Nas últimas duas décadas, a crescente projeção econômica e diplomática da China em diversas regiões do sistema internacional tem levantado questionamentos sobre a durabilidade da ordem internacional unipolar estabelecida após o fim da Guerra Fria. Em particular, a expansão da presença chinesa na América Latina, no Oriente Médio e na Ásia tem sido interpretada por diversos analistas como um sinal da transição gradual para uma configuração mais multipolar de poder.
Em trabalho anterior, argumentei que políticas comerciais coercitivas adotadas pelos Estados Unidos durante a atual guerra tarifária acabaram abrindo espaço para a expansão da influência chinesa na América Latina, permitindo que Pequim se consolidasse como parceiro econômico alternativo para diversos países da região (Fernandes, 2025). Se naquele momento a competição entre Washington e Pequim se manifestava predominantemente na esfera econômica e comercial, os acontecimentos recentes sugerem uma nova fase dessa rivalidade, marcada por maior uso de instrumentos de coerção estratégica e militar por parte dos Estados Unidos.
Este artigo argumenta que, diante da erosão gradual de sua primazia global, Washington passou a adotar uma estratégia que pode ser descrita como “rebalanceamento pela força”, na qual intervenções diretas, operações de decapitação estratégica e pressão militar são utilizadas para restaurar o equilíbrio de poder favorável à hegemonia americana.
A Queda da Diplomacia e o Desafio ao Petrodólar
A perda de influência dos Estados Unidos em regiões estratégicas como a América Latina e o Oriente Médio não se limita ao plano político-diplomático, mas reflete transformações estruturais na distribuição de poder global.
Um marco simbólico desse processo ocorreu em março de 2023, quando a China mediou a retomada das relações diplomáticas entre Irã e Arábia Saudita após sete anos de ruptura. O acordo, firmado em Pequim, foi interpretado como evidência da crescente capacidade diplomática chinesa em uma região historicamente marcada pela presença estratégica de Washington.
Paralelamente, o fortalecimento das relações energéticas entre China e Irã tem contribuído para questionar a centralidade do dólar no comércio internacional de petróleo. A ampliação do uso do yuan em transações energéticas e o aumento das importações chinesas de petróleo iraniano indicam tentativas de diversificação monetária no comércio global de energia, processo frequentemente associado ao debate sobre o chamado sistema do petrodólar.
Diante desse cenário, parte da literatura realista argumenta que potências hegemônicas tendem a reagir ao declínio relativo por meio de estratégias destinadas a preservar o equilíbrio internacional de poder. A estratégia americana pode ser interpretada à luz da lógica de offshore balancing, segundo a qual uma potência dominante intervém militarmente quando o equilíbrio regional ameaça favorecer potências rivais.
América Latina: Intervenção e Reafirmação da Esfera de Influência
Na América Latina, tradicionalmente considerada área de influência estratégica dos Estados Unidos, a crescente presença econômica da China passou a gerar preocupações crescentes em Washington.
Investimentos chineses em infraestrutura, energia e telecomunicações ampliaram significativamente o peso de Pequim na região, ao mesmo tempo que desafiaram a posição histórica dos Estados Unidos como principal parceiro econômico de diversos países latino-americanos.
Nesse contexto, a crise venezuelana tornou-se um dos principais focos da disputa geopolítica hemisférica. Em janeiro de 2026, uma operação conduzida por forças especiais norte-americanas resultou na captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas, posteriormente transferido para os Estados Unidos para responder a acusações federais relacionadas ao narcotráfico.
Após a operação, a vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu interinamente o comando do governo venezuelano, em meio a intensas pressões internacionais e rearranjos políticos internos.
Esse episódio representa uma mudança significativa na postura estratégica de Washington na região. Em vez de depender exclusivamente de instrumentos diplomáticos ou sanções econômicas, os Estados Unidos demonstraram disposição para utilizar meios diretos de intervenção para redefinir o equilíbrio político em um país considerado central para a segurança energética do hemisfério.
O Eixo Energético e a Estratégia de Decapitação
O controle das principais regiões produtoras de energia continua sendo um elemento central da competição entre grandes potências.
Países como Irã, Rússia e Venezuela desempenham papel relevante no mercado internacional de hidrocarbonetos e mantêm relações estratégicas crescentes com a China.
Nesse contexto, a eliminação do líder supremo iraniano Ali Khamenei em fevereiro de 2026, durante uma operação militar atribuída a Israel com apoio estratégico dos Estados Unidos, marcou uma escalada significativa no confronto indireto entre Washington e Teerã.
A morte de Khamenei abriu um período de incerteza política no Irã e levou à ascensão de seu filho, Mojtaba Khamenei, ao posto de líder supremo em meio a um cenário regional de elevada tensão.
A operação foi interpretada por diversos analistas como parte de uma estratégia de decapitação estratégica, voltada para enfraquecer regimes considerados hostis à ordem internacional liderada pelos Estados Unidos.
O Dilema das Potências: Entre Contenção e Escalada
No atual contexto geopolítico, as principais potências revisionistas enfrentam desafios distintos.
A Rússia encontra-se profundamente pressionada pelo prolongamento da guerra na Ucrânia e pelas sanções econômicas ocidentais, o que limita sua capacidade de projeção de poder em outras regiões.
A China, por sua vez, enfrenta um dilema estratégico mais complexo. Ao mesmo tempo que busca consolidar sua ascensão econômica e tecnológica, Pequim precisa evitar uma escalada militar prematura que possa comprometer seu projeto de desenvolvimento de longo prazo.
Nesse cenário, a intensificação de operações coercitivas por parte dos Estados Unidos sugere uma tentativa de restaurar a credibilidade do poder americano e reafirmar sua posição dominante no sistema internacional.
A história raramente repete seus acontecimentos, mas frequentemente ecoa seus dilemas. Na Roma Antiga, Brutus acreditava que a morte de Júlio César poderia salvar a República e restaurar o equilíbrio político ameaçado pela concentração de poder. No entanto, o gesto que pretendia preservar a antiga ordem acabou acelerando a transição para o Império.
No cenário internacional contemporâneo, a estratégia americana de rebalanceamento pela força parece refletir um dilema semelhante. Ao recorrer à intervenção militar e à pressão estratégica para conter rivais emergentes, Washington busca restaurar uma ordem unipolar que marcou o período pós-Guerra Fria. Resta saber, porém, se tais ações inaugurarão um novo século americano ou se representarão apenas o último esforço de uma potência dominante diante de uma transição estrutural já em curso rumo à multipolaridade.
Referências
Fernandes, Leonardo. (2025). China as a Counterbalance: How U.S. Tariff Bullying Opens Opportunities for Beijing in Latin America. China Hands Magazine.
Mearsheimer, John. (2001). The Tragedy of Great Power Politics.
Walt, Stephen. (1987). The Origins of Alliances.
Leonardo dos Santos Fernandes é Licenciado em História (Universidade Estadual do Piauí), Mestrando em Ciência Política (Universidade Federal do Piauí) e Pesquisador do Grupo de Trabalho em História Militar (GT História Militar). Atualmente, pesquisa relações sino-russas, Sul Global e ideias sobre multipolaridade mundial.
