Segurança Internacional: Competitividade e o comércio externo Brasileiro

Re: Claussia, atualmente você é Doutoranda em Agronegócios pela UFRGS. Poderia nos contar um pouco sobre o seu tema de estudo atualmente no programa de pós graduação.?

Cláussia:  Estou no 3º ano do Doutorado em Agronegócios da UFRGS do Centro de Pesquisa em Agronegócio (CEPAN). Faço parte do CEPAN da UFRGS e também do Grupo de pesquisa em estratégia, internacionalização e Inovação (GPEI) na Faculdade de administração, sob orientação das professoras Dra Aurora Zen e Dra Daniela Callegaro.e meu orientador, Professor  Dr. Homero Dewes.

Quando eu entrei no doutorado a minha ideia era fazer algo relacionado à Organização Mundial do Comércio (OMC). Contudo, durante a realização das minhas disciplinas acabei mudando a temática. Então, ao longo da minha caminhada, iniciei com a OMC, fui mudando para a parte de Comércio Exterior, algo mais operacional, me veio a ideia de trabalhar algo com OEA, mas não a Organização dos Estados Americanos, que estamos acostumados e sim com o Operador Econômico Autorizado. Como é um projeto de Comércio Exterior brasileiro muito recente eu teria dificuldade em obter dados. Posteriormente, eu participei do grupo de pesquisas da professora Dra Kelly Bruch e ela trabalha muito no setor de vinicultura. E aí me veio a paixão, ou melhor, dizendo, o nascimento da Paixão do Vinho. Eu já tinha feito uma pesquisa de internacionalização na especialização que eu fiz na Unisinos e decidi voltar a trabalhar no setor vitivinícola.  

Nesse sentido, eu comecei a me interessar também sobre a questão de certificação. Existem muitos artigos internacionais que estão tratando do tema, que está em ascensão, além das novas tecnologias, auto certificadoras, além de muitos artigos na área.  Mas, devido ao fato da dificuldade de se obter dados sobre as questões de certificação, atualmente estou estudando o consumo do setor vitivinícola. A questão de entender melhor o consumidor e qual é a ênfase que esse consumidor dá na tomada de decisão frente a alimentos e bebidas.

O Agronegócio é um setor desbravador, você tem muitos assuntos para discutir e é isso que eu adoro muito no agro. Por mais que eu esteja estudando vinhos, pois eu tive que me especializar nesse setor. Então, eu faço cursos de degustação, cursos de harmonização, tentando entender mais do vinho e me entender também como consumidora. Quando você vai falar de vinhos, você está falando de um setor Premium. Além disso, discutir a questão do Mercosul, da União Europeia e os novos passos que o Brasil está seguindo. Assim, esse setor está com grande impacto. Muitas vinícolas estão trabalhando nisso. O espumante brasileiro tem muito potencial no mercado exterior. O suco de uva é outro produto com potencial muito grande no setor, que poderá impulsionar as exportações brasileiras. Suco de uva e o mercado externo. O nosso suco de uva é encorpado, produto com alto valor agregado. Diferente dos sucos americanos e europeus. Possuímos um alto valor agregado. Exemplo da Aurora, onde 40 % da produção de suco de uva deles é exportado, sendo-se que do total da produção de sues produtos, 60% é o suco de uva e não de vinho. Dessa forma, todo esse meu estudo vem trazendo novos ares, novos conhecimentos. Um projeto de estudo que me leva para outros caminhos. A cachaça brasileira também possui um potencial muito grande no mercado exterior. Ela é outro produto Premium, e pode ser melhor estudada. Cachaça é algo nosso. Você não encontra cachaça no exterior, somente outros tipos de destilados. É DNA brasileiro. Outro exemplo é a Soja, o milho. Mas nós não estamos conseguindo agregar valor a esses produtos. E o que está sendo muito discutido é a necessidade de agregarmos valor nos nossos produtos. Mais um exemplo é o açaí. Nós vendemos a fruta do açaí para posteriormente comprá-lo, processado. Assim, precisamos agregar valor nos produtos. Industrializar nossos produtos. E para isso precisamos inovar. Uma grande barreira são as empresas familiares, que muitas vezes não possuem interesse em inovar. Às vezes querem reduzir custos, mas não querem mudar o processo de produção, que vem de anos e até mesmo gerações. Na UFRGS há grupos de estudos para tentar mudar a mentalidade dos produtores. Para analisar a cadeia, como ela funciona, questão dos contratos, etc. Toda essa questão dos Blockchains. Então o agro aborda muitos assuntos, discussões não só relacionadas ao seu ponto de estudo, mas relacionada a outros itens que você pode acabar conectando a outros estudos.

