O marco zero do genocídio em Ruanda – 7 de abril de 1994

Refugiados tutsi no acampamento de Kibumba, em Goma, no antigo Zaire (atual República Democrática do Congo) | Fonte: Sebastião Salgado
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Há 27 anos, o avião que transportava o presidente ruandês Juvénal Habyarimana foi derrubado, sendo o estopim para um dos marcos históricos mais sangrentos da história recente do continente africano: o Genocídio em Ruanda que, em cerca de 100 dias de conflito, deixou um saldo de 800 mil mortos e mais de 21 mil deslocados e refugiados.

As divisões internas do Estado ruandês

O Genocídio em Ruanda, ocorrido entre 7 de abril e 15 de julho de 1994, foi um dos marcos mais sangrentos da história recente do continente africano, no qual houve um massacre de cerca de 800 mil pessoas. O acontecimento foi o ponto nevrálgico de um conflito que se iniciou anos antes: a Guerra Civil em Ruanda. Esta guerra teve início em outubro de 1990 quando rebeldes da Frente Nacional Patriótica de Ruanda (FPR) abriram fogo contra tropas do governo de Juvénal Habyarimana, a partir de campos de refugiados situados na fronteira com Uganda.

As principais motivações para os ataques foram as acusações de discriminação contra o povo de etnia tutsi, por parte do presidente Habyarimana e seus apoiadores, de etnia hutu. As disputas entre os tutsis e hutus tomaram conta do Estado de Ruanda, por conta da segregação evidenciada em muitas esferas da sociedade ruandesa, transbordando rapidamente para o nível do conflito armado, tendo a violência sido orquestrada tanto pelo Estado, a partir das Forças Armadas de Ruanda (FAR), quanto pelos milicianos Interahamwe – extremistas de etnia hutu –, e civis fortemente estimulados pela propaganda “anti-tutsi”.

O extremismo da luta hutu se espalhou por diversas regiões de Ruanda, tomadas como cercos onde apenas hutus poderiam circular. Com o fortalecimento das milícias, mais zonas das cidades foram sendo atacadas e controladas por esta etnia. A perseguição que começou com as populações de etnia tutsi, seu inimigo direto, radicalizou-se a tal nível que acabou por executar também centenas de membros da etnia twa e até mesmo hutus moderados que não declararam apoio às forças milicianas.

A influência colonialista nas tensões entre Tutsis e Hutus

O início dessa rivalidade remete ao Reino de Ruanda, no século XVIII, quando o pequeno país, situado na região centro-oriental do continente africano, foi formado unindo, sob o mesmo território, povos de diferentes etnias, culturas e religiões. A maioria da população nativa do país era formada por tutsis e hutus, e para além destes, havia também a minoria étnica dos twa. Apesar de algumas divergências iniciais, os tutsis e hutus compartilhavam uma série de similaridades, em termos de tradições culturais e linguísticas (fazendo uso do idioma kinyarwanda), e conseguiam manter uma convivência equilibrada.

A rivalidade entre essas duas etnias teve seu início marcado pela escolha dos tutsis para cargos de alto escalão na administração do reino. Posteriormente, durante a colonização, a população tutsi também foi privilegiada pelos alemães e belgas – por conta de seu fenótipo de pele mais clara e traços mais afinados, considerados pelos europeus como “menos negros” –, sendo escolhidos para exercer cargos administrativos dentro das estruturas da colônia, desfrutando de inúmeros privilégios, e formando assim uma elite econômica que criou diferentes níveis de segregação ao longo do país, enquanto os hutus foram completamente renegados. Assim, criaram-se divisões mais tangíveis entre o povo ruandês. Os documentos emitidos nesta época eram carimbados de acordo com a etnia dos indivíduos, e tal marca significava o direito ou a proibição da circulação em determinadas áreas do país. 

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Documento de cidadã ruandesa, indicando sua etnia tutsi | Fonte: Genocide Archive of Rwanda

O povo hutu, guiado pelo sentimento de rejeição, iniciou movimentos de oposição aos tutsis, expandindo de forma extremamente veloz o cenário de hostilidade entre as duas maiorias étnicas do país. Posteriormente, com o processo de descolonização, os hutus foram a maioria na formação do movimento de independência de Ruanda, dando início à Revolução Ruandesa de 1959, que resultou na independência do país (que se deu no ano de 1962), bem como, em sua transição para um governo republicano, conduzido na figura de Grégoire Kayibanda.

