O presente artigo analisa o processo de securitização no Estreito de Ormuz à luz da Teoria da Escola de Copenhague, destacando como os discursos do Irã e dos Estados Unidos moldam percepções de ameaça e legitimam práticas de exceção no contexto da segurança internacional. O Estreito de Ormuz, responsável pela passagem de cerca de 20% do petróleo mundial, configura-se como um espaço de convergência entre energia, poder e rivalidades regionais e globais. A partir do referencial teórico de Barry Buzan, Ole Wæver e Jaap de Wilde, investiga-se como o ato de fala securitizador atua na construção intersubjetiva de ameaças existenciais, transformando questões políticas em problemas de segurança. A pesquisa demonstra que tanto o Irã quanto os Estados Unidos instrumentalizam o discurso securitizador para justificar medidas extraordinárias: o primeiro, em nome da soberania e da resistência a pressões externas; o segundo, sob a justificativa da proteção da segurança energética, da livre circulação marítima e da legitimidade de sua presença militar. A análise evidencia que o Estreito de Ormuz constitui um complexo regional de segurança, no qual se entrelaçam dimensões políticas, econômicas e militares, revelando como a retórica da segurança influencia diretamente as dinâmicas geopolíticas globais.
Sumário
Introdução
O Estreito de Ormuz, corredor marítimo que conecta o Golfo Pérsico ao Mar da Arábia, constitui um dos espaços mais sensíveis da geopolítica contemporânea. Responsável pelo trânsito de cerca de 20% do petróleo consumido globalmente, a região supera a função de simples rota comercial e converte-se em um ponto de convergência de interesses energéticos, rivalidades regionais e disputas de poder envolvendo grandes potências (U.S. Energy Information Administration, 2024). Qualquer instabilidade, seja política, militar ou econômica, produz efeitos que transcendem o nível local, afetando mercados internacionais, negociações diplomáticas e estratégias de segurança de atores estatais e não estatais.
Nas últimas décadas, episódios como ataques a petroleiros, apreensões de embarcações e confrontos navais contribuíram para consolidar a percepção internacional de que o estreito é uma zona vulnerável e sujeita a interrupções críticas. Tais eventos reforçam análises que situam o Golfo Pérsico entre as regiões mais militarizadas do sistema internacional (CORDESMAN, 2014; GAUSE, 2019). Nesse contexto, a circulação marítima passou a ser enquadrada como questão de segurança essencial, legitimando a ampliação da vigilância armada, da presença de frotas estrangeiras e da adoção de medidas excepcionais (BUZAN; WÆVER; DE WILDE, 1998; LAKE, 2018).
Essa transformação, porém, não decorre apenas de fatores materiais. Ela é produto de discursos produzidos por diferentes atores que atribuem ao estreito significados específicos, vinculando-o a ameaças existenciais ou a elementos estratégicos indispensáveis para a estabilidade global. Enquanto o Irã formula narrativas que associam Ormuz à soberania nacional e à resistência contra influências externas, os Estados Unidos representam o estreito como pilar da ordem internacional liberal, imprescindível para garantir a segurança energética e a liberdade de navegação. Esses discursos moldam percepções, orientam políticas e influenciam audiências domésticas e internacionais, contribuindo para um processo contínuo de securitização.
Nesse sentido, a teoria da securitização da Escola de Copenhague fornece o arcabouço adequado para compreender a complexidade do caso. Conforme argumentam Buzan, Wæver e de Wilde (1998), segurança não é reação automática a riscos objetivos, mas resultado de um processo intersubjetivo no qual atores constroem discursivamente ameaças e legitimam respostas extraordinárias. O ato de securitizar envolve, portanto, performatividade, autoridade política e aceitação por parte de uma audiência.
Ao enquadrar determinados eventos como ameaças existenciais, atores políticos ampliam sua margem para adotar práticas excepcionais, como operações de escolta, sanções unilaterais e demonstrações de força. Tal dinâmica tende a reforçar ciclos de desconfiança, reduzindo alternativas cooperativas e produzindo uma arquitetura de segurança essencialmente competitiva. O estreito passa, assim, a ser interpretado não apenas como rota energética, mas como espaço de afirmação identitária e disputa simbólica entre projetos de ordem internacional.
