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DISSUASÃO NUCLEAR E CULTURA ESTRATÉGICA NO CONFRONTO ISRAEL-IRÃ: A LÓGICA DA SOBREVIVÊNCIA, AMBIGUIDADE E ESTRATÉGIA A2/AD

Photo by Johannes Plenio on Unsplash

Esse estudo de caso busca analisar a aplicação da dissuasão nuclear no contexto do embate estratégico Israel e Irã e exercitar o pensamento sobre possíveis medidas israelenses em relação ao aumento de tensões militares com o Estado iraniano. Tendo como enfoque a premissa de que nenhum Estado racional atacaria outro que pudesse causar destruição mútua. A dissuasão nuclear, que se sustenta na capacidade de segundo-ataque, credibilidade de retaliação e resistência dos sistemas de comando e controle (C2) para impedir a destruição mútua assegurada (MAD). Israel, que possui vulnerabilidades territoriais, prioriza sua capacidade de segundo-ataque por meio de submarinos furtivos de classe Dolphin, e mantém a credibilidade da ameaça através de sua política de ambiguidade nuclear.

Nesse sentido, o campo estratégico de Israel se baseia no elemento híbrido, que busca utilizar mecanismos como dissuasão por negação e dissuasão por retaliação. Ademais, essa linha de ação reflete sua cultura estratégica, formulada por traumas históricos e uma percepção de ameaça existencial, que representa, para Israel, justificativa para medidas drásticas contra o Estado iraniano. Por outro lado, o Irã emprega uma estratégia A2/AD para compensar sua inferioridade militar diante do Estado israelense e de seus aliados. A tática do Irã gira em torno do uso de mísseis balísticos de longo alcance, drones e proxies regionais para desgastar Israel.

Ademais, a perspectiva militar israelense depende da combinação de ataques em múltiplas frentes, da inteligência e da desinformação para imprevisibilidade e da ampliação da narrativa de que o programa nuclear do Irã representa uma ameaça ao Ocidente. O objetivo central desse discurso é garantir o apoio político e militar estadunidense. 

INTRODUÇÃO

A Dissuasão Nuclear surgiu como uma resposta ao risco de conflitos extremos, partindo da lógica de que nenhum Estado racional atacaria um adversário se soubesse que a retaliação causaria destruição mútua. Como alerta Diniz (2016), tentar neutralizar completamente o arsenal nuclear de um inimigo, com o intuito de garantir a paz, pode ser desastroso, uma vez que mesmo uma parte remanescente desse arsenal poderia ser usada em um contra-ataque devastador.

Segundo ele, a eficácia da dissuasão nuclear no Oriente Médio depende de três elementos fundamentais: 1) capacidade de segundo ataque, ou seja, garantir a possibilidade de uma retaliação após um ataque inicial; 2) credibilidade de retaliação, baseada na expectativa de que o Estado realmente reagirá; e 3) a resistência dos sistemas de comando e controle (C2), os quais, segundo Diniz (2016), devem equilibrar protocolos de controle negativo (para impedir o uso indevido das armas nucleares) e positivo (para autorizar retaliação legítima). Esses fatores são cruciais para impedir ações hostis e garantir um mínimo de estabilidade na ordem regional (Diniz, 2016).

FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA DA DISSUASÃO NUCLEAR

Dadas suas limitações territoriais e vulnerabilidades geopolíticas, Israel prioriza a capacidade de segundo ataque, operacionalizada furtivamente por submarinos da classe Dolphin em mares estratégicos como o Mediterrâneo, Mar Vermelho e o Golfo de Omã. Ao garantir a possibilidade de resposta mesmo após um ataque surpresa, esses meios atendem diretamente à lógica da destruição mútua assegurada (MAD). No entanto, para que a ameaça seja funcional, ela deve ser percebida como crível. Nesse ponto, a racionalidade dos tomadores de decisão israelenses é essencial, pois pressupõe que, diante de um ataque, os líderes atuarão com cálculo estratégico, evitando reações impulsivas (Diniz, 2016).

A credibilidade dessa ameaça é reforçada pela política de ambiguidade nuclear, na qual Israel não confirma nem nega possuir armas nucleares, embora demonstre com clareza sua capacidade. Essa mentalidade estratégica foca em manter o Irã em constante estado de incerteza, dificultando a formação de respostas seguras e, com isso, fortalecendo a dissuasão. Entretanto, como alerta o CSIS (2023), essa ambiguidade também traz riscos. Caso o Irã perceba, por qualquer razão, seja por falhas técnicas no sistema de lançamento, instabilidade política interna em Israel ou divergências com os EUA, que uma retaliação não seria provável, o efeito dissuasório pode colapsar. Em situações de instabilidade, pode-se gerar o que Jervis (1976 apud Diniz, 2016) chama de “espiral de escalada”, onde os riscos de guerra crescem sem que um ataque tenha de fato ocorrido. 

