Transcrição de vídeo publicado no canal da Relações Exteriores. Veja mais vídeos aqui.
Boa tarde a todos e todas. Sejam muito bem-vindos a mais uma aula do nosso projeto de Líderes Mundiais, vinculado à ESRI, Escola Superior de Relações Internacionais, e à Revista de Relações Exteriores. Eu sou o professor Bruno Mendelsky, e junto aqui com a minha colega, sempre resolvendo todas as questões nos bastidores, a Giovana, nós estamos bem contentes para começar mais uma aula desse nosso projeto, que foca sobre a política interna, política externa dos países, mas com uma outra ênfase, uma ênfase muito no papel dos líderes.
Então, só para relembrar quem, por acaso, está chegando agora, nós já tivemos aulas sobre grandes personalidades, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tivemos, ministrei uma aula também sobre o líder supremo do Irã, o Ali Khamenei, temos outras por vir, e hoje vou falar sobre o príncipe herdeiro e governante de fato da Arábia Saudita, o Mohammed Bin Salman, conhecido pela sigla MBS.
Então, já faço aqui o convite para vocês entrarem na nossa página do YouTube, curtirem o canal, assinarem, verem os vídeos e, sobretudo, participarem, né? O contato, a troca com vocês sempre é muito rica. Bom, então, como é que eu dividi essa aula? E também ressalto, vocês façam os comentários, façam as perguntas, a minha colega Giovanna vai tomando nota e, no final, a gente pode conversar e eu vou responder todos os questionamentos.
Bom, eu dividi, então, essa fala em sete partes. Então, vou iniciar falando sobre os objetivos da aula, então, por quê, qual é o sentido desse nosso encontro. Depois, como tem que ser, ainda que a aula seja sobre a figura do MBS, eu vou usar esse acrônimo para facilitar, é fundamental a gente conhecer um pouquinho da história do reino que ele dirige, que é a Arábia Saudita e também trazer alguns aspectos gerais, ou seja, para a gente poder ter essa contextualização.
Depois, vamos falar um pouco da biografia dele, enfim, que até cerca de dez anos atrás era um personagem muito desconhecido, então, a sua trajetória até a sua ascensão ao poder e, depois, a ênfase vai ser justamente no período contemporâneo, no qual ele vai assumir uma série de cargos até chegar na sua posição contemporânea.
Então, até já comparando com o outro grande líder nesse mesmo projeto que eu ministrei, inclusive do arquirrival da Arábia Saudita, que é o Irã, o Ali Khamenei, enfim, já com uma longa trajetória, já com uma certa idade, enfim, o Mohammed Bin Salman novo, muito, muito, muito jovem. Então, aqui a própria estrutura das aulas acho que vai ser diferente, mas muitas vezes complementares.
Também fica, mais uma vez, a dica para vocês assistirem a esse outro encontro. Depois, então, eu faço um resumo, uma síntese do conteúdo e gero algumas reflexões, alguns apontamentos finais. Gosto sempre de encerrar as minhas aulas com uma sessão que eu denominei O Olhar da Arte sobre o Tema, que eu sempre trago filmes, documentários, alguma obra artística que possa fornecer uma perspectiva, um olhar distinto sobre o tema que nós estamos discutindo.
E, por fim, todos os autores, todas as fontes que eu utilizei para montar essa aula são expostas na bibliografia. Então, desejo a todos e todas uma boa aula. Então, quais são os objetivos? Por que esse encontro? Então, o primeiro é justamente compreender quem é o MBS, quem é o Mohammed Bin Salman, esse que vem emergindo como a grande liderança da Árabe Saudita e esse país com uma importância fundamental na dinâmica do Oriente Médio.
Também pretendemos analisar o papel político, as suas principais ações na condição de governante de fato da Arábia Saudita, identificar as principais características da sua liderança, como é que ele constrói aquilo que todo grande líder precisa, que é justamente a sua legitimidade, a sua aceitação por parte das pessoas, dos governados. E também, paralelamente, sempre gosto, acho importante trazer trechos dos discursos, ou seja, o próprio líder falando, trazendo uma fonte primária, em primeira pessoa, a sua posição. Então, como é que ele percebe a política, a economia, a sociedade, as relações internacionais.
Então, esses são os objetivos que eu vou buscar atingir junto com vocês nessa nossa aula. Bom, então, denominei aqui breve história da Arábia Saudita e a Arábia Saudita ela vai ter uma especificidade em relação a muitos dos países que hoje a gente chama de sul global. Ela não vai ser formalmente colonizada pelos europeus, então vai ser um dos pouquíssimos países das Américas, África e Ásia, que não vai ser colonizado pelas potências europeias, mas, dado a sua posição geográfica, ela vai ser dominada por uma série de outros impérios e grupos políticos de formas diferentes e, não só isso, parte do seu território atual vai ser concomitantemente dominada por grupos distintos.
Isso é muito interessante, porque a gente sempre olha para o mapa, vê ali o desenho geográfico, as fronteiras e tende a imaginar que isso é permanente. Não, mas as fronteiras elas mudam, uma hora parte do território está sob controle do país, outra hora não está, é conquistado, enfim, as fronteiras mudam. E, no caso da Arábia Saudita, isso não é diferente.
E o que é muito interessante é que já traçando, o primeiro elemento para aquilo que eu comentei da legitimidade do MBS e da própria Casa Real Saudita. Então, o primeiro estado formal com as características contemporâneas de nação, organizado e governado por habitantes locais, vai ser justamente pertencente à casa dos Al Saud, que é justamente a família que está no poder na Arábia Saudita, veja, desde o século XVIII. Bom, então aqui eu adoro mapas, eu acho que eles têm um papel fundamental para ajudar a captar a nossa atenção e o nosso olhar para os territórios em questão.
