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ÓRBITA EM DISPUTA: Tecnologia, Poder e Diplomacia na Era da Corrida Espacial ÓRBITA EM DISPUTA: Tecnologia, Poder e Diplomacia na Era da Corrida Espacial

Órbita em Disputa: Tecnologia, Poder e Diplomacia na Era da Corrida Espacial

Foto de Zelch Csaba no Pexels: https://www.pexels.com/pt-br/foto/satelite-30596313/

Os conflitos contemporâneos da geopolítica, que envolvem o desarmamento e questões comerciais, não se limitam mais às tensões terrestres. A nova corrida espacial do século XXI tornou a astropolítica um tema central nos debates atuais, em razão da pluralidade de atores envolvidos e da ausência de regulamentações definidas sobre a exploração e o uso de recursos espaciais. O propósito deste artigo é, portanto, analisar as disputas de poder e conflito, bem como os desafios da cooperação internacional e da governança global. A pesquisa qualitativa foi conduzida com base na análise documental e na revisão de livros e artigos especializados. A partir deste trabalho, compreende-se que a atual ordem internacional, somada à inexistência de um tratado vinculante com limites claros sobre a militarização do espaço, constitui um potencial agravante das tensões geopolíticas. Conclui-se, assim, que a diplomacia internacional terá papel fundamental na elaboração de um escopo regulatório capaz de garantir que a órbita da Terra não se torne um campo de guerra.

Introdução

Por muitas décadas os estudos geoestratégicos e militares buscaram entender as expressões de poder, dentre elas o poder terrestre, marítimo e aéreo. Na contemporaneidade, a evolução da tecnologia e da inteligência artificial nos permite ampliar o campo de estudos estratégicos da geopolítica, adicionando uma nova expressão de poder: a espacial. Entre os anos 1950 e 1970, ficou evidente a corrida espacial para a Lua somente entre os Estados Unidos e a então União Soviética (RITTER, 2025). Já no século XXI, muitos países têm dado passos significativos na história da exploração lunar, trazendo à tona uma “nova corrida espacial para a Lua” (REIS, 2022). 

Assim, a Astropolitica ganha peso no cenário internacional ao incorporar novos atores e potências que buscam não apenas o desenvolvimento tecnológico sustentável, mas também o prestígio de se afirmar como potência global no domínio do espaço (REIS, 2022; RITTER, 2025). Ademais, notou-se, nos últimos dez anos, a identificação de uma possível “militarização” do espaço exterior, com países criando e aperfeiçoando estruturas militares com capacidades espaciais, redimensionando suas políticas nacionais de segurança e defesa (VAZ-FERREIRA, BATISTA, 2021). 

À vista disso, no âmbito da política internacional, a “nova corrida espacial” vem suscitando debates e questões relacionados à cooperação tecnológica, conflitos geopolíticos e desafios à governança global. Nesse sentido, pode-se afirmar que o uso de satélites artificiais em órbita da Terra se tornou altamente valorizado. 

Justifica-se, portanto, a importância deste trabalho pela relevância na dimensão política e estratégica contemporânea, uma vez que a nova corrida espacial revela-se como um campo híbrido de competição e colaboração internacional. Além disso, contribui para analisar disputas de poder entre estados e empresas e suas consequências para a governança multilateral. 

Destarte, os objetivos deste artigo incluem: analisar como a nova corrida espacial reflete disputas de poder entre Estados e corporações; investigar os mecanismos de cooperação internacional existentes e seus limites frente à competição tecnológica; e discutir os desafios da governança global do espaço.

Dessa forma, esta investigação se concentra em investigar as tensões geopolíticas entre Estados Unidos, Rússia e China, o papel das empresas privadas como novos atores estratégicos no sistema internacional e as fragilidades e os limites da cooperação internacional no espaço. Para sustentar as implicações e conclusões apresentadas, utilizou-se uma abordagem qualitativa, que segue um raciocínio dedutivo, baseada na análise de documentos e pesquisa em livros e artigos para embasar o estudo. 