No plano técnico-operacional, Israel mantém investimentos pesados em sistemas de C2, com estrutura de alerta antecipado, satélites de vigilância e sistemas antimísseis como o Iron Dome, David’s Sling e Arrow. Todavia, o CSIS (2023) destaca que o Irã tem acelerado o desenvolvimento de mísseis balísticos de longo alcance e alta precisão, como os mísseis Kheibar e o Khorramshahr-4, que representam ameaças diretas à infraestrutura crítica e aos centros populacionais israelenses, pois reduzem o tempo de reação e ampliam os riscos de sobrecarga das defesas, especialmente em cenários de ataque contravalor. Garantir a eficácia da resposta exige, portanto, não apenas modernização tecnológica contínua, mas também vigilância geoestratégica constante (Diniz, 2016).

Diante desse ambiente de ameaças múltiplas e assimétricas, Israel adota uma estratégia híbrida: dissuasão por negação, impedindo o Irã de alcançar capacidade nuclear, e dissuasão por retaliação. A primeira se expressa em ações preventivas, como sabotagens cibernéticas (Ex: o uso do vírus Stuxnet) e bombardeios a instalações nucleares, como em Osirak (1981) e Deir ez-Zor (2007) (CSIS, 2023). Já no campo da retaliação, Israel mantém a possibilidade de respostas devastadoras, inclusive a ameaças convencionais promovidas por aliados iranianos, como o Hezbollah e outras milícias pró-Irã.

No entanto, conforme alerta o Atlantic Council (2023), a atuação descentralizada do Irã por meio de grupos não estatais dificulta a responsabilização direta e fragiliza a lógica tradicional da retaliação nuclear, forçando Israel a ampliar suas capacidades de respostas, combinando métodos convencionais e não convencionais. 

A INFLUÊNCIA DA CULTURA ESTRATÉGICA ISRAELENSE

A eficácia da dissuasão israelense vai além dos aspectos técnicos, sendo moldada por uma cultura estratégica marcada por traumas históricos profundamente enraizados. Como destaca Reich (2004), essa cultura reflete uma percepção histórica de isolamento e ameaça constante à sobrevivência nacional, forjada por traumas como o Holocausto, as guerras com vizinhos árabes e a exclusão internacional. Assim, compreender como Israel utiliza a dissuasão nuclear para conter o Irã exige mais do que uma análise técnico-operacional: é necessário considerar como o Estado israelense interpreta o mundo e age de acordo com uma identidade estratégica voltada para garantir, a qualquer custo, sua continuidade e soberania (Reich, 2004). 

De acordo com Johnston (1995), a cultura estratégica está ligada a um conjunto de símbolos integrados que estabelece preferências estratégicas de longo prazo, enquanto define conceitos sobre a função e a eficiência do meio militar nas relações internacionais. Esse aglomerado de símbolos influencia, em grande medida, os padrões de conduta dos decisores políticos. Portanto, compreender essa cultura requer observar os documentos estratégicos, os discursos de elites e os planos militares (Johnston, 1995).

No caso de Israel, sua cultura estratégica é profundamente enraizada na história e nos eventos que marcaram a trajetória do povo judeu. As relações entre Israel e Irã remontam a contextos históricos e culturais que refletem a necessidade de sobrevivência da população judaica, que enfrentou séculos de diásporas e perseguições. Eventos como a destruição de templos, a expulsão dos judeus da Terra Santa (Israel), visões antissemitas ao redor do mundo e o Holocausto contribuíram para a construção de uma mentalidade estratégica voltada para a preservação do Estado de Israel a qualquer custo.

Esse temor é essencial para a manutenção do Sionismo, o que leva Israel a adotar medidas rigorosas de segurança nacional e políticas de acolhimento de judeus em todo o mundo. Além disso, a necessidade de se preparar para ameaças externas está no cerne da cultura estratégica israelense, principalmente em relação aos seus vizinhos árabes. Dessa forma, Israel entende que o apoio de potências ocidentais e das Nações Unidas é essencial para sua segurança e estabilidade (Reich, 2004).

Em sua cultura estratégica, Israel utiliza símbolos ou axiomas que remontam ao Holocausto e à perseguição histórica do povo judeu, justificando medidas preventivas em relação ao Irã para impedir que acontecimentos do passado se repitam. Assim, Israel se sente em ameaça existencial constante (Reich, 2004). Desde que Trump se retirou do JCPOA, o governo iraniano retomou intensamente o processo de enriquecimento de urânio. Essa medida é parte da iniciativa iraniana de produzir armas nucleares (CSIS, 2025). Nesse sentido, a existência do Irã como Estado vizinho de Israel é vista como uma ameaça à soberania israelense.

