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Da Ditadura à Democracia: Pós Colonialismo, Segurança e Neoliberalismo No Chile
Da Ditadura à Democracia: Pós Colonialismo, Segurança E Neoliberalismo No Chile Da Ditadura à Democracia: Pós Colonialismo, Segurança E Neoliberalismo No Chile

Da Ditadura à Democracia: Pós Colonialismo, Segurança e Neoliberalismo No Chile

"Cumbre de Los Pueblos/2013" de Cintia Barenho está licenciado sob CC BY-NC-SA 2.0.

O artigo busca analisar como uma abordagem pós-colonialista de segurança contribui para explicar o neoliberalismo implementado no Chile durante a ditadura de Pinochet como forma de colonialidade do poder, bem como a persistência dessas estruturas no período democrático. A pesquisa justifica-se pela necessidade de compreender como modelos econômicos importados e racionalidades de segurança ocidentalizadas moldam Estados periféricos e aprofundam desigualdades históricas. Metodologicamente, adota-se revisão bibliográfica e abordagem teórico-conceitual para relacionar conceitos de segurança pós-colonial, neoliberalismo e colonialidade do poder ao caso chileno. Os resultados mostram que o regime militar utilizou o discurso de segurança para legitimar reformas neoliberais alinhadas a interesses externos, reorganizando o Estado de forma autoritária e excludente. Evidenciam também que, após a redemocratização, o Chile manteve pilares centrais do modelo neoliberal, preservando desigualdades e vulnerabilidades sociais. Conclui-se que a abordagem pós-colonial de segurança revela como o neoliberalismo chileno funcionou como instrumento de dominação inserido em hierarquias globais e como suas estruturas se perpetuaram para além da ditadura, limitando alternativas democráticas e emancipatórias.

Introdução

O presente artigo investiga como uma abordagem pós-colonialista de segurança contribui para explicar o neoliberalismo implementado no Chile como forma de colonialidade do poder, bem como a persistência de suas estruturas no período pós-ditatorial. Em perspectiva pós-colonial, a noção de segurança adquire significado distinto para Estados periféricos, cuja formação histórica e institucional é marcada por trajetórias coloniais, fraturadas e frequentemente autoritárias. Como argumenta Ayoob (1995), no chamado Terceiro Mundo, a segurança, diferentemente do que ocorre em Estados ocidentais, envolve uma preocupação simultaneamente interna e externa, uma vez que a fragilidade estrutural desses Estados decorre não da ausência de recursos materiais, mas da legitimidade limitada acumulada ao longo de processos estatais incompletos ou interrompidos. Tal condição faz com que questões políticas, sociais e econômicas internas sejam percebidas pelos regimes como ameaças tão graves quanto pressões internacionais, podendo desestabilizar instituições e governos (Peoples e Vaughan-Williams, 2010).

A partir dessa perspectiva, compreende-se que Estados periféricos tendem a ampliar o conceito de segurança para além de ameaças militares, incorporando dimensões econômicas e sociais como elementos centrais de sua estabilidade. É nesse contexto que o Chile, durante a ditadura de Augusto Pinochet (1973–1990), adotou um projeto neoliberal profundamente alinhado à política externa dos Estados Unidos e às diretrizes intelectuais dos Chicago Boys. Sob a lógica de segurança ampliada descrita por Ayoob, o regime interpretou a reestruturação econômica como instrumento para garantir a ordem interna, consolidar o poder estatal e alinhar-se ao bloco hegemônico durante a Guerra Fria. O país tornou-se, assim, um laboratório de modernização autoritária, cujo modelo, embora inicialmente impulsionasse o crescimento econômico, gerou desigualdades estruturais profundas e reforçou dependências externas, configurando o que Castells (2005 apud Nascimento, 2019) descreve como um sistema “autoritário, liberal e excludente”.

Analisar o neoliberalismo chileno como expressão de colonialidade do poder permite compreender como esse processo não representou uma ruptura com a lógica colonial, mas sua reatualização no marco da economia global. As reformas neoliberais operaram como mecanismos de disciplinamento social e de inserção subordinada do Chile na ordem internacional, legitimadas por discursos de segurança que associavam desenvolvimento econômico, controle social e alinhamento ideológico ao Ocidente. A permanência das estruturas neoliberais no pós-ditadura evidencia a profundidade desse processo: mesmo após a redemocratização, a lógica de mercado, a dependência financeira e a desigualdade social continuaram a organizar a vida política e econômica do país, demonstrando a resiliência das formas contemporâneas de colonialidade.

