No século V a.C., o historiador ateniense Tucídides registrou o colapso do equilíbrio grego entre Atenas e Esparta. Em sua análise sobre a Guerra do Peloponeso, ele atribuiu o conflito a uma dinâmica precisa. O crescimento do poder ateniense e o temor que esse crescimento provocou em Esparta tornaram a guerra, segundo seus termos, inevitável. Mais de dois milênios depois, o cientista político Graham Allison recuperou essa leitura para descrever um padrão recorrente na história internacional: o confronto quase estrutural entre uma potência estabelecida e uma potência ascendente. Batizou-o de Armadilha de Tucídides.
A tese de Allison não é determinista. Das dezesseis vezes em que esse padrão se repetiu nos últimos cinco séculos, doze terminaram em guerra. Quatro não. A diferença, em cada caso, esteve menos na estrutura do sistema internacional e mais nas decisões concretas tomadas por líderes específicos, em momentos específicos. É essa margem, estreita, mas real, que interessa observar quando se olha para a sequência de eventos que EUA e China vêm produzindo, ano após ano, desde que a rivalidade entre as duas potências deixou de ser hipótese de gabinete e passou a ser fato cotidiano.
O argumento aqui é simples. Quase todo movimento estratégico relevante do sistema internacional recente, tomado por Washington ou por Pequim, mas sobretudo por Washington, acaba convergindo para essa mesma armadilha estrutural. Não por acidente. Por acúmulo.
Venezuela, o petróleo e o hub chinês
Em janeiro de 2026, uma operação militar americana em Caracas culminou na captura de Nicolás Maduro. Trump anunciou que os Estados Unidos administrariam o país durante um período de transição e que petroleiras americanas assumiriam a exploração das maiores reservas de petróleo do planeta. Delcy Rodríguez, vice de Maduro, assumiu a presidência interina.
O aspecto menos comentado da operação é sua dimensão sino-russa. A Venezuela era, até então, um dos principais pontos de apoio da presença chinesa na América do Sul, com bilhões de dólares em empréstimos vinculados a petróleo, projetos de infraestrutura e uma relação diplomática cultivada havia mais de duas décadas. Horas antes de sua captura, Maduro recebeu o representante especial da China para assuntos latino-americanos, um encontro que, em retrospecto, sintetiza a disputa de fundo. Analistas apontam que o objetivo americano não se limita ao controle do petróleo. Inclui o afastamento deliberado da Venezuela da órbita chinesa, russa e cubana. Pequim classificou a operação como ilegal.
Irã, o caos energético como terreno comum
Desde 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel conduzem ataques coordenados contra o Irã. Teerã respondeu bloqueando o Estreito de Ormuz, uma das rotas energéticas mais estratégicas do mundo, forçando negociações emergenciais com Omã para a criação de um mecanismo alternativo de trânsito marítimo.
Os principais parceiros externos do regime iraniano no período de isolamento são, mais uma vez, China e Rússia, compradores regulares do petróleo iraniano e vozes de apoio diplomático em fóruns multilaterais. O padrão se repete. Onde há pressão americana direta sobre um Estado sancionado ou hostilizado, há também, quase invariavelmente, um vínculo econômico chinês ou russo por trás.
Ucrânia, a fronteira ocidental da mesma disputa
A invasão russa da Ucrânia em 2022, justificada pelo Kremlin por razões de segurança regional diante da perspectiva de adesão ucraniana à Otan, resultou em um regime de sanções ocidentais sem precedentes recentes contra Moscou, comerciais, financeiras e tecnológicas. A Rússia, principal parceiro estratégico da China na Eurásia, viu-se pressionada a aprofundar sua dependência econômica de Pequim exatamente no momento em que o Ocidente tentava isolá-la. O efeito colateral da guerra na Ucrânia foi também asiático. Empurrou ainda mais a aproximação sino-russa.
O “Dia D econômico”
Em agosto de 2026, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, anunciou uma nova rodada de sanções contra o Irã e contra qualquer país, banco, empresa ou instituição que auxilie Teerã a contornar as restrições já existentes. Trump batizou a medida de “Dia D econômico” e prometeu punir severamente os aliados comerciais do regime iraniano.
O anúncio fecha o círculo. Os maiores parceiros comerciais do Irã em meio ao bloqueio são, uma vez mais, China e Rússia. Uma medida desenhada oficialmente para pressionar Teerã tem como efeito prático colateral, e talvez como objetivo não declarado, elevar o custo de operação das duas potências que Washington já trata como rivais estratégicos em praticamente todos os outros tabuleiros. O comercial, o tecnológico, o militar e agora, mais uma vez, o energético.
O acúmulo como caminho, não como destino
Isoladamente, cada um desses episódios tem lógica própria. Uma intervenção movida por interesse petrolífero, uma guerra motivada por proliferação nuclear, uma invasão justificada por segurança regional, um pacote de sanções voltado a um Estado pária. Vistos em conjunto, formam um padrão em que praticamente todo caminho disponível para a ação estratégica americana esbarra, de um jeito ou de outro, em interesses chineses ou russos, e aprofunda o antagonismo entre Washington e Pequim.
É a mesma mecânica observada às vésperas das duas guerras mundiais. Nenhuma potência em 1914 ou em 1939 tomou decisões pensando estar precipitando um conflito de escala continental. Cada movimento, uma aliança, um ultimato, uma mobilização, uma zona de exclusão, parecia, no momento em que foi tomado, uma resposta racional e limitada a um problema imediato. A guerra resultante não era o objetivo de nenhum dos decisores centrais. Era o resíduo acumulado de decisões tomadas sem que ninguém, isoladamente, escolhesse a guerra.
A Armadilha de Tucídides não é uma sentença. É uma tendência estrutural que se torna realidade por meio de decisões concretas, tomadas por pessoas concretas, em resposta a problemas que raramente são formulados em termos de rivalidade entre grandes potências. Venezuela, Irã, Ucrânia e agora o Dia D econômico não são, cada um isoladamente, um passo em direção à guerra entre EUA e China. Mas a soma deles compõe exatamente o tipo de trilha que a história já mostrou ser difícil de reverter depois de percorrida até certo ponto.
Referências
ALLISON, Graham. A caminho da guerra: os Estados Unidos e a China conseguirão escapar da Armadilha de Tucídides? Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020. E-book.
TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Tradução do grego de Mário da Gama Kury; prefácio de Helio Jaguaribe. Brasília: Editora Universidade de Brasília; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado; Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais.