Conheça a história do USS Nautilus: o primeiro submarino nuclear do mundo – 21 de janeiro de 1954

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No dia 21 de Janeiro de 1954, há quase 60 anos, os Estados Unidos da América lançavam um submarino que iria revolucionar este tipo de embarcação. Trata-se do “USS Nautilus”, o primeiro submarino com propulsão nuclear do mundo. Em outras palavras, isso significava que a partir daquele momento os submarinos poderiam ter total autonomia para navegar, com propulsão independente da atmosfera e com necessidade apenas da tripulação para dar os comandos. No fim, o projeto experimental foi impulsionado pelo domínio da energia nuclear e colocado em prática pela Marinha dos Estados Unidos no contexto da Guerra Fria.

Do descobrimento da fissão nuclear ao seu uso no USS Nautilus

O século XX foi trilhado em meio a conflitos, guerras, alianças e polarizações. Apenas na primeira metade do século houveram duas guerras mundiais, revoluções em diversos países, dentre elas a Revolução Chinesa e a Revolução Russa que trouxeram um novo caminho ideológico para as relações internacionais, movimentos de independência em muitos territórios asiáticos, uma crise econômica e o início de uma polarização que iria reverberar na tomada de decisões políticas da segunda metade do século. Mas algo que também marcou profundamente a época foi o avanço determinante dos estudos tecnológicos e científicos ocorrido com grande rapidez e em várias direções. Assim, o domínio da energia nuclear e seu uso experimental foram também consequência do contexto conflituoso do século passado. 

Em 1939, um programa de pesquisa e desenvolvimento foi criado na intenção de analisar a questão da fissão nuclear, descoberta anteriormente pelos químicos Fritz Strassman e Otto Hahn. Segundo eles, esse fenômeno ocorre quando um núcleo atômico instável é atingido por um nêutron gerando outros dois núcleos menores e também energia (RIBEIRO, 2014). Em 1942, as pesquisas do programa foram interrompidas para dar espaço ao Projeto Manhattan, o plano americano que iria desenvolver as primeiras bombas atômicas. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os estudos sobre o fenômeno ganharam espaço novamente agora com o propósito de gerar eletricidade a partir de reatores nucleares. Assim, a Marinha dos Estados Unidos, reconhecendo o potencial da energia nuclear, começou a defender fortemente o seu uso nos navios e embarcações militares. 

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Esquema da fissão nuclear. Fonte: Departamento de Física Nuclear, USP (2021)

Um dos maiores defensores do uso da propulsão nuclear dentro da Marinha era o Almirante e Franco Oficial Naval, Capitão Hyman G. Rickover. O oficial que também era engenheiro elétrico liderou os esforços para a idealização e construção de vários motores nucleares, dentre eles, o desenvolvimento do submarino Nautilus, façanha que lhe rendeu o título de “pai da Marinha Nuclear” (CAMPBELL, 2017). Ainda em 1949, o capitão contornou a burocracia e conseguiu que a Comissão de Energia Atômica criasse uma subdivisão e dentro dela o Ramo de Reatores Navais. Este último serviu como a base institucional que proporcionou o desenvolvimento do projeto Nautilus.

Da confecção do submarino ao seu uso estratégico

O uso de reatores nucleares ainda era uma novidade na época, ninguém havia construído um reator de larga escala. Assim, por conta da urgência do projeto, a Marinha decidiu construir um reator teste na cidade de Arco, localizada no deserto de Idaho. A confecção do submarino por sua vez começou em junho de 1952 em Groton, cidade do estado norte-americano de Connecticut. Os primeiros testes com o Reator Térmico Submarino (STR), também chamado de Mark I, buscaram corrigir falhas, simular o desempenho e treinar a tripulação para operacionalizar o submarino. Já em março de 1953, Mark I fez sua primeira viagem simulada que durou cerca de 96 horas. A viagem foi um sucesso e abriu caminho para o Mark II, modelo final que foi colocado no Nautilus (REID, 2014).