Então, vamos lá. Então, a Arábia Saudita ocupa a maior parte da chamada Península Arábica e, como eu disse, ao longo da sua história, foi dominada por distintos impérios, desde da Antiguidade, Império Babilônico, Assírio, Persa, o próprio Império Romano vai controlar algumas regiões, depois a sua divisão no chamado Oriente, Império Romano do Oriente, Império Bizantino. E o que a gente tem aqui no mapa? A partir da emergência, do surgimento do Islã como uma religião, e justamente o Islã, a partir do seu profeta Mohammed, ele vai surgir no atual território da Arábia Saudita.
Esse, Arábia Saudita, ela vai ser o berço do Islã e justamente o domínio político gerado por esse Islã, ou seja, os califados, eles vão começar no território da atual Arábia Saudita. Então, por isso que eu uso aqui a terminologia período pré-islâmico e período islâmico. Então, começando com os primeiros califados, califado Hashim, depois passando por uma série de outros impérios que vão dominar essa região.
Então, a gente estava falando das fronteiras, então vejam aqui no caso do califado Abasda, no século 9, então 800 depois de Cristo. Veja, toda parte verde, toda a Península Arábica, uma parte expressiva do Egito, Levante, Israel, Palestina, Síria, boa parte da atual Turquia, do Irã, os países do Cáucaso, tudo isso fazia parte do mesmo domínio político. Bom, posteriormente, então, avançando cronologicamente, sei que a aula é sobre a contemporaneidade, mas penso que essa ilustração, essa contextualização histórica, ela é importante, a gente vai ter o período de ascensão do Império Turco Otomano, que vai dominar parte do território da atual Arábia Saudita, ali em torno de 400 anos.
Mas veja, né, inclusive coloquei no mapa, então, em marrom, veja, né, a maior parte do território não estava conquistada pelos otomanos, porque justamente é um território inóspito, boa parte são montanhas e desertos, não por acaso, insisto, olhem no mapa, né, é justamente as partes nas costas, né,
Então, do Golfo Pérsico ou Golfo Arábico, ali na divisa com a Pérsia atual, o Irã ou o Mar Vermelho, próximo onde estão as duas cidades mais importantes do Islã, Medina e Meca, que foram as partes que tradicionalmente eram conquistadas por impérios estrangeiros. Então, coloquei ali da metade do século XVIII até o final do Império Otomano, início do século XX, o território foi disputado por tribos árabes, otomanos e egípcios, né, e aqui eu quero chamar atenção para o chamado Primeiro Reino Saudita, né, e vejam, né, a referência ali embaixo, né, KSA, o que cargas d’água é KSA?
Então, é a sigla em inglês para Kingdom of Saudi Arabia, ou seja, então, para montar essa aula para vocês, eu tive a preocupação de buscar fontes primárias, fontes oficiais, ou seja, então, não só trazendo o olhar europeu, estadunidense ou mesmo brasileiro, mas também o olhar local sobre essa realidade da Arábia Saudita. Então, aqui trata-se do site oficial do Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita, que para minha sorte estava em inglês, né, então, quando vocês virem essa sigla KSA é a sigla do Reino da Arábia Saudita em inglês.
Então, o que a gente vai ter? Então, Muhammad Bin Saud, que é, digamos, que o patriarca do Klan al-Saud, está no poder até hoje, até hoje ele vai se juntar ao teólogo ortodoxo al-Wahhab e a partir de uma combinação de um poder político-militar do Saud e o domínio ideológico e religioso do al-Wahhab, vai fundar o primeiro Reino Saudito, né? Então, que vai ter essa extensão.
E por que que isso é importante, né? Vai ser a partir, justamente, dessa proximidade com essa vertente mais conservadora do Islã, que é conhecido na atualidade como o arrabismo, justamente fazendo menção ao arrabi, essa corrente muito conservadora vai ser a vertente atual do Islã que o governo da Arábia Saudita segue, né? E aqui uma curiosidade, vocês vão ver bastante ao longo da aula, sempre que tiver Bin, essa nomenclatura, isso em árabe quer dizer filho de. Então, Muhammad, muitas vezes traduzido com Mo ou Mu, Muhammad Bin Saud, ou seja, então Muhammad filho de Saud, certo?
Bom, depois nós vamos ter, esse primeiro reino vai ser derrotado pelo governante do Egito, o Muhammad Ali, e parte dessa dinastia do al-Saud vai se refugiar no interior e vai criar um novo reino, que é conhecido que a versão oficial do governo da Arábia Saudita vai colocar como o segundo reino saudita.
E também uma outra explicação, né? Por que saudita, né? Saudita justamente fazendo menção ao al-Saud, que é a casa, o clã, a família que vai dominar, a família real que vai dominar a Arábia Saudita desde então, então seria a Arábia dos Saud, então Arábia Saudita.
Arábia é o termo no qual essa parte do mundo, esse território é conhecido, então o Arábia Saudita tem essa, digamos, que curiosidade de ser um dos poucos países que vai o nome da família que controla eles nos termos, na nominata oficial. Bom, enfim, então vai ter uma série de reviravoltas desses reinos lutando contra outras tribos, contra o domínio otomano, até que vai surgir o chamado terceiro e atual reino saudita.
E olha que interessante, no mapa, então ali em verde, a gente consegue ver justamente a expansão territorial dos al-Saud. Então, na verdade, vai ser o Abdulaziz bin Abdul al-Saud, o avô do líder de fato da Arábia Saudita, o MBS, então o avô dele vai dominar a cidade de Riyadh, no interior, que é a capital, e vai iniciar a conquista das demais partes do território. Então, a partir de 1932 é unificado o território, todo esse que tá ali nas cores verde escuro e verde claro, e vai ser unificado sobre o nome de reino da Arábia Saudita.
Certo, pessoal? Tudo tranquilo? Vendo os comentários aqui, vocês estão me ouvindo, não tô falando sozinho? Tá tudo certo, não que tenha acontecido alguma vez, né, Giovanna? Maravilha. Então, chegamos agora, a partir de então, a gente vai conhecer o reino da Arábia Saudita, digamos que no seu formato contemporâneo. Bom, então, dito isso, meus caros e minhas caras, eu quero trazer, pessoal, ainda no âmbito da contextualização, alguns aspectos gerais da Arábia Saudita.
