Análise de Discurso e Process Tracing: uma análise comparativa

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Análise de Discurso e Process Tracing: uma análise comparativa 1

Introdução

Desde os anos de 1980 e 1990, as Ciências Sociais vem direcionando esforços relevantes para aumentar e melhorar os seus métodos qualitativos. Nesse sentido, esse movimento propiciou a gênese de uma nova literatura que o dissemina e desenvolve através de maior consciência metodológica e profundo rigor científico” (HENRIQUES; LEITE; JÚNIOR, 2015, p. 10). Isso acontece como resposta aos ataques de desvalorização desses métodos em face aos procedimentos quantitativos e “não é incomum serem apontadas como menos rigorosas e incapazes de gerar explicações válidas para fenômenos sociais” (DE LIMA, 2017, p. 129). Diante disso, o objetivo desse trabalho é comparar dois métodos qualitativos consolidados a fim de que haja uma maior conhecimento e familiarização com os mesmos.

Tendo caráter totalmente descritivo e possuindo apenas um caráter pedagógico, este texto irá analisar os métodos de análise de conteúdo e process tracing. Para isso, haverá quatro etapas para cada método. A primeira se dedica a descrever as principais características de cada método. Seguido disso, o trabalho partirá para uma análise da aplicabilidade desses métodos na pesquisa. Depois, serão estabelecidos os tipos de informações que esses métodos coletam e processam. E, finalmente, identificar-se-á as limitações dos métodos. Por fim, serão feitas algumas considerações finais sobre os métodos vistos.

Análise Conteúdo

Principais características

Se fosse necessário uma definição sucinta sobre o que a análise de conteúdo é direcionada, ela seria esta: “uma técnica de análise das comunicações […]” (SILVA; FOSSÁ, 2015, p. 2). Em outras palavras, a análise de conteúdo, ele possui o objetivo de “qualificar e analisar a presença, significados e relações de palavras, temas, ou conceitos” possibilitando que o pesquisador possa “fazer inferências sobre as mensagens dentro dos textos, dos escritor(es), da audiência, e mesmo da cultura e tempo circundantes ao texto”(COLUMBIA, 2019, tradução do autor). Ainda há aqueles que dizem que o caráter social é inerente ao método “uma vez que é uma técnica com o intuito de produzir inferências de um texto para seu contexto social de forma objetiva” (SILVA; FOSSÁ, 2015, p. 2). Na prática, o método se traduz em “sistematicamente transformar uma grande quantidade de texto em um sumário de resultados chaves altamente organizado e conciso” (ERLINGSSON; BRYSIEWICZ, 2017, p. 94, tradução do autot).

Além disso, a análise de conteúdo tem a promessa de unir duas coisas que tradicionalmente são vistas como excludentes: “o rigor da objetividade e a fecundidade da subjetividade” (SILVA; FOSSÁ, 2015, p. 3). Isso acontece, pois, ao buscar padrões de comunicação e significados dentro de um espaço amostral, o pesquisador consegue extrair dele, seguindo o referencial teórico utilizado em sua pesquisa, inferências de significados carregados nos conteúdos textuais analisados. 

Aplicabilidade

A aplicação desse método pode ser feita de duas formas principais. A primeira se encontra na busca pela quantidade e frequência de repetições ocorridas nos textos a serem analisados, chamada de análise conceitual. Dessa forma, ela “envolve quantificar e contar” a presença de um ou mais termos. Para isso, utiliza-se a ferramenta de codificação, ou coding, desses termos, sejam eles explícitos ou implícitos. Coding, segundo Silva e Fossá (2015, p. 4) é a “[…] transformação, por meio de recorte, agregação e enumeração, com base em regras precisas sobre as informações textuais, representativas das características do conteúdo”. Para os termos explícitos, a contagem fica se tornando mais facilitada pois, a partir do momento em que os termos foram definidos, basta somente localizá-los no texto de forma direta. Já os termos implícitos são mais difíceis de encontrar já que é necessário “decidir o nível de implicação e julgamentos de base sobre a subjetividade […]. Portanto, o coding de termos implícitos envolve usar um dicionário ou regras de tradução contextual, ou ambos” (COLUMBIA, 2019, tradução do autor). 

