Muito além do socialismo: os caminhos até a Rússia de 1917

Manifestação feminina em favor do pão e da paz em 1917 | Fonte: Museu Estatal de História Política da Rússia
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O resumo da Revolução Russa pode ser abreviado na guinada ao poder das forças operárias insatisfeitas na Rússia Czarista em 1917. Essa insatisfação era causada pelo caráter autocrata e repressivo dos Romanov, além das condições precárias causadas pela industrialização tardia feitas a partir de capital estrangeiro. A burguesia não era beneficiada com a concentração de capital nos banqueiros e grandes empresários, tampouco afetada pelo aumento da fome, das condições de trabalho precárias, e da alta densidade populacional em Moscou e em São Petersburgo, em decorrência do emprego nas indústrias dentre outros problemas.

No entanto, a insatisfação que alimentou a revolução pode ser lida muito antes do curto período que antecede o famoso mês de outubro de 1917. Há de se considerar a consolidação da Rússia como Estado Nacional Soberano, processo que aconteceu por volta da década de 1860, assim como as condições decorrentes dos eventos como as amostras de revolução em 1905, as eleições da Duma e a Primeira Guerra Mundial. Dessa forma, esse texto será uma recapitulação histórica mais profunda até a Revolução Russa de uma forma que, geralmente, não é lembrada.

Formação do Estado Nacional

Em curso ministrado pela Universidade da California, o professor emérito e historiador, Dr. Peter Kenez, traz o fim do regime de servidão como o evento que rompeu com as tradições antigas e permitiu com que a Rússia pudesse formar um Estado Nacional e soberano política e culturalmente. Essa linha é traçada pela presença massiva da questão da servidão na história russa; e por ser desenvolvida posteriormente ao feudalismo europeu, a Rússia não acompanhou o processo de feudalismo seguido dos primórdios da economia capitalista, tendo esse processo de servidão existente ainda no século XIX.

Esse rompimento de servidão traz consigo dois aspectos: (i) o empobrecimento dos camponeses; e (ii) a desunião da nobreza. A partir do empobrecimento dos camponeses é atrelada diretamente à terra inapropriada para a agricultura, já que as melhores terras russas poderiam ser comparadas às piores terras nos Estados Unidos no tempo. Essa escassez aliada ao caráter opressivo da aristocracia russa, que impedia qualquer negócio entre os camponeses, sufocou a possibilidade de nascer uma classe burguesa. Aliado a esse aspecto, temos também os diversos conflitos internos e as situações endêmicas — como a cólera, que causou diversas perdas em Kazan durante os anos de 1788 e 1842 (JOHNSON, 2020).

Esse novo sistema feudal levava aos camponeses a se venderem, pois, não conseguiam pagar os custos das terras, criando uma concorrência entre os detentores de terra mais ricos e ofereciam melhores condições de trabalho. Isso levou ao empobrecimento dos nobres menores — já que não possuíam condições de competir no oferecimento de boas condições de trabalho —, acarretando o enfraquecimento do exército (no período, os exércitos eram pagos com terras, compondo essa nobreza menor). Nos conceitos mais clássicos das Relações Internacionais, não haver um exército que defenda o país é uma ameaça grave à sua soberania (BARKAWI, 2020). A partir disso, temos a aristocracia e o Estado com interesses semelhantes e díspares dos interesses da nobreza.

Quando enxergamos essa disparidade entre a aristocracia — neste contexto, os nobres pequenos — e a nobreza, temos o ponto II: a desunião da nobreza. Essa desunião vai além dessa diferença de interesses, partindo para uma raiz étnica, já que as nobrezas eram compostas de originários de diferentes regiões, indo até que alguns desses grupos sociais conseguiram poder através da sua lealdade e servidão ao Czar. Essa servidão criou uma estrutura burocrática para a Rússia — pessoas servindo ao Estado tendo, quase sempre, os interesses de suas famílias como motivadores, e que, na narrativa marxista, representa a instrumentalização do Estado para os interesses dessa nova classe burocrática (MARX, 2006).

