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China como contrapeso aos EUA: como a intimidação tarifária dos EUA abre oportunidades para Pequim na América Latina
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China como contrapeso aos EUA: como a intimidação tarifária dos EUA abre oportunidades para Pequim na América Latina

A relação entre os Estados Unidos e a América Latina historicamente tem sido caracterizada por dinâmicas de poder desiguais, marcadas por intervenções e por uma narrativa que posiciona a região como o “quintal estratégico” de Washington. Entretanto, o século XXI inaugurou a presença de um novo ator geopolítico, a China, cuja influência crescente desafia a hegemonia norte-americana na região. Nesse contexto de transformações, a estratégia tarifária impulsionada por Donald Trump pode, ainda que inadvertidamente, abrir espaço para que Pequim aprofunde seus laços econômicos e políticos com a América Latina.

Durante seu segundo mandato em 2025, Trump impôs tarifas de 25% sobre o aço brasileiro, acusando o Brasil de práticas comerciais desleais (Argentina […], 2023). O governo colombiano, liderado por Gustavo Petro, enfrentou tensões com os Estados Unidos após recusar o recebimento de aviões transportando refugiados e migrantes deportados por Washington. A administração Trump acusou esses indivíduos, oficialmente descritos como “criminosos”, de estarem em situação irregular e de representarem uma ameaça à segurança (Bolin; Allman, 2025). A recusa da Colômbia em aceitar os voos desencadeou uma escalada diplomática, com Washington ameaçando impor sanções tarifárias caso Bogotá não cedesse. Por fim, diante da ameaça econômica representada pelas tarifas, a Colômbia capitulou.

O Brasil também se viu envolvido em controvérsia semelhante. Recentemente, brasileiros deportados chegaram algemados em voos provenientes dos Estados Unidos, o que provocou indignação na administração do presidente Lula da Silva. O governo brasileiro condenou a prática como uma violação das leis e acordos internacionais, protestando contra a administração Trump. Contudo, o Brasil também sofreu pressão econômica, com o governo norte-americano ameaçando a aplicação de tarifas adicionais, acusando o país de práticas comerciais desleais e de tributação excessiva. Mais uma vez, prevaleceu a estratégia de “intimidação tarifária”. Embora o Brasil tenha protestado contra as tarifas e condenado as práticas de deportação, optou por não retaliar economicamente, preferindo negociar diplomaticamente (Byd […], 2025).

Enquanto os Estados Unidos adotam essa postura coercitiva, a China vem expandindo de forma constante sua influência na América Latina por meio de um discurso e de estratégias pragmáticas. Por exemplo, no Peru, o investimento chinês na modernização portuária exemplifica o interesse estratégico de Pequim em se firmar como um importante facilitador do comércio na região. O Projeto Portuário de Chancay, financiado por empresas chinesas, está prestes a se tornar um polo crítico para o comércio no Pacífico, conectando diretamente as exportações latino-americanas aos mercados asiáticos. Previsto para ser inaugurado em 2025, o projeto exemplifica a diplomacia de infraestrutura da China e contrasta com a ausência de compromissos de desenvolvimento semelhantes por parte de Washington (Facing […], 2025).

Imagem 1: Investimentos da China em infraestrutura na América Latina

CHINA COMO CONTRAPESO AOS EUA: COMO A INTIMIDAÇÃO TARIFÁRIA DOS EUA ABRE OPORTUNIDADES PARA PEQUIM NA AMÉRICA LATINA
Mapa demonstrando os investimentos em infraestrutura da China na América Latina, incluindo aeroportos, portos, ferrovias e rodovias. Tais projetos ressaltam a crescente influência econômica de Pequim na região. Fonte: Inter-American Dialogue (Ruiyang Huang, Ricardo Barrios, Margaret Myers).

