O artigo analisa a influência das redes sociais na política internacional a partir de um estudo comparativo entre a Primavera Árabe (Tunísia, Egito e Líbia) e os protestos da Geração Z (Nepal e seus desdobramentos). Fundamentado na Teoria do Agendamento e em revisão bibliográfica, o estudo adota um tripé analítico composto por atores, motivações e instrumentos. Observa-se que, na Primavera Árabe, regimes ditatoriais utilizaram a censura e a repressão como meios de manutenção da estabilidade, enquanto as juventudes, impulsionadas por crises econômicas e desigualdades, recorreram às ruas como instrumentos de mobilização e às redes como amplificação das demandas populares. Nos protestos da Geração Z, o cenário se inverteu: o digital tornou-se o ponto de partida da indignação política, e as ruas passaram a ser sua consequência. A repressão física, característica das ditaduras da década de 2010, deu lugar a estratégias tecno-políticas de controle informacional, marcadas por vigilância, desinformação e manipulação algorítmica. Conclui-se que as redes sociais transformaram-se em um novo território de disputa política global, capazes de tanto sustentar regimes quanto promover a resistência. A ampliação do alcance das mobilizações demonstra o potencial das plataformas digitais para articular solidariedades transnacionais e moldar dinâmicas de poder no século XXI.
Sumário
Introdução
Na era da informação, os veículos tradicionais de mídia têm gradualmente perdido seu protagonismo na difusão de notícias e na construção de agendas políticas, sendo este espaço progressivamente ocupado pelas redes sociais. Quando a juventude nepalesa tomou as ruas, em setembro de 2025, para protestar contra as medidas autoritárias de seu governo, os manifestantes recorreram ao TikTok, e não aos jornais, para disseminar suas inquietações globalmente — inspirando, inclusive, mobilizações semelhantes em outros países. Similarmente, durante a Primavera Árabe, plataformas como o Facebook e o Twitter foram amplamente utilizadas para articular protestos, pressionar os governos em prol de mudanças estruturais e externalizar ideais regionalmente censurados. É possível perceber, assim, o papel crescente das mídias sociais na amplificação de demandas populares, particularmente da juventude, e seus impactos na política internacional nos últimos anos.
Nesse sentido, o poder das redes sociais de influenciar a opinião pública e a política internacional é frequentemente discutido na literatura juntamente com a Teoria do Agendamento. Discutida inicialmente por McCombs e Shaw (1972), este modelo aponta que os meios de comunicação em massa tradicionais possuem a função de agenda-setting, isto é, não necessariamente moldam a opinião pública, mas podem determinar quais tópicos serão discutidos e difundidos na sociedade. Em contextos mais recentes, esta teoria é aplicada às redes sociais, ao passo que esses espaços digitais estão se tornando os principais veículos de informações do mundo moderno. Lopes (2013) aponta que existe um “novo fluxo de agendamento” em que as plataformas de mídias sociais estão determinando quais agendas serão pautadas tanto pelos veículos tradicionais quanto pelo público. Ademais, o impacto das redes sociais na formação de identidades de grupos (Karmila et al., 2024) também potencializa esta capacidade de determinar agendas, especialmente em relação a mobilizações políticas.
Dessa forma, este artigo tem como objetivo compreender como as plataformas de redes sociais impactaram o desenvolvimento de movimentos populares transnacionais, tendo como metodologia o estudo de caso comparativo, com foco em casos da Primavera Árabe (Tunísia, Egito e Líbia) e dos “protestos da Geração Z” (Nepal e seus transbordamentos). Por meio de revisão de bibliografia, será discutido o papel destes canais digitais de comunicação em três eixos específicos: nos atores envolvidos, especificamente os respectivos governos e a juventude politizada, suas motivações contrastantes de atuação e seus instrumentos de mobilização. Com este “tripé da contestação” (Figura 1), busca-se observar como as redes sociais são instrumentalizadas pelos regimes estatais para manter sua estabilidade por meio da repressão, ao mesmo tempo que são apropriadas por jovens para verbalizar insatisfações em comum, fazendo com que suas vozes transbordem das telas às ruas.