Diante desse quadro, este artigo busca analisar como os discursos de segurança produzidos pelo Irã e pelos Estados Unidos constroem e reforçam a percepção de ameaça no Estreito de Ormuz, contribuindo para a legitimação de práticas excepcionais e para a militarização persistente da região. Defende-se que a disputa não se limita a interesses materiais, mas reflete identidades políticas, narrativas de sobrevivência estatal e interpretações concorrentes sobre ordem e estabilidade.
A Escola de Copenhague: fundamentos teóricos e ampliação do conceito de segurança internacional
A Escola de Copenhague consolidou-se como um dos marcos centrais da renovação dos estudos de segurança internacional ao propor uma inflexão teórica que ultrapassa as abordagens tradicionais centradas na defesa militar do Estado. A crítica de Barry Buzan, Ole Wæver e Jaap de Wilde (1998) dirige-se, sobretudo, ao entendimento realista que restringia a segurança ao campo estratégico-militar. Para esses autores, a segurança não é uma propriedade objetiva dos fenômenos, mas uma prática discursiva situada, moldada por contextos sociais, políticos e históricos.
O conceito de securitização é o elemento central dessa inflexão. Diferentemente da visão clássica que pressupunha a existência de ameaças materiais evidentes, a Escola de Copenhague sustenta que um processo de segurança somente se concretiza quando uma questão é construída como ameaça existencial por meio de um ato de fala. Segundo Wæver (1995), esse ato não descreve apenas uma realidade; ele a produz. Ao declarar um fenômeno como ameaça à sobrevivência de um objeto de referência , seja o Estado, a nação, a economia ou a identidade coletiva, o ator securitizador desencadeia um deslocamento do tema da esfera do debate político ordinário para a esfera da exceção. Esse deslocamento fundamenta a legitimação de medidas extraordinárias, que ultrapassam os limites normais do processo decisório democrático.
Esse conceito amplia a compreensão tradicional de segurança, antes centrada quase exclusivamente no Estado e na dimensão militar, para diferentes setores como o político, econômico, societal e ambiental.
Contudo, a securitização não é um processo unilateral. A eficácia do ato de fala depende de dois requisitos fundamentais: a autoridade social do ator securitizador e a aceitação da audiência. A segurança, portanto, torna-se inseparável de sua dimensão intersubjetiva. Buzan, Wæver e de Wilde (1998) argumentam que não basta declarar a existência de uma ameaça; é imprescindível que o público considere tal declaração legítima, plausível e urgente. Dessa maneira, a securitização opera como uma prática política performativa, cuja efetividade está condicionada à estrutura social de reconhecimento, confiança e autoridade.
Outro aspecto importante da teoria é o reconhecimento de que os processos de securitização percorrem um continuum composto por três estágios: a não politização, a politização e a securitização. Na condição de não politizada, uma questão permanece fora da agenda pública; no estágio politizado, ela é objeto de debate e políticas públicas; somente ao ser enquadrada como ameaça existencial é que ultrapassa o domínio da política convencional e adentra o campo da exceção (BUZAN; WÆVER; DE WILDE, 1998). Essa gradação reforça que a segurança não é dicotômica, mas gradual, processual e disputada.
Por fim, a Escola de Copenhague destaca que a securitização pode reforçar dinâmicas de exclusão, legitimar políticas de exceção e reduzir o espaço de contestação democrática. Ao transformar questões complexas em ameaças existenciais, governos e elites podem mobilizar apoio político, silenciar críticas e consolidar formas específicas de autoridade (BUZAN; WÆVER; DE WILDE, 1998). A teoria, portanto, não apenas descreve um processo, mas também alerta para seus riscos normativos e seus efeitos estruturais sobre sociedades e sistemas políticos.