Dessa forma, o objetivo deste artigo é analisar de que maneira uma abordagem pós-colonialista de segurança permite compreender o neoliberalismo chileno como manifestação de colonialidade do poder e identificar como essas estruturas de dominação se mantiveram no período pós-ditatorial. Para orientar essa análise, busca-se responder à seguinte pergunta de pesquisa: Uma abordagem pós-colonialista de segurança ajuda a explicar o neoliberalismo implementado no Chile enquanto forma de colonialidade do poder? E de que maneira essas estruturas persistiram no pós-ditadura?

A Consolidação do Neoliberalismo no Chile sob a Ótica Pós-colonial

O contexto histórico, político e econômico que precedeu e sucedeu o golpe militar de 11 de setembro de 1973 no Chile mostra-se intrínseco ao processo de consolidação do neoliberalismo no país. A “via chilena ao socialismo” impulsionada pelo presidente Salvador Allende (1970-1973), buscava promover a equidade social e fortalecer o controle estatal sobre setores estratégicos da economia, implementando profundas reformas estruturais, como a nacionalização de indústrias estratégicas e a redistribuição de terras. Solimano e Zapata- Román (2024, p. 15, tradução nossa), definem a agenda de Allende como “neo-socialista”, na qual “a reforma econômica em favor da classe trabalhadora coexistiria com políticas destinadas a transformar e aprofundar o sistema político de democracia representativa, considerado elitista e carente de participação popular […]”.

Contudo, nesse mesmo cenário, a polarização política no país tornou-se mais intensa. Por um lado, as elites econômicas, políticas e militares, opostas às políticas de nacionalização e reforma agrária, nutriam ressentimento a essas mudanças econômicas e políticas estruturais, que as afastavam do poder e o direcionava às classes trabalhadoras. Tais camadas viam na intervenção armada a única solução para conter o que consideravam uma crise nacional gerada pelo governo de Allende. Ressalta-se também o processo de fragmentação e enfraquecimento da esquerda chilena, catalisado pelas divergências estratégicas entre “quem se mantinha leal à estratégia institucional de Allende e quem desconfiava das possibilidades do ‘Estado burguês'” (Casals e Estefane, 2021, p. 221, tradução nossa). Fragmentada e incapaz de unificar sua resistência, a esquerda tornou-se um alvo fácil frente às forças contrarrevolucionárias, criando um ambiente propício para a intervenção militar que se seguiu e depôs a democracia no Chile em 1973 (Casals e Estefane, 2021). O golpe marcou não apenas a remoção da Unidad Popular do poder no Chile, mas também o início de um regime autoritário que se consolidaria como uma ditadura militar sanguinária concentrada sob o comando do general Augusto Pinochet, que violentamente eliminou contrapesos democráticos, reprimiu a oposição e consolidou seu controle sobre as Forças Armadas e o aparato estatal. (Rojo, 2019).

Mediante as condições emergenciais e de crise econômica após a tomada do poder pelos militares, o Chile tornou-se palco propício de um experimento socioeconômico radical, através da implementação dos preceitos concebidos pelo grupo de economistas chilenos Chicago Boys, formados na Universidade de Chicago, notória por seu alinhamento monetarista e neoliberal. Sob uma perspectiva pós-colonial, a chegada desse corpo técnico estrangeirizado intelectualmente formado em um centro hegemônico do Norte Global não pode ser entendida como neutra, uma vez que o próprio conhecimento não é neutro: ele está “arrastado em propósitos imperiais/coloniais, desde o Renascimento europeu até o neoliberalismo estadunidense, e se fundamenta em linguagem, instituições e localizações geopolíticas específicas” (Mignolo, 2007, p. 20 apud Zaamout, 2020). Essa formulação ajuda a evidenciar como o receituário neoliberal importado se inscreve em dinâmicas históricas de assimetria epistêmica: a imposição de modelos econômicos concebidos fora do contexto local reproduz padrões de dependência e hierarquização do saber típicos da lógica pós-colonial.

Esses técnicos executaram um programa de reformas neoliberais informalmente conhecido como “El Ladrillo”, orientado pela busca por estabilidade macroeconômica, liberalização do comércio e redução drástica da intervenção estatal, justificando-o como “a única solução para resolver os problemas que o Chile enfrentava em questão de desenvolvimento” (Gárate, 2012 apud Rojo, 2019, tradução nossa). As medidas implementadas incluíram privatizações em massa, desregulação do mercado, diminuição de tarifas e a criação de mercados privados em áreas como saúde, educação e previdência (Rojo, 2019).

