano se encontra em uma severa crise econômica a qual será ainda mais acentuada devido a destruição do porto.

Não basta simplesmente apontar culpados e prendê-los, é necessário que o país aprenda com os seus erros, de negligência, e evite que condições como está se repitam. Isto também serve de aviso para outros países do Sistema Internacional, sobretudo sobre o manuseio e estocagem de produtos que podem ter grande capacidade de destruição.

Referências bibliográficas

AS. Beirut explosion: protests, riots and news – Sunday 9 August. 2020. Disponível em: <https://en.as.com/en/2020/08/09/latest_news/1596961510_293990.html>. Acesso em: 27/11/2020.

KRISTENSEN, Hans. Divine Stranke: Global Strike Low-Yeld Nuclear Simulation. 2006. Disponível em: <https://www.nukestrat.com/us/stratcom/gs-divinestrake.htm>. Acesso em: 27/11/2020.

Sobre o Autor

Analista de Relações Internacionais. Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Relações Internacionais pelo Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA). Pesquisador associado ao Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE).

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