Sumário
Introdução
O que acontece com um Estado que desafia a ordem internacional sem possuir armas nucleares? Os últimos vinte anos oferecem três respostas distintas para essa pergunta: a Líbia, que se desarmou voluntariamente; a Coreia do Norte, que resistiu e se armou; e o Irã, que tentou algo entre os dois caminhos.
Os três casos não são coincidência. Cada um representa uma estratégia diferente diante da mesma pressão — a de potências ocidentais, sobretudo os Estados Unidos, que historicamente não aceitam a combinação de regimes adversários com capacidade nuclear real ou potencial. Comparar essas estratégias e seus resultados é o objetivo deste artigo.
I. O caso líbio: desarmamento sem garantias
Em dezembro de 2003, Muammar Kadafi anunciou o desmantelamento voluntário do programa líbio de armas de destruição em massa. Após negociações secretas com Washington e Londres, aceitou abrir instalações à inspeção internacional, entregar tecnologia nuclear e encerrar programas de mísseis de longo alcance. Em troca, esperava o fim das sanções, reintegração à comunidade internacional e, implicitamente, segurança para o seu regime.
Por alguns anos, o acordo funcionou nos termos esperados. A Líbia voltou ao sistema financeiro global, empresas petrolíferas ocidentais retornaram ao país, e Kadafi passou a ser recebido em capitais europeias.
O que os acordos nucleares não resolviam, porém, era outra ambição kadafista: reformular o sistema monetário africano. Como presidente da União Africana, Kadafi propôs a criação de um dinar de ouro para que os países africanos comercializassem suas commodities — incluindo o petróleo líbio — fora do circuito do dólar. O projeto incomodava tanto os Estados Unidos quanto a França, cujo franco CFA mantinha influência financeira sobre grande parte da África Ocidental.
Em 2011, durante uma revolta interna, uma coalizão da OTAN liderada por França e Estados Unidos interveio militarmente. Kadafi foi capturado e morto. O projeto do dinar de ouro foi encerrado junto com ele.
O desarmamento nuclear não comprou a proteção que Kadafi esperava. Sem capacidade de dissuasão, o regime ficou exposto quando outros interesses entraram em conflito com as potências que ele havia tentado agradar.
II. O caso norte-coreano: a bomba como garantia de sobrevivência
A trajetória norte-coreana é o oposto da Líbia. Pyongyang negociou durante décadas sem nunca de fato ceder. Assinou acordos, expulsou inspetores, voltou às negociações e os abandonou novamente. Em 2003, retirou-se do Tratado de Não Proliferação Nuclear. Em 2006, realizou seu primeiro teste nuclear. Em 2022, declarou seu estatuto nuclear “irreversível”.
O regime sobreviveu a décadas de sanções e isolamento por duas razões principais. Primeiro, construiu alianças com potências que têm interesse em manter um Estado incômodo para os EUA no nordeste asiático. A China nunca aplicou sanções com rigor suficiente para inviabilizar o regime — a Coreia do Norte funciona como um Estado-tampão contra a presença militar americana na península coreana. A Rússia, especialmente após 2022, aprofundou a parceria com Pyongyang: a Coreia do Norte forneceu munições e tropas para a guerra na Ucrânia e recebeu, em troca, tecnologia e apoio político.
Segundo, e mais importante, o regime possui armas nucleares. Isso muda o cálculo de qualquer adversário que considere uma ação militar: um ataque convencional carrega o risco de uma resposta nuclear. Kim Jong-un não precisa vencer uma guerra. Precisa apenas que o adversário decida que o custo de iniciá-la é alto demais.
O resultado é que o país mais isolado e empobrecido do leste asiático tornou-se, na prática, inatingível militarmente.
III. O Irã e a estratégia que não funcionou
A estratégia iraniana foi construída sobre uma lógica de ambiguidade: avançar no enriquecimento de urânio o suficiente para ter um programa robusto, sem cruzar formalmente para a produção de uma arma. A ideia era ter poder de barganha sem provocar uma resposta militar.

Por um tempo, funcionou. O acordo de 2015 — o JCPOA — foi o ponto mais alto dessa estratégia: em troca de limites ao programa nuclear, o Irã obteve alívio de sanções e reconhecimento de seu papel regional. A retirada americana do acordo em 2018, porém, começou a desfazer essa lógica. O programa nuclear avançou. A pressão aumentou. As negociações posteriores não produziram um novo acordo.