RE: De acordo com o documento DESAFIOS À COMPETITIVIADE DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS (2018), da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o principal entrave do processo de exportação brasileiro por ordem de criticidade é: Custos de transporte doméstico (da empresa até o ponto de saída do país).  Como você acha que essas questões poderiam ser resolvidas?

Cláussia:  Eu sempre coloco Comércio Exterior como uma caixinha de surpresas. E muitas empresas acabam querendo ir com a onda. Você não pode, por exemplo, entrar num site desses chineses e fazer uma compra e simplesmente trazer uma mercadoria. Por exemplo, um livro, ou qualquer outro item. Será que realmente aqueles valores mencionados são reais? Eu vou ser multada com relação ao que eu trouxer? Na exportação existem muitas questões. É necessária uma análise estratégica. Eu tenho um exemplo que eu sempre trago para as minhas aulas que é o seguinte: eu trabalhava numa importadora, e eu tinha um cliente que tinha uma mercadoria que precisava ser coletada na China e ser despachada, no mesmo dia, em 2 horas. Certo. Ele estava me ligando às 16h e queria que a mercadoria fosse despachada às 18h, às pressas. Sem contar as diversas questões da mercadoria, o processo, o fuso-horário. Só que a pessoa precisava despachar essa mercadoria e queria que eu fizesse milagre. Contudo, no COMEX não existe milagre. É preciso entender que Comércio Exterior existe no país nacional e no país estrangeiro. Nós temos os nossos regulamentos aduaneiros e os regulamentos aduaneiros do exterior. Eu preciso entender do meu regulamento, além do regulamento do país que eu estou negociando. Assim, existem diversas questões que precisam ser analisadas, questão de embalagem, rótulo, padrão de encomenda, palavras. Por exemplo, a palavra Reserva é proibida na China. Ou seja, teve uma vinícola no Brasil que teve um problema com isso, inviabilizando a exportação. E a mercadoria já tinha sido embarcada. Assim, não é algo simples, é muito complexo. É muito importante conhecer bem as normas. Normas de padronização do mercado exterior, custos envolvidos nessas transações, etc. É preciso entender quais as obrigações do exportador e importador. Isso antes de dar o preço, para ver se essa responsabilidade de entrega será interessante para as partes. E isso falta nas nossas empresas. Entender se eu tenho condições de arcar com responsabilidades de logística ou se tenho que contratar uma empresa terceirizada para fazer esse estudo. Então, o Comércio Exterior não é apenas um estudo sobre se o produto é aceito no país, e sim os custos envolvidos internamente e agregar ao custo final. E analisar se existe competitividade. Tudo isso é um estudo. E o COMEX tem que estar preparado para as várias diversidades que podem ocorrer. Por exemplo, o aeroporto pode fechar (questão de nevasca), podem ocorrer greves, crises políticas, etc. Assim, as questões financeiras e jurídicas precisam ter respaldos. O custo logístico hoje está em torno de 30 a 40% do valor do produto. E é um custo muito alto, onde nós perdemos a nossa competitividade. Você então precisa de profissionais que entendam de COMEX, é necessário fazer cursos de extensão. O comércio está sempre mudando, os sistemas, as regras e os documentos. Então, é muito importante que o profissional esteja muito preparado e que também existam formas que ajudem a reduzir esses custos de competitividade.

RE: Os principais produtos exportados do Brasil são:  1. Soja; 2. Petróleo; 3. Minério de ferro; 4. Carne de frango; 5. Farelo de soja; 6. Carne bovina; 7.           Grão de café; 8. Aviões; 9. Milho; e 10.     Automóveis.

Destes, 6 são provenientes da agropecuária, e 80% produtos primários. Você acredita que um dia poderemos mudar de país exportador de produtos primários para produtos com valores agregados?