A centralização do poder e o autoritarismo no regime de Pinochet foram essenciais para a introdução cômoda e sem rejeições relevantes das reformas curadas pelos Chicago Boys. A violência em grande escala permitiu a consolidação efetiva da ditadura e a implementação dos projetos neoliberais refundacionais, executando uma política econômica ortodoxa que visava não apenas estabilizar a economia, mas também reconfigurar as bases estruturais da sociedade chilena através de uma retórica antimarxista de “salvação” (Casals e Estefane, 2021). Assim, sustentou-se um ideário onde o autoritarismo e a violência institucionalizada contra opositores eram considerados componentes necessários para o processo de restauração do Chile sem a interferência de vozes dissidentes. A afirmação de Sergio de Castro de que “a efetiva liberdade das pessoas só se garante através de um governo autoritário” (Dipres, 1978, p. 229 apud Rojo, 2019, p. 157, tradução nossa), ilustra os esforços da propagação de uma ideologia antidemocrática alienada, na qual as “normas essenciais para a estabilidade do sistema não estivessem sujeitas ao processo político, e as forças armadas garantissem seu cumprimento” (Dipres, 1978, p. 305 apud Rojo, 2019, p. 153, tradução nossa).

Ademais, o plano de transformação econômica proposto pelos Chicago Boys era também uma solução ao problema endêmico que observavam no funcionamento do Estado chileno até então, considerando-o disfuncional, ineficiente, arbitrário e incapaz de promover crescimento econômico sustentável. Argumentava-se a favor de uma tecnocracia, preferindo que as decisões sociopolíticas fossem tomadas por especialistas e não pelas maiorias democráticas e os políticos que as representavam, uma vez que os técnicos prezariam pela racionalidade, enquanto a massa popular e seus representantes nem sempre assim o fariam (Rojo, 2019).

Não obstante, o caso pioneiro de liberalização econômica radical e autoritária no Chile mostrou-se diretamente fomentado pela influência dos Estados Unidos e de organizações internacionais. No contexto da Guerra Fria, os EUA viam o Chile como uma barreira contra a propagação do socialismo na América Latina, fornecendo apoio político e econômico ao regime de Pinochet. O Church Report produzido pelo Comitê de Inteligência do Senado dos Estados Unidos durante a década de 1970 confirmou o envolvimento da administração de Richard Nixon, através da Central Intelligence Agency (CIA), no processo de desestabilização política e econômica do regime de Allende a favor do golpe militar de setembro de 1973.

Além disso, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) ofereceram suporte financeiro condicionado à adoção de políticas de ajuste estrutural e liberalização econômica durante a ditadura no Chile. Essas organizações não apenas forneceram recursos, mas também legitimaram internacionalmente o “experimento chileno”, segmentado em uma série de programas de alívio financeiros destinados, principalmente, aos novos fundos de pensão provenientes da privatização do sistema de seguridade social (Solimano e Zapata-Román, 2024).

Sob as lentes da colonialidade do poder, formulada por Quijano (2005), observa-se que as reformas neoliberais no Chile integraram um processo de reconfiguração profunda das estruturas sociais, políticas e econômicas do país. Tal perspectiva evidencia que hierarquias raciais, culturais e econômicas, historicamente consolidadas em sociedades pós-coloniais, continuam a moldar e perpetuar relações de exclusão. No contexto chileno, o projeto neoliberal implementado sob Pinochet não apenas reorganizou a economia, mas também reproduziu e intensificou padrões coloniais de dominação, reforçando desigualdades estruturais e restringindo o acesso de grupos subalternizados — incluindo povos originários, classes trabalhadoras e setores populares — aos direitos e à cidadania plena.

Ainda que tenha produzido resultados iniciais associados à aceleração do crescimento econômico, à estabilidade macroeconômica e ao aumento das exportações, o modelo neoliberal chileno gerou consequências sociais profundas e controversas. Essa leitura otimista revela-se limitada ao negligenciar efeitos estruturais como desindustrialização, financeirização, deterioração ecológica e a persistência de desigualdades, que acompanharam a implementação dessas políticas (Solimano e Zapata-Román, 2024). A chamada “política de choque” resultou em significativos aumentos do desemprego, queda salarial, redução da participação do trabalho na renda nacional e precarização de serviços sociais essenciais. Conforme apontam Casals e Estefane (2021), o impacto dessas reformas contribuiu ainda para a desestruturação da relação entre Estado e sociedade civil, transformando de maneira profunda e duradoura a dinâmica social e econômica do país.