Estamos lidando com um Estado extremamente fraco, embora soe paradoxal já que também temos uma autocracia. O Estado existia enquanto instituição, mas era pouco governado; a burocracia não se desenvolvera para o serviço público. É passível de interpretação que a Revolução de 1917 foi uma forma de superação a essa fraqueza com um novo Estado forte, presente e capaz de influenciar em todos os aspectos daquele povo.

A Rússia só encontrou o fim desse regime de servidão em 1861 — em contrapasso da Europa, em processo intenso de industrialização e evolução das ideias sociais. Esse passo foi fundamental para a evolução do Estado russo enquanto instituição e estrutura, já que até aí, as instituições eram baseadas na servidão. A partir disso, a nobreza cobrava taxas dos camponeses como parte da burocracia e repassava isso ao Estado — o imposto. Nesse período, a nobreza exercia funções quase estatais. Agora, existiam cidades com centros de poder que respondiam ao poder central maior — essas entidades de governo local foram conhecidas como zemstvo. Houve, também, uma clareza maior do agrupamento da sociedade russa em classes.

É fundamental estabelecer que, sem a libertação desse regime de servidão, a industrialização russa jamais poderia acontecer — vinda tardiamente em relação aos vizinhos europeus, no final do século XIX. Temos, até então, a Rússia se industrializando no mesmo momento que a Europa se tornava imperial e buscava, pela segunda vez, a conquista em terras africanas, sob a justificativa de novos mercados para a exportação dos bens de consumo produzidos em seus país e de depopular as metrópoles.

A Revolução Industrial Russa

O processo é caracterizado como um sucesso. Sergei Witte, Ministro das Finanças entre 1889 e 1891 é associado a esse sucesso com seu discurso de “modernização conservadora”, consistindo na taxação pesada dos trabalhadores forçando a venda para fora, dando à Rússia um saldo positivo na balança comercial. Embora essa taxação tenha afetado severamente os mais pobres, Witte logrou em estabelecer a Rússia como um investimento seguro para os investidores estrangeiros, levando capital externo adentrar o país — que, anos à frente, terá suas consequências durante a revolução.

Nessa primeira etapa, haviam sido introduzidos no país malha ferroviária, além de grandes fábricas de alta produção (como, por exemplo, ferro e metal). A ferrovia transiberiana foi um dos feitos da gestão de Witte que servira aos propósitos da revolução, pois há de se destacar novamente que, embora houvesse um progresso relativamente rápido acontecendo, a Rússia ainda estava extremamente atrasada em relação às outras potências. A partir daqui, foi estabelecido o proletariado industrial russo que — diferentemente do proletariado europeu, sobre o qual escreveu Marx, que já moravam perto dos grandes centros urbanos e possuíam uma qualidade de vida melhor e maior acesso ao conhecimento —, deixavam suas famílias para trabalhar e voltavam para casa apenas periodicamente. Assim, eles não possuíam a mesma habilidade de organização como os europeus (SALISBURY, 1978).

Os russos começaram a se enxergar como parte daquela ordem europeia imperialista por estarem vivendo, pela primeira vez, os mesmos eventos como iguais. A Rússia, pelas suas dimensões continentais, se fortalecia para dar conta de um país destinado a seguir do leste ao oeste, indo da ponta ocidental ligada a Europa à outra ponta ligada à China, à Coreia e ao Japão. Com esse crescimento, a Rússia acabou se envolvendo em conflitos, como a Guerra da Manchúria, em 1905, contra o Japão. Esse conflito foi um dos marcos mais importantes nessa nova etapa da Rússia, embora negativamente, já que a derrota foi ultrajante devido ao despreparo das tropas russas para o combate. A partir daqui, temos uma Rússia industrial que começava a se organizar inserida abruptamente em um contexto internacional de instabilidade.