Já a segunda forma, é chamada de análise relacional e tem o objetivo de “examinar as relações entre os conceitos em um texto”. Apesar de ela iniciar de forma semelhante à forma anterior, ou seja, escolhendo um conceito a ser analisado, não é buscado apenas uma questão de quantidade ou de frequência desses termos. A grande diferença da análise relacional se encontra no seu objetivo de “explorar as relações entre conceitos” já que “conceitos individuais são vistos como tendo nenhum significado inerente mas o significado é um produto das relações entre os conceitos” (COLUMBIA, 2009, tradução do autor). Para que isso ocorra, as perguntas de pesquisa devem ser específicas a fim de que não haja aberturas para interpretações contrárias, o que faz com que haja uma necessidade de “ sistematizar ideias iniciais colocadas pelo quadro referencial teórico e estabelecer indicadores para a interpretação das informações coletadas” (SILVA; FOSSÁ, 2015, p. 3). No entanto, um ponto que todas as duas análises dão importância e representatividade do material a ser abordado, já que “a amostragem diz-se rigorosa se a amostra for uma parte representativa do universo inicial” (SILVA; FOSSÁ, 2015, p. 3).

Principais tipos de informações trabalhados pelo método

Como já foi dito anteriormente, o principal material a ser analisado pelo método são os meios pelo qual a comunicação é realizada (entrevistas, registros, relatórios, declarações, etc). No entanto, a análise de conteúdo não se trata da interpretação tradicional dos textos, mas na “construção das operações de codificação, considerando-se os recortes dos textos em unidades de registros, a definição de regras de contagem e a classificação e agregação das informações em categorias simbólicas ou temáticas” (SILVA; FOSSÁ, 2015, p. 4). Então, a codificação é basicamente a transformação dos conteúdos dos textos em “unidades de registro”. “Códigos concisamente descrevem o significado condensado da unidade e são ferramentas para ajudar pesquisadores a refletir sobre os dados em novos jeitos” (ERLINGSSON; BRYSIEWICZ, 2017, p. 96, tradução do autor). Códigos tornam mais fáceis identificar conexões entre unidades de significado. Essas unidades de registros, ou códigos, podem ser definidos tanto antes como durante a análise dos dados, dependendo da abordagem do autor (STEMLER, 2000).  Feitos esses códigos, cabe o pesquisador definir as categorias em que esses mesmas “categorias são agrupados de acordo com temas correlatos […]” (SILVA; FOSSÁ, 2015, p. 4). Ainda segundo Silva e Fossá (2015, p. 4), esse processo tem o trabalho de “não apenas compreender o sentido da fala dos entrevistados, mas também buscar-se-á outra significação ou contra mensagem através ou junto da mensagem primeira”.

Principais limitações

Porém, apesar de ser um método que vem ganhando cada vez mais popularidade, ele não é a prova de erros. Um dos principais é estar sujeito a um alto grau de subjetividade “particularmente quando a análise relacional é usada para obter um nível maior de interpretação” (COLUMBIA, 2019,tradução do autor). Isso acontece porque para que os códigos, categorias e temas sejam determinados, “é importante claramente definir as regras para o que será ou não incluído para assegurar que todos os textos sejam codificados consistentemente” (LUO, 2019, tradução do autor). Então, por não existir uma regra definitiva em como estabelecer esses limites, o autor corre o risco de inserir níveis de subjetividade o suficiente para gerar uma pesquisa cientificamente rigorosa. Além disso, a análise de conteúdo apresenta a possibilidade de ser reducionista em relação ao texto que analisar porque “focar em palavras ou frases em isolamento pode às vezes ser amplamente redutivo, negligenciando contexto, nuance, e significados ambíguos” (LUO, 2019, tradução do autor). 

Process Tracing

Principais características

Desenvolvido no campo da psicologia na década de 1970, o process tracing surgiu como uma ferramenta para mapear as tomadas de decisão dos indivíduos estudados. Com sua popularização, o método começou a se espalhar para outros campos das Ciências Sociais “explorando cadeias explicativas de fenômenos sociais e não apenas individuais” (DE LIMA, 2017, p. 130). Apesar de ser amplamente utilizado, ele não apresenta uma definição única, podendo variar de autor para autor. Para Bennett e Checkel (2015), esse método se baseia em uma investigação dos processos intermediários que geraram o fenômeno estudado a fim de extrair inferências sobre as hipóteses. Desse modo, pode-se perceber que esse método não é de característica one size fits all já que o pesquisador “tem como alvo o exame de mecanismos específicos que explicam determinadas relações causais. O objetivo imediato não é generalização estatística e, portanto, a técnica não deve ser ‘cobrada’ por isso” (DE LIMA, 2017, p. 130).

Para entender melhor o funcionamento desse método, Bennett e Checkel (2015) usaram uma analogia explicativa e simples. Há um conjunto de 50 dominós caídos sobre uma mesa. A minha pergunta de pesquisa para entender esse fenômeno seria: qual foi a causa da queda dos dominós? No entanto, existem N fatores possíveis para esse acontecimento ao mesmo tempo que minha hipótese é de que a queda da primeira peça tenha causado a queda consecutiva das outras. Para responder esse problema e ver se minha hipótese é verdadeira “precisamos analisar o encadeamento de movimentos das outras peças para verificar se a nossa hipótese está correta – de que a queda da primeira causou a queda da última” (DE LIMA, 2017, p. 131). 