Nesse sentido, rotas estratégicas de circulação marítima, quando enquadradas como fatores críticos para a estabilidade econômica e militar de um Estado, tornam-se alvos frequentes de processos securitizadores. O Estreito de Ormuz, por concentrar parcela significativa do comércio global de petróleo e por sua vulnerabilidade a bloqueios ou interferências militares, oferece um exemplo emblemático de como espaços geoestratégicos podem ser discursivamente elevados à categoria de ameaças existenciais. Ao ser inserido em narrativas que enfatizam riscos à segurança energética, ao fluxo marítimo e à ordem internacional, o estreito não é apenas descrito, mas produzido como um objeto securitizado.
O Estreito de Ormuz e sua centralidade geopolítica
Mais do que um simples corredor marítimo, o Estreito de Ormuz consolidou-se como um dos elementos estruturantes da ordem econômica e de segurança internacional contemporânea. O mapa elaborado pela U.S. Energy Information Administration (Figura 1) ilustra de maneira clara a centralidade logística do estreito ao representá-lo como um dos principais pontos estratégicos do sistema energético global, destacando o volume de petróleo que transita diariamente pela região e sua interconexão com outras rotas críticas do comércio marítimo.
Figura 1- Volumes diários de trânsito de petróleo e outros líquidos através dos gargalos marítimos mundiais de petróleo (milhões de barris por dia) (2023)

O estreito concentra entre 20% e 21% de todo o comércio marítimo global de petróleo, o equivalente a cerca de 17 milhões de barris por dia, além de corresponder a aproximadamente 30% de todo o petróleo transportado por via marítima e 25% do comércio mundial de GNL, especialmente oriundo do Qatar (EIA, 2023; IEA, 2022; BP, 2023). Essa dependência estrutural implica que qualquer oscilação, mesmo parcial, reverbera imediatamente nos mercados internacionais: estimativas da IEA (2023) indicam que uma interrupção de apenas 10% do fluxo poderia elevar o preço do barril em US$ 15–20 no curto prazo, e análises do FMI (2022) sugerem que um bloqueio prolongado poderia reduzir entre 1,5% e 2% do PIB global. A inexistência de rotas alternativas capazes de substituir mais de 25% desse volume reforça a vulnerabilidade do sistema energético mundial (EIA, 2023).
A relevância estratégica, contudo, não se limita ao aspecto econômico: ela ajuda a explicar por que o Estreito de Ormuz esteve constantemente associado a disputas de poder e rivalidades regionais e globais. As tensões no Estreito de Ormuz são um fenômeno persistente, profundamente enraizado em rivalidades históricas e disputas de poder. Durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988), o Golfo Pérsico transformou-se em um teatro de operações na chamada “Guerra dos Petroleiros”, na qual ambos os beligerantes atacavam navios mercantes para paralisar a economia do adversário (RUCKS, 2016; TEIXEIRA, 2020).
A trajetória de hostilidades moldou o que Anthony Cordesman (2011) definiu como uma Competição Estratégica entre EUA e Irã. Essa competição não se limita ao campo militar, mas abrange múltiplos níveis, incluindo ideologia, sanções econômicas, diplomacia e apoio a grupos paramilitares (CORDESMAN, 2011; 2012, apud RUCKS, 2016).
A geopolítica do Estreito de Ormuz é definida pela interação complexa de múltiplos atores com interesses por vezes convergentes e por outras, antagônicos. O Irã, por sua vez, detém uma vantagem geográfica inegável, com sua longa costa e o controle de ilhas estrategicamente posicionadas no estreito (RUCKS, 2016). Ciente de sua desvantagem em capacidades militares convencionais, o país desenvolveu uma doutrina de defesa assimétrica, empregando o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (CGRI) para implementar táticas de negação de área (A2/AD) (RUCKS, 2016).
Os Estados Unidos mantêm uma presença militar robusta na região, ancorada pela Quinta Frota sediada no Bahrein (RUCKS, 2016). Embora sua dependência direta do petróleo do Golfo tenha diminuído, o controle sobre o fluxo energético global continua sendo um pilar de sua estratégia para influenciar o mercado e o desenvolvimento de potências rivais como a China (VISENTINI, 2012, apud RUCKS, 2016). A manutenção da sua estabilidade é, portanto, condição essencial para a segurança internacional, pois qualquer interrupção em seu funcionamento repercute de maneira imediata sobre o equilíbrio estratégico mundial (EIA, 2023).
