O futebol e o separatismo escocês: a rivalidade dentro e fora de campo

No início de 2015, após cerca de 3 anos sem disputar uma partida, os dois maiores clubes da Escócia, Celtic Football Club e Rangers Football Club, voltaram a se encontrar na semifinal da Copa da Liga da Escócia diante de milhares de pessoas no Hampden Park. A falência do Rangers impediu que o ‘Old Firm’, nome pelo qual é chamado o clássico escocês, ocorresse, o clube foi punido com o rebaixamento para a 4ª divisão do Campeonato Escocês devido ao pedido de concordata e refundação do clube. As duas equipes reeditaram um dos maiores clássicos do futebol mundial, uma rivalidade que ultrapassa a barreira das quatro linhas sendo uma representação das diferentes percepções de identificação que ocorrem na sociedade escocesa e as discussões em torno da autonomia política em relação ao Reino Unido.

SOCIEDADE, RELIGIÃO E FUTEBOL

O Celtic FC foi fundado em 1887 pelo irmão Marista Walfrid Kerins na cidade de Glasgow com o intuito de combater a pobreza no leste da região, que era povoado, em sua maioria, por imigrantes irlandeses católicos. Os indivíduos que compõem estes grupos eram naquela época considerados cidadãos inferiores e marginalizados devido a condição de estrangeiro em relação aos protestantes de origem anglo-saxônica. As cores do Celtic, os símbolos e até o próprio nome foram criados almejando uma rememoração da origem celta dos seus fundadores. Na realidade, o objetivo principal dos seus fundadores era a diferenciação em comparação aos protestantes, a partir do reforço à uma identidade compartilhada com os irlandeses católicos contrários a união da Irlanda com o Reino Unido.

A Irlanda obteve sua independência do Reino Unido no início do século XX, porém, a Escócia continuava integrada às outras nações do Reino. Nesse contexto, o Celtic FC construiu sua identidade angariando torcedores das populações católicas da região, tornando-se um símbolo no decorrer dos anos de escoceses de origem irlandesa. Além disso, a representatividade do Celtic se tornou tão relevante que o clube conseguiu conquistar adeptos até mesmo na Irlanda e na Irlanda do Norte. As torcidas organizadas mais radicais do Celtic costumavam a entoar cânticos sobre o IRA, grupo irlandês terrorista.

Eurásia

Já o seu rival, o Rangers FC, foi fundado 10 anos também em Glasgow. O clube tem apoiado tradicionalmente as comunidades unionistas da Escócia. Seus torcedores tem o costume de tremular bandeiras do Reino Unido e de seguirem a religião anglicana, além de utilizarem a Rainha Elizabeth II como um símbolo da torcida. Da mesma forma que os escoceses católicos, os escoceses protestantes possuem conexões com os unionistas da Irlanda do Norte. Os torcedores do Rangers acreditam que a união da Escócia ao Reino Unido é o que mantém a identidade do clube e suas tradições britânicas (Bisset, 2014).

A origem do embate remonta os tempos da Reforma Protestante. A Inglaterra, outrora católica, quebrava relações com a Igreja de Roma e fundava sua própria religião baseada na liderança do Rei. Henrique VIII criava o anglicanismo com o objetivo de garantir a autonomia do país em relação à Igreja. A partir do estabelecimento da nova religião oficial, foram realizadas iniciativas de reforma pelo resto da região. Entretanto, a Irlanda manteve-se católica deteriorando as relações com a Inglaterra devido a proibição dos ingleses em relação ao idioma gaélico e a supressão à cultura gaélica de uma forma geral.

Dessa forma, para alguns grupos sociais, ser católico no Reino Unido significaria ser contra o Reino protestante e também possivelmente ser a favor da separação em relação ao reino. Este entrave ganhou maior relevância ao decorrer da revolução industrial, da alfabetização das massas e da emergência dos movimentos nacionalistas. E é nesse panorama que surge o futebol e a sua influência simbólica.

O esporte sempre foi um fator para o fortalecimento do ideal nacionalista (Capraro, 2002). O esporte tornou-se um espetáculo de massas a partir do avanço da industrialização da Europa, e também uma forma de expressão da nacionalidade e da identidade (Ranger, 1997). As comunidades imaginadas por milhões de indivíduos são representadas em 11 jogadores e os próprios torcedores são caracterizados como símbolos de um grupo ou de identidade nacional (Hobsbawn, 1991).

milagre econômico

Sendo assim, ficam claras os caráteres criados em relação aos dois clubes e as identificações os quais são representantes. Enquanto o Celtic FC é apontado como um símbolo da separação da Escócia. O Rangers FC é caracterizado como um representante dos que defendem a continuidade dos escoceses no Reino Unido.

SEPARATISMO ESCOCÊS

Em setembro de 2014, os escoceses votaram um plebiscito sobre a separação ou não da Escócia em relação ao Reino Unido. Os que votaram contra a independência somaram 55,3% dos votos e os que escolherem a separação somaram 44,7%. Entretanto, o número que mais impressiona é o da participação dos aptos ao voto, 84,59% dos eleitores registrados compareceram às urnas. A maior soma de comparecimento desde o estabelecimento do direito ao voto feminino em 1928. Estas estatísticas de participação refletem uma polarização das demandas sociais e uma intensificação dos desejos de independência acompanhados com o igual recrudescimento da resistência em torno da manutenção da Escócia como pertencente à uma identidade multicultural maior, a identidade britânica.