Clasussia: Eu acho muito difícil. Para você agregar valor a um produto, você precisa se permitir. Você precisa de pesquisas e inovação em produtos. E essas pesquisas vêm das universidades, das pesquisas de mestrado e doutorado. Assim, frente à situação que estamos vivendo hoje é muito difícil. Falta um incentivo financeiro e intelectual. As próprias pessoas que estavam pensando em trabalhar com pesquisas em mestrado e doutorado vem mudando de ideia com essa falta de incentivo. E voltando ao setor privado frente à redução de fomento por parte de pesquisas. As empresas também estão pouco interessadas em abrir as portas e receber pesquisadores para coletar dados. Eu possuo dificuldade no setor vitivinícola. Já tive muitas portas fechadas. Quem abre as portas é porque já foi pesquisador ou tem alguém na família como pesquisador, assim eles entendem o valor da pesquisa. Tem um professor que eu faço pesquisa junto e ele costuma fazer muitas idas a campo, e de acordo com ele, 70% dos maquinários que ele observa nas empresas são utilizados de forma errada, ou as empresas, por exemplo, não possuem análise de estoque, não sabem os materiais que possuem, não fazem análises de processo. Isso acaba aumentando os custos. Muitas vezes os erros, são também por conta da empresa. Assim, muitas questões básicas não são realizadas. Existem muitas ferramentas básicas que não são utilizadas, a exemplo do Excel. E isso em vários setores, não apenas no agro. Falta treinamento nas empresas. E treinamentos básicos. Não estou falando de operacionais. Cursos de Excel, gerenciamento, inglês para conseguir ler um manual. Então, falta muito conhecimento. Ou seja, se não tivermos os valores de conhecimento e melhoria de gestão, não teremos inovação.  E assim, não conseguiremos agregar valor aos nossos produtos.

RE: Você acredita que um programa de governo para a cultura do empreendedorismo poderia melhorar essa situação ou sugere outra questão?

Claussia: Existem programas de empreendedorismo por parte do Governo. O Sebrae é um exemplo disso. Contudo, as empresas estão fechadas à inovação. Elas estão fechadas para receber ajuda. Estou falando assim, empresas familiares, que possuem uma direção mais antiga, são empresas mais fechadas, ao contrário de empresas lideradas por jovens. É difícil essas empresas participarem de programas de empreendedorismo ou inovação. Então, tem que partir essa vontade das empresas e do Governo de também fazer a sua parte. Mas as empresas precisam mudar essa cultura também. É necessário um incentivo tanto por parte das empresas, da gestão das empresas, como por parte do governo, que apesar de existir alguns programas, incentivar de forma mais firme para incentivar os gestores das empresas.

RE: Com relação à agregação de valor dos produtos agrícolas brasileiros, que tipos de produtos que poderiam iniciar esse processo de transição? E se você tem algum exemplo prático para compartilhar.

Claussia: O suco de uva é considerado um produto Premium. Outro produto que estamos vendo um crescimento, aqui no Rio Grande do Sul, é o azeite de oliva. Ele tem um grande potencial: a qualidade do azeite. É possível competir com azeites bons, como da Argentina, Espanha ou EUA. O nosso azeite de oliva Premium, extravirgem, está competitivo e no valor também. Assim temos grandes chances de aumentar a competitividade do setor com os produtos brasileiros. Porém, nossa maior dificuldade é fortalecer a marca, pois é muito recente, ao contrário da cachaça que já é reconhecidamente do Brasil. Os espumantes também estão crescendo. Contudo, o azeite de oliva é muito recente, assim como o suco de uva. O azeite de oliva para saúde, o suco de uva relacionado à saúde. Outro produto é o próprio açaí. As pessoas sabem que ele é brasileiro, contudo, vendemos o produto in natura. Assim uma possibilidade de as empresas agregarem valor e elevarem a competitividade. Dessa forma, eu acredito que esses produtos possuem um grande potencial.

RE: Recentemente você participou do “VI Simpósio da Ciência do Agronegócio, 2018” apresentando o trabalho ” Exportações de produtos agrícolas brasileiros: Uma análise estatística do comportamento no valor das exportações no período de 1997-2017.” Quais foram as principais conclusões deste estudo?