No entanto, o pesquisador não busca qualquer tipo de estímulo que possa ser um mecanismo causal do fenômeno. “Ele lida seletivamente com alguns aspectos do fenômeno que são relevantes para o estudo em questão, de forma a dialogar com a teoria” (DE LIMA, 2017, p. 131). Além disso, há uma outra questão que leva em consideração o quadro referencial teórico em que o pesquisador se baseia para delinear sua pesquisa e natureza ontológica do seu objeto. Assim como a análise de conteúdo, na metodologia do process tracing “é imperativa sua interação com a teoria desenvolvida sobre o assunto na escola dos fatores explicativos” (DE LIMA, 2017, p. 131). Em último lugar, o process tracing busca encontrar “uma explicação de um caminho causal” (DE LIMA, 2017, p. 131).

Aplicabilidade

No que tange à aplicação dessa ferramenta na pesquisa, Beach e Pedersen (2019) constroem um argumento afirmando que o método se encaixa para três propósitos específicos: teste de teorias, construção de teorias ou para explicar fenômenos causais de fenômenos específicos. Segundo esses autores, o primeiro caso é para confirmar se, segundo determinada teoria, os mecanismos causais que geraram certo fenômeno estão de acordo com a teoria utilizada. A segunda abordagem é explicar qual é o mecanismo causal entre objeto X e objeto Y, necessitando a criação de uma nova rede explicativa. A última abordagem, por sua vez, explica por sua vez o caso em si, o fenômeno em si, e quais foram os mecanismos causais para tal. 

Principais tipos de informações trabalhados pelo método

Especificamente aos dados analisados, há aqueles que os definem levando em consideração a relação que eles possuem com o objeto de pesquisa. Existem as causas de variáveis independentes, as causas de mecanismo e causas auxiliares. A primeira é dedicada às ocasiões quando “a simples existência da causa é mais controvérsia que a conexão presumida entre a causa e seu resultado” (MAHONEY, 2010, p. 125, tradução do autor). O segundo tipo “prover informação sobre se um evento interveniente proposto por uma teoria é presente” (MAHONEY, 2010, p. 128, tradução do autor). Dessa forma, “a alavanca que eles provêm deriva da habilidade de observações individuais de confirmar ou desafiar uma expectativa anterior do pesquisador sobre o que deveria ocorrer” (MAHONEY, 2010, p. 128, tradução do autor).  Em último lugar, essas causalidades são “informações sobre ocorrências particulares que deveriam ocorrer junto ao (ou talvez como um resultado de) o principal resultado de interesse se de fato aquele resultado foi causado da maneira estipulada pela teoria sob investigação” (MAHONEY, 2010, p. 129, tradução do autor). Ainda segundo Mahoney (2010, p. 129, tradução do autor), eles “não são variáveis intervenientes conectando a causa ao resultado de interesse”. Nem eles provêem informação sobre a existência da causa. Eles são ocorrências separadas que devem ser geradas se a teoria funcionar na maneira esperada”.

Principais Limitações

Em relação às limitações do método, existem duas grandes críticas a ele, muita das vezes vindas da ala quantitativista da Ciência Política. A primeira é em relação à “capacidade de realizar estimativas, construindo inferências causais com capacidade de generalização” e “o viés de seleção presente em estudos de pequeno N […]” (DE LIMA, 2017, p. 135). No entanto, há uma certa confusão ontológica na comparação entre os métodos de caráter quantitativo e qualitativo. No caso do process tracing, ele busca uma “compreensão em profundidade de determinados mecanismos causais e de como o processo de causalidade é observado na realidade e não necessariamente a generalização de resultados a partir de múltiplas observações” (DE LIMA, 2017, p. 135). Desse modo, “essa diferenciação é relevante porque contribui para o entendimento de que o process tracing de fato não deve ser utilizado com o propósito de generalização […]” proposto pelo quantitativistas. 

Comparação

Diante de tudo isso pode-se ver que as Ciências Sociais estão levando cada vez mais a sério o seu processo metodológico como uma ação de fazer frente às críticas das Ciências Naturais sobre sua falta de métodos quantitativos. Apesar de possuírem falhas, essa “renascença” dos métodos qualitativos dão novo fôlego, prestígio e rigor científico às Ciências Sociais. Nesse movimento a análise de conteúdo e o process tracing são relevantes pois elas analisam diferentes formas de um mesmo objeto. Se o objeto analisado é um documento determinando certa política pública, a análise de conteúdo busca entender os significados sociais e políticos que aquele texto transmite dentro do seu ambiente produzido, ao passo que o process tracing  descobre os mecanismos causais que possibilitaram a existência daquele texto como ele é. 