A cultura estratégica israelense é baseada na sobrevivência a todo custo; portanto, medidas como a “Doutrina Begin” e, mais recentemente, os ataques aéreos a sistemas de defesa iranianos em outubro, são evidências das tentativas de Israel de realizar ataques preventivos. A saída dos EUA do JCPOA foi uma medida apoiada pelo governo israelense, que sempre desconfiou da eficácia do acordo, acreditando que as restrições da medida seriam gradualmente diluídas e que a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) não teria acesso irrestrito às instalações nucleares iranianas (CSIS, 2025). A lógica por trás dessa desconfiança israelense é a de que apenas a força militar pode garantir a sobrevivência da nação judaica em um ambiente geopolítico volátil e hostil. 

A abordagem de Israel se baseia na antecipação de ameaças, priorizando ações preventivas para neutralizar riscos antes que se concretizem. A cultura estratégica israelense reflete a crença de que a prevenção é superior à diplomacia, o que se traduz em ataques preventivos como medidas dissuasórias que demonstram sua disposição para o conflito, caso necessário, para garantir sua sobrevivência. Embora Netanyahu tenha mantido uma postura cautelosa em relação a Teerã nas últimas décadas (CSIS, 2025), o temor pela sobrevivência do Estado israelense retorna, principalmente por conta da Guerra Israel-Palestina e pelo aumento das tensões geopolíticas globais.

Essa sensação de necessidade por sobrevivência fez com que Netanyahu agisse de forma mais radical, com frequentes ataques a instalações iranianas. Israel tem a percepção de cerco, acreditando que o país está contornado por inimigos seculares que ameaçam a sua soberania, como o Irã, o Hezbollah e o Hamas. Além disso, Israel acredita que Teerã possui uma visão expansionista comprometida com sua destruição e que fomenta o terrorismo regional, fatores que servem de justificativa para ataques preventivos como operações secretas ou ações militares (CSIS, 2025).

Dentro desse contexto, a cultura estratégica israelense prioriza o uso de ataques direcionados a estruturas militares e grupos terroristas aliados do Irã. Para a realização contínua dos ataques e para manter Israel protegido de seus rivais regionais, torna-se necessário o apoio político e militar de grandes aliados, como os EUA. Apesar das divergências entre os dois países em relação ao Irã, com Trump priorizando o diálogo diplomático e Netanyahu defendendo uma abordagem mais agressiva, Israel busca preservar a amizade com os EUA sempre que possível, pois a aliança fortalece sua capacidade defensiva (CSIS, 2025; Johnston, 1995).

O CONTRAPONTO IRANIANO: A ESTRATÉGIA A2/AD

A compreensão aprofundada da cultura estratégica israelense é fundamental para a formulação de uma estratégia de precaução em relação ao Irã. O Estado iraniano, em sua abordagem defensiva, adota a estratégia A2/AD (Anti-Access/Area Denial), um conglomerado de decisões tomadas para impedir a entrada e a capacidade de deslocamento de um inimigo considerado mais forte em uma zona de interesse específico. Essa estratégia é geralmente utilizada por grupos armados ou países que enfrentam potências militares superiores (Tangredi, 2018). Como Israel dispõe do apoio militar dos EUA e possui um arsenal nuclear, o Irã emprega a estratégia A2/AD para conter essa ameaça e compensar sua inferioridade. 

Segundo Cordesman (2019), a desvantagem militar iraniana em relação aos seus vizinhos, principalmente na força aérea e capacidade de mísseis, levou Teerã a desenvolver uma estratégia A2/AD baseada em diversos elementos, como mísseis balísticos, drones e operações híbridas. O país conta com mísseis Shahab-3, Emad e Khorramshahr que representam uma das principais armas de dissuasão e ataque regional. Além disso, o Irã desenvolveu mísseis de cruzeiro, como o Soumar e Hoveyzeh, que oferecem maior precisão e menor detecção. O investimento iraniano em drones, incluindo os modelos Shahed-129 e Ababil, fortalece sua capacidade de reconhecimento e ataque remoto, enquanto armas antinavio, como Noor e Qader, ampliam suas operações marítimas. Adicionalmente, o Irã tem ampliado seu fornecimento de armamento para proxies regionais, como Hezbollah e Houthis, utilizando foguetes Zelzal e Burkan. 