Figura 1 – Tripé da Contestação

Fonte: elaboração dos autores (2025)
Atores: Governos Autoritários vs. Juventude Politizada
Na primeira década dos anos 2000, a maioria dos países muçulmanos do Norte da África e do Oriente Médio se caracterizavam por regimes ditatoriais, que reprimiam as liberdades fundamentais de suas populações, incluindo a imprensa. Essas condições históricas, políticas e sociais se alinharam para o desencadeamento da Primavera Árabe, durante a qual os jovens millennials utilizaram de sua familiaridade com as plataformas de comunicação emergentes para articular grandes manifestações. De forma similar, nesta década de 20, frágeis democracias possibilitaram o estabelecimento de governos autoritários, apesar de democraticamente eleitos. Tentativas de controle digital acabaram por instigar uma nova onda de protestos, desta vez pela Geração Z. Nesse sentido, faz-se necessário analisar como as redes sociais influenciaram esses dois atores, em ambas as temporalidades: os Estados opressores e a juventude contestadora.
Na Tunísia, o governo do presidente Zine El-Abidin Ben Ali já perdurava há 21 anos, no dia em que o jovem ambulante de 26 anos, Mohamed Bouazizi, ateou fogo no próprio corpo após ter suas mercadorias confiscadas pela polícia, em janeiro de 2011 (Bazzan, 2014; Lopes, 2013). Após décadas de censura, corrupção e crise econômica, esse ato de autoimolação foi o estopim para que pessoas — em especial aquelas tão jovens quanto Bouazizi — fossem às ruas para protestar contra o regime e recorressem ao Facebook, Twitter e YouTube (Bartkowiak et al., 2017) para amplificarem suas mobilizações. A mensagem foi recebida calorosamente pelos usuários egípcios e libaneses que vivenciavam situações semelhantes: Hosni Mubarak presidia há três décadas no Egito e Muammar Kadafi, há 42 anos na Líbia (Bazzan, 2014; Lopes, 2013). Em um efeito cascata, a liberdade individual nas redes, de disseminar informações sem intervenções estatais, espalhou demandas por mudanças estruturais e ideais democráticos, como participação popular e divisão dos poderes (Santos Filho, 2013 apud Bartkowiak et al., 2017) por todo o mundo árabe.
Considerando essas condições, é possível perceber que as redes sociais permitiram um espelhamento regional diante das experiências em comum de violações de direitos pelos regimes ditatoriais. A disseminação de informações em tempo real permitiu que a juventude norte-africana se mobilizasse em torno de uma pauta por ela definida e propagada, tornando a justiça social uma identidade compartilhada. Contrariamente, para os governos que visavam o controle dos veículos tradicionais de notícias, e consequentemente do agendamento, as mídias sociais representavam uma ameaça. A circulação online das críticas e manifestações dos tunisianos e o acesso desse conteúdo por outras sociedades árabes, conferiu às plataformas digitais o papel de penetrar o isolamento repressivo que os regimes vinham construindo.
Quase 15 anos mais tarde, os protestos da Geração Z trazem paralelos, mas também peculiaridades. Distinguindo-se das ditaduras bem-estabelecidas dos anos 2000, países como Nepal, Indonésia, Filipinas e Madagascar caracterizam-se como democracias incipientes (Souza, 2025), que carecem de bases institucionais fortes, levando seus governos a buscarem a superação dessas fragilidades por meio do autoritarismo. Nesse sentido, os líderes nepaleses viram uma oportunidade de consolidar sua autoridade por meio do controle das redes sociais. Na era dos algoritmos, quem tem poder sobre esses meios de comunicação, tem poder sobre o agendamento, com capacidade de suprimir vozes indesejadas. Diferentemente dos regimes da Primavera Árabe, que buscavam se isolar, o governo do Nepal tentou se inserir na dinâmica de poder digital para fortalecer sua identidade estatal, às custas de princípios democráticos.
Contudo, do lado dos jovens, a Geração Z e os millennials se assemelham em seus respectivos processos de construção de identidade, por meio de mobilizações generalizadas de insatisfação e de solidariedade nas redes sociais. No Nepal, a consciência coletiva quanto às desigualdades sociais históricas no país foi instigada pelos chamados nepokids (Ribeiro, 2025). A ostentação dos filhos e filhas de autoridades políticas online foi recebida como uma provocação pessoal àqueles jovens que vivem na pobreza, sem perspectiva de oportunidades no futuro. Nesse momento, nascia um movimento de contra-identidade, de oposição aos privilégios e de união entre quem ansiava por momentos melhores.