Com os testes realizados, o projeto estava pronto para dar o próximo passo. O reator foi projetado para operar usando urânio enriquecido, para compactá-lo e obter uma vida útil mais longa, foi utilizado uma quantidade elevada de isótopo urânio-235. Além disso, como o urânio enriquecido é uma substância mais controlada, torna-se mais fácil de gerar eletricidade por um longo período de tempo possibilitando uma melhor navegabilidade (REID, 2014). Desta forma, no dia 30 de dezembro de 1954, o reator Mark II se tornou operacional dentro do submarino e logo depois, no dia 21 de janeiro de 1954 o USS Nautilus fez o seu primeiro lançamento oficial.

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Cerimônia de lançamento do  USS NAUTILUS, 21 de Janeiro de 1954 | Fonte: Departamento de Energia dos Estados Unidos da América.

É importante destacar ainda o desafio enfrentado pela equipe de navegação para conseguir guiar o submarino debaixo da superfície. Como as tecnologias de comunicação sonar não acompanharam o desenvolvimento da embarcação, a locomoção era de difícil realização. Ao encabeçar a missão de atravessar o Polo Norte pela primeira vez, o USS Nautilus estava equipado com apenas uma bússola giratória e outra magnética, tecnologias que hoje em dia são consideradas antigas e geralmente apresentam problemas ao serem administradas nos polos. Quando estava submerso, também não era possível utilizar o auxílio do rádio ou da navegação astronômica utilizada por embarcações comuns, o que representou um grande desafio na época (REID, 2014).

No fim o submarino representou um grande avanço para as tecnologias de navegação, um lastro para a utilização da energia nuclear para fins energéticos e o pioneirismo americano neste setor no contexto da guerra fria. A missão no Ártico e as posteriores serviram como uma plataforma experimental na qual o conceito de uma embarcação movida a energia nuclear pôde ser provado. Durante os seus dois primeiros anos de operação o Nautilus não precisou ser reabastecido em nenhum momento e conseguiu superar os diversos desafios de locomoção, comunicação e navegabilidade ao longo dos anos na medida em que novas tecnologias foram sendo incorporadas (REID, 2014). O USS Nautilus foi desativado em 1980 e se transformou em um museu no estado norte-americano de Connecticut.  

Referências

REID, Tyler. The USS Nautilus (SSN-571). Universidade de Stanford, 2014. Disponível em: http://171.67.100.116/courses/2014/ph241/reid1/

The United States Naval Nuclear Propulsion Program. Departamento de Energia dos Estados Unidos. Disponível em:   https://www.energy.gov/sites/prod/files/2017/08/f36/nuclear_propulsion_program_8-30-2016%5B1%5D.pdf

RIBEIRO, Daniel. Fissão Nuclear. Revista de Ciência Elementar, v 2, n 4, 2014. Disponível em: https://www.fc.up.pt/pessoas/jfgomes/pdf/vol_2_num_4_108_art_fissaoNuclear.pdf

CAMPBELL, Cal. Little Known Characters In America: Hyman G. Rickover. Journal Gazette & Times-Courier, 2017. Disponível em: https://portal.ct.gov/OMA/In-the-News/2017-News/Little-Known-Characters-In-America-Hyman-G-Rickover

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Sobre o Autor

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade da Amazônia. Participei de palestras, simulações de organismos internacionais, mediei discussões e procurei por mais. Fui convidada pelo coordenador do curso a participar de um projeto de extensão, o Site Internacional da Amazônia, onde escrevo artigos e faço roteiros para vídeos sob a ótica de uma internacionalista da Amazônia, entrei como voluntária na Zeit Org, uma comunidade que estuda a confluência entre o global e o local, escrevi um paper para o V Simpósio de Relações Internacionais e acabei ganhando como melhor trabalho da edição. Depois de explorar tudo o que a universidade pôde me oferecer em termos de projetos, busco produzir trabalhos voltados para a Amazônia na área de paradiplomacia e desenvolvimento sustentável e por oportunidades que possam complementar a minha formação. Áreas de interesse: Desenvolvimento Sustentável; Comércio Exterior; Governança Global sobre o meio ambiente; Geopolítica; Amazônia Legal; Cooperação Internacional, ONU e a agenda 2030.

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