Já nesta época foram registrados os primeiros ataques e perseguições violentas aos tutsis, levando a grandes ondas de deslocamento para países fronteiriços como Uganda e Zaire (atual República Democrática do Congo). O ápice da intensificação dos ataques e do acirramento de tensões veio em 1973, quando um golpe de Estado depôs Kayibanda, levando ao poder o líder hutu Juvénal Habyarimana, que organizou seu governo na forma de uma ditadura militar – com forte apoio de potências extrarregionais como França e Bélgica – e, já em seus primeiros anos de governo, perpetuou as discriminações ao povo tutsi e deu início a muitos esquemas de corrupção.

A ascensão do conflito armado e do genocídio

As tensões entre tutsis e hutus eram bastante presentes na vida da população ruandesa, todavia, a segregação entre cargos e postos ocupados por cada etnia nas esferas da sociedade não impedia que convivessem de forma harmoniosa em todas as regiões do país. No entanto, com a ascensão de Juvénal Habyarimana ao poder, sob o discurso do “Poder hutu”, disseminado pelos extremistas hutus do grupo Akazu – liderado por Agathe Habyarimana, esposa do presidente –, o cenário se modificou, ocasionando instabilidades entre ambos os grupos, que passaram a se encarar com muito mais hostilidade. Os discursos de ódio contra o povo tutsi eram disseminados pelo Akazu por meio do jornal governamental Kangura e, a partir de 1993, passaram a ser transmitidos também pelo canal televisivo Radio Télévison Libre des Milles Collines (RTLM).

O presidente Habyarimana era de etnia hutu e, ao chegar ao poder, passou a fortalecer políticas de discriminação às populações tutsi, consideradas, até então, como a elite política e econômica do país. Tais medidas, junto aos escândalos de corrupção em que o presidente se envolveu, geraram ondas de protestos e pequenos pontos de conflito em diversas regiões do país, colocando em risco a atmosfera de harmonia entre as diferentes etnias, que vinha se construindo sobre a linha tênue da superação dos legados do colonialismo. Diante da crise e das perseguições sofridas, os grupos de deslocados tutsis – que haviam fugido para regiões fronteiriças – passaram a organizar a Frente Patriótica de Ruanda (FPR), guerrilha que tinha como objetivo retomar o poder ruandês e, assim, viabilizar o retorno dos deslocados que estavam vivendo em campos de refugiados. 

Com o aumento das hostilidades e da pressão da FPR, foi proposto pelos tutsis um cessar-fogo entre as partes, ao final do ano de 1993, onde se reivindicava, além da deposição das armas, a garantia de retorno dos exilados, a organização de uma corrida eleitoral democrática, e a criação de um exército único, composto tanto por forças tutsis como por forças hutus, de modo a levar a cabo as segregações impostas. Após inúmeras negociações, o então presidente Juvénal Habyarimana aceitou a assinatura do cessar-fogo, causando enorme descontentamento entre os grupos extremistas calcados no discurso do Poder Hutu, como o Akazu, que fizeram acusações de traição ao seu governo, por conta da pacificação com os tutsis.

Com o acirramento das tensões, emergiram inúmeras milícias populares ligadas aos Interahamwe, que passaram a ameaçar a população ruandesa que declarava apoio à Habyarimana com facas, armas de fogo, bombas, e todos os tipos de armamentos disponíveis. O marco zero do início do genocídio foi, então, o assassinato de Habyarimana, que ocorreu com a derrubada do avião que o trazia de volta de uma viagem para a Tanzânia, onde se encontrava também o presidente de Burundi, Cyprien Ntaryamira. A autoria do ataque até hoje não foi esclarecida. A ausência de reivindicação dos ataques serviu como pretexto para que os membros do Poder Hutu acusassem os tutsis pela orquestração da morte do presidente, fomentando a eclosão do conflito.

A partir disso, o conflitou se escalou de forma aterradora, com a ascensão das forças dos Interahamwe, munidos de armamentos enviados em carregamentos pela França, que passaram a, além de disseminar discurso de ódio, pressionar a população hutu a se armar e perseguir tanto os tutsis quanto os próprios hutus que apoiavam Habyarimana. Os 100 dias que se seguiram foram marcados pelo terror, com as milícias hutus fechando todas as fronteiras do país, e exigindo apresentação de documentação (que registrava a etnia) de qualquer pessoa em circulação pelas ruas.