Portanto, quando o governo nepalês bloqueou 26 plataformas de redes sociais — incluindo Facebook, Instagram, WhatsApp, WeChat e YouTube — em setembro de 2025, por não cumprirem com as novas regulações centralizadoras (Sharma, 2025a; ABC News, 2025), foi o estopim para a revolta geracional que se acumulava. Os jovens se refugiaram no TikTok, ainda disponível, e expressaram sua indignação contra este ato de censura com vídeos caseiros. No ambiente virtual, encontraram inquietações em comum, que se espalharam rapidamente para outras localidades, por meio de símbolos. A imagem de caveira do famoso anime “One Piece” tornou-se um dos emblemas das revoltas (Imagem 1) e a hashtag #SEAblings, em referência à “fraternidade sul-asiática”, foi criada para apoiar os movimentos na região (Bennhold, 2025; Wong, 2025). É evidente, assim, que a identidade comum, forjada nas redes sociais, permitiu que a contestação saísse das telas de forma transnacional, assim como na Primavera Árabe.
Imagem 1 — Protestos em Nepal, Indonésia, Filipinas e Madagascar, respectivamente

Fonte: Pradhan; Chiba; Acayan; Rijasolo, 2025 in Bennhold, 2025.
Motivações: Estabilidade do Regime vs. Insatisfação Popular
O outro elemento do tripé proposto por esse estudo refere-se às motivações que impulsionam o autoritarismo estatal e os movimentos de contestação. Enquanto os atores representam os sujeitos da mobilização, as motivações expressam o ponto de tensão entre a estabilidade desejada pelos governos e a insatisfação vivida pela sociedade. Nessa dinâmica, as redes sociais assumem papel central como mediadoras desse conflito, funcionando simultaneamente como espaço de expressão do descontentamento popular e como instrumento de controle estatal.
Na lógica de sustentação de poder autoritário durante a Primavera Árabe, os governos da região aplicavam severo controle das mídias tradicionais, e, embora houvesse um maior ou menor grau de garantias individuais, em nenhum deles se permitia a plena liberdade de imprensa ou de expressão (Lopes, 2013). A busca pela estabilidade do regime era, nesses contextos, uma estratégia de autopreservação, na qual o discurso da ordem legitimava a repressão, a vigilância e o controle informacional. Tais medidas, entretanto, ao invés de conter o descontentamento, acabaram por intensificá-lo e prepararam o terreno para as revoltas de 2011, particularmente nos casos da Tunísia, Egito e Líbia.
A insatisfação popular durante a Primavera Árabe resultou da convergência entre fatores econômicos, políticos e sociais que, ao longo dos anos, corroeram a confiança das populações árabes em seus governos. No Oriente Médio e no Norte da África, a crise do emprego juvenil era aguda, com taxas que atingiam 27,1% entre jovens e 41% entre jovens mulheres — as mais altas do mundo à época (OIT, 2012). A esse cenário somava-se a corrupção endêmica, evidenciada pelos baixos índices de transparência registrados na região (Transparency International, 2010). Além disso, a repressão sistemática aos direitos civis era uma realidade generalizada: cerca de 88% da população do Oriente Médio e do Norte da África vivia sob regimes classificados como “Não Livres” (Freedom House, 2010). Essa combinação entre estagnação econômica, baixa transparência governamental e ausência de liberdades resultou em um sentimento generalizado de desesperança, imobilismo e injustiça.
Nesse processo, as redes sociais assumiram papel central ao permitir que os jovens passassem a definir a agenda pública, direcionando a atenção para temas antes silenciados pelas mídias tradicionais censuradas, como observam McCombs e Shaw (1972). A insatisfação que levou às mobilizações na Tunísia não era isolada: condições semelhantes de desemprego, corrupção e repressão política marcavam também países como Egito e Líbia. Assim, ao circularem pelas plataformas digitais, as imagens e narrativas dos protestos tunisianos encontraram terreno fértil, convertendo frustrações locais em uma agenda contestadora regional e impulsionando uma onda de resistência entre a juventude árabe.