À luz dessas considerações, torna-se evidente que o caso chileno não pode ser analisado apenas como um laboratório econômico, mas como parte de uma dinâmica mais ampla de dominação inscrita na lógica pós-colonial. Como indicam estudos pós-coloniais, “as relações de poder […] sistematicamente ‘deturpam o papel do Sul global nas relações de segurança e levam a uma visão distorcida da Europa e do Ocidente na política mundial” (Barkawi; Laffey, 2006, P. 329, Apud Zaamout, 2020), produzindo narrativas em que intervenções externas e projetos autoritários são revestidos de legitimidade civilizatória. No Chile, essa lógica convergiu com o discurso de que “as populações subalternas são frequentemente consideradas necessitadas de um salvador ‘branco’ ocidental – para salvá-las de si mesmas e para civilizá-las” (Zaamout, 2020), sustentando a construção de uma ameaça interna, o “perigo marxista” que justificou tanto o golpe quanto a imposição das reformas neoliberais. Assim, o processo de reestruturação econômica e política conduzido durante a ditadura de Pinochet deve ser compreendido não apenas como uma escolha tecnocrática, mas como expressão de um aparato de segurança profundamente enraizado em padrões coloniais de poder, que naturalizam a tutela externa, legitimam a violência estatal e perpetuam a posição subordinada das sociedades latino-americanas na hierarquia global. Nesse sentido, o “experimento chileno” revela-se inseparável da colonialidade contemporânea: um projeto que, ao mesmo tempo em que prometia ordem e modernização, reproduziu dependências históricas, aprofundou desigualdades e consolidou um modelo de exclusão sustentado por estruturas de poder transnacionais.

A Persistência das Estruturas de Dominação no Pós Ditadura

A experiência chilena sob Pinochet pode ser interpretada não como um simples exemplo de “colonialidade do poder” abstrata, mas como parte de uma história entrelaçada de (in)segurança marcada por hierarquias globais de conhecimento e poder. Nessa perspectiva, o neoliberalismo imposto durante a ditadura não constitui apenas um projeto econômico, mas uma tradução local de racionalidades ocidentais de governança, reafirmando o que Hönke e Müller (2012), a partir de uma perspectiva pós-colonial nos estudos críticos de segurança, identificam como o Ocidente-centrismo na produção de segurança. Embora esses autores não operem com o vocabulário da tradição latino-americana da colonialidade do poder, suas análises mostram como formas de governança ocidentalizadas circulam e se enraízam em contextos periféricos, produzindo hierarquias. Isso permite compreender que práticas e discursos de segurança — importados, adaptados e naturalizados — reproduzem assimetrias e definem quem é considerado governável, protegido ou exposto à precarização. O neoliberalismo chileno, portanto, operou como parte de um regime mais amplo de interações desiguais que estrutura vulnerabilidades e reforça hierarquias sociais, de modo a persistir as relações de dominação mesmo após o fim formal do colonialismo.

Essa leitura ganha densidade quando articulada ao diagnóstico de Ayoob sobre os Estados do Terceiro Mundo. Para Ayoob (1995), Estados periféricos enfrentam um “dilema de segurança” estrutural derivado da formação estatal incompleta, da construção regional e da crise econômica – três dimensões profundamente atravessadas pelo legado colonial. Esses Estados ocupam, assim, uma posição subalterna no sistema internacional, marcada por instituições frágeis e por uma dependência econômica persistente (Peoples e Vaughan-Williams, 2010).  Aplicado ao caso chileno, o golpe de 1973 e o subsequente laboratório neoliberal consolidaram um ambiente em que o Estado, já tensionado por dinâmicas de formação incompleta e por sua inserção subordinada na economia mundial, foi reconfigurado para proteger interesses específicos – elites econômicas, investidores estrangeiros e estruturas de acumulação – ao mesmo tempo em que externalizava riscos e vulnerabilidades para os setores populares.