Claussia: Esse estudo fez parte de uma disciplina de Agronegócios. E conseguimos apresentar neste simpósio, com mais outros colegas. Assim, tentamos analisar os cinco principais produtos no agro que realmente tivessem uma análise temporal nos últimos 10 anos, e fizemos uma seleção desses produtos. Nós fizemos uma redução e segmentação desses produtos. Evidenciamos que existe um crescimento desses produtos que foram exportados. Alguns produtos possuem uma média de distância entre as exportações mensais. Assim, muitas vezes temos um disparo dependendo do produto, como o café, pois ele é sazonal. Já por exemplo, se não me engano, o suco de laranja, também é um produto sazonal. Os ovos já são um produto que não possui grande sazonalidade, dessa forma, você consegue fazer uma exportação mais integra. Então quando você for fazer uma exportação de produto agro é preciso analisar se ele é sazonal ou não. De toda forma, o nosso nível de exportação, de acordo com os dados, têm aumentado. Principalmente os produtos agros. Conseguimos manter esse nível de exportação dos últimos anos, mas poderia estar melhor. Pois nosso valor FOB ainda é baixo. Podemos ter uma grande quantidade de mercadoria importada, porém, nosso valor de exportação de lucratividade é pequeno, pois são produtos in natura, com valor agregado baixo.

RE: Você acredita que a produção agrícola de produtos orgânicos tem um potencial promissor no Brasil para a pauta de exportação?

Claussia: Sim, pois está dentro dos produtos Premium. Nós temos essa questão da certificação orgânica, só que no agro ainda têm muitas discussões. A gente tem no nosso próprio grupo de estudos sobre o que um consumidor entende como orgânico. E você sabia que para ser orgânico precisa ter uma agricultura familiar? É um dos pré-requisitos para ser considerado orgânico. Pois nós temos produtos: natural, orgânico e biodinâmico. O que faz parte disso? As vezes é um pouco difícil de entender. Assim comecei a fazer essa análise na questão dos vinhos. Inclusive até descobri sobre um vinho selvagem, que é um vinho que não tem um uso de agrotóxicos, por exemplo, mas não é considerado orgânico, porém é um vinho que não possui nenhuma alteração, ele é cultivado no seu ambiente natural, como na selva. E é um vinho muito interessante, muito bom. Mas não possui as diretrizes de fato da certificação orgânica, mesma questão do natural. Assim são pequenas diretrizes que fazem alteração do natural, do produto biodinâmico. Mas o orgânico em si com a redução do uso do agrotóxico, de ter uma sustentabilidade maior referente à produção, todo um cuidado, e é necessária uma análise. Por isso o orgânico é caro. Pois existe todo um cuidado no manejo daquele produto. Desde a parte da plantação, da colheita, do manuseio daquele produto. Tudo é diferenciado. Um exemplo é a maçã. No mercado convencional ao lado de casa, a média do quilo é de R$2,50 e duas maçãs orgânicas, no mesmo mercado custam R$18,00. Assim, é um preço um pouco elevado. No mercado interno o orgânico é para quem tem o poder aquisitivo alto. É preciso também entender por que estamos pagando um valor tão alto. São os benefícios.  É preciso ver onde estão os valores agregados, qual o benefício que terei referente a isso. Então, produto orgânico tem mercado sim, esse mercado vai crescer ainda mais, pois o consumidor está entendendo o que é um produto Premium e que vale a pena investir um pouquinho mais por algo mais saudável. A classe A e B enxergam isso, mas também possuem poder aquisitivo para tal. Mas a classe C e D não estão vendo essa necessidade, ainda porque é muito caro para eles.

RE: Faz pouco tempo que você participou do ‘’Wine South America’’, realizado no final de Setembro deste ano, em Bento Gonçalves. O que você observou como oportunidade para a competitividade brasileira neste setor? Alguma outra questão que achou interessante?

