Por conta de sua importância histórica, a Cidade Velha de Jerusalém, junto às suas muralhas, foi reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial em 1981. No entanto, logo no ano seguinte, o sítio foi inscrito na lista de Patrimônios Mundiais em Perigo, se mantendo sob essa condição até hoje. Reverenciada pelas três grandes religiões monoteístas, a cidade guarda os locais sagrados de cada uma delas: o Nobre Santuário (Haram al-Sharif) dos muçulmanos abriga o Domo da Rocha, erguido para proteger a Pedra Fundamental, local identificado como o altar de Abraão.
No mesmo pátio está a mesquita de al-Aqsa, construída durante o califado de Omar, o segundo califa islâmico. Colado ao Nobre Santuário, está o Muro das Lamentações dos judeus, única parte remanescente do Templo de Herodes. E a uma distância aproximada de 500 metros encontra-se a Basílica do Santo Sepulcro dos cristãos, construída sobre o local de crucificação e sepultamento de Jesus.
Um dos mais importantes centros religiosos do mundo é o foco de disputa entre judeus e muçulmanos. São frequentes as incursões de ultranacionalistas israelenses pelas ruas da Cidade Velha, invadindo o pátio do Nobre Santuário, o que viola as regras sobre os horários de visitação de não muçulmanos ao local. Essas incursões recebem escolta da polícia israelense. A marcha da bandeira, como são chamadas, conta com a presença de autoridades do governo israelense, como Itamar Ben-Gvir, que ocupa o posto de ministro da Segurança Interna de Israel e o parlamentar Yitzhak Kroizer, membro do partido Poder Judaico.
Notáveis lideranças da direita sionista, que não escondem as suas aspirações em expropriar a população palestina de Jerusalém Oriental, assim como estender os assentamentos judaicos na Cisjordânia e a anexação da Faixa de Gaza. O movimento que se assiste entre esses colonos judeus age em nome de um projeto maior, a construção do que está sendo apelidado de “Terceiro Templo”, fazendo referência aos dois templos judaicos destruídos no passado. Na perspectiva destes ultranacionalistas, a reconstrução do prédio anteciparia a chegada do Messias, simbolizando uma era de redenção.
Na direção contrária dos ultranacionalistas judeus, a construção do “Terceiro Templo” tem sido motivo de apreensão entre os muçulmanos. Jerusalém é o terceiro lugar mais sagrado do Islã, e o projeto que vem se anunciando coloca sob ameaça um dos locais mais sagrados para os muçulmanos, o Nobre Santuário, além de também ser encarado como um plano para desislamizar a sagrada cidade. Esse receio não é novo. Desde o estabelecimento da presença judaica de forma mais intensa na Palestina, ainda no início do século XX, as autoridades muçulmanas já se preocupavam com o perigo que corria o santuário.
Mas é após 1967 que Jerusalém ganha maior atenção entre os judeus. Com a vitória israelense sobre os países árabes na Guerra dos Seis Dias, a cidade foi reunificada, ficando Jerusalém Oriental sob ocupação israelense. O acontecimento chegou a ganhar data comemorativa, Yom Yerushalayim (Dia de Jerusalém). O conflito que até aquele momento se concentrava em uma disputa político-territorial passa a ganhar uma dimensão profética. O sionismo religioso aos poucos vai recebendo maior atenção entre os israelenses, superando o sionismo secular que havia colocado em prática a construção do moderno Estado judeu.
Uma nova fé surge entre os árabes
No século VII, a península arábica encontrava-se entre duas grandes potências do Oriente Médio: a oeste, o Império Bizantino, por vezes chamado de Império Romano do Oriente, com a capital em Constantinopla; a leste, o Império Sassânida, sobre a região da Pérsia. Os constantes confrontos entre essas duas potências impossibilitavam o trânsito de mercadorias provenientes da China com destino ao Mediterrâneo, através da Rota da Seda.