Securitização No Estreito De Ormuz: Irã E Estados Unidos
A política externa iraniana constitui um caso particularmente elucidativo para observar a operacionalização empírica da securitização no sistema internacional. No contexto do Estreito de Ormuz, Teerã não apenas identifica uma ameaça existencial, mas constrói discursivamente esse espaço como eixo vital da sobrevivência nacional, articulando um conjunto de práticas e medidas extraordinárias que configuram um processo de securitização completo. Desde a Revolução de 1979, o regime iraniano se apresenta como guardião da integridade territorial e da independência nacional, e é a partir dessa posição que mobiliza o estreito como instrumento de dissuasão e de afirmação identitária. Ao transformar uma rota responsável por quase um quinto do petróleo transportado globalmente (EIA, 2023) em elemento crucial de seu discurso de segurança, o Irã amplia o alcance performativo de sua política externa.
A eficácia desse processo decorre da combinação entre atos de fala explícitos e práticas materiais reincidentes. Diversos discursos oficiais, pronunciamentos do Líder Supremo Ali Khamenei, advertências do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e declarações do Ministério das Relações Exteriores, definem a presença militar norte-americana no Golfo, as sanções econômicas e qualquer ataque às instalações estratégicas iranianas como ameaças existenciais. Esses enunciados operam como atos de fala securitizadores clássicos, conforme proposto por Buzan, Wæver e de Wilde (1998), pois postulam a existência de um perigo absoluto à soberania nacional e justificam a adoção de medidas que ultrapassam o âmbito da política ordinária. Nesse sentido, afirmações recorrentes de comandantes do IRGC de que “o Estreito de Ormuz será fechado caso o Irã seja impedido de exportar seu petróleo” (KATZMAN, 2019) constituem atos simbólicos de securitização, uma vez que constroem discursivamente o bloqueio como resposta necessária à ameaça.
A trajetória histórica do Golfo Pérsico reforça esse enquadramento. Durante a Guerra Irã-Iraque, especialmente na “Guerra dos Petroleiros”, o Irã aprendeu a utilizar o estreito como instrumento de pressão internacional. O emprego de minas navais, o ataque a petroleiros e a estratégia de negação de área foram posteriormente reinterpretados pelo discurso estatal como respostas justificáveis a agressões externas, estabelecendo precedentes que hoje funcionam como condições facilitadoras para novos atos de securitização (CHUBIN; TRIPP, 2014). A memória coletiva desse período oferece material simbólico mobilizado pelos agentes securitizadores, reforçando a narrativa de que o país sobreviveu apenas porque adotou “medidas excepcionais” diante de ameaças existenciais.
A audiência doméstica, nesse processo, é constituída pelo público iraniano, cuja identidade política é profundamente marcada pela retórica revolucionária de resistência. A securitização é bem-sucedida porque os atos de fala se alinham a um imaginário nacional moldado por um sentimento persistente de vulnerabilidade histórica, herdado do período anterior à Revolução e reforçado por décadas de pressão externa (SICK, 2020). O Estado mobiliza um léxico de honra nacional, soberania e sacrifício, elementos centrais da ideologia pós-1979, para justificar ações excepcionais como legítimas e necessárias. Assim, ao anunciar a possibilidade de bloquear o Estreito de Ormuz, o governo não apenas dissuade adversários externos, mas reforça sua legitimidade interna ao desempenhar o papel de protetor máximo da ordem política revolucionária.
