Introdução
A Democracia Moderna, gestada pela Revolução Francesa e concebida pela Independência Americana, representou uma ruptura paradigmática no cenário político mundial. Ao pôr fim ao absolutismo e instituir o Homem como agente central na definição dos rumos políticos do Estado, inaugurou-se um novo modelo de organização social e governamental.
De forma consensual, pode-se afirmar que a democracia constitui a forma mais eficaz de regime político, uma vez que, em contextos democráticos, observam-se os melhores indicadores sociais e econômicos, como altos níveis no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), menores coeficientes de Gini (indicador de desigualdade), elevados padrões de proteção aos direitos humanos, maior igualdade de gênero, maior expectativa de vida e Produto Interno Bruto (PIB) elevado.
A tabela a seguir mostra dados de dez países, 5 democráticos e 5 não democráticos:

Embora haja limitações quanto à obtenção de dados confiáveis em regimes não democráticos, os indicadores disponíveis sugerem que a democracia proporciona significativas vantagens nas sociedades onde está consolidada. No que se refere ao IDH, por exemplo, entre os dez países com índices superiores a 0,90, todos apresentam regimes democráticos. Quanto ao índice de Gini, que mede a desigualdade de renda ou riqueza, entre os cinco países mais igualitários, três são democracias, enquanto dois não seguem esse regime.
Em relação à igualdade de gênero e expectativa de vida, os cinco países com melhor desempenho são, em todos os casos, democráticos. No que tange aos dados econômicos, especialmente o PIB e o PIB per capita, observa-se que, entre os cinco primeiros colocados, apenas um país não adota um regime democrático.
Diante desses dados, surge uma questão em mente: Se a democracia se mostra, como o regime mais benéfico para o desenvolvimento humano e econômico, por que ela tem sido alvo de constantes ameaças? Por que, nos últimos anos, observa-se um retrocesso em sua consolidação?
Alguns fatores podem ser apontados como causas desse fenômeno:
a) Ascensão de governos populistas: ainda que o populismo não seja, necessariamente, incompatível com a democracia, observa-se que, para garantir sua permanência no poder, regimes populistas frequentemente adotam práticas que fragilizam instituições democráticas. Exemplos históricos incluem o Estado Novo no Brasil e o atual regime venezuelano (CAMARA, 2020).
b) Crises do capitalismo: ao analisar o contexto que favoreceu a ascensão do nazismo na Alemanha do século XX, verifica-se que a crise econômica posterior à Primeira Guerra Mundial e o consequente vácuo de poder contribuíram para o crescimento do Partido Nazista, o qual obteve apoio tanto das classes trabalhadoras quanto do grande capital e da pequena e média burguesia (IZEPAO, SANTOS, SOUZA, ANDRADE, 2019).
c) Desinformação e manipulação: as redes sociais e as fake News favorecem a manipulação da massa por aqueles que conseguem decifrar seu algoritmo.
Esses são alguns fatores que podem explicar a crise por qual passa a Democracia no século XXI. Nesse sentido, será realizada uma análise de El Salvador, mostrando os sinais de que o país da America Central se tornou um regime não democrático.
El Salvador: Contexto Histórico
El Salvador, país localizado na América Central, viveu sob regimes militares durante grande parte do século XX. Em resposta à repressão institucionalizada, diversos grupos guerrilheiros surgiram, entre os quais se destacou a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN). Durante a década de 1980, enquanto várias ditaduras militares na América Latina chegavam ao fim, El Salvador iniciou sua transição política com a eleição de Alfredo Cristiani Burkard, em 1989, pelo partido de extrema direita Aliança Republicana Nacionalista (ARENA).
Nesse contexto, sob mediação da Organização das Nações Unidas (ONU), iniciaram-se as negociações de paz entre a ARENA e a FMLN, que culminaram no encerramento da guerra civil e na transformação da FMLN em um partido político de orientação progressista (SANTOS, 2024)
A partir dos anos 2000, a FMLN ampliou sua influência política: elegeu 31 dos 84 parlamentares da Assembleia Legislativa e passou a governar 80 municípios, consolidando-se como a principal força de oposição ao partido ARENA (SANTOS, s.d.). Durante esse período, os sucessivos governos da ARENA implementaram políticas econômicas de cunho neoliberal, o que contribuiu para a crescente dependência das remessas internacionais e para o agravamento dos índices de criminalidade no país (SANTOS, 2024).