Para que o comércio não fosse prejudicado, os mercadores foram obrigados a buscar novas rotas para o escoamento de seus luxuosos produtos. Uma das alternativas consideradas foi partir da Pérsia, navegar pelo Mar Vermelho e chegar aos portos do Mediterrâneo. Meca ficava próxima à costa da península arábica, e isso a colocava no itinerário da nova rota comercial, o que impulsionou um alto desenvolvimento mercantil à cidade.
Além de sua importância comercial, Meca também era um importante centro religioso. Encontrava-se nela uma construção de granito em forma de cubo, a Caaba, e em seu interior habitava a Pedra Negra. O santuário era o local mais reverenciado da Arábia, sendo o destino de peregrinação de tribos de toda a península. No santuário, adorava-se o deus Hubal, um dos deuses da Arábia politeísta, e mais trezentos ídolos pagãos. A Pedra Negra representava, e ainda representa, a conexão entre o céu e a terra.
Meca havia de verdade alcançado um próspero desenvolvimento comercial, mas esse desenvolvimento começou a impactar de forma negativa a sociedade mequense. Foi quando Maomé Ibn Abdullah, um comerciante em torno de seus 40 anos, observou que a população vinha se distanciando de seus antigos costumes tribais. O respeito ao clã familiar e a ancestralidade eram traços característicos da Arábia e, ao assistir à perda desses valores, Maomé sentia uma profunda inquietação. Percebia que uma desorientação espiritual havia se abatido sobre os habitantes de sua cidade.
Órfão aos seis anos de idade, Maomé foi adotado por seu tio Abu Talib. Costumava acompanhá-lo em viagens comerciais para a Síria, e foi lá que teve seu primeiro contato com o monoteísmo. Por meio de um monge, recebeu aulas de cristianismo e teve conhecimento sobre os textos sagrados da Bíblia. Quando atingiu a fase adulta, começou a trabalhar como negociante da caravana comercial de Khadija, uma viúva de idade mais avançada e com quem viria a se casar. Maomé era um indivíduo dotado de carisma, simpatia e uma inabalável reputação.
A tradição islâmica relata que, certa noite, no ano 610, ao meditar no Monte Hira, próximo a Meca, Maomé sentiu que uma força sobre-humana se manifestava para ele, como um espírito divino. Era o anjo Gabriel que o visitava para lhe transmitir a seguinte mensagem: “Tu és o enviado de Deus, o seu Profeta.” Maomé sentiu um profundo temor, mas aquilo que havia presenciado mudaria toda a sua vida. A partir deste momento, Maomé passou a assumir a missão que acabava de lhe ser designada, a de mensageiro da palavra de Deus, Allah. Esse importante testemunho do Profeta entra para a tradição como a “Noite do Decreto”, celebrada pelos muçulmanos durante o Ramadã, o nono mês do calendário islâmico.
Inicialmente, Maomé professou o Islã secretamente entre os mais próximos. Conclamou os árabes a adorarem um Deus único, assim como faziam os judeus e os cristãos. Da mesma forma que o judaísmo havia sido revelado ao povo israelita, a mensagem divina estava agora sendo revelada em árabe aos descendentes de Ismael, o primogênito de Abraão (Ibrahim para os muçulmanos) com sua escrava Agar. Durante 23 anos, Maomé continuou recebendo as revelações de Allah e todas elas estão compiladas no livro sagrado dos muçulmanos, o Alcorão.
Assim como os habitantes de Meca, Maomé gostava de orar no Haram, próximo à Caaba. Os textos corânicos nos contam que, em uma de suas orações no santuário, no ano 620, o Profeta vivenciou uma experiência espiritual que faria do Islã a revelação final das crenças monoteístas. Recebeu novamente a visita do anjo Gabriel e, junto a ele, subiu no dorso de um buraque (corcel alado). Os dois voaram pelo céu e seguiram em direção à sagrada Jerusalém. Maomé e o anjo pousaram no Monte do Templo, onde foram recebidos pelos profetas antecessores. De frente para todos, conduziu uma oração.