Em contrapartida, ao longo das últimas décadas, os Estados Unidos recorreram a discursos securitizadores para enquadrar o Estreito de Ormuz como um “ponto vital” para a segurança energética global e para a liberdade de navegação. Esse enquadramento torna-se particularmente evidente em momentos de tensão regional, nos quais Washington mobiliza a retórica da ameaça existencial para legitimar medidas militares extraordinárias. Um dos casos mais significativos ocorreu durante a Guerra Irã–Iraque, quando, em 1987, o presidente Ronald Reagan declarou que qualquer ameaça iraniana ao tráfego marítimo seria tratada como uma ameaça direta à segurança internacional. Esse ato de fala justificou a Operação Earnest Will, que consistiu no re-bandeiramento e na escolta de petroleiros kuwaitianos por navios norte-americanos, além de confrontos diretos com forças iranianas. A literatura especializada identifica esse episódio como um ato securitizador clássico, no qual a narrativa da excepcionalidade legitimou a militarização intensa do Golfo (MARTIN, 2013; HOMER-DIXON, 1991).
Outro momento emblemático ocorreu entre 2011 e 2012, quando autoridades iranianas afirmaram que poderiam fechar o estreito em resposta às sanções nucleares impostas pelo Ocidente. Em pronunciamentos do Departamento de Estado e do Pentágono, o governo Obama definiu tal possibilidade como uma “linha vermelha” e como ameaça direta à “segurança global de energia”, o que justificou o envio de porta-aviões adicionais e o aumento das patrulhas da Quinta Frota. O Irã foi novamente enquadrado como fonte de instabilidade e como ameaça à ordem econômica internacional, reforçando a ligação entre segurança energética e liberdade de navegação (KATZMAN, 2012; O’SULLIVAN, 2013). Em 2019, após ataques a petroleiros atribuídos ao Irã, o Secretário de Estado Mike Pompeo afirmou que tais episódios constituíam uma ameaça imediata à “liberdade de navegação”, mobilizando essa retórica para criar a International Maritime Security Construct (IMSC), coalizão naval destinada a proteger o tráfego energético no Golfo (RUSTAD; TOWNSEND, 2020). Nesses três episódios, a lógica da securitização manifesta-se de forma clara: identificação do inimigo, construção da ameaça e legitimação de respostas militares excepcionais.
Esses exemplos históricos se articulam diretamente ao padrão discursivo mais amplo dos Estados Unidos. O discurso securitizador estadunidense, em contraste com o iraniano, estrutura-se na defesa da ordem liberal internacional e na proteção da liberdade de navegação, convertendo o Estreito de Ormuz em espaço vital para a preservação do comércio global e da estabilidade energética. Essa retórica permite aos EUA reivindicar legitimidade para intervir militarmente sob a justificativa de proteger bens coletivos, mobilizando a gramática de securitização descrita por Buzan, Wæver e de Wilde (1998), segundo a qual ameaças econômicas e geoestratégicas podem ser resignificadas como ameaças existenciais. Desde a Doutrina Carter, a política externa norte-americana associa o acesso irrestrito ao petróleo do Golfo à segurança nacional, sustentando que qualquer interrupção no fluxo energético constitui risco global que demanda respostas excepcionais (KLARE, 2008). Esse enquadramento projeta os Estados Unidos como garantidores da estabilidade do mercado internacional, transformando a proteção das rotas marítimas em uma obrigação estratégica e moral (CAMPBELL, 1998; HUGHES, 2018).
Dentro dessa lógica, a securitização da liberdade de navegação reforça a narrativa ao apresentar obstáculos ao trânsito marítimo, sobretudo aqueles atribuídos ao Irã, como ameaças diretas à ordem liberal. Por meio de atos de fala que vinculam comércio, segurança e responsabilidade internacional, Washington legitima a presença permanente de forças navais, como a Quinta Frota, representada como instrumento defensivo indispensável à preservação da estabilidade regional (BUZAN; WÆVER; DE WILDE, 1998; BALZACQ, 2011). Embora articulada em termos universalistas, a retórica estadunidense sustenta a supremacia marítima ao converter sua projeção de poder em pré-condição para o funcionamento seguro das cadeias energéticas. O Irã, simultaneamente, é enquadrado como ator revisionista responsável por desestabilizar o Golfo, reforçando a dicotomia entre o “guardião da ordem” e o “agente desestabilizador” que estrutura a gramática política norte-americana (HANSEN, 2006).