O estágio embrionário

A derrota da Manchúria foi o gatilho para a revolução, que aconteceu ainda em 1905, e contou com três fatores constituintes: (i) a classe trabalhadora, convocada para uma greve; (ii) os camponeses, que ocupavam periodicamente as terras dos nobres entre 1905 e 1906; e (iii) o próprio exército derrotado na batalha, que não tinha armas nem munições. No entanto, essa revolução não logrou vitória pelos mesmos motivos da derrota na Manchúria: como expresso anteriormente, não havia uma sociedade organizada no período, fazendo com que seus atos fossem espaçados e previsíveis, permitindo que o poder central do Czar pudesse impedir-los.

No entanto, pela primeira vez, a Rússia teve um parlamento, instituição que representa a participação do povo no fazer da política. A famosa Duma (do russo “думать”, que significa “pensar”) foi formada através de um sufrágio ao qual quem possua mais propriedades possuíam mais votos, logo, a Duma era comporta pela maioria representativa dessa classe, restando somente 2% de parlamentares para representar a sociedade civil. A criação da Duma também permitiu a criação de partidos políticos, que logo reverberava o espectro político da sociedade russa, indo da extrema-direita, com partidos lidos como fascistas e suas propostas contra judeus e oposição ao regime parlamentarista, até a extrema-esquerda — essa, protagonistas da Revolução de 1917 (THOMPSON, 2004).

Agora, com a Duma, os russos tinham a quem cobrar, pois, quando se comparava com as potências europeias — válido relembrar que a Rússia se enxergava como uma potência europeia —, o país estava deveras atrasado e tinha dificuldades de acompanhar os passos das potências como iguais. Em analogias, questionava-se se o espírito da corte russa era o mesmo que preenchia as cortes europeias — ou seja, se a força de desenvolvimento estava naquele país da mesma forma que nos impérios europeus.

Os anos se passam e a Rússia se questionava se um dia seria igual à Europa, até que a Primeira Guerra Mundial eclode, em 1914, em decorrência ao assassinato do Arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria, herdeiro do império austro-húngaro. Os países que entraram no conflito em cadeia dominó não tinham ideia do que eles estavam prestes a enfrentar, assim como a Rússia não teve. Acabaram na guerra por ordens do Czar Nicolau Romanov II, que se viu na posição de ter que ignorar o pedido de Sergei Witte, Pyotr Durnovo — então Ministro de Interior —, e Gregório Rasputin, se aliando à Tríplice Entente contra a Alemanha — tida como a maior ameaça ao território russo (WARNES, 1984). Era uma emergência internacional.

O país também era o menos preparado para aquele estado de conflito generalizado que acontecia pela primeira vez na história, considerando que a Europa vivia o período chamado “paz armada”, onde todos os países europeus se armaram devido à corrida imperialista que acontecia no continente africano. Em 1916, 2 milhões de soldados russos haviam sido mortos ou seriamente feridos, mais de 300 mil haviam sido feitos prisioneiros. É estimado que 1/3 dos homens ativos da Rússia estivessem servindo o exército. Os camponeses foram obrigados a servir, mas não havia munição nem armamento suficiente para eles, faltando, também, trabalhadores, sucedendo no aumento exagerado dos preços, greves e ondas de fome nas cidades russas (YORK, 1983).

Portanto, o ato de ir à guerra em condições militares precárias, causando a morte dos soldados russos foi um grande combustível que alimentou a revolta da população contra o poder central do Czar. E o ano de 1917 foi quando a bomba de insatisfação explodiu, não por menos, já que o ego do Czar parecia ser um grande impedimento dele de enxergar a conjuntura de seu tempo. Nesse meio tempo, o nome de Vladimir Lênin já começava a crescer, líder dos Bolcheviques — grandes entusiastas da revolução socialista e a queda do Czarismo.

O grupo surgiu após a cisão do Partido Operário Social-Democrata Russo e significa, literalmente, “a maioria”. Essa separação do partido, que aconteceu entre Vladmir Lênin e Julius Martov, foi o que permitiu o alavanque das ideias socialistas radicais, tendo como principal porta-voz Lênin — que no tempo já versava sobre o imperialismo ser a última fase do capitalismo e dos seus males ao mundo. Ele tinha grande suporte da Internacional Socialista e dos pensadores marxistas europeus.