Então, como eu comentei, a capital é Riyadh, a população em torno de 37 milhões, mas vejam, né, e aí muitas vezes a gente esquece como o Brasil é grande. Então, a população de toda a Arábia Saudita, e vejam no mapa, não é um país pequeno, é menor do que o estado de São Paulo, que tem cerca de 40 milhões de habitantes. PIB passou de R$ 1 trilhão em 2024.
Para vocês terem uma ideia, tá ali em torno da posição 18, 19, como maiores economias do mundo. O Brasil sempre fica ali entre oitavo, nono e décima economia, ou seja, então a economia do Brasil é muito maior. Mas, por um outro lado, né, o PIB per capita, ou seja, a divisão de tudo que foi produzido no país pelo seu número de habitantes, o PIB per capita, da Arábia Saudita é muito mais alto do que do Brasil, é 28 mil, enquanto que o PIB per capita do Brasil é apenas 9 mil dólares.
Outro indicador interessante é o IDH, é o Índice de Desenvolvimento Humano, então um critério construído pela ONU que busca aferir a qualidade de vida das pessoas de determinado país, usando como elementos não só os dados econômicos de crescimento, mas também acesso à educação, serviços públicos, escolaridade, expectativa de vida, etc. E o IDH da Arábia Saudita em 2023 tá na posição muito alta, então ele tá na posição 37, pra vocês terem uma ideia. 37 no ranking do IDH tá acima de países como Portugal e Croácia, então é um índice muito alto de desenvolvimento humano.
O Brasil, pra vocês terem uma ideia, tá sempre na posição 84, 85. O idioma é o árabe, então falado também o conjunto de outros países da região, como eu disse a religião oficial é o islamismo sunita ou arabista, e há uma monarquia absoluta islâmica. E a economia muito baseado no petróleo e no gás natural, mas a gente vai falar em seguida há um esforço justamente do Mohammed Bin Salman pra diversificar a economia saudita.
Bom, e aqui eu trouxe duas imagens, a bandeira do país e uma imagem da mesquita sagrada da Caba, em Meca, né, porque a Arábia Saudita é um país essencialmente religioso, né. Veja o que que tá escrito na bandeira da Arábia Saudita, não, que é um dos lemas mais importantes do islam. Não há divindade além de Allah e Mohammed é o seu mensageiro, é o seu profeta.
E a Arábia Saudita vai sediar, vai abrigar as duas cidades mais sagradas para o islam, Meca, então que é a cidade mais santa e inclusive consta no próprio livro sagrado, mais sagrado do islam ou ao corão, que todo muçulmano que tiver condições econômicas e de saúde deve fazer uma peregrinação, pelo menos uma vez na vida, a Meca, né. Então, trazendo dados do próprio governo saudita, 1,8 bilhão de pessoas visitou Meca no ano passado. E bem próximo está a cidade de Medina, que é considerada a segunda cidade mais sagrada e nela consta a mesquita na qual o profeta Mohammed está sepultado.
Deixa eu até voltar aqui no mapa para vocês poderem localizar aqui ó, então vejam, né, Meca e Medina, bem próximo à costa com o Mar Vermelho.
Bom, feito então essa contextualização da breve, uma brevíssima história da Arábia Saudita e também alguns elementos gerais do país, eu acredito que a gente pode chegar agora no nosso personagem principal, que é o Mohammed Bin Salman, ou seja, então, Mohammed Bin Salman, Mohammed filho de Salman, que é justamente o atual rei desde 2015 da Arábia Saudita. Então vejo, né, muito jovem aqui, por querer trazer algumas imagens dele na sua juventude, mas reconheço que o acesso a informações, sobretudo em língua inglesa dele, assim como de outros membros da família real, é muito escasso.
Então, nasceu em 85 na capital Riad, filho do rei Salman Bin Abdulaziz e de sua terceira esposa. Então veja aqui, um outro elemento também muito marcante, né, a essa interpretação do Islam que os homens podem se sentir até quatro esposas, né, desde que tratam, tratem todas elas de forma igualitária. Em termos acadêmicos, o MBS se formou em direito na Universidade Rei Saúde em 2007 e, segundo a Al-Jazeera, né, fundou diversas empresas e uma ONG com o objetivo de promover o empreendedorismo no reino.
Mas é interessante, né, contudo esse autor, o Hubert, né, durante sua juventude, início da idade adulta, o MBS nunca causou positivas impressões, nunca, em outras palavras, nunca foi um jovem de destaque. E aí o Hubert traz alguns elementos para corroborar essa afirmação dele. Então, o MBS nunca dirigiu uma empresa que prosperasse, que tivesse grande sucesso, não adquiriu experiência militar, não serviu às Forças Armadas, não estudou em nenhuma universidade estrangeira, não fala outro idioma além do árabe, nem passou um tempo significativo no exterior.
Então, um jovem, digamos que, bem comum para o reino da Arábia Saudita. Então, avançando na sua biografia, então, em 2007 vai trabalhar em uma série de órgãos governamentais, porque, enfim, né, é dali da família real, então você sabe que isso facilita muito os acessos. Em 2008 vai se casar e vai ter até então cinco filhos.
Em 2009, quando o seu pai, o Bin Salman, vai virar governador da cidade de Riad, ele vai virar conselheiro oficial do seu pai. Em 2012, o seu pai vai virar príncipe herdeiro, então, ou seja, era o próximo na na trajetória, enfim, o próximo a ascender no poder. E no momento que seu pai vira o príncipe herdeiro, ou seja, é o próximo na sucessão ao trono, achei o termo, o MBS vai ascender com ele.
Bom, e aí nós chegamos, pessoal, para o que eu espero que vocês também pensem assim, que a cereja do bolo, ou seja, o momento que o MBS vai de fato se colocar no poder e vai afirmar o seu poder. Então eu trago aqui uma imagem bem simbólica, né, à esquerda o seu pai, Mohammed Bin Salman, que vai assumir o poder em 2015, do lado direito o MBS, ambos nos trajes tradicionais árabes, que também é uma forma de construir uma aproximação, uma identificação com a sua população e, no fundo, a bandeira oficial da Arábia Saudita com os dizeres, né, que Alá é o único Deus e Mohammed Malné, aportuguesado, é o seu único profeta.