O Monte do Templo é o local que abriga a Pedra Fundamental, onde Abraão ofereceu seu filho Ismael (Isaac no judaísmo) ao sacrifício, como prova de sua fé. A partir deste local sagrado, o Profeta ascendeu aos céus, atravessando os sete estágios na companhia do anjo. Cada estágio de céu era a morada de um profeta. Adão, Jesus e João Batista, José, Enoque, Aarão, Moisés e, por último, Abraão, o patriarca. Todos concedem permissão para que ele possa atravessar para o próximo nível, e assim Maomé alcançou um estágio ao qual ninguém jamais conseguiu chegar, ao Trono divino. E, estando lá, na presença de Deus Todo-Poderoso, recebe então a revelação final.
Maomé acreditava que os fiéis judeus e cristãos naturalmente se incorporariam à nova fé. Pois o Islã não tinha a intenção de ser uma nova religião, sua palavra vinha para ser a “revelação final”. Na cosmovisão islâmica, Deus havia criado o mundo em estado de perfeita harmonia. Ser um muçulmano significa buscar, por meio da submissão à vontade de Allah, o retorno à pureza espiritual contemplada aos humanos durante a criação do mundo, quando Deus colocou Adão e Eva no paraíso (ARMSTRONG, 2011).
O unificador da Arábia
O ato de adoração a um único deus logo começava a se chocar com a religiosidade da Arábia politeísta. A elite de Meca viu no monoteísmo que se alastrava uma afronta aos costumes sagrados. A tribo dos coraixitas, à qual o próprio Maomé pertencia, era a guardiã do santuário que abrigava a Caaba. O monoteísmo confrontava diretamente os interesses dos coraixitas, que se beneficiavam da peregrinação ao santuário. Receosos de que a disseminação do islamismo acabasse com as visitas ao local, a elite de Meca passou a perseguir os adeptos da nova crença. Maomé e seus seguidores foram então obrigados a fugir da cidade.
Em 622, o Profeta, acompanhado de mais setenta famílias de crentes, migra para Medina. O Alcorão se refere à migração como Hégira. O evento marca o ano 1 do calendário islâmico. Medina era um oásis que havia sido fundado por judeus, onde também habitavam tribos pagãs. Lá, o mensageiro de Allah agiu como um conciliador. Foi habilidoso em cessar as rivalidades entre os clãs locais. A mensagem que trazia criou um elemento de coesão entre os árabes, capaz de superar os conflitos tribais. O êxito desse engenhoso feito reuniu em Maomé as qualidades religiosa, política e militar. Esses três elementos, consolidados ainda no surgimento do Islã, se mantêm estruturados até hoje nas sociedades muçulmanas.
Com um número crescente de conversos, o Profeta formou a comunidade de fiéis, a ummah. Ao fazer isso, rompe com o modo de organização tribal que havia na Arábia pré-islâmica, apontado pelos muçulmanos como tempo da Jahiliyyah. A palavra em árabe significa “ignorância”. O novo vínculo entre seus membros se dá por meio da fé, interligando-os em torno de uma crença em comum e não mais por laços sanguíneos. Em Medina foi construída a primeira mesquita e, devido à importância sagrada de Jerusalém, a cidade foi a primeira qibla (direção da prece).
Mais tarde, convencido de que nem todos os judeus de Medina acatariam o Islã, decidiu mudar a direção da prece, ordenando que os fiéis orassem voltados para a sagrada Meca. Essa atitude representava um ato de autonomia quanto aos seus predecessores, já que Meca não configurava no percurso sagrado dos judeus e nem dos cristãos. Mas o Islã não pretendia apagar os ensinamentos de seus predecessores monoteístas. Ao contrário, Maomé ressalta para os adeptos do Islã a importância do respeito às revelações anteriores. Judeus, cristãos e zoroastristas passam a constar no Alcorão como “Povos do Livro”.