1917: A Revolução é Vermelha

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Uma representação por um artista desconhecido da multidão que escuta um discurso de Lenin | Dawn

A revolução pode ser definida como um colapso da figura de autoridade da Rússia. Até então, lidamos com um contexto de fome e morte em massa nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial. Um questionamento que surge é acerca do método de governo para um país tão grande territorialmente como a Rússia. E, aliado a esses problemas que não tiveram resposta no tempo, estava a questão que a figura autocrata e autocentrada do Czar era um atraso para um mundo cada vez mais regido pela cooperação do que pela servidão.

Antes de estabelecer os eventos do começo da revolução, é importante que o calendário usado pelo país no período é o juliano, a revolução de fevereiro, na verdade, aconteceu no dia 8 de março. A revolução começou em Petrogrado, atual São Petersburgo com a falta de grãos e a revolta das mulheres, que saíram às ruas para protestar. Tal ato não era nada incomum para a realidade russa, no entanto, aconteceu de operários de grandes fábricas de Petrogrado se juntarem ao movimento, fazendo que crescesse exponencialmente. De acordo com relatórios policiais, de 150 a 200 mil pessoas tomaram as ruas da cidade contra o governo central. Dois dias depois, as forças policiais se juntaram aos manifestantes — eram compostos por camponeses cansados da guerra (KOCHAN, 1970).

Esse momento expressa a insatisfação do povo russo quanto ao modelo servidão. É necessário elucidar, no entanto, que esse movimento não teve nada a ver com os bolcheviques — como argumentado por Trotsky, já que havia cerca de 20.000 registrados e somente 2.000 em Petrogrado. Cada uma das pessoas que foram as ruas tinham o seu próprio motivo para estar lá, seja ele a fome, a guerra, a perda de alguém, o descaso do poder Czarista para com sua população.

O Czar foi aconselhado que reprimir a revolta iria somente prejudicar a capacidade do exército em lutar na guerra. E a guerra parecia ser uma questão particularmente importante para a família Romanov, já que acreditavam, destronando o Nicolau II e instaurando outro regime, o exército conseguiria lutar melhor. Em uma semana, não havia mais Czarismo. Nicolau Romanov renunciou a coroa, oferecendo-a ao irmão, que sabiamente recusou, reconhecendo o fim. O Czarismo na Rússia durou quase 400 anos antes de colapsar em fevereiro de 1917.

Com o fim do Czarismo, o regime que se instalou é classificado como inconvencional. Existiam duas forças atuantes: a liberal intelligentsia, composta majoritariamente pela Duma — destacando que ela foi formada por uma eleição restrita, não representando o povo russo – que possuía grande apoio do Czarismo, e os sovietes, conselhos operários. Os sovietes haviam surgido na Revolução de 1905, sem planejamento algum e conseguindo levar em abundância de pessoas às ruas para os protestos contra o Czarismo — capacidade que empoderava os trabalhadores organizados. No entanto, o grupo se dissolveu após a falha do movimento, ainda em 1905. O grupo reapareceu em 1917, ganhando poder rapidamente em Petrogrado, formado por milhares de operários de diferentes fábricas. O grupo ainda tinha um grande poder influenciador de levar as pessoas para as ruas, valendo ressaltar que Karl Marx nunca citou tal termo em suas obras e os sovietes não eram marxistas (KENEZ, 2006).

As Potências Aliadas reconheceram rapidamente o governo provisório. Nesse momento, os bolcheviques e os mencheviques estavam em tensões: como expresso anteriormente, os bolcheviques são de uma linha revolucionária mais radical enquanto os mencheviques acreditavam em um processo mais brando. Os sovietes eram a chave para a ideia que iria prosseguir, pois, embora não tivessem poder político, a eles pertencia o poder de levar as pessoas às ruas. A liberal intelligentsia perdera poder com o fim do Czarismo e os dois grupos conflitantes se considerarem marxistas.

