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Mulheres e Clima: Perspectivas sobre a Agenda Climática

Entrevista com Flávia Lanza
Por Hadassa Bisi | Revista Relações Exteriores

A crise climática não afeta todos da mesma forma. Mulheres e meninas compõem a maior parte da população deslocada por eventos climáticos extremos, são frequentemente responsáveis pela coleta de água, pela agricultura familiar e pelo cuidado com a segurança alimentar. Ainda assim, a agenda de gênero segue marginal nas negociações climáticas internacionais.

Para discutir essa lacuna — e os avanços recentes — a Revista Relações Exteriores conversou com Flávia Lanza, doutoranda em Relações Internacionais pela PUC Minas, pesquisadora de cooperação internacional para mudança do clima, com foco nos países-ilha da Oceania. Na entrevista, Flávia explica por que gênero e clima são agendas inseparáveis, como essa pauta evoluiu dentro das COPs e o que precisa acontecer para que a justiça climática de gênero deixe de ser apenas uma declaração retórica.


Da cooperação climática à agenda de gênero

Hadassa Bisi: Flávia, você pesquisa cooperação internacional para mudança do clima. Como a agenda de gênero entrou na sua trajetória acadêmica?

Flávia Lanza:
Sou doutoranda, mestre e bacharel em Relações Internacionais pela PUC Minas e trabalho com cooperação internacional para mudança do clima, especialmente na região da Oceania. Estudo as vulnerabilidades específicas dos países-ilha e dialogo muito com teorias do institucionalismo e do regionalismo.

A agenda de gênero entrou mais recentemente na minha trajetória, em trabalhos que venho desenvolvendo com a professora Letícia Brito, da Unipampa. Mesmo não sendo o foco central da minha tese, é um tema que considero essencial. Como mulher, preciso entender o que estou reivindicando. Temos pensado especialmente as vulnerabilidades de mulheres em países-ilha e de mulheres indígenas, o que tem sido um processo de aprendizado teórico muito enriquecedor.


Clima e gênero: uma relação estrutural

Hadassa Bisi: Como as agendas de mudança climática e de gênero se conectam?

Flávia Lanza:
Existem dois pontos centrais. O primeiro é a vulnerabilidade. A crise climática é uma crise que explora precariedades já existentes. Pessoas com menos acesso à propriedade, à educação e ao poder de decisão econômica tendem a ser mais afetadas.

Os dados da ONU mostram números muito expressivos: cerca de 80% das pessoas deslocadas por mudanças climáticas são mulheres e meninas. Isso não é um acaso. É resultado de normas sociais que limitam a mobilidade feminina, da falta de acesso a recursos para recuperação após desastres e do aumento dos riscos de violência em contextos de crise climática.

Em muitos lugares, as mulheres são responsáveis pela coleta de água. Em cenários de seca ou insegurança hídrica, o impacto é direto. O mesmo ocorre na agricultura familiar e na garantia da alimentação. Quando a crise climática atinge a produção agrícola, ela compromete não apenas o acesso ao alimento, mas também sua qualidade nutricional.

O segundo ponto é o contraponto a essa narrativa de vulnerabilidade: mulheres como agentes centrais de solução. Mulheres quilombolas e de comunidades tradicionais possuem conhecimentos fundamentais para lidar com a crise climática. Elas lideram práticas agrícolas resilientes, gerenciam bancos comunitários e constroem estratégias locais de adaptação. No entanto, esse protagonismo raramente se reflete nos espaços formais de negociação, como as COPs.

A mudança do clima não cria a desigualdade de gênero, mas amplia e intensifica ameaças que já existiam.


Interseccionalidade e justiça climática

Hadassa Bisi: Você menciona conceitos importantes das Relações Internacionais para entender esse debate.

Flávia Lanza:
Sim. Um deles é a interseccionalidade, que ajuda a compreender como gênero, raça, classe e território se articulam para produzir situações de discriminação ou privilégio. Essas dimensões não atuam de forma isolada.

Outro conceito central é o de justiça climática. Não basta pensar apenas na dívida histórica entre Norte Global e Sul Global. É preciso incorporar a justiça de gênero como eixo central das políticas climáticas, se quisermos uma transformação sistêmica nos espaços de governança do clima, como as COPs.