Mesmo distantes de Meca, o Profeta e a ummah sofriam ameaças de morte e o risco de serem entregues aos seus inimigos. Durante os primeiros dez anos, Meca e os muçulmanos se enfrentaram em sangrentas batalhas. Muitos crentes perderam suas vidas. Em algumas, amargaram derrotas, como na Batalha de Ohud, em 625, porém, em outras saíram vitoriosos, como nas Batalhas de Báder, em 624, e do Fosso, em 627.
Três tribos judaicas que se aliaram a Meca também sofreram ataques por parte do exército de Maomé. Sucessivamente, as tribos da península arábica foram se convertendo. Já em 630, quase toda a Arábia estava unificada sob o Islã. Maomé retorna a Meca e entra junto a seu exército em sua cidade natal, sem derramamento de sangue. Ao entrar na cidade, Maomé foi diretamente à Caaba. Acredita-se que o santuário havia sido originalmente construído por Adão, e foi posteriormente reerguido por Abraão, com a ajuda de seu filho Ismael, tornando-o o primeiro local do mundo dedicado ao Deus único.
Contudo, com o passar do tempo, havia sido contaminado devido à adoração de deuses pagãos. O Profeta tratou de expurgar todas as imagens dos ídolos pagãos e proclamou aos seus fiéis: “Deus é o maior!”. O santuário estava agora purificado e se tornou o lugar mais sagrado para os muçulmanos. O Islã se consolida conjugando a religiosidade monoteísta judaico-cristã com as tradições beduínas da Arábia (COGGIOLA, 2011). A fé muçulmana consiste em dar sentido e orientação à vida do crente. Ao circularem em torno da Caaba, no rito do tawaf, os muçulmanos manifestam essa concepção. Caminhando em sentido anti-horário por sete vezes em volta do cubo, o fiel, simbolicamente, se alinha ao movimento natural do cosmo, harmonizando-se com as leis naturais do universo, como parte da criação divina (ARMSTRONG, 2011).
Em 632, o Profeta realiza o hajj, o tradicional ritual de peregrinação a Meca. Antes praticado pelos politeístas da Arábia, passa agora a ser incorporado à liturgia islâmica. No mesmo ano, Maomé falece, sem apontar quem deveria ser seu sucessor. A escolha de quem o substituirá logo cria uma cisão no interior da comunidade muçulmana, formando dois grupos opostos sobre a continuidade de seu legado. O primeiro grupo defendia que a sucessão deveria obedecer aos laços de parentesco do Profeta. Desta forma, Ali Ibn Talib, que era primo e genro de Maomé, casado com sua filha Fátima, reivindicou o seu nome para ser o legítimo sucessor. Ganhou apoiadores, porém esse grupo compunha corrente minoritária.
O segundo grupo se opunha à sucessão vinculada à linhagem. Defendia que a liderança do Profeta deveria ser transferida a um muçulmano digno, porém, a escolha teria de passar pela anuência da comunidade. O segundo grupo se reuniu em torno do nome de Abu Bark, que foi o escolhido pela maioria para liderar a ummah. O califa era o líder supremo dos muçulmanos. Era uma figura honrada dentro da comunidade, com alto grau de prestígio que permitia exercer uma autoridade religiosa, mas sem tomar o lugar de Maomé como mensageiro de Deus.