Durante o governo provisório, os bolcheviques se fortaleciam com o aumento do seu contingente, principalmente por parte dos soldados atraídos pelo lema “Paz, Pão e Terra” — plausível ao considerarmos a fome e a violência causada pela guerra e a terra para sobrevivência (SIMKIN, 1987). E Lênin também mantinha uma campanha de conquista aos sovietes com frases de “todo poder aos sovietes!”. Com o passar do tempo, o governo provisório também se perdia na confusão sem precedentes que o país se encontrava. Alexander Kerensky, último Primeiro-Ministro do governo provisório, deu começo ao fim ao começar uma nova investida militar (KOCHAN, 1970).

Os militares simplesmente desertavam, chegando a uma estimativa de 2 milhões de casos não-oficiais. Devido à falta de aparato e pela fome, houve também a tomada das terras e o assassinato dos nobres. Embora houvesse a tentativa de apaziguar os militares com a substituição do general Alexei Brusilov pelo General Lavr Kornilov — desgostoso pelos veteranos por ser alguém “do povo”, mas que poderia servir como peça fundamental. No entanto, ele queria que Kerensky restaurasse a pena de morte para soldados e militarizasse as fábricas. Com a movimentação, Kornilov ordena tropas em direção a Petrogrado para tomar de volta a cidade, acreditando que iria virar alguma espécie de ditador militar — apoiado por uma organização chamada União para o Reavivamento da Economia Rússia (SALISBURY, 1978).

Considerando essa ação de Kornilov como uma traição, Kerensky agora estava em perigo, convocando os sovietes e a Guarda Vermelha para proteger Petrogrado. Após reuniões que evitaram tais ataques, o general responsável pela tropa se suicidou e Kornilov detido. Kerensky se tornou o líder supremo das forças armadas. Entretanto, o seu apoio à guerra e ao conflito o tornaram impopular rapidamente. Nesse período, mencheviques já se convertiam ao bolchevismo, que agora também contava com um grande poder de soldados. Kerensky já não tinha mais poder de ação, deixando o caminho livre para Lênin, que em 20 de outubro de 1917 começara os primeiros encontros para o novo governo (SHUB, 1967).

No dia 24 de outubro, os bolcheviques tomavam as instituições e as cidades. No dia 26 de outubro, o Conselho Soviético de Comissário do Povo é formado e elege Vladmir Lênin como líder, institucionalizando o Estado de transição socialista. A Rússia agora caminhava para o que viria ser a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em 1924. Em primeiro ato, Lênin desapropriou todas as propriedades privadas, sem compensação ou exceção e tendo qualquer dano cometida contra elas considerado algo gravíssimo por serem de posse do Estado (REED, 2007). Aqui, a hegemonia da ordem liberal era quebrada com o surgimento da primeira amostra de socialismo na história.

O tratado de Brest-Litovsk é acordado já com Lênin no poder, em março de 1918, terminando com a rendição russa às Potências do Eixo. O tratado dava fim à participação do país na Primeira Guerra Mundial, voltando-se para a sua revolução.

Considerações Finais

Ao revisitar a história do país, podemos perceber as diversas variáveis que levaram a revolução de 1917 a ser socialista. Há que se considerar que o poder operário cresceu da forma que cresceu na Rússia devido ao autoritarismo do governo czarista e do alinhamento da nobreza com tal instituição. Isso é um reflexo direto do regime de servidão, que, com o surgimento da burocracia, acabou blindando a nobreza no aparato estatal e transferindo as relações para as fábricas criadas com a revolução tardia.

A derrocada nas batalhas contra o Japão dera aos russos um sentimento de desvalorização por parte de seus governantes, já que a postura do governo havia levado a vida de outros nacionais ao fim em nome de uma guerra que não fazia sentido para um país que, embora industrializado, não chegava perto de uma potência média do período. O movimento na Primeira Guerra Mundial intensificou esse sentimento, agora em escala muito maior pelo caráter singular do conflito na história e pelo número ultrapassar a casa dos milhões.