A vitória da FMLN nas eleições presidenciais de 2009, com Mauricio Funes, marcou uma inflexão nas políticas públicas, com foco em programas sociais voltados à população mais vulnerável. Dentre as iniciativas implementadas, destacam-se a ampliação da rede de saúde pública, a distribuição de sementes para famílias camponesas e a implementação de políticas educacionais voltadas às crianças em idade escolar (SANTOS, 2024).
Durante o governo Funes, entretanto, houve o fortalecimento do aparato militar, contrariando os termos acordados nas negociações de paz. As Forças Armadas foram mobilizadas para atuar em operações de segurança pública, visando o combate às pandillas (gangues) e o controle dos presídios. Como resultado, houve uma expressiva redução nas taxas de homicídio: a média de 13,86 homicídios diários registrada em fevereiro de 2012 caiu para 8,23 em março e para 5,07 em abril do mesmo ano (SANTOS, 2024).
Posteriormente, investigações revelaram que a queda nos índices de violência foi consequência de negociações secretas entre o governo e líderes das pandillas. A revelação dessas tratativas provocou forte reação negativa da população, que passou a acusar o Estado de pactuar com os grupos responsáveis por crimes como extorsões, roubos e assassinatos. Aliada à insatisfação social pela ausência de melhorias concretas nas condições de vida, essa crise de credibilidade contribuiu para o desgaste político da FMLN.
Paralelamente, o partido ARENA enfrentava seu próprio processo de fragmentação, culminando na expulsão do ex-presidente Antonio Saca e na saída de doze parlamentares, que fundaram o partido GANA – Grande Aliança pela Unidade Nacional. Essa nova agremiação política se tornaria decisiva para o cenário eleitoral subsequente, uma vez que foi por meio dela que Nayib Bukele, ex-integrante da FMLN, se elegeu presidente em 2019 (SANTOS,2024).
Eleição de Nayib Bukele
Nayib Bukele construiu sua imagem pública como a de um outsider político, alguém desvinculado das estruturas tradicionais de poder, com forte apelo popular e estilo comunicativo moderno. Apresenta-se como uma figura carismática, “descolada”, sintonizada com as tendências contemporâneas e contrária ao establishment político tradicional (ESPINOZA, SILVA, 2024).
Um dos principais instrumentos utilizados para consolidar essa imagem é o uso estratégico das redes sociais, especialmente a plataforma X (antigo Twitter), onde Bukele possui mais de 6,1 milhões de seguidores — número que ultrapassa em mais de dez vezes o total de usuários da rede em El Salvador. Além disso, ele mantém interação constante com líderes políticos globais por meio da plataforma, o que contribui para projetar sua imagem para além das fronteiras nacionais (VERGARA, MELÉNDEZ-SANCHES, 2024).
Apesar de seu discurso de ruptura, Bukele possui trajetória política anterior ligada ao sistema tradicional. Foi filiado à Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) e exerceu o cargo de prefeito em duas ocasiões. Contudo, em 2019, rompeu com o partido e fundou o movimento Nuevas Ideas, legenda pela qual concorreu e venceu as eleições presidenciais do mesmo ano (ESPINOZA, SILVA, 2024).
Ao construir essa nova identidade política, marcada por uma comunicação direta com a população e pela rejeição aos partidos tradicionais, Bukele conseguiu não apenas se tornar o presidente mais jovem da história recente de El Salvador, como também consolidar altos níveis de aprovação popular.