A nova corrida espacial

Apesar do fim da Guerra Fria, a aplicação das tecnologias espaciais para fins de vigilância e monitoramento permaneceu ativa e estratégica (SIQUEIRA, 2018). No atual cenário político internacional observa-se a emergência de novos atores e programas espaciais relevantes. Grandes empresas passaram a explorar o espaço, impulsionadas pelo desenvolvimento constante de tecnologias avançadas. Com isso, as atividades inerentes à exploração e utilização do Espaço exterior deixaram de ser prerrogativa exclusiva dos Estados, possibilitando assim o aumento da capacidade de se projetar e influenciar além das fronteiras (OLIVEIRA, 2020).

Em decorrência da transnacionalização, novas fontes de insegurança também são marcadas pelo alto grau de conexão. Tal interconexão permite que empresas privadas assumam um papel importante como atores geopolíticos. O investimento privado no setor espacial atingiu novos recordes nos últimos anos, constituindo um novo ecossistema empresarial denominado “New Space” (BENTO, 2018 apud PEKKANEN, 2016). Esse crescimento expressivo do setor espacial pode ser observado no gráfico 1 a seguir, que apresenta a evolução da economia espacial global em 2020. 

Gráfico 1 – Investimento em programas espaciais em 2020

Órbita em Disputa: Tecnologia, Poder e Diplomacia na Era da Corrida Espacial 1

Fonte: Space Foundation via MundoGEO (2021).

Vale mencionar que o espaço exterior também pode ser avaliado como um mercado de alto valor econômico, em que interesses comerciais desafiam o uso comum da humanidade (DELGADO, 2024 apud RITTER, 2025). O uso crescente e a dependência do espaço para a segurança nacional levam também mais países a desenvolver as suas próprias capacidades de militarização ativa (BENTO, 2018). 

Como resultado da relevância das entidades privadas, como a SPACEX, e das ameaças emergentes de um mundo cada vez mais interconectado e globalizado, a proliferação de satélites, o desenvolvimento de armas anti satélite (ASAT) e a criação de forças espaciais dedicadas se destacam como indicativos de uma nova corrida espacial (XAVIER, 2025). Nesse contexto, a superioridade orbital é vista como essencial para a segurança nacional, dado que a órbita terrestre é reconhecida como um local privilegiado e livre para se exercer a vigilância de soberanias não dispostas a informar suas capacidades e suas ações (SIQUEIRA, 2018; XAVIER, 2025).

Essa transformação na dinâmica espacial colabora para uma nova leitura geopolítica, sendo é possível reinterpretar conceitos clássicos sob uma ótica contemporânea. No que concerne o uso e defesa estratégica do território, Ratzel já argumentava que o Estado, como um ser vivo, precisa de um espaço vital para sobreviver (TEIXEIRA JÚNIOR, 2017). Ao aplicarmos essa visão a uma nova competição pelo fortalecimento da política espacial, “notadamente sob a perspectiva de defesa e estratégia” (OLIVEIRA, 2020), é possível compreender que a nova corrida espacial representa uma forma moderna de busca pelo lebensraum, um espaço vital tecnológico e estratégico, onde cooperação e conflito coexistem. Ademais, o astropolítico Everett Dolman faz uma analogia à visão de Mackinder sobre o domínio do Heartland, o adaptando para “[q]uem controla a órbita baixa da Terra controla o espaço próximo da Terra. Quem controla o espaço próximo da Terra domina a Terra. Quem domina a Terra determina o destino da humanidade” (DOLMAN, 2002 apud HAVERCROFT, DUVALL, 2009, p.42, tradução nossa).

A partir disso, assume-se que, hoje, a assertividade de um Estado não se mede apenas por força militar ou econômica. Ela depende também de sua capacidade tecnológica, infraestrutura espacial, diplomacia científica e habilidade de se adaptar a mudanças no cenário internacional. 