Então, aqui, é muito interessante que a partir de 2015, até 2015, a literatura vai tratar o MBS como praticamente um desconhecido, porque, veja, né, até então ele não tinha nenhuma perspectiva de ascender ao trono, era muito novo, mas o que vai acontecer? A partir de 2015, uma série de acontecimentos que vão impulsionar a sua carreira.
Então, em 2015, vai falecer o rei Abdullah e o seu meio-irmão, né, o Salman Bin Abdulaziz, vai assumir o trono. E, veja, né, por que meio-irmão? Como eu tinha comentado antes, né, é tradição em alguns países muçulmanos, Arábia Saudita também, e sobretudo entre aqueles que dispõem de grandes recursos, de grandes posses, os homens terem até quatro esposas, né. Então, o Abdullah era irmão do pai do MBS, mas, pelo mesmo, tinha o mesmo pai, mas tinham mães diferentes.
E qual é o detalhe, né? Então, ali, na imagem, à esquerda, o rei Abdullah, então, que vai governar até 2015, e, à direita, o Bin Salman, que é o atual rei da Arábia Saudita. Qual é o detalhe? O Bin Salman, ele vai assumir o trono com uma idade muito elevada, já com 80 anos. Isso vai favorecer a ascensão e a influência do MBS.
Veja, já em 2015, ele recebe um cargo muito importante dentro da dinâmica política do reino, que é o cargo de ministro da defesa. Deixa eu só ver aqui, tudo certo, maravilha, vamos que vamos. Em 2016, ele vai lançar um ambicioso programa de reformas econômicos, sociais e culturais, chamado Saud Vision 2030.
Vou me deter bastante a ele em seguida. Em 2017, ele é indicado a príncipe herdeiro, ou seja, próximo na sucessão, após o eventual falecimento do seu pai, e também ele vai executar um grande expurgo, grandes prisões de dezenas, centenas de membros da elite saudita, para consolidar o seu poder. Também vou falar disso depois.
Outro ponto também muito interessante foi o assassinato do jornalista dissidente crítico à Família Real, Jamal Khashoggi, na qual o MBS foi acusado formalmente de ser o mandante. E, por fim, em 2022, ele é eleito formalmente o primeiro ministro do país. Bom, dito isso, qual é o contexto das relações internacionais geopolítico que o MBS vai assumir como ministro da defesa? É, desde 1979, com a ascensão do regime teocrático, do Islã, é a grande rivalidade entre Irã e Arábia Saúdita.
Então, quero ilustrar isso primeiramente nesse mapa, então, vejam, são dois países gigantes territorialmente, com uma grande influência e com braços distintos do Islã como sua religião oficial, o Irã com o Shiísmo e a Arábia Saudita com o Sunismo, o que que a gente vai observar aqui em suas linhas gerais, tá?
Esses dois países vão entrar numa espécie de guerra fria, de conflito, através de grupos apoiados, chamados grupos por procuração, os proxies. Então, o Irã vai apoiar grupos no Iêmen, sobretudo os Houthis, vai apoiar grupos no Bahrein, no Iraque, tinha como seu grande aliado, até o final do ano passado, o governo do Bachar Al-Assad, vai apoiar o Hamas na faixa de Gaza, o Hezbollah no Líbano e todos eles vão combater Israel e também tem uma postura contrária à Arábia Saudita. Então, esse bloco formado pelo Irã também é conhecido como o inimigo da resistência.
Resistência a quem? A Israel e seus aliados, a Arábia Saudita e os Estados Unidos. Agora, chama atenção para o outro mapa aqui do Consul of Foreign Relations, né, que vai destacar justamente a presença militar dos Estados Unidos na região do Oriente Médio. Então, ainda que os Estados Unidos estejam oficialmente focando as suas atenções para o Pacífico, para a Ásia, para a contenção da China, a presença dos Estados Unidos é impressionante.
Então, vejam ali em vermelho os locais onde os Estados Unidos têm uma base militar há muito tempo, em amarelo outras outras facilidades que os Estados Unidos têm, temos militares, inclusive na Arábia Saudita, em azul, elementos navais dos Estados Unidos. Então, vejam que, de certa forma, tá o que? Cercando o Irã. Inclusive, né, no mais recente atrito, guerra entre Irã, Estados Unidos e Israel, o Irã vai retalhar justamente atacando uma base dos Estados Unidos ali no vizinho da Arábia Saudita, no Qatar.
Então, é nesse contexto de disputa regional com o Irã, pela liderança, pela influência nos países muçulmanos, que o Mohammed Bin Salman vai assumir, né. E o que que vai chamar atenção? Logo em seguida, após ele assumir o cargo de ministro da defesa, ele vai o que? Liderar uma coalizão, ataques aéreos, uma campanha militar, justamente mais ao sul da Península Arábica, né, contra os chamados Houthis no Iêmen, né. Então, só para contextualizar, um pouco antes, no âmbito da chamada primavera árabe, daqueles levantes populares que começaram na Tunísia, Egito, muitos países árabes buscando melhores qualidades de vida e mais democracia.
Isso vai ocorrer no Iêmen, no qual o governo, historicamente aliado à Arábia Saudita, ele vai cair e o país, de uma forma similar ao que vem ocorrendo agora um pouco menos na Síria, vai entrar numa guerra civil. E um dos grupos que vai começar a controlar a parte expressiva do território vai ser justamente um clã, um grupo tribal chamado Houthis, que compartilham elementos religiosos, chuíta, com o Irã e o Irã, ainda que diga que não, vai apoiar logisticamente e militarmente esse grupo, que vai ver a Arábia Saudita e Israel como grandes inimigos. Inclusive, vai lançar ataques contra alvos na Arábia Saudita, contra instalações pretolíferas no Emirado dos Árabes Unidos, mas sobretudo na Arábia Saudita.