Durante a campanha do plebiscito, não houve o clássico. Como dito anteriormente, o rebaixamento do Rangers impediu a realização do “Old Firm” até que os rivais pudessem se encontrar na semifinal da Copa da Liga Escocesa. Entretanto, as torcidas de ambos os clubes se manifestaram de acordo com os seus interesses na votação em jogos contra outros adversários. Deve ser informado com clareza que os movimentos pró ou contra a independência não devem ser generalizados, existem parcelas da torcida que destoam das posições mais óbvias.

Os grupos de adeptos mais radicais que costumam a se organizar em torcidas conhecidas como Ultras, são os principais porta-vozes do ‘sim’ e do ‘não’. No Ibrox Stadium, arena onde o Rangers manda suas partidas, foi palco de diversas manifestações contrárias a separação da Escócia e pró Reino Unido. Dentre as mais curiosas foram as diversas bandeiras parabenizando o nascimento do mais novo membro da família real britânica, filho do príncipe William que nascera na época da realização do plebiscito.

Já o Celtic Park, estádio do clube rival, tem vivido um clima político intenso desde 2013 com os rumores sobre o plebiscito. Os torcedores do clube hasteavam faixas com a mensagem:  “O terrorista ou o sonhador. O selvagem ou o bravo? Depende do voto de quem você está tentando conseguir ou a cara de quem você está tentando salvar”. Este texto estava entre duas bandeiras gigantes de William Wallace, herói escocês, e Bobby Sands, antigo líder do IRA que morrera em uma greve de fome em 1981. A Uefa (União das Federações Europeias de Futebol) chegou a abrir procedimento disciplinar para punir o clube por causa das bandeiras expostas no estádio. O Celtic é reincidente, em 2011 também foi punido graças aos seus torcedores radicais que entoavam cânticos políticos ofensivos. O comportamento nos dois casos foi repudiado pela diretoria do clube, que se manteve imparcial diante os fatos.

A partir de todos os assuntos até aqui mencionados, conclui-se que o futebol é uma importante via de manifestação política. Um tema como a separação da Escócia ganhou destaque no noticiário esportivo devido a identificação dos torcedores dos clubes pelos lados em disputa no plebiscito. Como mostrado anteriormente, o esporte é um ambiente propício para a manifestação do sentimento nacionalista ou identitário. Graças à popularidade do futebol no país, as discussões em torno do separatismo ganharam força no esporte. Cerca de 3,7% da população escocesa frequenta estádios no país, a maior taxa em países com 5 milhões de habitantes. Além disso, 50% da parcela desse público é frequentador de jogos do Rangers e do Celtic, fato que comprova a importância do ‘Old Firm’ para a sociedade escocesa e como um bem cultural de importância política.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

RANGER, T. A invenção das tradições. São Paulo: Paz e Terra, 1997.

CAPRARO, André Mendes. O futebol, nacionalismo e tradição. Observações a partir de alguns escritos marxistas. Revista Digital. Ano 8, nº 47. Buenos Aires, 2002.

HOBSBAWM, Eric. Nações e Nacionalismo desde 1780; tradução de Maria Célia Paoli e Anna Maria Quirino. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991.

BBC. Escócia rejeita em plebiscito separação do Reino Unido. Disponível em: <http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2014/09/140912_escocia_plebiscito_hb>. Acesso em: 25 de Abril de 2015.

CELTIC FC. Brief History. Disponível em: <http://www.celticfc.net/pages/history> Acesso em: 25 de Abril de 2015.

McCALL, Chris. Will Glasgow’s Old Firm Rivalry Sway the Independence Referendum? Disponível em: <http://www.vice.com/en_uk/read/will-glasgows-old-firm-rivalry-sway-the-independence-referendum-920> Acesso em: 25 de Abril de 2015.

RUTHVEN, Graham. Soccer Fans Supply Strong Voice in Scottish Independence Debate. Disponível em: <http://www.nytimes.com/2014/09/12/sports/soccer/Celtic-rangers-soccer-fans-supply-strong-voice-in-scottish-independence-debate.html?_r=0> Acesso em: 25 de Abril de 2015.

STEIN, Stein. Uma coisa une as torcidas de Celtic e Rangers: a independência da Escócia. Disponível em: <http://trivela.uol.com.br/celtic-e-rangers-dividem-estadios-entre-sim-e-nao-mas-se-unem-pela-escocia-independente/> Acesso em: 25 de Abril de 2015.

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Sobre o Autor

Doutorando em Relações Internacionais pelo Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais (PPGRI) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Mestre em Relações Internacionais pelo PPGRI da UERJ. Graduado em Relações Internacionais pelo Grupo IBMEC (2013). Foi professor estagiário à docência em História das Relações Internacionais II e de Estudos Estratégicos no curso de graduação em Relações Internacionais na UERJ. Atualmente é professor estagiário à docência de Guerra e Paz, disciplina obrigatória do curso de Relações Internacionais, na UERJ.Tem experiência na área de pesquisa em Relações Internacionais, atuando principalmente nos seguintes temas: cultura, segurança internacional, terrorismo e movimentos jihadistas. Foi pesquisador voluntário no Laboratório de Simulações e Cenários na Escola de Guerra Naval e no Observatório de Estudos Transnacionais da Academia Nacional de Estudos Transnacionais (ANET).

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