Abu Bakr tinha sido um fiel amigo e companheiro do Profeta. Nos momentos finais de sua vida, já impossibilitado de realizar as orações, Maomé pediu para Abu Bakr que as fizesse em seu lugar. Após o falecimento do Profeta, Abu Bakr disse: “Ó, homens, se adorais a Maomé, Maomé está morto; se adorais a Deus, Deus está vivo!”. O primeiro califa foi também o primeiro homem adulto a se converter ao Islã e, de certa forma, também tinha parentesco com o Profeta. Tornou-se seu sogro, cedendo a mão de sua filha, Aisha, para se unir a Maomé em matrimônio. Coube a Abu Bakr a missão de continuar a expansão islâmica. Foi sob sua liderança que as tropas muçulmanas terminaram de unificar toda a península arábica. Seu califado durou apenas dois anos. Em seu leito de morte, indicou o nome de Omar para ser o seu sucessor.
Os muçulmanos se lançam ao mundo
Omar deu continuidade às campanhas militares. O segundo califa liderou as expedições islâmicas rumo ao norte, com a missão de difundir a nova doutrina para fora da península arábica. Nesse sentido, significava que o império islâmico nascente iria penetrar em áreas que estavam sob domínio bizantino e sassânida. Os islâmicos não encontraram muita resistência ao avançar para estas regiões. Os dois impérios estavam com os seus recursos comprometidos em função de batalhas travadas entre si durante séculos. O enfraquecimento da capacidade bélica de ambos favoreceu o avanço das expedições islâmicas sobre suas províncias. Além disso, os novos conquistadores também contavam com certa identificação dos habitantes judeus, cristãos e zoroastristas das enfraquecidas potências.
Na Palestina, dominada pelo Império Romano do Oriente, judeus e cristãos encararam os conquistadores islâmicos com certo grau de entusiasmo. Preferiam estes às políticas repressivas das autoridades cristãs bizantinas. Os cristãos monofisistas, uma vertente característica do Oriente Médio, sofriam perseguições dos bizantinos. Eram apontados como hereges por defenderem que Jesus era fruto de uma só natureza, a divina. Para os judeus, a chegada dos islâmicos também representava uma libertação e ecoava sobre suas memórias a ascensão dos persas, que no passado os libertaram do exílio da Babilônia. Nesse momento, os judeus eram minoria na Palestina e sofriam com a hostilidade dos cristãos.
O exército imperial bizantino lutou para impedir o avanço islâmico, mas foi derrotado na decisiva Batalha de Yarmuc, em 636. No ano seguinte, os cavaleiros árabes cercaram Jerusalém. Os muçulmanos sabiam o valor sagrado que tinha aquele lugar. Com base nas profecias bíblicas, era lá que o Juízo Final se consumaria (MONTEFIORE, 2013). Sofrônio, o patriarca da cidade, tentou resistir por mais alguns meses, contudo, não alcançara sucesso. Ciente da derrota, fez questão de entregar as chaves da cidade pessoalmente a Omar. Acompanhado de seus cavaleiros, o califa se dirigiu até a sagrada cidade e foi recebido por Sofrônio ainda na estrada.
O patriarca observava com espanto os novos dominadores. O líder máximo da comunidade muçulmana chegava à cidade montado em um burro e envolto de um esfarrapado manto branco. O modesto traje de Omar, assim como o de seus cavaleiros, contrastava com as suntuosas indumentárias dos bizantinos. O islamismo, ainda em ascensão, assumia a simplicidade como um ideal de virtude. O Alcorão enfatiza aos fiéis a importância de repartirem suas riquezas e formarem uma comunidade fundamentada na solidariedade e na compaixão, respeitando os mais pobres e humildes (ARMSTRONG, 2011).
Na posição de autoridade, Sofrônio acompanhou o califa, apresentando os seus lugares sagrados. Iniciou o trajeto evidentemente pelo santuário de sua fé, a Basílica do Santo Sepulcro. O patriarca convidou Omar para orar dentro da Basílica, mas a oferta foi recusada. Omar explicou que, se orasse no interior da igreja, seus seguidores posteriormente o transformariam em um santuário islâmico.