Tangredi (2018) asserta sobre a importância da geografia na aplicação da estratégia A2/AD, destacando o uso de território extenso e profundo para minimizar impactos de ataques inimigos. Apesar da vantagem da capacidade tecnológica militar israelense, o Irã possui um território vasto que dificulta ataques diretos e permite dispersão estratégica. Além disso, Teerã se beneficia da proximidade de aliados estratégicos, como o Líbano ao norte e a Síria ao nordeste de Israel, consolidando sua influência na região.

As proxies iranianas, como o Hamas na Faixa de Gaza, o Hezbollah atuando dentro da estrutura governamental libanesa e os Houthis com ataques a embarcações ao Sul, desgastam Israel em diversas frentes, impactando sua defesa, moral pública и economia. Os ataques constantes de foguetes e bombardeios colocam à prova os sistemas de defesa israelenses, que precisam lidar com ofensivas irregulares em múltiplas direções.   

CONCLUSÃO

Diante da influência regional iraniana e da geografia desvantajosa para Israel, a aplicação da estratégia A2/AD contra o Irã deve ser meticulosa. Conforme Tangredi (2018), o primeiro passo da A2/AD (Anti-Access/Area Denial) é o reconhecimento do potencial adversário, seguido pela integração de forças militares, inteligência e guerra psicológica.

Por meio desta lente, é provável que Israel combine ataques múltiplos em diferentes frentes, incluindo bombardeios por mísseis balísticos e de cruzeiro de longo alcance, ataques cibernéticos e instalações de malwares em redes e/ou centrífugas nucleares iranianas. Essa abordagem, somada à ambiguidade sobre seu próprio arsenal nuclear, torna as ações israelenses imprevisíveis para as autoridades iranianas, descoordenando seus esforços e atrasando seu desenvolvimento nuclear. Essa estratégia converge com um dos pontos mais importantes levantados por Tangredi (2018): o uso da inteligência e da desinformação para enganar a força inimiga.

Não obstante, o governo israelense deve continuar a se atentar às proxies iranianas e suas estratégias irregulares e imprevisíveis que visam à destruição do Estado de Israel. Além disso, as questões geográficas, muito bem utilizadas pelas forças do Irã para maximização de ganhos, também devem estar no centro das atenções das autoridades israelenses. A exemplo do domínio do meio marítimo pelas forças navais de Israel, com especial enfoque sobre o Golfo de Omã, como dito anteriormente, dado que está próximo do território do aiatolá, o que concede vantagem militar com o posicionamento dos submarinos Dolphin na região.

Finalmente, dentre os fatores extrínsecos que impactam nas relações Israel-Irã, destacam-se o quanto os EUA estão dispostos a favorecer o plano de A2/AD contra o Irã, vide as questões prioritárias da própria potência americana, além da participação da China e da Rússia nesse cenário.

Através da manipulação da narrativa, com o uso da inteligência, informações e da própria mídia, Israel deve intensificar a construção da percepção da nuclearização do Irã como o grande perigo ao Ocidente, para que assim as divergências com os EUA, apresentadas pelo relatório do CSIS (2023), se amenizem e os esforços variados de Israel, para limitar o acesso do Irã a áreas estratégicas e conter seu desenvolvimento nuclear e militar, sejam apoiados.

Pelo contrário, ações enérgicas para a contenção do avanço iraniano sem o convencimento das autoridades estadunidenses, além de mais onerosas, podem afastar o apoio do principal aliado israelense e, no pior dos casos, atrair a indesejada aproximação do Irã com as potências militares, econômicas e tecnológicas.

REFERÊNCIAS

CENTER FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES (CSIS). What factors drive U.S.-Israeli differences on Iran’s nuclear challenge? 2023. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/what-factors-drive-us-israeli-differences-irans-nuclear-challenge. Acesso em: 14 abr. 2025.

CORDESMAN, Anthony H. The Iranian Missile Threat. Washington, DC: CSIS, 2019. Disponível em: https://www.csis.org/analysis/iranian-missile-threat. Acesso em: 14 abr. 2025.

DINIZ, Eugênio. Armamentos nucleares: dissuasão e guerra nuclear acidental. Carta Internacional, Belo Horizonte, v. 11, n. 2, p. 113-132, 2016.

JOHNSTON, Alastair Iain. Thinking about Strategic Culture. International Security, Cambridge, MA, v. 19, n. 4, p. 32, 1995.

REICH, Bernard. Israel: Strategic culture and foreign policy. In: KATZENSTEIN, Peter J. (org.). The culture of national security: Norms and identity in world politics. New York: Columbia University Press, 2004. p. 266–293.

TANGREDI, Sam J. Antiaccess warfare as strategy: from campaign analyses to assessment of extrins. Naval War College Review, v. 71, n. 1, p. 33-52, Winter 2018.

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