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Colômbia elege presidente um cidadão americano apoiado por Donald Trump

Photo by Flavia Carpio on Unsplash

Neste domingo, 21 de junho, os eleitores da Colômbia escolheram seu próximo presidente, em uma disputa que poderá ter implicações muito além das fronteiras do país.

O vencedor é Abelardo de la Espriella, um advogado de extrema direita famoso no país mas que até o ano passado morava nos EUA – com cidadania americana -, que para se eleger recebeu o apoio do presidente dos EUA Donald Trump e prometeu adotar uma abordagem de “mão de ferro” contra o crime caso seja eleito.

De la Espriella ficou à frente de Iván Cepeda, um filósofo e senador veterano defensor dos direitos humanos, por cerca de 1% dos votos. O resultado oficial das eleições colombinas ainda não foi divulgado – a lei do país exige um escrutínio oficial após a primeiraapuração – mas tudo indica que o resultado será chancelado.

Com a vitória De la Espriella, a onda que levou outros líderes de extrema direita à vitória na América Latina — Nayib Bukele (El Salvador), Javier Milei (Argentina) e José Antonio Kast (Chile) — conquista seu maior triunfo até agora.

O candidato e o perigo

De la Espriella, conhecido pelo apelido de “El Tigre” (“o Tigre”), é mais um artista do que um político. Para começar, ele não tem experiência política. Nos comícios, ele usa a camisa da seleção colombiana de futebol (mesmo depois que um juiz ordenou que ele não o fizesse) e encerra seus discursos com uma saudação militar e um slogan inflamado: “Firmes por la Patria” (“Firmes pela Pátria”).

Em termos de política, ele se situa inequivocamente na extrema direita. Ele promete pôr fim, em apenas 90 dias, ao conflito civil armado que assola a Colômbia há décadas por meio de uma ofensiva militar. Ele também prometeu construir megaprisões (como Bukele em El Salvador) para exterminar criminosos que ele compara a baratas e ratos.

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Apoiadores do candidato à presidência Abelardo de la Espriella participam de um comício de campanha em Buga, na Colômbia. Santiago Saldarriaga/AP

E ele ameaçou retirar a Colômbia das Nações Unidas, da Organização dos Estados Americanos (OEA) e do Sistema Interamericano de Direitos Humanos.

A especialista em relações internacionais Arlene Tickner considera a ideia absurda e contraproducente. Os fóruns multilaterais, argumenta ela, são onde potências médias como a Colômbia constroem alianças e impedem que nações mais poderosas sempre levem a melhor.

O plano econômico de De la Espriella reduziria o tamanho do Estado em 40% e resultaria na demissão de cerca de 700 mil funcionários públicos e prestadores de serviços. Isso seria desastroso para um dos países mais desiguais do mundo.

Entre seus clientes jurídicos está Alex Saab, o suposto testa-de-ferro do governo de Maduro, na Venezuela, para lavagem de dinheiro, e outras pessoas ligadas a grupos paramilitares. Uma investigação de 2009 sobre suas supostas ligações com grupos paramilitares foi arquivada pelo Ministério Público; ele nega qualquer irregularidade.

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De la Espriella se inspirou no líder de El Salvador, Nayib Bukele, visto aqui em um encontro com Donald Trump em 2025. Pool/AP

Um presidente que prestou juramento a Washington?

Embora de la Espriella se autodenomine “defensor da pátria”, ele também é um cidadão naturalizado dos EUA e republicano registrad, que morava em Miami.

Para se tornar cidadão dos EUA, de la Espriella prestou o juramento de fidelidade aos EUA. Isso exigia renunciar a “toda lealdade e fidelidade” a qualquer Estado estrangeiro e comprometer-se a pegar em armas pelos Estados Unidos.

No entanto, como um presidente poderia conduzir as relações exteriores do país e comandar suas forças armadas, conforme exige a Constituição da Colômbia, tendo jurado renunciar à lealdade a outros Estados que não os EUA?

A proibição da Colômbia de que pessoas com dupla nacionalidade ocupem altos cargos isenta aqueles nascidos na Colômbia, como foi o caso de De la Espriella. Mas as tensões em torno de seus laços com os EUA são mais profundas.

De la Espriella afirmou que conduziria as relações com a Venezuela por meio do Departamento de Estado dos EUA após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelos EUA em janeiro. Isso daria a Washington o controle sobre uma das relações mais importantes e complexas da Colômbia.

E, em 2 de junho, Trump deu a de la Espriella um “apoio completo e total” – uma medida condenada por vários legisladores norte-americanos como “interferência descarada” nas eleições da Colômbia.

Dias depois, agentes de imigração dos EUA prenderam o ativista colombiano Beto Coral, que havia apresentado uma queixa contra de la Espriella nos tribunais dos EUA e feito campanha contra ele em Miami. Um congressista classificou a prisão como “profundamente alarmante”. O senador republicano de origem colombiana Bernie Moreno, porém, aplaudiu a prisão, dizendo a Coral para “ter uma boa vida de volta à Colômbia”.

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Abelardo de la Espriella discursa em um comício de campanha em Cartagena, na Colômbia. Ricardo Maldonado Rozo/EFE/EPA

Por que a mensagem faz efeito

Por que, então, os colombianos se uniram em torno de um homem tão claramente em desacordo com seus próprios interesses?

Por um lado, a mídia molda o que os colombianos veem. De acordo com a Repórteres Sem Fronteiras, a mídia colombiana é dominada por algumas poucas famílias empresárias e, como observam os estudiosos, eles tendem a tratar a esquerda de forma mais severa do que a direita. Durante anos, o governo reformista de Petro foi retratado como um desastre, enquanto a desigualdade arraigada é simplesmente aceita.

De la Espriella também tem explorado os temores da população em relação à criminalidade, e isso está surtindo efeito entre alguns eleitores. Alguns críticos culpam o plano de “paz total” de Petro com grupos armados e gangues e, de fato, ele enfrentou dificuldades.

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Apoiadores do candidato presidencial de esquerda Iván Cepeda participam de seu comício de campanha em Bogotá, na Colômbia. Fernando Vergara/AP

Mas a taxa de homicídios da Colômbia, próxima a 26 por 100.000 habitantes, está bem abaixo do pico registrado no início da década de 1990.

E tentativas anteriores do governo de reprimir grupos armados violentos com “mão de ferro” levaram a um dos momentos mais sombrios da história colombiana – os 7.837 civis mortos por soldados no início dos anos 2000 e disfarçados de guerrilheiros para inflar o número de vítimas.

A vitória de la Espriella não apenas ampliará o domínio de governantes autoritários na América Latina, como também dará ao governo Trump uma influência ainda maior sobre o que acontece na região. A Constituição coolombiana, uma das mais ousadas da América Latina, está em risco.

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