Cooperação internacional no espaço

Conforme argumentado previamente, o espaço se tornou um objeto de interesse supranacional que vem fomentando competições por seu domínio e, ao mesmo tempo, mostra-se mais propenso à regulação por meio da cooperação internacional (DEFRIEZE, 2014 apud BENTO, 2018). 

Neste contexto, é plausível montar uma linha do tempo sobre as iniciativas multilaterais e as instituições criadas para tratar a respeito do uso do espaço exterior a partir de 1958, quando a Resolução 1348 (XIII) da Assembleia Geral das Nações Unidas é adotada. A Resolução, em suma, reconhece que o espaço ultraterrestre é de interesse comum da humanidade, e também, chama a atenção para as expedições e o envio de objetos através do espaço sideral, para que fossem exclusivamente com propósitos pacíficos e científicos (UNOOSA, 1958).

Assim, introduz-se o Comitê das Nações Unidas para o Uso Pacífico do Espaço (COPUOS). Sua criação está diretamente relacionada à ausência de cooperação, ao desenvolvimento militar e ao conflito entre as duas potências políticas da época, tendo como objetivo realizar pesquisas acerca de desarmamento e segurança internacional, de forma independente (OLIVEIRA, 2020). Posteriormente, estruturou-se o Escritório das Nações Unidas para Assuntos do Espaço Exterior (United Nations Office for Outer Space Affairs – UNOOSA). Ademais, foram incluídos dois subcomitês no COPUOS: o Subcomitê Técnico e Científico (Scientific and Technical Subcommittee) e o Subcomitê Jurídico (Legal Subcommittee) (VAZ-FERREIRA, BATISTA, 2021). Desse modo, a base do legalismo assenta nos tratados e acordos, sob a égide da Organização das Nações Unidas (BENTO, 2018). Tais tratados são majoritariamente focados na questão do espaço cósmico ser patrimônio comum da humanidade e sobre a responsabilidade internacional atribuída a danos, na terra ou no espaço, provados por lançamentos (REIS, 2022). A fim de ilustrar melhor os seis  tratados, apresentamos a tabela 1.

Tabela 1 – Principais tratados e acordos relativos ao Direito do espaço

Órbita em Disputa: Tecnologia, Poder e Diplomacia na Era da Corrida Espacial 2

Fonte: BENTO (2018)

Porém, embora a comunidade internacional tenha estabelecido pontos relevantes relacionados à responsabilidade e à proibição da apropriação nacional, ainda não conseguiram definir e regular a militarização ativa do espaço com êxito total. Nesse cenário surge a iniciativa PAROS (Prevention of an Arms Race in Outer Space), conduzida no âmbito da Conferência de Desarmamento da ONU, que busca estabelecer medidas práticas e jurídicas para garantir o uso pacífico do espaço. Isto é, uma iniciativa diplomática para evitar que o espaço se torne campo de guerra, implementando medidas de transparência e confidencebuilding (OLIVEIRA, 2020). Além do Grupo PAROS, outro exemplo de cooperação internacional voltada para a segurança espacial são os Acordos Artemis, de 2020, que propõem diretrizes para a exploração lunar com base na transparência, extração sustentável de recursos e cooperação (NASA, 2025).

Vale ressaltar que, mais um exemplo de cooperação internacional em prol da segurança do espaço exterior são as missões conjuntas, que ilustram como os esforços diplomáticos se traduzem em colaboração técnica e científica, como o Telescópio Espacial James Webb, fruto da parceria entre NASA, ESA e CSA (ESA, 2021).

Portanto, o nível mais alto de regulação da atividade espacial são as políticas e leis nacionais que são responsáveis por supervisionar seus próprios cidadãos, sejam eles órgãos governamentais ou atores privados (UNIDIR, 2018). Ou seja, cada Estado tem autonomia para definir regras internas sobre lançamento, operação e responsabilidade por objetos espaciais, o que cria uma diversidade normativa significativa.