Aqueles que não fossem hutus, e/ou não declarassem apoio ao Poder Hutu, eram mortos. Muitos bairros, vilas e aldeias também foram atacados e devastados, sendo todos os seus habitantes assassinados por tropas hutus que, lideradas pelos membros do partido MRND, tinham posse de armas e listas com a localização dos tutsis, sob a ordem de matá-los todos. Ao longo deste período, não houve qualquer tipo de mobilização internacional para impedir tais acontecimentos.

O genocídio só teve fim quando Paul Kagame, presidente sucessor de Juvenal Habyarimana, liderou a rebelião tutsi, orquestrada por meio da Frente Patriótica Ruandesa (RPF). Apesar de seu importante papel na condução do fim do conflito civil, Kagame é bastante polêmico em algumas alas da sociedade ruandesa, bem como, no meio internacional, que o acusa de não respeitar a liberdade de expressão e silenciar movimentos de oposição, mantendo-se no poder nestes últimos 27 anos. Entretanto, é consenso entre os ruandeses que os resultados atingidos na recuperação do Estado ruandês, após a Guerra Civil e o Genocídio, só foram efetivos por conta da forte atuação de Paul Kagame.

O saldo do conflito foi de 800 mil mortes em apenas três meses de conflito, e cerca de 21 mil deslocados, vivendo em campos de refugiados em países fronteiriços como Uganda – que vinha também se recuperando de uma guerra civil –, e República Democrática do Congo – que ainda por um longo tempo enfrentou conflitos por conta da influência dos hutus na política congolesa. Todas as dinâmicas ocorridas ao longo deste curto, porém extremamente impetuoso, conflito podem ser observadas no filme Hotel Ruanda, produzido por Terry George, no ano de 2004. 

A recuperação do país veio tanto pelos esforços de Kagame à frente da presidência de Ruanda, como pelo auxílio internacional direcionado ao país por conta da grande comoção gerada pelo genocídio. Além disso, a participação da população nesta transição e recuperação também foi de extrema importância, uma vez que foi por meio do civis que foram legitimadas as proibições a quaisquer referências às origens étnicas em espaços públicos, e criados tribunais populares, como ferramentas de apuração e julgamento dos crimes cometidos ao longo do conflito civil. Todavia, ainda há muitas cicatrizes, principalmente naqueles que nunca encontraram os corpos de seus familiares mortos durante o genocídio.

A negligência da ONU e a recuperação de Ruanda no pós-genocídio

A rivalidade entre as etnias não é algo natural, mas sim algo implantado pelo colonialismo, onde mais uma vez potências ocidentais interferiram de forma arbitrária no destino de um Estado africano, sem respeito às estruturas previamente existentes, assim como ocorrera com todos os demais países na Conferência de Berlim. O crescimento das disputas entre tutsis e hutus tem raízes no preconceito e na segregação racial, princípios fortemente defendidos pelos europeus, e que se encontram presentes na história da maioria dos Estados africanos, deixando marcas que persistem até os dias atuais. 

Todavia, o crescimento das disputas entre etnias que enfrentaram as mesmas mazelas – em termos de subjugação às potências europeias –, mostra a criação e aceitação de um discurso que sugere que os inimigos estavam ao lado, quando na verdade, o único e real inimigo estava do outro lado do Mar Mediterrâneo, refletido na influência das potências colonizadoras. É isso que o autor Mahmood Mamdani evidencia em seu livro “When Victims become Killers: Colonialism, Nativism and the Genocide in Rwanda”, publicado no ano de 2002. O autor reflete acerca do processo que fez com que as vítimas da colonização se transformassem, em tão pouco tempo, em algozes, capazes de massacres tão violentos quanto aqueles orquestrados durante o processo imperialista de expansão territorial europeia.