Claussia: É a segunda vez que participei do Wine South América. É uma feira de vinhos onde ocorre muitas negociações com vinícolas brasileiras e estrangeiras e seus compradores. E você tem a possibilidade de degustações nos estandes das vinícolas.  Eu consegui degustar vinhos maravilhosos com valores baixos que são estupendos e vinhos muito caros que são maravilhosos. Ou seja, existem vinhos para todos os gostos. E você vivencia a cultura do vinho, que agrega os procedimentos necessários para degustar o melhor do vinho. Além disso, existem vinhos que foram feitos para todo o tipo de acompanhamento. Como os vinhos que foram feitos para acompanhar churrasco, exemplo da cultura gaúcha. Produtos específicos para uma harmonização X. Outra questão é que existe todo um processo para sentir o sabor e as propriedades de um vinho.  Outra questão interessante, recentemente foi veiculada uma propaganda de uma marca de cerveja que mexeu com o pessoal do vinho. No qual tinha um sommelier que fez todo o ritual de degustação do vinho, um pouco demorado. E uma pessoa abre uma cerveja, simplesmente e toma a cerveja, pois seria mais fácil.  E o setor do vinho está querendo desmistificar essa cultura do vinho. De trazê-lo para o dia-a-dia, para que você possa realmente tomar um vinho a qualquer momento. Assim o Wine South América traz negociação e faz você conhecer outras vinícolas que são pequenas e toda essa questão de desmistificar a cultura do vinho. Algo muito interessante.

RE: O que você avalia que poderiam ser boas políticas comerciais e de Estado para o desenvolvimento da pauta de exportação agro brasileira?

Claussia: Primeiro, melhoria das estradas. A nossa Infraestrutura logística é péssima. Precisa ter um desenvolvimento. O nosso modal mais utilizado é o modal rodoviário, terrestre. Então, se você analisar os outros modais de outros países, você pode ver que eles utilizam muito bem o ferroviário, por exemplo. Teria que ter um incentivo público, mas privado também, para que essas malhas se desenvolvessem no Brasil e eu acho bem difícil de isso acontecer. Pois nós já temos um modal rodoviário bem estruturado no Brasil, temos um monopólio desse modal. E a criação de novos modais tiraria competitividade do pessoal das rodovias. Mas acredito ser muito difícil de isso acontecer, além que a extensão desse projeto teria que ser gigantesca pela extensão do nosso território. Alguns portos estão se desenvolvendo no Brasil, porém outros ainda são muito precários. Ainda, a questão da Receita Federal precisa melhorar, para que os processos sejam feitos com menos morosidade. O Brasil é considerado um país muito burocrático, porém, é um país considerado dos mais organizados frente a processos de importação e exportação. Temos uma plataforma muito eficiente de sistema de processos de comércio exterior. O Siscoserv, Sistema Integrado de Comércio Exterior de Serviços. E um dos processos que eu evidenciei, foi a falta de auxílio público na gestão desse sistema. Inclusive muitas pessoas que trabalham em empresas de Comércio Exterior não conhecem esses processos, tampouco o Siscoserv. Em uma pesquisa que fiz recentemente, entrevistando pessoas que trabalham com COMEX, de 30 pessoas entrevistadas, apenas 5 conheciam o Siscoserv. Além disso, temos um regulamento aduaneiro de 2009, completamente defasado. E precisamos de um novo regulamento para o novo plano de exportação. São vários projetos que o Governo deveria tocar para que tivéssemos uma maior produtividade. E essas empresas não possuem entendimento sobre esses sistemas. É preciso ter manuais para que todas as pessoas entendam. Utilizar algo mais prático, mais flexível para pessoas que não possuem muito estudo. E que possam entender e realmente operacionalizar o Comércio Exterior no âmbito empresarial. Saiu agora os Incoterms 2020, que são os nomes utilizados no Comércio Exterior, mas houve um pronunciamento muito vago do Governo, inclusive o que se pode ou não se pode aplicar. O agricultor que faz o vinho x não sabe disso, e não vai fazer um curso, pois não tem esse entendimento, não tem esse respaldo. Ele teria que contratar uma empresa, mas o custo é alto. E acaba que ele não consegue ser competitivo. Então se tivesse um setor, um órgão do governo que auxiliasse aqueles que não querem participar de feiras e que precisam de uma orientação mais rápida, a um custo mais baixo, conseguiríamos uma melhor competitividade no agro.

RE: Como você avalia a saída do Brasil do tratamento diferenciado de “país em desenvolvimento” na Organização Mundial do Comércio? Para uma possível entrada na OCDE.