Em junho de 2025, Estados Unidos e Israel atacaram as instalações nucleares iranianas — Fordow, Natanz e Isfahan. Trump descreveu os ataques como tendo “obliterado” os sítios de enriquecimento. Análises independentes concluíram que o programa foi atrasado em meses, não destruído. A diferença em relação à Coreia do Norte é relevante: Pyongyang descentralizou e enterrou suas instalações ao longo de décadas. O Irã não tinha esse nível de redundância.
Em fevereiro de 2026, uma operação conjunta americana e israelense atingiu simultaneamente instalações estratégicas e a liderança do regime. O líder supremo Ali Khamenei foi morto. A estrutura de comando iraniana foi desarticulada.
O Irã acabou preso entre os dois modelos que havia observado. Como a Líbia, não tinha armas nucleares para dissuadir o ataque. Como a Coreia do Norte, tinha um programa avançado o suficiente para justificar, do ponto de vista dos adversários, uma ação militar.
IV. O que os três casos têm em comum
Analisados em conjunto, os três casos indicam alguns padrões.
O desarmamento voluntário não produz segurança por si só. A Líbia demonstrou que entregar o programa nuclear não elimina os outros pontos de atrito com as potências dominantes. A proteção que Kadafi esperava era condicional e implícita — e não resistiu quando os interesses mudaram.
A posse de armas nucleares, por outro lado, alterou de forma concreta o comportamento dos adversários em relação à Coreia do Norte. Nenhuma administração americana, independentemente da retórica, considerou seriamente uma ação militar contra Pyongyang após os testes nucleares. A dissuasão funciona quando é crível.
A ambiguidade calculada, no caso iraniano, produziu o pior resultado possível: não foi suficiente para dissuadir, mas foi suficiente para justificar o ataque. A estratégia pressupunha que os adversários agiriam dentro de uma lógica previsível de custo-benefício. Essa suposição não se sustentou.
Há ainda um elemento que conecta os casos líbio e iraniano além do nuclear: ambos os países, em diferentes momentos, adotaram posições que ameaçavam interesses financeiros e energéticos ocidentais — no caso da Líbia, o projeto do dinar de ouro; no caso do Irã, décadas de tentativas de comercializar petróleo fora do dólar e de construir uma esfera de influência regional independente. Isso não explica tudo, mas tampouco pode ser ignorado na análise.
Conclusão
Os três casos não oferecem uma lição simples, mas apontam para uma conclusão direta: em um sistema internacional sem mecanismo efetivo de proteção para Estados menores, a capacidade de dissuasão — e não a conformidade com normas internacionais — parece ser o fator determinante para a sobrevivência de regimes que se colocam em oposição às potências dominantes.
Os resultados divergem de forma significativa: o regime norte-coreano permanece no poder, o líbio foi destruído, e o iraniano pagou o preço de ter ficado entre os dois modelos sem as vantagens de nenhum.
O que os eventos posteriores ao ataque de fevereiro de 2026 sugerem, porém, é que a destruição da liderança iraniana não encerrou o conflito — alterou sua natureza. Sem uma estrutura de comando centralizada para negociar ou capitular, o Irã fragmentado mostrou uma resiliência que os planejadores americanos aparentemente subestimaram. A estratégia iraniana de elevação do custo do conflito — historicamente baseada em proxies, mísseis e ameaças ao tráfego marítimo — encontrou no Estreito de Ormuz seu ponto de maior pressão. Cerca de 20% do petróleo comercializado globalmente passa por ali. Manter o estreito aberto tornou-se, para os Estados Unidos, um objetivo operacional tão urgente quanto qualquer questão nuclear — e consideravelmente mais difícil de resolver por meios militares convencionais.
O caso iraniano, portanto, adiciona uma camada à análise: a eliminação de um regime adversário não equivale necessariamente ao controle do território ou dos recursos estratégicos que o motivaram. A questão que esse padrão levanta permanece sem resposta clara — o que isso diz sobre os incentivos que o sistema atual produz para a proliferação nuclear e para a adoção de estratégias de dissuasão assimétrica por Estados menores?
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Leonardo dos Santos Fernandes é Licenciado em História (Universidade Estadual do Piauí), Mestrando em Ciência Política (Universidade Federal do Piauí) e Pesquisador do Grupo de Trabalho em História Militar (GT História Militar). Atualmente, pesquisa relações sino-russas, Sul Global e ideias sobre multipolaridade mundial.