Nem ao tentar dar representatividade ao povo no processo político o poder central czarista conseguira de modo a, em forma de barganha, estabelecer a ordem pública. As eleições para a Duma foram feitas de forma que o poder jamais fosse expandido para a maioria, causando um sentimento de abandono na população. Enquanto as movimentações externas ao meio trabalhador aconteciam, foi necessário a fome da guerra para que os trabalhadores ganhassem as ruas e mostrassem que não iam mais tolerar aquele regime. Essa reação se deve, também, a toda a trajetória do povo russo no último século ao considerarmos que as instituições do país ainda carregavam consigo um caráter de servidão — mesmo que a abolição desse regime no passado tenha promovido o desenvolvimento, culturalmente ele ainda estava lá.

O socialismo só se fez uma arma potente por ser uma ideia que dialogasse contra o Estado, que, nesse caso, ainda era entendido pelo seu líder como um sistema de servidão à sua pessoa, e a favor dos trabalhadores. A ideia só ganhou poder com o avanço da Primeira Guerra Mundial e o sucateamento da sociedade em prol da participação no conflito. Vale ressaltar que os russos não possuíam a mesma capacidade de organização e letramento como os trabalhadores europeus, deixando aos mais afortunados a oportunidade de entrar em contato com novas filosofias.

Vladmir Lênin, tido como o pai dessa revolução por ser líder dos bolcheviques, pareceu saber utilizar bem dessa estratégia ao conquistar os sovietes com a ideia do socialismo. Infelizmente, ao canalizarmos esse debate em algo superficial como o conflito entre “o bem e o mal” proposto pela Guerra Fria, perdemos os principais fatores que levaram a essa revolução, do fato que era o primeiro experimento de socialismo visualizado naquela escala na história, e que só apresentou ameaça ao mundo quando representou ameaça à posição hegemônica dos Estados Unidos na ordem internacional que o país organizava no pós-Segunda Guerra Mundial.

Por fim, a revolução não acontece do dia para a noite e não podem ser lidas somente pela ótica de uma variável somente. A Revolução Francesa mesmo desencadeou diversas ao redor de todo o globo após séculos presos em um sistema político, no qual o poder era vindo da igreja e passado em famílias, culminando no Estado Absolutista que engatilhou toda uma classe da população ao conflito — de extrema violência. Com os russos, se deu da mesma forma, tal que a família Romanov foi brutalmente assassinada. E talvez, se os sovietes tivessem como prever a próxima década, eles pudessem ter decidido não prosseguir ao lado de Lênin e dos bolcheviques — assim como também poderiam escolher continuar. Não se deve medir a análise de tal processo histórico com uma régua importada da contemporaneidade ocidental.

Nota do Autor: Parte dos fatos apresentados foram abordados no curso do Prof. Peter Kenez, complementados com a bibliografia selecionada.

Referências

BARKAWI, T. War and world politics. In: BAYILIS, J.; SMITH, S.; OWENS, P. The Globalization of World Politics. 8 ed. Oxford: Oxford University Press, 2020.

JOHNSON, E. When endemic met epidemic: cholera, chronic disease and public health in Kazan, 1788–1842. Urban History, 1-19. 2020. doi:10.1017/S0963926820000292.

KENEZ, P. A History of the Soviet Union from the Beginning to the End. 2ed. New York: Cambridge University Press, 2006.

KOCHAN, L. Russia in Revolution. Paladin. 1970.

MARX, Karl. O Dezoito Brumário de Louis Bonaparte. São Paulo: Centauro, 2006

REED, J. Ten Days That Shook the World. Penguin Classics. 2007.

SALISBURY, H. Black Night, White Snow: Russia’s revolution. Cassell. 1978.

SIMKIN, J. Individual in History: Stalin. Spartacus Education Publishers. 1987.

THOMPSON, J. Duma. In: MILLAR, J (ed.). Encyclopædia of Russian History. Macmillan, 2004.

WARNES, D. Russia: A Modern History. Unwin Hyman. 1990.

YORK, B. The Soviet Union. London: Harrap. 1983.

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Sobre o Autor

Graduando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília. Membro bolsista do Programa de Educação Tutorial do curso de Relações Internacionais da Universidade de Brasília.

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