Nesse contexto, a reconfiguração do papel do Estado sob o regime de Pinochet não pode ser compreendida apenas como uma escolha ideológica, mas como parte da própria lógica de um Estado periférico enfrentando o dilema de segurança descrito por Ayoob. Ao abandonar sua função redistributiva e protetiva em favor de uma racionalidade de mercado, o Chile aprofunda a insuficiência estatal, agravando sua incapacidade de promover segurança humana abrangente. Os cortes substanciais em políticas sociais – reduções de até 73% em educação, 40% em saúde e 60% em habitação (Davis-Hamel, 2012, p. 81) – evidenciam essa dinâmica: o Estado passa a desempenhar uma segurança seletiva, orientada pela proteção dos fluxos econômicos e pela disciplina social, enquanto expõe minorias sociais à insegurança cotidiana.

Os impactos materiais do modelo consolidaram essa assimetria. A deterioração dos indicadores sociais – desemprego médio de 14% entre 1975 e 1981, queda salarial para 75% dos níveis de 1970, Gini de 0,54 (Davis-Hamel, 2012, p. 83; CEPAL apud Cavieres, 2011, p. 115) – revela como a colonialidade do poder opera como administração de desigualdade. Esses números evidenciam a persistência das vulnerabilidades estruturais associadas à insuficiência estatal, tal como descrito por Ayoob, especialmente em contextos onde capacidades sociais são substituídas por mecanismos de mercado.

A transição democrática pós-1990 não rompeu com essas estruturas. A herança neoliberal tornou-se o maior desafio dos governos da Concertación, que passaram a operar dentro de um marco institucional herdado da ditadura, um arcabouço que restringia a ação estatal e limitava redistribuição, proteção social e intervenção econômica. A partir de uma abordagem crítica pós-colonial, essas continuidades não são interpretadas como meros legados institucionais, mas como expressões de relações históricas e persistentes de dominação global. Como esboça Warren (2023), o pós-colonialismo busca analisar o mundo a partir das experiências e perspectivas dos indivíduos historicamente marginalizados pelo colonialismo e pelo imperialismo, questionando a universalização do Estado, a suposta neutralidade do discurso ocidental de progresso e segurança e a “bondade” das potências globais. Sob essa lente, o modelo neoliberal chileno – formulado e legitimado por matrizes intelectuais ocidentais – reforça hierarquias neocoloniais ao priorizar estabilidade macroeconômica e disciplina de mercado, enquanto limita alternativas emancipatórias e reproduz formas sutis de subordinação.

Essa continuidade estrutural expressa a persistência da colonialidade do poder no interior do próprio Estado democrático. A concentração de riqueza, o controle privado sobre setores essenciais e a captura de decisões econômicas por elites limitaram a capacidade da Concertación de romper com a lógica neoliberal. Em 2019, o 1% mais rico detinha 24% do PIB (Barrocal, 2019), exemplificando a permanência de estruturas de acumulação originadas na ditadura.

O acúmulo dessas tensões explodiu nas mobilizações de 2019, que esboçaram a insegurança social como efeito direto da colonialidade neoliberal. A resposta institucional limitada reforçou o diagnóstico de Santos (2014) sobre a “democracia protegida”, que opera como enclave autoritário dentro da ordem democrática. A proposta constitucional progressista de 2022, embora buscasse romper com paradigmas coloniais e expandir direitos, foi rejeitada por 61,87% do eleitorado, evidenciando a força das estruturas culturais, institucionais e econômicas que sustentam o modelo. Em síntese, uma abordagem pós-colonialista de segurança permite compreender como a colonialidade do poder e o neoliberalismo se articularam para reconfigurar o Estado chileno, produzindo formas persistentes de desigualdade, insegurança social e restrições institucionais que que seguem operando décadas após o fim da ditadura.

Considerações Finais

A análise desenvolvida ao longo deste artigo demonstra que uma abordagem pós-colonialista de segurança oferece um arcabouço teórico sólido para compreender o neoliberalismo implementado no Chile enquanto forma de colonialidade do poder, bem como a persistência de suas estruturas de dominação no período pós-ditatorial. Sob a perspectiva de Ayoob (1995), Estados periféricos, como o Chile, enfrentam dilemas de segurança intrinsecamente ligados à formação estatal incompleta, à dependência econômica e à fragilidade institucional herdadas de processos coloniais. Essa condição explicita porque o regime de Pinochet pôde justificar a adoção do neoliberalismo como estratégia para restaurar a “ordem” e garantir a estabilidade interna, associando segurança à reestruturação econômica e ao alinhamento ideológico ao Ocidente.