No entanto, apesar do Tratado sobre Princípios Reguladores das Atividades Espaciais dos Estados na Exploração e Uso do Espaço Cósmico, de 1967, proibir qualquer Estado de reivindicar a propriedade da Lua, países como Estados Unidos, Luxemburgo, Japão e Emirados Árabes já contam com leis que permitem a extração de recursos, por parte de empresas privadas (UNIDIR, 2018; REIS, 2022). Logo, essa lacuna jurídica, somada à dificuldade de adesão universal aos acordos existentes, favorece a exploração comercial do espaço e pode intensificar disputas geopolíticas (XAVIER, 2025). 

Conflito e competição geopolítica

Considerando que a ausência de acordos internacionais robustos sobre o uso militar do espaço agrava o risco de conflito — e que a geopolítica clássica pode ser aplicada à atual corrida por recursos espaciais — levanta-se uma questão central: por que a órbita da Terra é o novo Lebensraum? Para responder essa questão, precisamos compreender qual a relação da militarização, da sustentabilidade e do comércio com o futuro do nosso planeta.

Em primeiro lugar, a militarização está associada com a evolução tecnológica, que tornou o uso de satélites artificiais para vigilância, manutenção de canais de comunicação e geoposicionamento, contribuindo assim, para antecipar possíveis riscos e medir políticas de defesa (SIQUEIRA, 2018; VAZ-FERREIRA, BATISTA, 2021). Porém, a militarização também representa um incentivo às demais potências, a desenvolver capacidades similares ou contramedidas, intensificando a corrida armamentista orbital. Nesse quadro, a China tem investido em mega constelações de satélites com propósitos estratégicos, conforme observa o Capitão de Mar e Guerra Alexandre Xavier (2025),

(…) a China está implementando mega constelações de satélites em órbita baixa, como os projetos ‘Guowang’ e ‘Thousand Sails’, com o objetivo de rivalizar com a constelação satelital Starlink dos EUA. Essas constelações visam fornecer cobertura global de comunicações e têm aplicações tanto civis quanto militares.

Outro propósito estratégico para os satélites artificiais seria o monitoramento constante de condições climáticas, gestão de recursos naturais e para o tratamento de questões ambientais como o combate ao desmatamento e a conservação da biodiversidade em escalas que vão do local ao global (SIQUEIRA, 2018). Por isso, o desenvolvimento e o lançamento de satélites e estações espaciais tornaram-se prioridade para países que buscam assegurar, além da afirmação do poder nacional, uma posição estratégica no futuro, como é o caso da Índia, com destaque para sua mais recente missão lunar, a Chandrayaan-3.

Recentemente, a Índia também se aprofundou na corrida espacial, buscando desenvolver a agricultura do país, realizar pesquisas em ambiente de microgravidade e ter acesso aos valiosos recursos espaciais (RAJAGOPALAN, 2024). Cita-se, como exemplo de um dos recursos cobiçados, o Hélio-3, um isótopo não-radioativo que pode ser um potencial combustível para fusão nuclear, a forma mais eficiente de geração de eletricidade (ESA, 2025). 

Paralelamente às preocupações relacionadas à sustentabilidade, a dimensão econômica da exploração espacial tem ganhado destaque, especialmente com o avanço da mineração lunar, atraindo também grandes empresas privadas. A atuação de empresas como SpaceX, Blue Origin, OneWeb, iSpace e Astrobotic envolve a disputa por contratos bilionários com agências governamentais para o fornecimento de serviços de lançamento, transporte orbital e exploração de recursos extraterrestres, com o objetivo de garantir autonomia tecnológica (BASSANI, 2025). 