Nos protestos da Geração Z, as redes sociais não apenas amplificaram a insatisfação das ruas, como na Primavera Árabe, mas se tornaram a própria origem do conflito. Em 2025, o Nepal exemplificou essa nova forma de mobilização: ao tentar controlar o espaço digital, o governo enfrentou uma geração que o entende como um ambiente natural de sociabilidade e de ação política. A proibição das redes, sob o pretexto de novas regulações e de suposto combate à desinformação, provocou reação imediata, atuando como catalisador de queixas mais amplas sobre corrupção, exclusão econômica e má conduta política (Koirala, 2025). Como destaca Ribeiro (2025), essa juventude já acumulava frustrações diante de uma realidade sem perspectivas de melhoras futuras, marcada pelo desemprego e pelas desigualdades — cenário que tornava inevitável a eclosão dos protestos e favoreceu seu efeito cascata em outros países.
A insatisfação juvenil decorre destas frustrações socioeconômicas históricas, mas também da percepção cotidiana da injustiça nas redes, como apontado no caso dos nepokids. Para Hutt (2025), ao expor o privilégio de uma pequena elite política, as mídias tornam a corrupção uma afronta, convertendo o descontentamento em indignação política. Assim, os protestos foram impulsionados pelas próprias redes sociais, cuja tentativa de bloqueio por parte do governo acabou intensificando a mobilização e contribuindo para a sua queda (Souza, 2025). O digital, portanto, deixa de ser somente um meio de veicular indignações e passa a ser também a origem da ação política, unindo jovens de diferentes países em um mesmo sentimento transnacional de inconformismo com problemas estruturais.
Assim como na Primavera Árabe, as redes sociais continuam a desempenhar papel decisivo na amplificação das motivações políticas e sociais. No entanto, enquanto naquele contexto as mobilizações foram impulsionadas principalmente por crises socioeconômicas, nos protestos da Geração Z, a dependência do espaço digital tornou as próprias tentativas de bloqueio e de censura um novo fator de indignação. O ambiente virtual, antes instrumento de mobilização, converte-se agora em campo central de disputa e de resistência, expandindo o alcance das insatisfações de uma escala regional para uma dinâmica global (Mapa 1).
Mapa 1 – Países com protestos da Primavera Árabe e da Geração Z

Fonte: elaboração dos autores (2025)
Instrumentos: Repressão vs. Ruas
O terceiro pilar do tripé analítico deste estudo se refere aos instrumentos: enquanto os governos fazem uso da repressão para consolidarem seu poder e manter sua estabilidade, os jovens demonstram sua união e expressam suas insatisfações por meio das ruas. Nesse cenário, as redes sociais se tornam tanto alvo quanto suporte. Diante das manifestações populares, o anseio pela autoridade levou governos a suspenderem serviços digitais e, frente à censura, a necessidade de pressionar os políticos estimulou a juventude a compartilhar sua luta com o máximo número de pessoas.
Por definição, a repressão é uma forma de governança voltada a impedir, reduzir ou controlar dissidências não institucionais, como protestos e movimentos sociais (Earl; Maher; Pan, 2022). Nos regimes ditatoriais da Primavera Árabe, este instrumento se materializou sobretudo na supressão física dos manifestantes, com prisões e violência policial. Dezenas de tunisianos, centenas de egípcios e milhares de libaneses foram mortos durante os protestos (Simões, 2021). Todavia, na impossibilidade de ignorar a dimensão virtual das mobilizações, fez-se o uso também de cortes totais de conectividade (Earl; Maher; Pan, 2022). Na Tunísia, o presidente Ben Ali tentou interromper o funcionamento das plataformas e Hosni Mubarak, no Egito, ordenou o bloqueio total da internet por alguns dias (Bazzan, 2014; Lopes, 2013).
Nos protestos da Geração Z, a lógica repressiva assume uma configuração tecno-política inédita, na qual a repressão digital assume a centralidade da estratégia estatal. Como destacam Earl, Maher e Pan (2022), esta forma de controle combina métodos tradicionais — prisões, assédio e vigilância de ativistas digitais — com estratégias informacionais voltadas a moldar o comportamento público, utilizando distração, desinformação e manipulação algorítmica. Em outras palavras, o poder não apenas restringe a circulação de informações, mas também programa o agendamento, tornando certos conteúdos mais visíveis e outros praticamente invisíveis. Essa dinâmica pôde ser observada no Nepal, onde a implementação de novas leis, que permitiam a remoção de conteúdo e outras formas de violações da liberdade de expressão segundo críticos (Sharma, 2025a; ABC News, 2025), levou ao bloqueio das principais plataformas. Além disso, já durante as revoltas, 72 manifestantes foram mortos e mais de 2000 foram feridos, incluindo por gás lacrimogêneo e balas de borracha das forças de segurança (Sharma, 2025b).