Ao integrar essa lente com o conceito de colonialidade do poder, de Quijano, torna-se evidente que o neoliberalismo chileno não representou apenas um projeto econômico tecnocrático, mas uma atualização de hierarquias globais de conhecimento e poder. A atuação dos Chicago Boys, intelectualmente formados em centros hegemônicos, e o apoio político e financeiro de potências ocidentais como os Estados Unidos, evidenciam que o Chile foi inserido em um regime de governança que reproduzia dependência e subordinação. Assim, o “experimento chileno” operou como mecanismo de disciplinamento social que, ao invés de romper com padrões coloniais, os aprofundou, consolidando desigualdades, fragilizando a capacidade protetiva do Estado e restringindo o espectro democrático.

No pós-ditadura, a manutenção dos pilares estruturais do neoliberalismo – desde o arcabouço institucional da Constituição de 1980 até a centralidade do mercado como organizador da vida social – revela que as formas de dominação instauradas durante a ditadura permaneceram operantes. Conforme argumentam os estudos pós-coloniais críticos de segurança, a circulação de modelos ocidentalizados de governança tende de fato a enraizar hierarquias que delimitam quem deve ser protegido e quem pode ser exposto à precarização. No caso chileno, essa lógica se manifestou na continuidade de políticas que privilegiaram investidores, elites econômicas e estabilidade macroeconômica em detrimento da segurança humana e dos direitos sociais, produzindo padrões persistentes de desigualdade, financeirização e exclusão.

As mobilizações sociais de 2019, portanto, não surgem como um evento isolado, mas como reação acumulada à insegurança social produzida por décadas de neoliberalização e pela permanência da colonialidade do poder no interior do Estado democrático. A rejeição da nova Constituição em 2022, embora complexa, evidencia a resiliência dessas estruturas e a força de um imaginário neoliberal que naturaliza hierarquias e limita alternativas redistributivas. Tal resultado reflete não apenas tensões internas, mas também a influência duradoura de pressões externas e de discursos ocidentais sobre desenvolvimento, progresso e segurança que ainda moldam o horizonte político chileno. Dessa forma, as evidências apresentadas permitem responder diretamente à pergunta de pesquisa. Em primeiro lugar, confirmam que uma abordagem pós-colonialista de segurança explica o neoliberalismo chileno como expressão de colonialidade do poder, articulando dependência externa, disciplinamento social e reprodução de hierarquias globais. Em segundo lugar, mostram como essas estruturas permaneceram no pós-ditadura por meio da continuidade institucional, das racionalidades econômicas importadas e da centralidade do mercado como eixo organizador da vida social.

Assim, confirma-se o objetivo central do artigo: demonstrar que uma abordagem pós-colonialista de segurança não apenas explica o neoliberalismo implementado sob Pinochet como expressão de colonialidade do poder, mas também sua reprodução nas décadas posteriores, mesmo sob instituições democráticas. O desafio contemporâneo do Chile reside, portanto, em reconstruir um projeto estatal capaz de romper com esses enclaves autoritários e econômicos, reposicionando a segurança como proteção social ampla e não como mera preservação de mercados. Isso implica repensar tanto o marco institucional interno quanto os condicionamentos externos que continuam a sustentar assimetrias globais. O caso chileno reafirma, assim, que nenhum modelo de desenvolvimento pode ser considerado bem-sucedido quando se apoia na perpetuação de desigualdades estruturais. Superá-las exige enfrentar simultaneamente as heranças coloniais, os limites do neoliberalismo e os imperativos de segurança que o sustentam — um processo que, embora difícil, é indispensável para a construção de uma ordem mais justa, democrática e emancipada.

Por fim, a limitação dessa pesquisa consiste em uma análise que baseia-se majoritariamente em literatura secundária e interpretações teóricas, o que pode não captar toda a complexidade das dinâmicas internas chilenas, abrindo espaço para investigações empíricas futuras que aprofundem essas questões por meio de dados primários.

Referências

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Estudante de graduação em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás, atua como estagiária na Superintendência Central de Captação de Recursos do Estado de Goiás. Seus principais temas de pesquisa incluem segurança internacional e política internacional. Atualmente, desenvolve pesquisa de iniciação científica sobre crime organizado transnacional na Guiana e no Suriname e exerce a função de Coordenadora de Eventos da Liga Acadêmica de Estudos em Segurança Internacional e Defesa.

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