A formação da Identidade Nacional Russa

A nação russa teve seu início muito antes da existência dos famosos czares que governaram o império. É de pouco conhecimento o surgimento do Estado russo e, com isso, diversas lendas permeiam a história da origem dessa sociedade. Porém, através da Crônica primária russa[1] é possível compreender o passado distante e pouco conhecido da Rússia. Sua origem é datada no ano de 882, através da conquista da cidade-Estado de Kiev pelo príncipe Oleg, inaugurando, portanto, a Rus’ kievana[2], que combinava tanto a elite varega (os vikings da região) como os eslavos orientais nativos (SEGRILLO, 2010, p. 99-100).

A primeira grande influência no Estado Rus’ kievano foi a Igreja Católica Ortodoxa, originária do Império Romano do Oriente, também conhecido como Império Bizantino, e que dura até os dias atuais (SEGRILLO, 2010, p. 102-5). Entretanto, essa não foi a única grande influência na cultura e sociedade russas. A partir do século XIII a Rússia esteve sob domínio mongol. Esse domínio encontrou seu fim no século XV, durante o reinado de Ivan III, o Grande. A influência mongol na Rus’ kievana foi tão grande que alterou o modelo de visão russa sobre formas de governo (HAMM, 2014, p. 5). A descentralização e desunião da nação eram tamanhas que, em casos de guerra, ambas frequentemente se refletiam através da fraqueza em se defender do inimigo. A chegada dos mongóis, juntamente com a adoção de uma religião oficial central monoteísta viria a ajudar a unir e a centralizar um Estado desunido, como era o caso de Rus’ Kiev (SEGRILLO, 2010, p. 116-7).

Após a expulsão dos mongóis por Ivan III, é notória a influência exercida por esse povo no Estado russo, em especial ao fortalecer os que viriam a ser os dois futuros pilares do Império Czarista: o monarca e a Igreja Ortodoxa. Além disso, o impacto mongol sobre os russos traz à tona a questão da identidade nacional russa. Como Segrillo (2010, p. 118) coloca, seriam os russos europeus, asiáticos, uma mistura dos dois ou nenhum dos dois, mas sim uma civilização única? Essa problemática sobre identidade russa permitiu que teorias sobre identidade nacional russa fossem desenvolvidas, como o Ocidentalismo, Eslavofilismo e Eurasianismo, que serão tratadas no decorrer deste estudo.

O domínio mongol sobre Rus’ Kiev por dois séculos incentivou, futuramente, a criação do Império Czarista que viria a marcar profundamente a identidade russa. Por conta desse domínio, nasceu a necessidade de se ter um Estado centralizado e forte para que “a civilização e a sociedade russa florescessem” (SEGRILLO, 2010, p. 122). Essa concepção de Estado permitiu a criação da Rússia czarista que durou do século XVI até o século XX e, também, da Rússia como a conhecemos atualmente.

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Entretanto, é necessário apontar como Pedro, o Grande, foi o ponto chave na mudança de perspectivas políticas e culturais russas. Ele foi o primeiro dos governantes russos a se autodenominar czar do império. Também via que a Rússia se encontrava extremamente atrasada se comparada à Europa e acreditava na necessidade de desenvolvimento da Rússia ao adotar tecnologias e políticas europeias para alcança-los e até mesmo ultrapassa-los. Apesar disso, Pedro não se declarava um admirador da Europa, mesmo fazendo diversas viagens para o Ocidente a fim de conhecer seus inventos. A aproximação do Império Russo à Europa durante o reinado de Pedro, o Grande, marcou o início da expansão da Rússia rumo ao Ocidente e que só teve fim na década de 1990 (SEGRILLO, 2010, p. 129-33).

De acordo com Greenfeld (1992), a ocidentalização do Império Russo por Pedro, o Grande, “instalou a ideia de nação na elite russa e a despertou para o poderoso e estimulante senso de orgulho nacional”[3]. Foi também após seu governo que duas teorias importantes e determinantes na política russa surgiram: o Ocidentalismo e o Eslavofilismo, como já mencionados. Teóricos ocidentalistas afirmam ser necessária a aproximação russa à Europa e veem o país como, basicamente, europeu. Já os teóricos eslavófilos não veem a Rússia nem como um país europeu e tampouco asiático, “mas sim uma civilização única, com características diferenciadas tanto da Europa quanto da Ásia e que, por isso, deveria seguir seu caminho próprio” (SEGRILLO, 2010, p. 134). Um debate de várias décadas sobre o que é a Rússia e qual o seu papel no mundo surgiu por conta das duas correntes. Entretanto, durante a Revolução de 1917, uma terceira corrente surgiria, conhecida por Eurasianismo. Como aponta Dugin (2014, p. 17),

Eurasianismo é uma corrente ideológica e sócio-política dentro da primeira onda de emigração russa, unificada pelo conceito de cultura russa como um fenômeno não-europeu e apresenta – dentre várias culturas do mundo – uma combinação original de características ocidentais e orientais; como consequência, a cultura russa pertence tanto ao Leste como ao Oeste e, ao mesmo tempo, não pode ser reduzida a nenhum dos dois[4].