Governança e principais dilemas
Ao assumir a chefia do Poder Executivo salvadorenho, Nayib Bukele herdou dos governos anteriores uma série de desafios relacionados à segurança pública. Ainda que, no momento de sua posse, os índices de homicídio já estivessem em declínio contínuo havia três anos — passando de 107 por 100 mil habitantes em 2015 para 53 por 100 mil em 2018 (VERGARA, MELÉNDEZSANCHES, 2024.) — esse panorama foi abruptamente alterado em 2022. Naquele ano, a Mara Salvatrucha (MS-13), uma das mais influentes organizações criminosas do país, protagonizou uma onda de assassinatos, totalizando 86 mortes em apenas 72 horas (VERGARA, MELÉNDEZSANCHES, 2024.).
Esse episódio representou um ponto de inflexão na condução das políticas de segurança do governo Bukele. A partir de então, o presidente adotou uma postura marcada pela rigidez e repressão, alinhada à doutrina da mano dura, e deu início a práticas de caráter autoritário. Tal mudança reflete o que Espinoza e Silva qualificam como “novo autoritarismo”, fenômeno caracterizado por líderes democraticamente eleitos que, uma vez no poder, distorcem os princípios institucionais e minam os fundamentos democráticos.
Este modelo autoritário contemporâneo se manifesta por meio de diversas dimensões, entre elas: (i) a centralização de poder na figura presidencial; (ii) a manipulação discursiva e simbólica da política, adaptada à lógica das redes digitais; (iii) a militarização das políticas públicas de segurança, frequentemente desassociadas do respeito aos direitos civis; (iv) o agravamento das desigualdades socioeconômicas; e (v) a criminalização de movimentos sociais e de defensores dos direitos humanos (ESPINOZA, SILVA apud FERNÁNDEZ, 2024).
Características do autoritarismo salvadorenho
O governo de Nayib Bukele, frequentemente referido como “modelo Bukele”, tem sido caracterizado por uma crescente centralização do poder e por medidas autoritárias sob a justificativa do combate à criminalidade. Um dos principais marcos desse modelo foi a instauração, em 2022, do Regime de Exceção, previsto na Constituição salvadorenha para situações excepcionais — como guerras, invasões, rebeliões, catástrofes ou perturbações graves da ordem pública. Esse regime permite a suspensão temporária de direitos fundamentais, como a liberdade de locomoção e de expressão, o direito à inviolabilidade da correspondência e das comunicações, a liberdade de associação e reunião, bem como o direito ao contraditório, à ampla defesa e ao prazo legal para a detenção administrativa (ESPINOZA, SILVA, 2024).
Embora o Regime de Exceção tenha duração inicial de trinta dias, sua renovação tornou-se sistemática: desde março de 2022, o decreto tem sido prorrogado mensalmente. Com isso, diversas garantias constitucionais foram efetivamente suspensas, permitindo que as forças de segurança realizassem prisões sem mandado judicial, interceptassem comunicações privadas e restringissem a liberdade de movimento sem necessidade de autorização judicial (VERGARA, MELÉNDEZSANCHES, 2024).
Outro pilar central da estratégia autoritária adotada por Bukele consiste na realização de prisões em massa. Entre 2022 e 2023, mais de 78 mil pessoas foram detidas sob a acusação de envolvimento com organizações criminosas (VERGARA, MELÉNDEZ-SANCHES, 2024). Em complemento, o governo construiu o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), um presídio de segurança máxima destinado a abrigar membros de gangues e, mais recentemente, indivíduos deportados pelos Estados Unidos. Dentre os deportados, destacam-se mais de 200 supostos integrantes do grupo criminoso venezuelano “Tren de Aragua”, transferidos para cumprir pena em solo salvadorenho (RFI, 2024).
As reformas legais implementadas no contexto do Regime de Exceção também evidenciam o viés punitivista do modelo. A idade de responsabilidade penal para crimes relacionados a gangues foi reduzida, as diretrizes de sentenças tornaram-se mais rígidas e passaram a ser autorizados julgamentos coletivos. Essas mudanças legais implicaram sérios custos para os direitos humanos e as liberdades civis. Casos de prisões arbitrárias e injustas aumentaram exponencialmente, levando El Salvador a registrar, em pouco tempo, a maior taxa de encarceramento do mundo. Relatos de tortura e de mortes não explicadas em unidades prisionais tornaram-se recorrentes, gerando preocupação entre organizações internacionais de direitos humanos (VERGARA, MELÉNDEZ-SANCHES, 2024).