Essa construção discursiva produz consenso intersubjetivo em torno da ideia de que a presença militar norte-americana é indispensável, naturalizando uma hierarquia geopolítica que preserva sua primazia global. Ao securitizar simultaneamente energia, comércio e navegação, Washington legitima medidas extraordinárias, consolida sua hegemonia marítima e neutraliza questionamentos sobre seus interesses estratégicos, alinhando-se à lógica da securitização enquanto prática produtora de legitimidade e poder. Ademais, essa retórica oculta motivações geoeconômicas e estratégicas mais profundas, pois, como argumenta Klare (2008), o controle das principais rotas energéticas permite aos Estados Unidos limitar a influência de potências emergentes como China e Rússia — ambas dependentes do petróleo do Golfo. Assim, a securitização não apenas justifica a presença militar, mas institucionaliza uma hierarquia global de poder, preservando o acesso aos recursos e o domínio dos mares sob vigilância norte-americana.
A eficácia do discurso estadunidense reside, portanto, em sua capacidade de apresentar-se como neutro e altruísta, ao mesmo tempo em que reproduz relações de dependência e subordinação. A retórica da liberdade de navegação e da proteção da energia mundial cria um consenso simbólico que naturaliza a hegemonia norte-americana e minimiza debates sobre os custos de sua presença militar. Em consonância com a Escola de Copenhague, observa-se que o sucesso da securitização não depende da existência objetiva de uma ameaça, mas da aceitação intersubjetiva da narrativa que a define como tal (BUZAN; WÆVER; DE WILDE, 1998). O discurso estadunidense sobre Ormuz revela-se, assim, uma estratégia sofisticada capaz de articular elementos econômicos, energéticos e militares em uma gramática comum da segurança, garantindo aos Estados Unidos o papel de ator indispensável à ordem internacional.
A análise comparada das dinâmicas discursivas e estratégicas do Irã e dos Estados Unidos no Estreito de Ormuz evidencia que a securitização opera, em ambos os casos, como instrumento fundamental de construção de legitimidade, produção de consenso e projeção de poder no sistema internacional. Ao mobilizarem narrativas que apresentam Ormuz como espaço vital para sua segurança, seja pela proteção da soberania e sobrevivência nacional, no caso iraniano, seja pela preservação da ordem liberal e da liberdade de navegação, no caso norte-americano, ambos os Estados transformam o estreito em arena privilegiada de exceção, onde práticas militares extraordinárias são normalizadas.
Enquanto Teerã converte Ormuz em símbolo de resistência e instrumento de dissuasão, os EUA o inscrevem em uma lógica de tutela global da energia e do comércio, reforçando sua hegemonia marítima. Assim, os discursos securitizadores não apenas respondem a crises específicas, mas estruturam regimes duradouros de percepção e ação, moldando práticas institucionais, legitimando intervenções e naturalizando hierarquias geopolíticas. A partir da perspectiva da Escola de Copenhague, torna-se evidente que a disputa em Ormuz não é apenas material, mas profundamente intersubjetiva: são as narrativas, e não apenas as capacidades militares, que definem as fronteiras do possível e do aceitável, consolidando o estreito como um dos principais laboratórios contemporâneos da securitização internacional.
Considerações finais
As considerações finais evidenciam que a análise do Estreito de Ormuz, à luz da teoria da securitização da Escola de Copenhague, demonstra que a segurança internacional não é determinada por ameaças objetivas e imutáveis, mas por processos discursivos que definem quais riscos merecem ser tratados como existenciais e, portanto, autorizam respostas extraordinárias. O caso de Ormuz revela, com clareza, que a ameaça não é simplesmente observada: ela é produzida, performada e legitimada pelos atores que competem pela autoridade de nomeá-la (BUZAN; WÆVER; DE WILDE, 1998; BUZAN; WÆVER, 2003). Dessa forma, o estreito deixa de ser apenas um ponto nevrálgico do sistema energético global e converte-se em arena onde identidades políticas, rivalidades estratégicas e interesses geoeconômicos são articulados para sustentar narrativas de risco que retroalimentam a própria dinâmica de insegurança.