A necessidade de projetar a Rússia no âmbito internacional da época e eleva-la a condição de potência cultural e política não se limitou ao governo de Pedro I. Isso fica evidente com Catarina II, a Grande, através da intelligentsia[5], ou, como alguns autores colocam, o Iluminismo russo. Esse foi um esforço da czarina em elevar o nível cultural dos nobres russos para que produzissem conteúdo teórico e cultural que antes não seria possível encontrar no país. Não obstante, a intelligentsia russa viria a formar os revolucionários russos de 1917.

Durante o reinado de Alexandre I (1801 – 1825) os ideais russos passaram a ser questionados pela população, influenciada pelo retorno dos oficiais nobres russos que lutaram contra Napoleão Bonaparte na França. Estes oficiais tiveram contato com o liberalismo da Revolução Francesa que acontecera anos antes e passaram a ver a autocracia russa como o mal da sociedade. A repressão e a liberdade variavam conforme o czar que estava reinando, influenciando amplamente a intelligentsia da época, como é possível ver através dos chamados populistas radicais que surgiram após a abolição da servidão[6] em 1861 (SEGRILLO, 2010, passim).

Quando Nicolau II chegou ao poder em 1894, a insatisfação da população com uma política estagnada em um regime autocrático era gritante, embora o país estivesse se modernizando no aspecto econômico. O sistema da época também não permitia que as novas classes sociais em ascensão, como a burguesia, proletariado e campesinato, se acomodassem na sociedade que estava se transformando. Durante seu governo e por essas e outras questões, duas revoluções importantes aconteceram: a Revolução de 1905[7] e as revoluções de 1917 (FITZPATRICK, 1994, p. 33-35).

As Revoluções de 1917 marcaram um novo capítulo na história da Rússia. Influenciadas pela Primeira Guerra Mundial e pelas decisões equivocadas tomadas por Nicolau II, a Rússia perdeu seus territórios na Polônia, teve sua economia afetada, faltava alimento para suas tropas e a moral do exército estava baixa por perderem dos alemães. Essas foram condições favoráveis para que se iniciasse a primeira das revoluções daquele ano, a Revolução de Fevereiro (TROTSKY, 2000a, p. 74). Alguns meses depois ocorreu a Revolução de Outubro, uma consequência da revolução que já havia ocorrido no início do mesmo ano. Enquanto a primeira colocou fim à monarquia na Rússia, a segunda colocou o Partido Bolchevique no poder através de “Decretos Revolucionários” criados pelos soviet[8](TROTSKY, 2000b, p. 207). Pelos próximos 74 anos, a Rússia e os países ao seu entorno, desde o Leste Europeu até a Ásia Central, seriam conhecidos por União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).

 Durante o período que compreende a União Soviética, a identidade nacional dos russos foi pautada pelo patriotismo soviético, ou seja, o governo fomentava a integração das nações pertencentes à URSS através do comunismo como uma ideologia unificadora de todos os povos (TISHKOV, 2008, p. 177). Com isso, vê-se o objetivo de “criar” culturas que fossem “nacionais em forma e socialistas em conteúdo” através do enfraquecimento de identidades regionais, religiosas e das nacionalidades que compunham a URSS (WOJNOWSKI, 2015, p. 2). Também é possível observar a restauração do pensamento eslavófilo dentro do governo soviético através do conflito ideológico entre URSS e Estados Unidos e Ocidente durante a Guerra Fria. Era importante ao governo que o “eu contra eles”, ou os “soviéticos contra ocidentais” fosse fomentado na mente da população através da propaganda para manter a nação unida debaixo de uma mesma identidade nacional. Enquanto a nação possuísse um inimigo em comum, a União Soviética existiria. Entretanto, isso não foi o suficiente para garantir a existência da URSS por muito tempo. A partir dos anos 1980 já é possível observar uma mudança de pensamento e identidade na população soviética. Cada vez mais aberta e internacionalizada pelas políticas de Gorbachev, o Ocidente já não era mais visto como inimigo, mas sim como um atrativo. Em 1989 o muro de Berlim caiu e, dois anos mais tarde, em 1991, foi a vez da União Soviética.