Claussia: Eu acho que quando existe uma saída do Brasil frente a uma organização ou algum bloco, temos as perdas de alguns benefícios. Quais os benefícios que o Brasil tinha? Alguns acordos diferenciados, algumas análises de litígio frente a outros países por causa da denominação ‘’em desenvolvimento’’. Tínhamos algumas regalias nesse sentido. A OMC trabalha diretamente com Acordos e Tratados com diversos países. Agora uma questão bem prática. Para negociar entre empresas ou vender para outros países, nós não precisamos estar na OMC. O comércio é livre. Assim, a saída do Brasil, creio que não vai afetar na nossa negociação diretamente frente à empresa-empresa. Porém, a participação de missões internacionais ou feiras internacionais pode prejudicar frente a outro país. Alguma dificuldade de parcerias, de alguns acordos de cooperação empresarial que possa vir a ter. Isso podemos perder. 

RE: Como você enxerga o profissional de RI no campo de atuação do agronegócio?

Claussia: O profissional de RI pode trabalhar com várias vertentes. Com negociação entre países e empresas de outros países. E esse profissional sabendo analisar a cultura desses países, observando um país que tenha uma continuidade para que esse produto possa ser inserido, já seria um grande perfil. Para trabalhar com agro, tem que entender do agro. Pelo menos algum setor. Pois é muito difícil você ter uma vivência em todos esses setores. Cada um tem uma peculiaridade. Assim, escolha um setor, logo, comece a estudar o setor e o produto. Entender muito bem. A cadeia do produto, a fabricação do produto, os processos e os detalhes. Tudo que faz parte da cadeia produtiva: quais são os processos, quais são os entraves, quais são as melhorias necessárias do setor. Assim, tem que entender do produto, mas tem que entender de legislação, da logística. Então fazer cursos de estoque, cadeia de suprimentos, logística internacional, Incoterms, movimento aduaneiro etc. Isso tudo isso é necessário para entender se você quer trabalhar com mercado externo, não apenas das questões agro. E para o profissional de RI existe essa demanda.

RE: Alguma outra colocação?

Claussia: A gente conversou bastante de Agro. No Brasil, o foco é a agregação de valor. Para quem quer trabalhar nesse setor tem que entender que o agro é complexo, é vasto, mas ao mesmo tempo é apaixonante, pois você descobre muitas coisas. Ele sempre está se diversificando. Tem mercado de trabalho, mas você tem que gostar de trabalhar com essas questões mais naturais. De ir à campo. Pra roça, pra entender como tudo funciona. Pois é necessário entender o que você vai vender. E nada como conhecer bem o cluster, a cadeia produtiva. Você vai observar as questões fundamentais do negócio e como melhorar os processos. E por fim, melhorar a nossa infraestrutura logística.

RE: O que pra você é Relações Internacionais em poucas palavras?

Claussia: Um professor meu disse algo que eu nunca esqueci: “Nas Relações Internacionais não existem amizades, apenas interesses”. Nunca me esqueci dessa frase. E eu acho que é isso. Você tem parceiros, mas ao mesmo tempo não tem. Você tem que ter o melhor, ser competitivo. Está lidando com mercado externo e com culturas diferentes. E com culturas diferentes você dificilmente terá amizades e sim interesses. Então, acho que pra mim essa é a melhor definição de RI.

Tema: Segurança Internacional: Competitividade e o comércio externo Brasileiro
Data: 23/10/2019
Entrevistada: Claussia Neumann da Cunha, Internacionalista, Professora, Doutoranda em Agronegócios pela UFRGS
Repórter / editor: Eduardo Beskow
Jornalista responsável: Irany Assis

Sobre o Autor

Doutoranda em Agronegócios (UFRGS), Mestre em Desenvolvimento Regional (UNISC), Especialista em Direito Internacional (UFRGS), Especialista em Negócios Internacionais (Unisinos), Bacharel em Relações Internacionais (Unilasalle). Professora Adjunta nos cursos de Logística, Engenharia de produção, Administração e Comércio Exterior- Ftec. Possui 15 anos de experiência em logística e comércio exterior. Pesquisadora nos temas de certificação, qualidade, vinho, siscoserv, incoterms e OEA.

1 comment

  1. Muito interessante e esclarecedor o artigo! Aprendi algumas coisas sobre o agro brasileiro. Temos que trabalhar em prol da desburocratização das regulamentações aduaneiras do Comércio Exterior e do desenvolvimento dos outros modais de transporte.

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