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Memorial em Kigali exibe fotos de vítimas do genocídio | Fonte: Kigali Genocide Memorial/Flickr

Outro ponto de grande reflexão trazido pela memória do genocídio em Ruanda é a negligência das Nações Unidas no conflito. A própria ONU assume seu fracasso na gestão do conflito e na proteção das vítimas do genocídio, diante de sua atuação extremamente lenta e repleta de burocracias, em uma situação que exigia soluções e negociações rápidas, pois incontáveis vidas estavam sendo perdidas diariamente. Conforme aponta o dossiê construído pela BBC no ano de 2014:

ONU e Bélgica tinham forças de segurança em Ruanda, mas não foi dado à missão da ONU um mandato para parar a matança. Um ano depois que soldados norte-americanos foram mortos na Somália, os Estados Unidos estavam determinados a não se envolver em outro conflito africano. Os belgas e a maioria da força de paz da ONU se retiraram depois que 10 soldados belgas foram mortos. Os franceses, que eram aliados do governo hutu, enviaram militares para criar uma zona supostamente segura, mas foram acusados de não fazer o suficiente para parar a chacina nessa área. O atual governo de Ruanda acusa a França de “ligações diretas” com o massacre – uma acusação negada por Paris.

O ex-Secretário Geral da ONU, o sul-coreano Ban Ki-moon declarou – em uma cerimônia realizada em Kigali, no ano de 2014, em memória dos 20 anos do genocídio –, que “muitos membros da ONU mostraram uma coragem extraordinária, mas poderíamos ter feito muito mais. Deveríamos ter feito muito mais”. O acontecimento ainda marca muito a instituição – que passou a reorganizar suas tropas de operação de paz, para que possam agir com mais autonomia e agilidade em situações de extrema fragilidade e violência –, e levanta muitas reflexões acerca do papel da ONU enquanto instituição supranacional, e os diferentes tipos de tratamentos conferidos aos Estados do norte e do sul global.

Apesar de tudo, Ruanda é hoje um dos Estados africanos que mais cresce economicamente, e é considerado como um excelente modelo de desenvolvimento. Isso se dá por conta de sua rápida reconstrução, muito influenciada pelo auxílio da comunidade internacional – que, diante da inação das instituições internacionais, se sentiu em dívida para com o Estado de Ruanda.

Todavia, seu crescimento perene vem também fortemente baseado no modelo asiático que tem se espalhado por todos os Estados africanos que, aos poucos, rompem as amarras que os ligam aos Estados europeus (herança do colonialismo), e, conforme aponta Parag Khanna, no capítulo 08 de sua obra “The Future is Asian”, se voltam muito mais ao seu alinhamento natural com o eixo asiático, construindo múltiplas parcerias com Estados como China, Índia, Coreia do Sul, Malásia, Vietnã, e Cingapura, e contrariando o imaginário retrógrado e equivocado de Estados pobres e falidos que ainda, infelizmente, é disseminado – em grande parte, pelo Ocidente – sobre os países africanos.

Considerações finais

Ruanda é um Estado hoje visto no sistema internacional como um grande modelo de recuperação veloz e eficiente, tendo saído de um cenário de total devastação, com grandes perdas em sua população, e falências múltiplas em todas as suas estruturas – seja no âmbito político, econômico, social, diplomático ou securitário. Seu boom econômico nas últimas décadas, assim como suas políticas sociais de amparo à população e de igualdade de gênero, fizeram com que fosse colocado na lista de Estados-modelo no continente africano. Entretanto, mesmo diante de uma conjuntura tão positiva de crescimento contínuo, ainda assim o genocídio de 1994 continua a deixar sombras pelo país, principalmente para aqueles que sobreviveram, e/ou perderam suas famílias, amigos e outros entes queridos nos massacres.

Deste modo, recai tanto sobre os ruandeses, como sobre toda a comunidade internacional, a responsabilidade histórica de trazer à tona esta memória tão dolorosa, mas tão importante, para que se reflita acerca das raízes dos conflitos, dos legados do colonialismo, dos discursos aos quais aderimos – e o quanto estes nos influenciam a marginalizar o outro que nos é desconhecido ou desigual –, e principalmente, para que se entenda a necessidade de atuarmos fortemente para que acontecimentos tão atrozes jamais tornem a se repetir.

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Sobre o Autor

Professora de Geopolítica e Segurança Internacional da Escola Superior de Relações Internacionais. Editora e colunista da Revista Relações Exteriores. Mestra em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEEI-UFRGS). Bacharela em Relações Internacionais pelo Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter Laureate International Universities). Pesquisadora associada ao Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), ao Núcleo de Estudos Estratégicos, Geopolítica de Integração Regional (NEEGI-UNILA), e ao Laboratório de Estudos em Defesa e Segurança (LEDS-UniRitter). Contato: [email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/2313622364568146. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4282-410X.

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