Nesse contexto, a atuação iraniana mostra como discursos, práticas e capacidades militares se entrelaçam na produção da segurança. Desde 1979, a presença militar dos Estados Unidos no Golfo é construída pelo Irã como evidência de cerco geopolítico e ameaça à sua soberania. O controle do Estreito torna-se, assim, instrumento de dissuasão e afirmação de autonomia, reforçado por uma doutrina assimétrica de negação de acesso e por atos de fala que constroem o bloqueio potencial de Ormuz como resposta defensiva legítima (MALONEY, 2015; CORDESMAN, 2011). Essa construção discursiva consolida a identidade pós-revolucionária de resistência à intervenção estrangeira, ao mesmo tempo que produz coesão interna e legitima a militarização permanente do estreito (RUCKS, 2016; TEIXEIRA, 2020).
Em direção oposta, os Estados Unidos constroem sua securitização do Estreito com base na retórica da ordem liberal internacional, enquadrando a região como espaço indispensável à liberdade de navegação, ao funcionamento dos mercados energéticos e à “estabilidade global”. Desde a Doutrina Carter, qualquer interrupção do fluxo de petróleo do Golfo é discursivamente elevada ao status de ameaça existencial aos interesses vitais dos EUA, justificando a presença contínua da Quinta Frota e a normalização de práticas militares extraordinárias (SMITH, 1991; KLARE, 2008). Esse enquadramento transforma a projeção de poder estadunidense em uma missão protetora universal, reforçada por narrativas que naturalizam a ideia de que os EUA atuam como guardiões da segurança marítima (CAMPBELL, 1998; HANSEN, 2006).
A interação entre essas construções discursivas não reduz a percepção de ameaça; ao contrário, a intensifica. A tentativa iraniana de salvaguardar sua soberania alimenta a leitura estadunidense de que o Irã representa um risco à estabilidade marítima, enquanto a presença militar norte-americana, apresentada como estabilizadora, reforça o diagnóstico iraniano de vulnerabilidade estratégica. Esse processo consolida um dilema de segurança no qual cada medida considerada defensiva por um lado é interpretada pelo outro como ofensiva, institucionalizando um ciclo de vigilância, tensão e escalada potencialmente permanente (BUZAN; WÆVER, 2003; INTERNATIONAL CRISIS GROUP, 2020).
Os efeitos dessa lógica tornam-se visíveis em diferentes níveis. Regionalmente, a militarização contínua do Golfo eleva o risco de incidentes não intencionais e mantém o sistema em estado de alerta estrutural (GOLDBERG, 2020; CORDESMAN, 2012). No plano internacional, a dependência energética global de Ormuz cria volatilidades recorrentes, nas quais qualquer sinal de instabilidade repercute de forma imediata nos preços do petróleo e na percepção de risco dos mercados (EIA, 2023; KLARE, 2008). A reprodução da lógica de exceção reduz ainda mais o espaço para negociações diplomáticas, instituindo a crença de que a estabilidade depende da manutenção de um aparato de força extraordinário (BALZACQ, 2011; HANSEN, 2006).
Assim, o Estreito de Ormuz não representa apenas uma disputa material por rotas marítimas, mas constitui um complexo regional de segurança no qual ameaças e respostas são produzidas de maneira interdependente. A disputa entre Irã e Estados Unidos revela-se, em última instância, menos sobre capacidades militares objetivas e mais sobre a habilidade de definir o que deve ser entendido como ameaça legítima. O resultado é a consolidação de um ambiente em que a linha entre defesa e provocação permanece estruturalmente indistinta, tornando a estabilidade sempre provisória e dependente da gestão contínua das percepções recíprocas de risco.
Referências
BALZACQ, Thierry. Securitization Theory: How Security Problems Emerge and Dissolve. London: Routledge, 2011.
BUZAN, Barry; WÆVER, Ole; DE WILDE, Jaap. Security: A New Framework for Analysis. Boulder: Lynne Rienner Publishers, 1998.
BUZAN, Barry; WÆVER, Ole. Regions and Powers: The Structure of International Security. Cambridge: Cambridge University Press, 2003.