O califa, então, resolveu orar na escada, na parte externa do edifício. A atitude de Omar não deve ter passado de algo puramente diplomático, já que o santuário foi erguido sobre o local da crucificação de Jesus, ideia rejeitada pelos muçulmanos. O Alcorão relata a trajetória de Jesus e o exalta como um profeta, entretanto, na concepção islâmica, Deus não permitiria que um profeta seu morresse com tamanho sofrimento.
Ao invés da trágica morte, Jesus ascende aos céus e retornará anunciando o final dos tempos. Omar, de imediato, baixou um decreto proibindo os muçulmanos de fazerem daquele local uma mesquita, assegurando que o santuário permanecesse sob a tutela cristã. O califa desejava conhecer o que tinha sido o Templo Sagrado dos judeus. Guiado por Sofrônio, foi até o local do que havia restado do santuário, depois da destruição feita pelo imperador Tito.
Ao chegar ao local, horrorizou-se com o tamanho estado de imundice em que se encontrava um espaço tão sagrado. Dejetos, entulho e lixo que tomavam conta do lugar. Tudo isso era ali jogado pelos cristãos, como forma de hostilidade aos judeus. Omar, seguido por seus soldados, tomou a iniciativa de limpar o local para encontrar um espaço de oração. Usou seu manto para recolher o entulho e, com a ajuda dos soldados, despejou no Vale de Hinom o que havia recolhido.
Depois, recorreu a um ex-judeu que se convertera ao Islã para saber onde se encontrava o Santo dos Santos. O “rabino”, como era conhecido, aconselhou o califa a orar na parte norte do pátio, pois assim poderia ter duas qiblas, Jerusalém e Meca. Mas o califa preferiu orar na parte sul, direcionando sua oração apenas para Meca, como havia sido recomendado pelo Profeta. Naquele local, então, decidiu erguer uma mesquita, onde hoje se encontra a mesquita de al-Aqsa.
A conquista de Jerusalém pelos muçulmanos não implicou em expulsão, nem em forçosa conversão. Omar permitiu que os cristãos mantivessem seus cultos e santuários. Eles ainda permaneceriam por um bom tempo sendo a população majoritária da Palestina, mesmo sob o domínio islâmico. Quanto aos judeus, concordou inicialmente com Sofrônio de que eles não deveriam habitar Jerusalém, porém, recuou na decisão e convidou setenta famílias judaicas de Tiberíades a se estabelecerem na cidade. Cristãos e judeus se tornaram “minorias protegidas” na Palestina islâmica.
Os não-muçulmanos deveriam pagar um tributo anual, e em troca os muçulmanos lhes ofereciam proteção militar. Também era exigido que abdicassem de armamentos. Mesmo que houvesse condições que os diferenciassem, a relação entre as três religiões se estabeleceu de forma amistosa, permitindo que os três cultos fossem praticados na cidade. Havia uma melhora no tratamento, se comparado ao dos antigos governantes bizantinos (ARMSTRONG, 2011).
O califado de Omar durou dez anos. Até que um ex-guerreiro persa, indignado com a derrota dos Sassânidas, golpeou o califa a punhaladas. Pouco antes de sua morte, Omar designou uma comissão de seis companheiros para que estes indicassem um nome entre eles para ser seu substituto. Otman foi o nome escolhido. O terceiro califa não alcançava o mesmo prestígio dos antecessores. Contudo, seguiu com a expansão islâmica, que a essa altura já havia alcançado todo o Oriente Médio e começava a se estender pelo norte da África.
Otman foi um dos primeiros membros da aristocracia de Meca a se converter ao Islã. Apesar de ser apontado como um homem generoso, ao final de seu califado foi acusado de favorecer os membros de seu clã, nomeando-os como governadores das províncias. Foi quando, em 656, um grupo de insurgentes, apoiado pelo exército árabe do Egito, seguiu até Medina para levar suas contestações. O grupo cercou a residência de Otman. Enquanto o califa recitava o Alcorão, o grupo o atacou. Tamanha brutalidade fez com que ele falecesse.