Além disso, a presença da China no setor automobilístico da América Latina também vem se expandindo. No Brasil, fabricantes chineses de veículos elétricos, como a BYD, aproveitaram a demanda por mobilidade sustentável, alcançando vendas recordes em 2024 e oferecendo soluções acessíveis em comparação com os concorrentes norte-americanos (Miao, 2024). Enquanto os fabricantes e investidores dos Estados Unidos frequentemente negligenciavam esse setor, a capacidade da China de identificar e ocupar esse nicho ressalta seu papel como ator-chave na transformação econômica da região.

Outros exemplos do engajamento econômico chinês incluem seus fortes laços comerciais com Argentina, Brasil e Chile. Na Argentina, a China reforçou sua presença por meio de um acordo de swap cambial que estabiliza a economia local em tempos de crise (New […], 2024). No Chile, os investimentos em lítio evidenciam o interesse de Pequim por recursos críticos para os esforços globais de transição energética (Nicholls, 2023). Durante a pandemia de COVID-19, a diplomacia chinesa destacou-se ao doar mais de 239 milhões de doses de vacina e US$ 4,6 bilhões em auxílios – em nítido contraste com a resposta descoordenada de Washington na região (Rocha, 2025).

A tensão entre as políticas dos Estados Unidos e as estratégias da China é talvez mais evidente no Panamá. Recentemente, a administração Trump, liderada pelo secretário de Estado Marco Rubio, pressionou o governo panamenho a distanciar-se da Iniciativa do Cinturão e Rota (BRI), bloqueando a renovação de acordos vinculados a esse projeto da Nova Rota da Seda (Ssemanda, 2024). Enquanto os esforços de Washington visavam conter a crescente influência de Pequim, outros governos da região passaram a enxergar as parcerias com a China como uma forma de diversificar suas alianças e reduzir a dependência dos Estados Unidos.

Imagem 2: Domínio do Comércio Global: EUA x China (2000 x 2024)

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Comparação do domínio do comércio global entre os EUA e a China em 2000 e 2024, ilustrando a ascensão acelerada da China como um importante parceiro comercial mundial. Fonte: U.S. Census Bureau; Alfândega da China (Pesquisa e Visualização por Ehsan Soltani).

Enquanto Trump insiste em sua retórica “America First”, impondo barreiras tarifárias e tensionando as relações diplomáticas, Pequim adota uma postura oposta. Sob a liderança de Xi Jinping, a China promove conceitos como “Comunidade com um Futuro Compartilhado”, uma visão de cooperação global baseada no respeito mútuo e na prosperidade compartilhada (US […], 2025). Essa abordagem tem atraído governos latino-americanos que buscam alternativas menos coercitivas e mais alinhadas às suas necessidades de desenvolvimento. Em última análise, embora Trump possa ser visto, em essência, como um empresário, é a China que parece estar vendendo sua visão de forma mais eficaz.

A estratégia de Trump pode ser eficaz para pressionar governos específicos no curto prazo, mas acarreta riscos significativos no longo prazo. A postura agressiva de Washington tem levado seus parceiros históricos na América Latina a buscar alternativas em outros horizontes. Enquanto isso, Pequim, com sua presença crescente nos setores de energia, tecnologia e infraestrutura, está se consolidando como um parceiro alternativo confiável.

Contudo, essa nova configuração geopolítica também apresenta desafios para a América Latina. Diversificar alianças é, em geral, benéfico, mas a dependência excessiva da China pode introduzir novos riscos à soberania regional. Os governos latino-americanos devem equilibrar cuidadosamente as relações entre Washington e Pequim, negociando acordos que fortaleçam sua autonomia enquanto garantem o controle sobre seus recursos e políticas. O cenário atual, marcado pela intensa competição entre duas potências globais, oferece à América Latina uma oportunidade única de redefinir seu papel no sistema internacional.