Por que clima e gênero ainda não dialogam nas políticas públicas?

Hadassa Bisi: Ainda é raro ver políticas climáticas com perspectiva de gênero — e vice-versa. Por quê?

Flávia Lanza:
Há vários obstáculos. Um deles é a escassez de dados desagregados. Sabemos que mulheres são desproporcionalmente afetadas, mas precisamos entender onde isso ocorre, em quais faixas etárias, com quais outros marcadores sociais. Sem dados, é difícil formular políticas eficazes.

Outro ponto são as NDCs, as Contribuições Nacionalmente Determinadas apresentadas pelos países nas COPs. Muitas vezes elas nem são entregues, e quando são, raramente incorporam metas claras de justiça climática de gênero.

A Declaração de Belém, por exemplo, menciona justiça climática, mas não traz compromissos específicos relacionados a gênero. Dizer que “é preciso considerar gênero” é fácil. Difícil é definir como isso se traduz em financiamento, metas e implementação concreta.

Além disso, a agenda de gênero não pode ser um apêndice. Ela precisa ser um componente central das políticas climáticas. Isso passa por representação política real: mulheres em posições de decisão, com poder efetivo de fala, em políticas ambientais, energéticas e climáticas.


A trajetória da agenda de gênero nas COPs

Hadassa Bisi: Como essa pauta evoluiu dentro das Conferências do Clima?

Flávia Lanza:
A Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima foi criada em 1992, e nas primeiras COPs a agenda de gênero era praticamente inexistente.

O primeiro marco foi a COP 7, em 2001, em Marrakech, quando surgiu uma menção à necessidade de igualdade de gênero nos espaços de decisão. Mas entre 2001 e 2011 o tema desapareceu das discussões formais, porque o foco passou a ser a implementação do Protocolo de Quioto e seus mecanismos de mercado.

A pauta retorna na COP 18, em 2012, com a recomendação de maior presença feminina nas delegações. O verdadeiro ponto de virada ocorre na COP 20, em 2014, em Lima, com o Programa de Trabalho de Lima sobre Gênero, que cria um mandato mais robusto para integrar gênero em políticas e ações climáticas.

Na COP 23, em 2017, esse programa foi operacionalizado com a criação do Plano de Ação de Gênero. Em 2019, na COP 25, esse plano foi aprimorado, com validade de cinco anos, que expirou no ano passado.

Na COP 29, houve um consenso sobre a necessidade de estender esse programa por mais dez anos, com negociação ao longo de 2025 e possível adoção na COP 30.


O que esperar da COP 30?

Hadassa Bisi: A renovação do plano é suficiente?

Flávia Lanza:
É necessária, mas não suficiente. Precisamos de um plano mais ambicioso e, sobretudo, de financiamento climático sensível ao gênero.

O Fundo de Perdas e Danos, por exemplo, precisa incorporar essa perspectiva desde o início. A compensação não pode ser apenas econômica. Soluções baseadas em mercado, como compensação de carbono, muitas vezes levam à apropriação de terras de comunidades indígenas e tradicionais, afetando diretamente as mulheres que dependem desses territórios.

A COP 30, na Amazônia, é altamente simbólica. Mas o simbolismo precisa se traduzir em políticas centradas nas vozes da floresta: mulheres indígenas, quilombolas e da sociedade civil brasileira. Também é fundamental reconhecer a economia do cuidado como parte da transição climática justa.


Quem lidera essa agenda?

Hadassa Bisi: Existe algum ator central nessa pauta?

Flávia Lanza:
Vejo um protagonismo grande da sociedade civil e de organizações internacionais, como a ONU Mulheres. No Brasil, instituições como o Instituto Talanoa, o Centro Soberano em Clima e o Observatório do Clima têm um papel fundamental.

Não é uma agenda isolada. Há muitas pesquisadoras e ativistas debatendo justiça climática de gênero. Inclusive, a Associação Brasileira de Relações Internacionais promoverá um webinário sobre gênero e COP 30, o que mostra como esse debate está se consolidando.

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