A morte de Otman reacende uma rivalidade interna na comunidade islâmica. Os que haviam assassinado Otman escolheram Ali ibn Talib para ocupar a posição de califa. Ali era primo e genro do Profeta, e no passado havia reivindicado seu nome como califa para sucedê-lo. Ainda recebia apoio dos que desejavam que ele fosse o legítimo líder da comunidade muçulmana, respeitando a linhagem de Maomé.
O quarto califa encontrou oposição com o governador da Síria, Muawiya ibn Abi Sufyan, que por sua vez era primo de Otman, o califa assassinado. Muawiya exigia que Ali condenasse os assassinos de seu primo, mas o novo califa ignorou a exigência. Na condição de governador da Síria, Muawiya dispunha de combatentes fortes e treinados em razão das batalhas travadas contra os bizantinos durante a conquista islâmica. A guerra entre as duas facções se concentrou entre as regiões da Síria e do Iraque.
Em certo momento do confronto, o exército de Muawiya chegou com cópias do Alcorão, sugerindo que a rivalidade cessasse, buscando amparo no livro sagrado. Ali aceitou a arbitragem com Muawiya, porém a decisão de conciliar não foi bem recebida por muitos de seus apoiadores, o que enfraquecia a posição de Ali como líder. Um membro da recém-criada seita dos carijitas, formada pelos desapontados com o acordo, assassinou Ali com uma punhalada. A morte do quarto califa encerrou a era que os muçulmanos chamam de califado Rashidun ou dos califas “bem-guiados”. O fim da era Rashidun foi um divisor de águas na história do império islâmico. Hassan, filho de Ali, renunciou ao cargo de califa. O nome de Muawiya foi imediatamente indicado para ser o novo “Comandante dos fiéis”, inaugurando a dinastia Omíada.
A terra e o céu se encontram
Foi em Jerusalém, em uma cerimônia que reuniu membros de alto escalão do império, que Muawiya foi proclamado califa. O novo líder muçulmano demonstrava um profundo respeito pelas crenças antecessoras e, assim como para eles, Jerusalém tem importância central para a fé islâmica. Será sobre ela que, ao final dos tempos, todos serão elevados ao céu para o Juízo Final. O novo califa chegou a se unir com Maysun, mulher de uma tribo cristã que havia se aliado, sem lhe impor conversão ao Islã.
Muawiya foi enaltecido por cristãos e judeus, e a estes últimos foi permitido que orassem no Santo dos Santos. Durante seu califado, a capital do Império Islâmico foi transferida de Medina para Damasco. A nova localização oferecia uma vantagem estratégica para a capital. Conseguia se defender de um ataque vindo tanto do leste, quanto do oeste. Há de se considerar que o Império Islâmico estava no início de sua expansão e a localização de Medina não era geograficamente favorável.
Em 680, após a morte de Muawiya, seu filho Yazid assume o poder. No entanto, alguns muçulmanos rejeitaram o seu califado e as divisões internas da comunidade continuam a se acirrar. Hussein, que no passado havia renunciado ao cargo de califa, liderou uma tentativa de insurgência contra a dinastia Omíada, junto à sua família e apoiadores. A insurgência logo foi sufocada e o neto do Profeta foi morto em um confronto na cidade de Karbala, no Iraque. Com a tragédia, Hussein se transformou em um mártir entre os partidários de Ali. Sua morte acirra ainda mais a divisão interna do islamismo, que já havia sido prenunciada após a morte do Profeta.
Os shiat Ali (xiitas) tinham convicção de que a descendência de Maomé permitiria à posição de califa uma virtude espiritual, capaz de interpretar o Alcorão em seu sentido mais autêntico. Os Omíadas ainda enfrentariam uma segunda revolta. Em 683, Meca havia sido capturada por uma força insurgente. Abdallah Ibn al-Zubayr, ex-combatente das expedições militares, autoproclamou-se califa e sitiou Meca, a mais sagrada cidade do Islã. Ele chegou a ser convidado pelo califa Otman para integrar a comissão responsável por compilar o Alcorão. Meca só deixaria de estar sob o controle dos insurgentes em 692. Enquanto isso, a dinastia Omíada se empenhava em manter o seu domínio sobre as outras regiões do império.