Então, buscando conter essa influência do Irã através dessa prox, através dos Houthis, o Mohammed Bin Salman vai coordenar uma ação da Arábia Saudita junto com outros membros do Golfo, sobretudo dos Emirados Árabes Unidos, para bombardear e atacar o Iêmen, de modo a enfraquecer os Houthis. Bom, isso vai gerar uma situação de calamidade, de catástrofe humanitária no Iêmen. Então, aqui as duas fontes, os dois infográficos da Al Jazeera, no qual, veja, ainda dados do final de 2021, quase 400 mil pessoas morreram, uma parte expressiva da população do Iêmen passa fome.
Então, aqui um exemplo de uma ação mais assertiva, belicosa, do Mohammed Bin Salman no comando da Arábia Saudita. E aqui, digamos que é a sua grande vitrine, é o programa Saud Vision, ou seja, o programa de transformação econômica e social da Arábia Saudita, sobretudo para diversificar a economia. A Arábia Saudita, assim como seus vizinhos, Kuwait, Catar, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, todos eles muito dependentes dos recursos naturais, gás natural e petróleo.
Então, no momento que esses recursos sabem se eles são finitos, e o mundo, pelo menos se espera, está tentando ir em direção a uma economia mais verde, uma energia mais sustentável, vai começar a tentar reduzir a dependência do reino, da venda desses minerais fósseis para, justamente, diversificar a sua economia e também modernizar o país, apresentar a Arábia Saudita como um país próspero, digno de investimento e de turismo. E aqui, pessoal, eu sugiro para vocês que, está disponibilizado nos sites, que entrem, desculpa, na bibliografia, que entrem no site desse programa do Saud Vision. Tem um site em inglês e é um projeto de desenvolvimento.
É um projeto de desenvolvimento, mas lógico, que também atua para legitimar o governo. Não vamos se enganar, pessoal. É uma ditadura.
É um governo autoritário, um dos governos que mais executa por pena de morte pessoas no mundo. Governo no qual não pode manifestar de forma contrária, mas tentando construir uma legitimidade através de algumas reformas e algum tipo de abertura. Uma delas, que claramente foi muito bem vista pelos setores mais progressista e jovens, foi o relaxamento das medidas ultraconservadoras diante das mulheres sauditas.
Por exemplo, foi uma ampliação dos direitos delas, como o direito a dirigir e trabalhar. Que veja, para nós aqui do chamado Ocidente, do Brasil e da América Latina, isso é algo elementar e básico, mas não é na Arábia Saudita. E aqui eu trago alguns elementos para vocês terem uma ideia na prática do que é esse Plano de Saúde Vision.
São planos de metas. A segunda imagem, um dos objetivos é justamente expandir a participação do setor não-petrolífero nas exportações em relação ao PIB. Então, atualmente, na época, desculpa, do lançamento do programa, era 18%, se aumentou para 25% e se almeja chegar no último ano do projeto a 50%.
Ou seja, então, evoluir muito essa diversificação da economia fugindo dessa dependência do petróleo. Outro indicador que eu quero trazer é a expectativa de vida. Então, o Reino planeja passar dos 77 anos expectativa de vida para chegar aos 80 anos em 2030.
E, por fim, em relação, citei esse indicador, o IDH, o Índice de Desenvolvimento Humano, atualmente é ali posição 87, então está ali entre os 35 e 37 países com maior IDH do mundo, o objetivo é chegar a 0,94. Esse índice é medido quanto mais próximo de 1, mais alto é esse desenvolvimento. Então, 0,94 está ali no top 10 países com maior desenvolvimento humano.
Então, esse é o cartão de visitas, um dos cartões de visitas do Mohammed Bin Salman. Então, aqui trago a fonte e, como eu disse, sugiro que acessem esse site. E aqui eu quero trazer um pouco do próprio Mohammed Bin Salman para vocês.
E esse trecho aqui desse discurso, que eu reproduzo na forma íntegra, eu justamente tirei ali da subsessão do site desse programa na mensagem dos líderes. Então, o que o MBS vai dizer? O primeiro pilar da nossa visão é o nosso estatuto como coração dos mundos árabe e islâmico. Então, veja, toda essa carga religiosa é constantemente reafirmada pela elite do país, que obviamente precisa dela para se sustentar.
Então, veja, reconhecemos que Alá, o Todo-Poderoso, concedeu às nossas terras uma dádiva mais preciosa que o petróleo. Então, veja, a retórica tá justamente associando a bonança do petróleo como um presente divino. O nosso reino é a terra das duas mesquitas sagradas, ou seja, as duas cidades que eu tinha comentado antes, Meca e Medina.
Os lugares mais sagrados da terra em direção da Acaaba, a qual mais de um bilhão de muçulmanos se voltam em oração. O segundo pilar da nossa visão é a nossa determinação em nos tornarmos uma potência global a investimentos. Olha só.
A nossa nação possui fortes capacidades de investimento. Queremos aproveitar para estimular nossa economia e diversificar as nossas receitas. O terceiro pilar é transformar nossa posição estratégica única num centro global, uma espécie de hub que liga os três continentes, Ásia, Europa e África.
Então, a partir desses três pontos, desses três pontos, a gente vai ter uma sociedade saudita. Certo, meus caros? Tudo tranquilo? Deixa eu ver aqui, tô vendo o pessoal no chat. Então, quer dizer que a gente tá ao vivo.
Sucesso, vai dar certo. Vamos lá. Então, aqui, numa forma não tão positiva, o que vai acontecer? É o chamado expurgo.
Em novembro de 2017, quase 400 pessoas, vejam, 400, das pessoas mais poderosas do reino, príncipes, magnatas e ministros, foram todos presos em um hotel de luxo. Todos acusados de corrupção. E vem a ponderação, né? Então, para Gardner, sim, a Arábia Saudita possui esse problema muito enraizado do clientelismo, da corrupção, mas, na leitura dele de outros autores, o MBS usou essa desculpa, esse discurso da corrupção pra afastar essa elite, sobretudo daqueles que, de alguma forma, questionavam o seu poder, enfim, a sua ascensão como um jovem a esses cargos diretivos.