A partir dessa nova ordem global, em que a Guerra Fria e a União Soviética não mais existiam, a identidade nacional russa ficou abalada, tanto por conta das políticas tomadas pelo então presidente Boris Yeltsin durante a década de 1990, mas também porque aquilo que os russos conheciam já não era mais uma realidade palpável. A fim de impulsionar sua frágil economia pós-soviética, o governo russo se viu debaixo da influência ocidental, sob uma nova teoria conhecida por Atlanticismo. Tal teoria afirmava que a Rússia deveria buscar um relacionamento de integração duradouro com as nações Euro-Atlânticas, além de rejeitar as relações com os países Orientais. Porém, como bem pontuou Sergei Stankevich (conselheiro de Yeltsin para assuntos étnicos e políticos), se voltar ao Ocidente significaria se tornar europeu, se juntar à economia global e dar ênfase à Alemanha e aos Estados Unidos como membros dominantes do Atlântico. Embora ele acreditasse que tal alternativa fosse importante aos interesses russos, Stankevich também acreditava que era mais importante que fossem fomentados os relacionamentos com países de “segundo escalão”, como Brasil, Índia e China, além de outros países do Sudeste Asiático e países do CEI[9] (GVOSDEV; MARSH, 2014, p. 163-5).

Após a resignação de Yeltsin como presidente e seguindo a linha de pensamento de Stankevich, Vladimir Putin assumiu a presidência russa em março de 2000, reforçando e impulsionando a Rússia no mundo através de novas políticas que se tornaram a fundação da nação russa dos dias atuais.


[1] A Crônica primária russa é a mais antiga crônica histórica escrita de Rus’ que chegou aos nossos dias. Foi escrita por Nestor, o Cronista, um monge que viveu entre os séculos XI e XII no Mosteiro de Kiev-Petchersk, no atual território ucraniano (SEGRILLO, 2010, p. 99).

[2] Rus’ kievana é usado, principalmente, para definir o Estado estabelecido no século X pelos príncipes da dinastia Ruridik e que se desintegraria em diversos pequenos governos. Acredita-se que o governo atualmente conhecido por Rus’ kievana tenha sido um dos grandes empreendimentos de nation-building realizado pelos povos nórdicos durante a Idade Média. A Rus’ kievana compreendia as nacionalidades russa, ucraniana e bielorrussa (PLOKHY, 2006, p. 12-13).

[3] “[…] installing the idea of the nation in the Russian elite and awakening it to the potent and stimulating sense of national pride”.

[4] Eurasianism is an ideological and social-political current born within the environment of the first wave of Russian emigration, unified by the concept of Russian culture as a non-European phenomenon, and presenting – among various cultures of the world – an original combination of Western and Easter features; as a consequence, Russian culture belongs to both East and West, and at the same time cannot be reduced either to the former nor to the latter.

[5] Como Segrillo (2010, p. 139) aponta, “a intelligentsia foi um estrato social que surgiu na Rússia em algum ponto no final do século XVIII ou primeira metade do século XIX”. A intelligentsia compreenderia todos aqueles que tivessem educação universitária ou educação técnica e que se dedicassem profissionalmente ao trabalho mental.

[6] A servidão na Rússia foi uma instituição com origens nos séculos XVI e XVII, sendo vista como a solução para a escassa mão-de-obra e vastas quantidades de terra no país. Durante o período do império, diversos decretos e leis foram criados e que dificultavam a mobilidade dos camponeses, além de lhes garantir uma baixa qualidade de vida e pouca renda. A servidão foi abolida em 1861 (UNESCO, 2005).

[7] A Revolução de 1905 visava derrubar o czarismo, porém foi fracassada. Apesar disso, o czar teve que adotar diversas reformas radicais no seu governo. Por causa da revolução, o czarismo deixou de ser uma monarquia absolutista, autocrática e que não permitia partidos políticos, além de passar a ser uma monarquia constitucional, com uma constituição e um parlamento com partidos políticos (SEGRILLO, 2010, p. 154)

[8] Soviet, em russo, significa “conselho”, tanto como sugestão, como instituição de assessoramento. Esse conselho foi instituído durante a Revolução de 1905 por trabalhadores e comitês de greve para regular preços e exercer outras funções administrativas realizadas pelo governo (SEGRILLO, 2010, p. 156).

[9] Conhecida por Comunidade dos Estados Independentes, essa é uma organização criada em 1991 por países que antes pertenciam à União Soviética, como Armênia, Azerbaijão, Bielorrússia, Cazaquistão, Moldávia, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão, Turcomenistão, Ucrânia e Uzbequistão.

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