O califa Abd al-Malik subiu ao trono em 685. Pertencia a outro ramo da família Omíada, contudo, seguiu com a dinastia. Reestruturou a organização administrativa que ainda se mantinha dos derrotados impérios. O árabe passou a ser adotado como língua oficial, enaltecendo o Deus único, que revelara sua mensagem nesta língua. Nos seus primeiros anos do califado, Meca ainda estava fora do seu controle. Foi nesse período que a atenção do califa se voltou ainda mais para a sagrada Jerusalém, e deu a ela o edifício símbolo da cidade e um dos locais mais sagrados para os muçulmanos, o Domo da Rocha.
A construção do santuário tem início em 687, com o propósito de acolher a Pedra Fundamental, local que judeus e muçulmanos identificam como sendo o local em que Abraão/Ibrahim ofereceu seu filho como prova de sua fé. É após a edificação do Domo da Rocha que os muçulmanos associam a referência que o Alcorão faz à “remota mesquita” à Viagem Noturna de Maomé. De forma alusiva, o Profeta transportou, por meio do seu voo noturno, a sacralidade de Meca para Jerusalém (ARMSTRONG, 2011).
Em 691, o edifício islâmico estava totalmente construído. A arquitetura do prédio oferece ao fiel, por meio de símbolos, o elo entre Jerusalém e o mundo celestial. A Pedra Fundamental representa a Terra, o plano físico. As paredes, em geometria octogonal, sugerem o início de um movimento rotacional, como um cubo se deslocando do seu eixo. E, por fim, a cúpula em seu formato esférico se funde ao céu, encontrando total harmonia com Deus. O dourado do Domo traz como representação a sabedoria do Alcorão, que, do alto da colina, reluzia para toda a cidade. Intencionalmente ofuscava qualquer uma das suas várias igrejas.
Os que professavam a fé em Jesus eram conclamados a se incorporarem à última revelação de Allah. O islamismo alcançava todo o seu esplendor e sua fé continuava a se espalhar pelo mundo. Ao erguerem um santuário sobre a Pedra Fundamental, os muçulmanos afirmavam o seu lugar perante seus antecessores judeus e cristãos. A majestosa arquitetura do Domo da Rocha não deixava mais dúvidas, Jerusalém se integrava à geografia sagrada do Islã.
Considerações finais
Conforme explorado no texto acima, o Islã tem uma profunda relação com a sagrada Jerusalém, assim como também com as revelações que a antecederam. No entanto, as atuais tensões que vêm acontecendo na cidade dificultam identificar a conexão histórica entre elas. A construção do santuário islâmico sobre a Pedra Fundamental, o Domo da Rocha, nunca significou um ato de antagonismo ao judaísmo, mas sim da interligação que há entre essas duas crenças.
O projeto de construção do “Terceiro Templo” no lugar do Nobre Santuário não apenas apaga o legado islâmico na cidade, mas também desconsidera a relação amistosa que já ocorreu entre essas duas, ou mesmo as três religiões no passado. Apaga também qualquer horizonte de compartilhamento pacífico da cidade entre os monoteístas de Abraão.
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UNESCO. Cidade Velha de Jerusalém e suas Muralhas. UNESCO. Disponível em: https://whc.unesco.org/en/list/148/. Acesso em: 02 jul. 2027.
Graduado em Cinema pela Universidade Estácio de Sá, com especialização em Ciência Política pela mesma instituição. Cursou extensão universitária em Relações Internacionais pelo Ibmec. Concentra a sua pesquisa na história da Palestina e sua relação com as religiões abraâmicas.