Então, usou essa oportunidade pra expurgar, pra retirar das posições chaves e, obviamente, realocar nesses locais os seus aliados. Então, tá ali o MBS, com sua cara de desconfiado. Bom, e aí nós temos um outro evento trágico, né? Eu me lembro que, nesse período aí, inclusive, eu estava nessa cidade, eu estava em Istambul, estava morando lá, no Oriente Médio, essa importante cidade da Turquia.
E o que que vai acontecer? Então, esse jornalista, o Jamal Kajrov, é um jornalista dissidente crítico do regime saudita. Ele tinha se exilado, saído por perseguição da Arábia Saudita e foi morar nos Estados Unidos, então, forte crítico da monarquia, e ele tem descendência, tinha descendência turca, queria se casar como uma turca e foi justamente o que? Na representação diplomática, no consulado do seu país, da Arábia Saudita, em Istambul, em busca de documentos pra avançar na questão do divórcio. Que, enfim, né? Sempre é muito complicado, né? Tu casar fora do teu país.
Eu posso fazer até minha própria experiência aqui, justamente eu fui diversas vezes no consulado brasileiro em Istambul, porque, enfim, na época que eu estava novo eu queria casar com a minha esposa em Istambul, mas casando no consulado brasileiro e era uma burocracia sem fim, né? Então, só pra trazer um pouco essa curiosidade. O que vai acontecer? Ele vai entrar nesse consulado e nunca mais vai sair. E o que que vai acontecer? Veja, né? O que certamente o regime saudita não sabia era que a Turquia, que manteve uma relação um pouco desconfiada com a Arábia Saudita, tinha grampeado essa sede do governo saudita em Istambul e teve acesso às gravações.
Essas gravações e uma investigação do próprio Estados Unidos vai demonstrar que o Jamal Khashoggi não só vai ser morto, como ele vai ser esquartejado e vão dar um fim ao seu corpo. Não vai se encontrar os seus restos mortais, né? Então, isso vai chocar o mundo. Na época o Jamal Khashoggi era colunista do Washington Post, um dos mais importantes jornais dos Estados Unidos, colaborava com outros periódicos, era uma voz muito seguida e claramente aqui o regime mandou uma mensagem, que é a tradicional mensagem das ditaduras.
Não se oponha ao nosso regime, não critique, senão você vai se dar mal. Bom, dado todas essas evidências, a justiça saudita vai condenar oito pessoas, mas para surpresa de zero pessoas vai inocentar o príncipe Mohamed Bin Salman de qualquer ligação e vai condenar outras oito pessoas de sete a vinte anos de prisão. E o que que é o interessante, pessoal, é que para montar essa aula eu busquei também ouvir o próprio MBS e disponibilizei também esse link nas referências, que logo logo a gente vai chegar.
Pouco tempo depois o Mohamed Bin Salman vai dar uma entrevista para esse canal muito importante dos Estados Unidos, o 60 Minutos, no qual ele vai responder da seguinte forma à pergunta objetiva da jornalista se ele ordenou a morte de Jamal Khashoggi. Vejam só, ele vai dizer absolutamente não. Esse foi um crime hediondo, mas eu assumo total responsabilidade como líder da Arábia Saudita, vejam só, eu assumo total responsabilidade como líder da Arábia Saudita, especialmente porque foi cometido por indivíduos trabalhando para o governo saudita.
Isso foi um erro e eu tomarei todas as ações para que isso não ocorra de novo. Ou seja, e ó, qual é a leitura que a gente pode fazer aqui discursiva? Primeiro ele se colocando como governante de fato, né, eu como líder da Arábia Saudita, não o pai dele, ele, ainda que não seja formalmente o rei, ou seja, então ele se assumindo, demonstrando o seu poder e reconhecendo o assassinato, e reconhecendo que esse jornalista importante foi assassinado por membros do governo saudita. Aí eu deixo as minhas conclusões para vocês.
Voltando um pouco dentro do seu programa de modernização do reino, tem aquilo que se costumou chamar de sport-washing, né, ou seja, digamos que uma busca de uma nova imagem para um país que comete crimes, viola os direitos humanos, é uma ditadura através do esporte. E o que a gente tem visto, né, investimento pesado, não só da Arábia Saudita como de outros países, como o Catar, em atraindo competições esportivas, comprando clubes de futebol, outras equipes, investindo em esporte para buscar o quê? Ter uma imagem melhor, né. Então, por exemplo, o famoso rally, antigamente chamado Paris-Dakar, que ocorria justamente entre essas regiões ali do norte da África e de Paris, agora ocorre na Arábia Saudita.
A própria Fórmula 1, na cidade de Jeddah, campeonatos mundiais de golfe, o sauditão, como diria o Filipe Figueiredo do xadrez verbal, espero que ele esteja aqui nos prestigiando, então a Liga Saudita de Futebol vai contratar mais estrelas como Benzema, Neymar, Cristiano Ronaldo. A Arábia Saudita vai sediar, assim como o Catar ofez recentemente, edições futuras da Copa do Mundo, sediou a edição passada da Copa do Mundo de clubes da FIFA e, olha só, o Mohamed Bin Salman feliz, né, comprou o Arábia Saudita, comprou o famoso clube inglês, o Newcastle.
Bom, em relação especificamente à política externa, trago Lima, né, que vai colocar que a política externa do Mohamed Bin Salman, da Arábia Saudita sob liderança dele, vai centrar-se em ações assertivas e equilibradas.
Então, assertivas duras quando os interesses vitais do reino estão ameaçados. Então, os ataques intensos no Iêmen, visando enfraquecer os aliados do Irã, expurgo interno da elite e assassinato do jornalista dissidente Kachor. Equilibradas no sentido tanto econômico de buscar diversificar as receitas do país e não ser tão dependente do petróleo, mas também buscar a própria dependência histórica dos Estados Unidos, né.