Em conclusão, a estratégia de “intimidação tarifária” de Trump não apenas tensionou as relações hemisféricas, mas também acelerou o papel da China como parceiro fundamental para a América Latina. À medida que Pequim consolida sua influência por meio de abordagens pragmáticas e cooperativas, oferece à região uma alternativa a décadas de domínio dos Estados Unidos. Essa mudança representa tanto uma oportunidade quanto um desafio para as nações latino-americanas, que precisam navegar na competição entre Washington e Pequim para assegurar o desenvolvimento sustentável e uma maior autonomia na arena global.

 

REFERÊNCIAS

ARGENTINA and China agree on US$6.5 bn currency swap extension. Buenos Aires Herald, 18 out. 2023. Disponível em: https://buenosairesherald.com/economics/argentina-and-china-agree-on-us6-5-bn-currency-swap-extension. Acesso em: 2 mar. 2025.

BOLIN, Nathaniel B.; ALLMAN, David R. President Trump resets US tariffs on imports of steel and aluminum for all countries. National Law Review, 11 fev. 2025. Disponível em: https://natlawreview.com/article/president-trump-resets-us-tariffs-imports-steel-and-aluminum-all-countries. Acesso em: 5 mar. 2025.

BYD electric vehicles in Brazil. Marklines, 4 jan. 2025. Disponível em: https://www.marklines.com/en/news/319913. Acesso em: 2 mar. 2025.

FACING heat from US, Panama pulls out of China’s Belt and Road Initiative. Times of India, 6 fev. 2025. Disponível em: https://timesofindia.indiatimes.com/world/us/facing-heat-from-us-panama-pulls-out-of-chinas-belt-and-road-initiative/articleshow/117988455.cms. Acesso em: 10 fev. 2025.

MIAO, Sailor. Mapping China’s COVID-19 aid footprint. AIDDATA, 19 dez. 2024. Disponível em: https://www.aiddata.org/blog/mapping-chinas-covid-19-aid-footprint. Acesso em: 2 mar. 2025.

NEW Chinese-funded mega port in Peru set to open in 2025. Produce Report, 6 jun. 2024. Disponível em: https://www.producereport.com/article/new-chinese-funded-mega-port-peru-set-open-2025. Acesso em: 3 mar. 2025.

NICHOLLS, Sabina. China Goes After South America’s New Treasure: Lithium – PART I. Diálogo Américas, 29 jul. 2023. Disponível em: https://dialogo-americas.com/articles/china-goes-after-south-americas-new-treasure-lithium-part-i/. Acesso em: 1º mar. 2025.

ROCHA, Jorge Antonio Gonzalez. Brazil says no to trade war with US following Trump’s 25% tariffs on steel and aluminum. AA, 11 fev. 2025. Disponível em: https://www.aa.com.tr/en/americas/brazil-says-no-to-trade-war-with-us-following-trumps-25-tariffs-on-steel-and-aluminum/3479057#. Acesso em: 14 fev. 2025.

SSEMANDA, Allawi. China’s concept of building a community of shared future for mankind: a game changer for na ideal world. DWCUG, 15 abr. 2024. Disponível em: https://www.dwcug.org/chinas-concept-of-building-a-community-of-shared-future-for-mankind-a-game-changer-for-an-ideal-world/. Acesso em: 10 jan. 2025.

US deportation flights land in Colombia after Trump-Petro row. Al Jazeera, 28 jan. 2025. Disponível em: https://www.aljazeera.com/news/2025/1/28/us-deportation-flights-land-in-colombia-after-trump-petro-row. Acesso em: 30 jan. 2025.


[1] Este artigo é uma tradução de: “China as a Counterbalance: How U.S. Tariff Bullying Opens Opportunities for Beijing in Latin America”. Publicado originalmente em 8 de março de 2025 na China Hands Magazine, revista da Universidade de Yale especializada em relações EUA-China.

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Leonardo dos Santos Fernandes é Licenciado em História (Universidade Estadual do Piauí), Mestrando em Ciência Política (Universidade Federal do Piauí) e Pesquisador do Grupo de Trabalho em História Militar (GT História Militar). Atualmente, pesquisa relações sino-russas, Sul Global e ideias sobre multipolaridade mundial.

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