CAMPBELL, David. Writing Security: United States Foreign Policy and the Politics of Identity. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1998.
CORDESMAN, Anthony H. Iran, Oil, and the Strait of Hormuz. Washington, D.C.: Center for Strategic and International Studies (CSIS), 2011.
CORDESMAN, Anthony H. The Gulf and the Search for Strategic Stability: Saudi Arabia, the Military Balance in the Gulf, and Trends in the Arab-Israeli Military Balance. Washington, D.C.: Center for Strategic and International Studies, 2014.
EIA – U.S. Energy Information Administration. World Oil Transit Chokepoints. Washington, D.C., 2023. Disponível em: https://www.eia.gov. Acesso em: 15 nov. 2025.
FMI – Fundo Monetário Internacional. World Economic Outlook 2022: Countering the Cost-of-Living Crisis. Washington, D.C.: FMI, 2022.
GAUSE, F. Gregory. The International Relations of the Persian Gulf. Cambridge: Cambridge University Press, 2019.
GOLDBERG, David. The Strait of Hormuz and the International Politics of Oil. Middle East Journal, v. 74, n. 2, p. 159–182, 2020.
HANSEN, Lene. Security as Practice: Discourse Analysis and the Bosnian War. London: Routledge, 2006.
HUGHES, Christopher W. Naval Power and Maritime Security in the Indo-Pacific. London: Routledge, 2018.
IEA – International Energy Agency. Oil Market Report 2022–2023. Paris: IEA, 2022.
INTERNATIONAL CRISIS GROUP. Gulf Tensions: Iran and the US in a Perilous Standoff. Brussels: ICG, 2020. Disponível em: https://www.crisisgroup.org. Acesso em: 25 out. 2025.
KLARE, Michael T. Rising Powers, Shrinking Planet: The New Geopolitics of Energy. New York: Metropolitan Books, 2008.
LAKE, David A. Hierarchy in International Relations. Ithaca: Cornell University Press, 2018.
MALONEY, Suzanne. Iran’s Political Economy since the Revolution. Cambridge: Cambridge University Press, 2015.
MOTTA, Bárbara Vasconcellos de Carvalho; PIMENTEL, Cauê Rodrigues. Escola de Copenhague e a teoria de securitização: uma abordagem sobre seus limites conceituais. In: ENCONTRO NACIONAL DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS, 4., 2013, Belo Horizonte. Anais… Belo Horizonte: ABRI, 2013. p. 1–18.
RUCKS, Thamires. A estratégia de dissuasão do Irã e o Estreito de Ormuz. Brasília: FUNAG, 2016.
SMITH, Steve. Mature Anarchy, Strong States and Security. Arms Control, v. 12, n. 2, p. 141–171, 1991.
TANNO, Grace. A contribuição da Escola de Copenhague aos Estudos de Segurança Internacional. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, p. 47–80, jan./jun. 2003.
TEIXEIRA, Rodrigo. Geopolítica do Golfo Pérsico e a Estratégia Regional do Irã. Revista Brasileira de Estudos de Defesa, v. 6, n. 2, p. 9–34, 2020.
WEHREY, Frederic. Sectarian Politics in the Gulf: From the Iraq War to the Arab Uprisings. New York: Columbia University Press, 2013.
YERGIN, Daniel. The Quest: Energy, Security, and the Remaking of the Modern World. New York: Penguin Press, 2011.
Conheça os Cursos da Revista aqui.
Ana Beatriz Domingues Martins é graduanda em Relações Internacionais pela PUC Goiás, com interesse em diplomacia e segurança internacional. Atuou como voluntária em projetos de direitos humanos e participa de pesquisas e debates acadêmicos na área.
Maria Manuela Soares de Oliveira é estudante de Relações Internacionais na PUC Goiás, com interesse nas áreas de segurança internacional e no impacto das tecnologias emergentes na política global. Possui participação no Programa de Direitos Humanos da PUC Goiás, experiência que contribuiu para o desenvolvimento de sua visão crítica sobre proteção internacional, governança e dinâmicas de poder.