Então, nesse sentido, um movimento que vai pegar muito de surpresa, o Arábia Saudita vai retomar relações com o Irã, como eu comentei, o seu grande rival regional desde 79, num processo mediado pela China, em 2022, tá ali a foto, dos três chanceleres, dos três ministros de relações exteriores, e vai ter um ensaio de entrada nos BRICS, né.
Vai entrar, mas não confirmou aquela coisa, num claro momento de quê? De fazer um balanceamento, um equilíbrio e um recado para os Estados Unidos, olha, vocês atendam as nossas demandas, senão a gente pode ir para o lado mais de influência da China. Contudo, obviamente, sem esquecer as tradicionais alianças com os Estados Unidos, por exemplo, aqui a visita recente do Donald Trump ao Reino Saudita.
Um outro exemplo dessa síntese entre a seletividade e equilíbrio é a postura ao Irã, né. Então, olha que interessante, o MBS afirmou que os ataques recentes de Israel ao Irã minam a soberania do país e constituem uma violação das leis anteriores, sendo que anos atrás ele havia comparado o regime iraniano ao regime nazista, pra vocês terem uma ideia.
Então, se colocando como favorável a paz, que a Arábia Saudita rejeita a força para resolver as disputas, que o diálogo de Pomacê há grandes evidências que justamente nos ataques de Israel ao Irã, extra-oficialmente o reino cooperou com Israel, passando dados de radares e autorizando o uso do seu espaço aéreo para que os mísseis israelenses ataquem o Irã.
Então, vejam toda essa questão de equilíbrio. E agora, justamente, eu vou mostrar aqui no mapa, né. Então, veja, né, Israel, pra poder chegar ao Irã, passa pelo Iraque, um pouquinho pela Síria, pela Jordânia, mas tem uma parte expressiva da Arábia Saudita.
Então, de duas, uma. Ou Israel teve que, os seus mísseis, teve que contornar todo o território da Arábia Saudita, ou contaram com uma vista grossa, digamos assim, do regime saudita. Então, veja essa postura de equilíbrio, de balanço.
Indo pro final, pessoal, o MBS junto com outro, Arábia Saudita junto com outros líderes, incluindo o Brasil, vai acusar Israel de estar cometendo crimes de guerra, de genocídio, na sua ação contra Gaza. Eu trago aqui uma imagem de fevereiro desse ano, justamente do norte de Gaza, e ressaltou que não haverá normalização dos países árabes com Israel, sem que um Estado Palestino seja criado.
E, bem recentemente, semana passada, a Liga Árabe, 22 países árabes, União Europeia e mais de sete países, emitiram uma declaração, pela primeira vez, dos países árabes condenando os ataques do Hamas, os ataques terroristas e militares do Hamas, mas também condenando as ações Israel, pedindo cessar fogo, exigindo que o Hamas abandone o território e que seja criado um Estado Palestino, com a Autoridade Nacional Palestina, que hoje governa a Cisjordânia, administrando a atual faixa de Gaza.
Bom, pessoal, pra gente encerrar e irmos para as perguntas. Opa, me atrapalhei todo, mas vai dar certo. Deixa eu só voltar aqui, fechei a minha apresentação, mas vocês fazem de conta que tá tudo certo.
Olha só, até já voltou a apresentação. Voltou, né, Giovanna? Me diga que sim. Então, a síntese do conteúdo e apontamentos finais.
Vamos ver aqui. Tá tudo certo. Então, veja, a rápida ascensão, pra gente compreender essa rápida ascensão do MBS ao poder, né, a gente pode colocar dois elementos.
Sorte e belicosidade, né, a virtude que o Maquiavel tanto falava. Por que sorte? Sorte de ter o seu pai escolhido como sucessor ao reino da Arábia Saudita, né. Belicosidade e assertividade por expulgar rivais e afirmar o seu poder individual, seja externamente, seja internamente em relação à elite, né.
O Mohammed Bin Salman vai construir sua legitimidade, sobretudo a partir dos esforços de modernização do reino, inclusive o sucesso ou não desse programa, o Saúde Vision, vai impactar na sua imagem.
Externamente, vai executar uma política externa que mescla agressividade e equilíbrio, então agressividade à intervenção no Iêmen, assassinato do Jamal Khashoggi, o equilíbrio nesse ensaio, nessa tentativa de entrada nos BRICS, uma relação dúbia com o Irã e o que a gente pode colocar para concluir, meus caros e minhas caras, que dado o papel central da Arábia Saudita na dinâmica do Oriente Médio, seu papel como o maior produtor de petróleo do mundo e sua proximidade constante, sobretudo, com os Estados Unidos e o forte aparato repressor doméstico consolidado do regime, parece indicar uma longa permanência para a atual casa real da saúde e para o próprio MBS.
Bom, aqui no Olhar da Arte sobre o Tema, trago esse documentário curtinho da Economist, obviamente tem um viés aqui, como vocês podem ver pelo título não muito favorável ao MBS, mas trago aqui, bem feito, e um filme, um filme inclusive que foi representante, que o governo da Arábia Saudita escolheu como seu representante em festivais internacionais, foi premiado em Veneza, ou seja, não é uma visão tão dissidente assim, então o filme é candidata perfeita, que salvo engano tá nos streams, acho que no Prime, que é nada mais que uma jovem médica que decide entrar na política, então um filme saudito.
Bom, então aqui estão as minhas referências, né, todas com link, se disponível, aqui que comentei do site oficial do Saudvision e do relatório, que vocês podem baixar gratuitamente em inglês para conhecer mais desse plano de modernização do MBS, e muito obrigado, meus caros e minhas caras. Então, Paulo Rogério Venâncio, excelente aula, muito obrigado. Então, Ellen falando que o arabismo era um fenômeno mais recente, não, isso é muito interessante, porque ele tem raiz muito antiga, mas vai ser colocado como doutrina justamente do governo da Arábia Saudita.
Então, pessoal, agora o momento para a gente conversar. Então, a gente pode colocar que sim, no sentido que ele foi desenvolvido por, enfim, um habitante do que seria o atual território da Arábia Saudita e vai estar sempre muito vinculado com a elite política que vai dominar, né, desde o primeiro reino saudita, boa parte do território do país, né, vai usar justamente essa vertente religiosa do islã para se legitimar no poder. Amanda Marini, então, comenta, excelente sala de estratégia, muito esclarecedor, obrigado pelo comentário, agradeço muito a participação.