Essa competição extrapola o mercado e se insere em uma lógica geopolítica mais ampla, na qual o domínio tecnológico e a liderança comercial no espaço são vistos como instrumentos de poder nacional. Assim, a órbita terrestre e os corpos celestes próximos tornam-se o novo Lebensraum, um espaço de disputa por recursos, influência e sobrevivência estratégica, onde a fronteira entre cooperação e conflito permanece tênue, agravando o desafio à governança multilateral.

Governança e desafios futuros

A globalização transformou profundamente a lógica westfaliana de soberania estatal, especialmente no contexto da governança espacial (SIQUEIRA, 2018). Diante dos novos fatores que impulsionam o engajamento de governos e atores privados na nova corrida espacial, percebe-se que as discussões atuais a respeito da prevenção de uma corrida armamentista no espaço evidenciam diferentes opiniões sobre diversas questões legais importantes (BRECCIA, 2025). 

Dessa forma, as recentes iniciativas da China e dos Estados Unidos de lançar “porta satélites”, uma plataforma capaz de lançar múltiplos satélites diretamente do espaço, com utilidade para fins civis e militares, reafirma o desafio do uso dual das tecnologias (XAVIER, 2025). Em relação a este tópico, a PAROS permanece sendo amplamente discutida em âmbito internacional, visando revitalizar o progresso de mecanismos regulatórios que abordam os desafios da militarização do espaço (BRECCIA, 2025). 

Embora lento e frequentemente bloqueado por desacordos políticos, até o momento, a principal iniciativa que obteve resultado foi o estabelecimento de um grupo de experts governamentais sobre questões atinentes a  Transparência e Confidence-Building Measures (TCBMs) para atividades espaciais, em 2010, que renovou os esforços para a manutenção do PAROS (BRECCIA, 2025; OLIVEIRA, 2020).

Além disso, enquanto os esforços multilaterais enfrentam entraves políticos, iniciativas paralelas como os Acordos Artemis propõem diretrizes alternativas para a exploração espacial. Os Acordos Artemis contam, por enquanto, com 59 signatários (NASA, 2025). Entretanto, Rússia e China, dois países com grandes projetos espaciais, não têm intenção de aderir às diretrizes do Artemis, considerando-o demasiadamente centrado nos EUA e possivelmente levando a resultados indesejáveis ​​para outras nações (HIR, 2023). 

Sob esta ótica, um artigo publicado pela Harvard International Review (2023) destaca alguns pontos dos Artemis Accords, que podem ser interpretados como riscos, pois

(…) eximiram as empresas privadas da responsabilidade e criaram um cenário em que entidades privadas desonestas poderiam violar os termos do acordo sem sofrer consequências severas. Isso poderia criar um cenário em que um conflito no espaço sideral entre os Estados Unidos, a China e a Rússia se tornasse cada vez mais complexo com a presença de atores não estatais que agem em nome de seus próprios interesses (HARVARD INTERNATIONAL REVIEW, 2023, n.p., tradução nossa).

Em suma, empecilhos como colisões de satélites, sabotagem orbital e disputas por recursos lunares ainda não contam com mecanismos jurídicos eficazes de enforcement ou resolução de disputas. Assim, confirma-se que o espaço exterior reflete e potencializa as tensões geopolíticas da Terra, exigindo uma governança mais eficaz e inclusiva.

Conclusão

Consoante com as informações apresentadas no decorrer do artigo, conclui-se que a nova corrida espacial é uma consequência da relevância econômica e estratégica dos recursos satelitais, e que a grande divergência com a corrida espacial do período da guerra fria é o cenário multipolar e com novos atores que potencializam as tensões (OLIVEIRA, 2020). 

Como alertam Jonathan Havercroft e Raymond Duvall (2009, p.43, tradução nossa), “Armas espaciais, portanto, não são mais apenas uma fantasia, uma ficção impossível. Elas estão rapidamente se tornando uma possibilidade bastante real, ativamente almejadas em política estratégica.” Essa constatação reforça que, à medida que a exploração espacial avança, a noção de “comando do espaço” tende a se expandir para além da órbita terrestre (OLIVEIRA, 2020).