Em ambos os momentos, a despeito da repressão estatal, as imagens continuaram a circular nas plataformas digitais e os protestos perduraram. Essas formas tradicionais de censura e de supressão de movimentos sociais buscavam restringir o fluxo de informação e preservar a narrativa de estabilidade dos governos, mas acabaram tendo efeito inverso: ao tentar silenciar a indignação, os regimes ampliaram a visibilidade da sua contestação. Devido ao caráter identitário das mobilizações da Primavera Árabe e da Geração Z, cada morte, cada detenção e cada silenciamento serviu como combustível para as revoltas. A violência policial foi — e continua sendo — postada e compartilhada na internet, retroalimentando a insatisfação generalizada nessas sociedades. Portanto, perante a estagnação econômica, a corrupção endêmica, a censura constante e a violência repressiva, a solidariedade entre os jovens solidificou o desejo por mudanças significativas e estimulou a ida contínua às ruas, nesses dois eventos históricos de demonstração da vontade popular.
Considerações Finais
A análise comparativa entre a Primavera Árabe e os protestos da Geração Z evidencia que, embora separados por mais de uma década, ambos os movimentos partilham um mesmo alicerce: a utilização das redes sociais como instrumentos de mobilização e de contestação. O tripé analítico proposto — atores, motivações e instrumentos — permitiu compreender como diferentes governos e gerações se inserem nessa dinâmica de poder e de resistência. Embora os regimes árabes da década de 2010 se diferenciassem identitariamente dos governos analisados em 2025, a busca pela estabilidade permaneceu como principal orientação das ações por eles empreendidas. As juventudes, ainda que separadas por tempo e contexto, também se assemelham às motivações: são movidas pela insatisfação com a desigualdade, a corrupção e a falta de perspectivas, encontrando nas redes sociais um espaço de identificação e de solidariedade.
Apesar das semelhanças, os instrumentos empregados e seus resultados revelam transformações estruturais na natureza da contestação política. Na Primavera Árabe, as mídias sociais foram meios de amplificação das ruas, que converteram indignações locais em mobilizações regionais e levaram tanto à queda de governos quanto à eclosão de guerras civis, como no Egito e na Líbia, respectivamente. Já nos protestos da Geração Z, o processo se inverte: o digital tornou-se a origem do impulso político, e as ruas, sua consequência. A repressão, antes visível e física, assume caráter algorítmico; os embates passam a ocorrer também nas plataformas, onde a atenção é disputada e a censura opera pela invisibilidade.
Essas dinâmicas revelam que o uso das redes sociais possui capacidade concreta de moldar a política internacional. Seu efeito depende de quem as instrumentaliza: nas mãos de governos, podem reforçar a vigilância e a propaganda; nas mãos das juventudes, transformam-se em ferramentas de denúncia, de organização e de solidariedade transnacional. O desfecho desses movimentos demonstra a ambivalência do poder digital, que é capaz tanto de sustentar regimes quanto de derrubá-los.
Por fim, o avanço tecnológico e o aperfeiçoamento dos algoritmos ampliaram o potencial de transbordamento das mobilizações populares. Enquanto a Primavera Árabe teve alcance predominantemente regional, os protestos da Geração Z configuram uma onda global de insatisfação juvenil, conectando o Nepal, o Marrocos, a Indonésia, o Peru e Madagascar em torno de símbolos compartilhados, como a caveira e a #SEAblings. Essa expansão demonstra que a contestação política do século XXI não se limita mais a fronteiras físicas: ela é feita de dados, de imagens e de emoções que circulam em plataformas digitais. Assim, as redes sociais consolidam-se como novo território da política internacional — um espaço simultaneamente de repressão e de emancipação, no qual a juventude do mundo globalizado reivindica voz, dignidade e futuro.
Referências
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