Professor, quais são os interesses da Arábia Saudita ao se colocar como ator mediador no Oriente Médio? Excelente questão. Veja, né, os países, né, eles tendem, e por isso que eu sempre brinco que o realismo, como lente teórica da Zerrilli, permanece tão forte, eles sempre vão buscar os seus interesses e, sobretudo, os países não democráticos, o principal interesse sempre é que o governo se mantenha no poder. Então, vai buscar, de todas as formas, se manter no poder e organizar a sua política externa para garantir isso.
O que eu acho que é o maior cenário do Oriente Médio de afastamento dos Estados Unidos e também agora no Trump, numa política muito imprevisível e inconstante e ela tem, e dentro desse, não digo vácuo, né, mas esse distanciamento e imprevisibilidade, os Estados Unidos tentam se colocar cada vez mais como o mediador do Oriente Médio.
Muito se comenta que os ataques que ocorreram, sobretudo, em 2015 até 2020, 2022, da Arábia Saudita e de seus aliados contra o Iêmen, não foi nem combinado com os Estados Unidos, eles agiram de forma própria. Lembrando, não foi objeto dessa aula.
Mas no contexto um pouco antes da Primavera Árabe, ali em 2011, o pequeno país vizinho, também monarquia, o Bahrein, que é um país de maioria xiita, mas com uma elite governante sunita, tava ali muito sacudido pelos protestos e o governo mandou mensagem para a Arábia Saudita e para os demais países que têm uma aliança militar, o Conselho de Cooperação do Golfo, e a Arábia Saudita mandou tanques para o Bahrein, justamente para sustentar o seu aliado.
Então, no momento em que ela se coloca como mediador, a Turquia também vem buscando isso, é o que? Afirmar o seu poder, ganhar prestígio, ganhar credibilidade internacional. Então, a Amanda coloca como fica a questão da Arábia Saudita, especialmente na visão 2030, em relação à transição energética. Esse é um ponto muito interessante, Amanda, e aí eu faço mais uma vez o convite de vocês olharem aquele material, aqueles relatórios.
Então, a Arábia Saudita vem tentando, pelo menos oficialmente, por isso que eu sempre gosto de trabalhar com os documentos oficiais, porque essa é a visão do governo, não quer dizer que ela ocorra, mas é, digamos que, a partir daquilo que a gente tem que se basear e da realidade, enfim, da análise da realidade, né, ela sim vem procurando fazer uma transição energética.
Um dos argumentos para mudança da matriz energética e da matriz econômica é justamente esse distanciar do petróleo, reconhecendo todos os malefícios que esse mineral fóssil traz para a humanidade, também investimentos em energia solar, energia eólica, enfim, o próprio território da Arábia Saudita é muito propício pela questão, enfim, da sua geografia à energia solar, então há uma série de investimentos, né, aí é aquela coisa, temos que ver se isso vai ocorrer ou não, mas vários investimentos justamente nessa transição energética para ela também sair, porque isso também é um elemento que vai, digamos que, credenciar ela como uma grande liderança.
O Brasil mesmo, ele tenta, apesar de todas as suas contradições, se apresentar como um líder dessa transição energética.
Paulo Rogério, né, outra coisa, a Arábia Saudita ainda manterá o dólar nas transações com o petróleo com os Estados Unidos? Essa é uma excelente pergunta, né, eu acho que a Arábia Saudita, justamente, ela tem feito esse jogo, esse equilíbrio muito bem feito entre os Estados Unidos e a China, né, então, no momento quando ela disse que ia entrar nos BRIC.
Certamente isso soou um alerta muito forte nos Estados Unidos, que é aliado da Arábia Saudita há décadas e décadas, tem uma relação econômica e militar muito forte, não só a Arábia Saudita vende petróleo para os Estados Unidos, como também é uma grande compradora de armamentos, enfim, de aeronaves, de insumos militares dos Estados Unidos, né, e essa questão de alguns países procurarem não utilizar mais a moeda dos Estados Unidos como o seu câmbio nas transações, isso afeta diretamente os interesses dos Estados Unidos, então, me parece que essa, essa acaba sendo outra, digamos, que moeda de barganha que o governo da Arábia Saudita tem. Excelente questões. Bruno Paz, boa tarde, boa tarde.
Voltando aqui no chat, ver se tem mais algumas questões ali, muitos perguntando do certificado, a nossa equipe certamente vai, olha só, estamos todos em sintonia aqui, né, a senhora Giovanna já colocou ali a lista de presença a partir da qual os certificados vão ser emitidos, excelente. Então é isso, pessoal, se tiverem mais alguma questão, eu estou à disposição. Eu acho que eu respondi todas, se eu não estou enganado.
Espero, meus caros e minhas caras, que vocês tenham gostado. Agradeço muito a equipe da ESR e das Relações Exteriores pela ajuda, Giovanna, sempre muito perspicaz, resolvendo todas as questões. Fica o convite para vocês curtirem as nossas redes sociais, curtirem o nosso, o nosso YouTube, assinar ali o sininho das notificações, compartilhar.
E que bom, pessoal, que bom que vocês gostaram. E acho que a gente pode encerrar, né, Giovanna, o que que nos parece, vamos ver aqui. Maravilha, viu, sincronia.
Falei, a Giovanna já respondeu que a gente pode encerrar. Não, a Giovanna é incrível, é muito bom trabalhar. Ó, outra questão muito boa, lembramos, a série Líderes Mundiais acontece às terças-feiras, às três da tarde, e o nosso projeto paralelo, nosso projeto irmão, o Sala de Estratégia, todas as quintas-feiras, no mesmo horário, no qual eu divido a bancada com o professor Guilherme Bueno e com a professora Lívia Milani.
Publicações da Revista Relações Exteriores - análises e entrevistas sobre política externa e política internacional.