Resultados e Repercussões
Como resultado das medidas adotadas, El Salvador apresentou uma expressiva redução nas taxas de homicídio. Os dados indicam que a taxa anual de homicídios por cem mil habitantes era de 38 em 2019, caindo para 21,2 em 2020, 18,1 em 2021, 7,8 em 2022 e, finalmente, 2,4 em 2023 (ESPINOZA, SILVA, 2024). O governo salvadorenho enfraqueceu significativamente a capacidade das organizações criminosas de coordenar ações retaliatórias, tornando-as praticamente inoperantes (VERGARA, MELÉNDEZ-SANCHES, 2024).
A popularidade do presidente Nayib Bukele permanece elevada: segundo pesquisa de 2023, sua aprovação alcança 90% da população (ESPINOZA, SILVA, 2024), e 85% dos cidadãos afirmam sentir-se seguros no país. Observase, contudo, uma renúncia voluntária a certos direitos e liberdades individuais por parte da população, em um pacto implícito com o Estado. Em nome da segurança pública e da redução da violência, parcela significativa da sociedade parece disposta a aceitar limitações em garantias civis fundamentais.
O chamado “modelo Bukele” tem atraído a atenção de outros líderes latinoamericanos. O presidente do Equador, Daniel Noboa, por exemplo, promoveu uma reestruturação no alto comando das Forças Armadas e da Polícia, além de anunciar a construção de dois presídios de segurança máxima inspirados nas megaprisões salvadorenhas (VERGARA, MELÉNDEZSANCHES, 2024). Em Honduras, a presidenta Xiomara Castro tentou replicar a abordagem salvadorenha ao declarar guerra à prática de extorsão e instaurar um estado de emergência para enfrentar as bandillas (VERGARA, MELÉNDEZSANCHES, 2024). Nos Estados Unidos, durante o governo de Donald Trump, El Salvador chegou a ser classificado como o país mais seguro para cidadãos estadunidenses viajarem (CNN, 2025), além de ter sido destino para deportações de imigrantes centro-americanos (VENTAS, 2025).
Entretanto, apesar da elevada aprovação interna, o governo de Bukele tem sido alvo de críticas por parte de organismos internacionais de direitos humanos. A Comissão Interamericana de Direitos Humanos, órgão autônomo vinculado à Organização dos Estados Americanos (OEA), expressou preocupação com a crescente militarização da segurança pública em El Salvador, recomendando a sua redução (ESPINOZA, SILVA, 2024). De forma semelhante, a ONG Human Rights Watch denunciou violações de direitos cometidas durante o estado de exceção, incluindo abusos contra crianças e adolescentes (HUMAN RIGHTS WATCH, 2025).
Conclusão
A análise do caso salvadorenho revela um cenário complexo e paradoxal: ao mesmo tempo em que El Salvador vivencia uma notável redução nos índices de criminalidade e desfruta de altos níveis de aprovação popular, observa-se um preocupante enfraquecimento das instituições democráticas e a consolidação de práticas autoritárias sob o comando de Nayib Bukele. A população, movida pelo desejo de segurança e ordem, parece aceitar – e até endossar – a renúncia a direitos civis fundamentais, evidenciando uma perigosa relativização das liberdades individuais em nome da eficácia governamental.
Esse fenômeno, longe de ser isolado, ecoa por outros países latino-americanos que, inspirados no “modelo Bukele”, flertam com soluções autoritárias para problemas estruturais. Diante disso, impõe-se o desafio de repensar os caminhos da democracia no século XXI, reforçando a importância da institucionalidade, do respeito aos direitos humanos e da construção de políticas públicas que conciliem segurança e liberdade — sob o risco de se normalizar o autoritarismo como resposta legítima às crises contemporâneas.
Referências Bibliográficas
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