Levando em consideração esse mesmo objeto, podemos comparar os dois métodos. A análise de discurso é focada na transformação do material empírico em significado, ou seja, buscar o seu sentido perante a ao contexto social em que ele está imerso. A pesquisa sobre os sentidos além da palavra faz com a análise de discurso não se dedique somente ao texto em si, mas a todo o contexto sócio-cultural que lhe atribui significado. Já o process tracing tem o papel de analisar os mecanismos causais, quaisquer que sejam eles, que determinam a existência do objeto a ser analisado. Sendo notadamente utilizado para criar ou testar teorias, esse método, diferentemente da análise de discurso, não busca encontrar significados para além dos mecanismos causais. Ele não possui compromisso com o material empírico e não com seu dessecamento. 

No entanto, uma semelhança entre os dois métodos é que eles não estão dentro de uma lógica positivista de encontrar uma grande teoria. Na verdade,  por buscarem uma análise tanto de mecanismos causais como de significados e símbolos de um objeto específico, esses métodos não podem ser considerados do tipo one size fits all. A generalização absoluta de teorias ou de regras causais não são funções desses métodos.

Considerações Finais

Então, é contraprodutivo tentar comparar os dois métodos a fim de saber qual é o melhor, já que a ontologia do objeto de estudo dos dois é diferente. Desse modo, cabe ao pesquisador conhecer a fundo a natureza do seu objeto e de seu problema de pesquisa para identificar qual melhor método a ser usado. Além do mais, como métodos qualitativos, muitas vezes esses métodos não conseguem escapar certos graus de subjetividade e falta de neutralidade intrínseca do pesquisador. No entanto, isso não quer dizer, necessariamente, que a pesquisa não seja cientificamente rigorosa e que suas conclusões sejam verdadeiras.

Bibliografia

BEACH, Derek; PEDERSEN, Rasmus Brun. Process-tracing methods: Foundations and guidelines. [s.l.] : University of Michigan Press, 2019. 

BENNETT, Andrew; CHECKEL, Jeffrey T. Process tracing. [s.l.] : Cambridge University Press, 2015. 

COLUMBIA. Content Analysis Method and Examples | Columbia Public Health. [s.d.]. Disponível em: https://www.publichealth.columbia.edu/research/population-health-methods/content-analysis. Acesso em: 4 out. 2021. 

DE LIMA, Iana Alves. Técnicas Qualitativas em análises de Causalidade: Aplicações do Process Tracing. Revista Eletrônica de Ciência Política, [S. l.], v. 8, n. 1, 2017. 

ERLINGSSON, Christen; BRYSIEWICZ, Petra. A hands-on guide to doing content analysis. African Journal of Emergency Medicine, [S. l.], v. 7, n. 3, p. 93–99, 2017. 

HENRIQUES, Anna Beatriz Leite; LEITE, Alexandre Cesar Cunha; JÚNIOR, Augusto Wagner Menezes Teixeira. Reavivando o método qualitativo: as contribuições do Estudo de Caso e do Process Tracing para o estudo das Relações Internacionais. Revista Debates, [S. l.], v. 9, n. 1, p. 9–23, 2015. 

LUO, Amy. Content Analysis | A Step-by-Step Guide with Examples. 2019. Disponível em: https://www.scribbr.com/methodology/content-analysis/. Acesso em: 4 out. 2021. 

MAHONEY, James. After KKV: The new methodology of qualitative research. World Politics, [S. l.], v. 62, n. 1, p. 120–147, 2010. 

SILVA, Andressa Hennig; FOSSÁ, Maria Ivete Trevisan. Análise de conteúdo: exemplo de aplicação da técnica para análise de dados qualitativos. Qualitas Revista Eletrônica, [S. l.], v. 16, n. 1, 2015. 

STEMLER, Steve. An overview of content analysis. Practical assessment, research, and evaluation, [S. l.], v. 7, n. 1, p. 17, 2000. 

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Sobre o Autor

Mestrando no Programa de Pós-Graduação em Segurança Internacional e Defesa (PPGSID) na Escola Superior de Guerra (ESG). Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Atualmente, é colaborador externo no Núcleo de Estudos do BRICS (NEBRICS) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Já foi pesquisador no Laboratório de Simulações e Cenários (LSC) da Escola Naval de Guerra (EGN). Foi colaborador na Argos Consultoria Internacional Jr entre os anos de (2018-2019) como gestor de projetos e gestor de pessoas. Áreas de interesse: Pirataria;Geopolítica; Atlântico Sul; CPLP; BRICS.

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