No entanto, a ausência de coordenação internacional compromete o uso pacífico de satélites para monitoramento climático e gestão ambiental global, áreas que exigem cooperação técnica e política entre Estados. Diante desse cenário, torna-se evidente que a governança espacial não é apenas uma questão técnica ou jurídica, mas um reflexo das disputas por poder, sobrevivência e futuro que atravessam a política internacional contemporânea e que exigem respostas urgentes e coordenadas.

Logo, a militarização do espaço e a exploração de recursos para uso comercial são dois motores para o agravamento de tensões atuais na ordem internacional, redimensionando ou mantendo o eixo da política externa de países com agências espaciais consideradas periféricas, como o caso do Brasil. 

Por fim, considera-se que o papel da diplomacia é fundamental para negociação e resolução de conflitos em um mundo transnacional e tecnologicamente interconectado para que todos possam se beneficiar dos resultados de explorações e pesquisas realizadas no espaço exterior, bem como garantir a órbita da Terra não se torne um campo de guerra galáctico.

Referências:

BASSANI. EUA assinam contrato bilionário de US$ 13,5 bilhões com SpaceX, ULA e Blue Origin para lançamentos de foguetes militares até 2029, impulsionando o setor de defesa e a tecnologia espacial. Sociedade Militar, 9 abr. 2025. Disponível em: https://www.sociedademilitar.com.br/2025/04/eua-assinam-contrato-bilionario-de-us-135-bilhoes-com-spacex-ula-e-blue-origin-para-lancamentos-de-foguetes-militares-ate-2029-impulsionando-o-setor-de-defesa-e-a-tecnologia-espacial-elz.html. Acesso em: 13 nov. 2025.

BENTO, João Pedro Coixão dos Reis. A Corrida ao Espaço: Dinâmicas Conflituais. Cadernos do IUM – Estudos Estratégicos, Instituto Universitário Militar, Lisboa, v. 1, n. 1, p. 1–22, 2021. Disponível em: https://d1wqtxts1xzle7.cloudfront.net/67671988/Cadernos_do_IUM_Estudos_Estrategicos-libre.pdf. Acesso em: 10 nov. 2025.

BRECCIA, Pierfrancesco. Preventing an Arms Race in Outer Space: Developments and Discussions under PAROS. Outer Space Law Sapienza, 19 jun. 2025. Disponível em: https://www.outerspacelawsapienza.it/2025/06/19/preventing-an-arms-race-in-outer-space-developments-and-discussions-under-paros/. Acesso em: 13 nov. 2025.

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VAZ-FERREIRA, Luciano; BATISTA, Paulo Roberto. Política espacial e segurança: mudanças e continuidades na segunda era. Revista da Escola de Guerra Naval, Rio de Janeiro, v. 27, n. 1, p. 209–238, jan./abr. 2021.

XAVIER, Alexandre. A nova corrida espacial e a geopolítica do espaço – Parte III: a militarização do espaço (análise geopolítica). Atito Xavier, 19 jun. 2023. Disponível em: https://www.atitoxavier.com/post/a-nova-corrida-espacial-e-a-geopol%C3%ADtica-do-espa%C3%A7o-parte-iii-a-militariza%C3%A7%C3%A3o-do-espa%C3%A7o-an%C3%A1lise-ge. Acesso em: 13 nov. 2025.

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Formada em Relações Internacionais pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, concluiu sua graduação em 2024. Atua como pesquisadora independente, com interesse em geopolítica, política externa e inteligência artificial. Já publicou artigos acadêmicos voltados para tecnologia e poder nas relações internacionais. Seu foco atual é compreender como as inovações tecnológicas influenciam a ordem global e a diplomacia contemporânea.

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