INTRODUÇÃO
No dia 19 de março de 2026, a sede das Nações Unidas em Nova York foi palco de um acontecimento inédito na história do Brasil. Durante a sessão do Lions Day — evento anual que marca a presença do Lions Internacional nos fóruns multilaterais da ONU —, foi anunciada a vencedora do Concurso Internacional de Redação da Paz: Adriene Mirelly da Silva, 13 anos, aluna da rede pública municipal de Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco.
Adriene é a primeira brasileira em toda a história do concurso a conquistar o primeiro lugar. Portadora de deficiência visual — submetida a treze cirurgias oftalmológicas ao longo de sua vida —, ela escreveu um texto sobre empatia, respeito às diferenças e a construção da paz a partir das relações humanas cotidianas que comoveu e convenceu os avaliadores internacionais. O prêmio inclui US$ 5.000 e uma viagem com despesas pagas para a Convenção Internacional do Lions. A repercussão foi imediata e ampla, mobilizando autoridades locais, o Lions Clube de Palmares e toda a comunidade.
Mas para além da emoção coletiva, o episódio merece uma leitura analítica cuidadosa: o que ele revela sobre o Brasil e suas capacidades de projeção internacional? Como uma estudante de escola pública do interior de Pernambuco chegou ao palco da ONU? E qual é o papel do Lions Internacional nessa trajetória? A hipótese central deste artigo é que a vitória de Adriene não é fruto do acaso, mas o resultado visível de uma cadeia em que o Lions Internacional ocupa posição central: como organização transnacional que cria plataformas de visibilidade global para talentos locais, viabilizando um episódio concreto de soft power brasileiro não estatal. Para demonstrá-la, o trabalho articula a teori do soft power, o campo da Educação para a Paz e a análise tanto do funcionamento do Lions Internacional quanto das políticas públicas municipais de Palmares que sustentaram a participação de Adriene.
O artigo está organizado em sete seções, além desta introdução e dasconsiderações finais. A segunda apresenta o referencial teórico. A terceira analisa o Lions Internacional, o Concurso de Redação da Paz e seu funcionamento como infraestrutura de soft power. A quarta examina as políticas públicas municipais de Palmares. A quinta reconstrói a trajetória de Adriene e analisa sua redação. A sexta discute as implicações para a política externa brasileira. A sétima situa o caso em perspectiva comparada global.
SOFT POWER E EDUCAÇÃO PARA A PAZ: UM DIÁLOGO TEÓRICO
2.1 O Conceito de Soft Power e Suas Fontes
O conceito de soft power foi desenvolvido pelo cientista político norte- americano Joseph Nye a partir do final dos anos 1980. Em contraposição ao hard power — exercido pela força militar ou pela coerção econômica —, o soft power é a capacidade de atrair e influenciar, de fazer com que outros queiram o que você quer sem precisar obrigar. Suas fontes são a cultura, os valores políticos e as políticas externas percebidas como legítimas (NYE, 2004).
O soft power não opera de forma automática: ele depende da capacidade de comunicar e construir narrativas críveis junto a públicos estrangeiros. Crucialmente, ele não é monopólio dos Estados: organizações da sociedade civil, artistas, cientistas e estudantes podem ser vetores tão ou mais eficazes de soft power do que campanhas governamentais — justamente porque são percebidos como autênticos e não instrumentalizados (NYE, 2011).
Autores críticos questionaram os limites do conceito. Wang (2008) advertiu que o soft power não pode ser compreendido fora das relações de poder estruturais que favorecem países centrais. Melissen (2005) destacou o papel da diplomacia pública como braço operacional do soft power, distinguindo entre a diplomacia pública de primeira geração — centrada em governos — e a de segunda geração, baseada em trocas culturais autênticas envolvendo atores não estatais. Para os países do Sul Global, essa segunda geração é especialmente relevante: Cervo (2008) e Seitenfus (2008) identificaram nas trocas culturais e educacionais um vetor histórico da inserção internacional do Brasil, cujas especificidades diferem substancialmente das grandes potências ocidentais.
2.2 Educação para a Paz: Fundamentos e Normativa Internacional
O campo da Educação para a Paz consolidou-se a partir dos trabalhos do sociólogo norueguês Johan Galtung, que distinguiu paz negativa — mera ausência de guerra — de paz positiva — presença de justiça, igualdade e cooperação (GALTUNG, 1969). Para Galtung, a violência não se limita à sua forma física e direta: existe também a violência estrutural, decorrente de desigualdades sociais, e a violência cultural, que legitima as formas anteriores.
A educação para a paz visa transformar todas essas dimensões. Essa perspectiva é hoje referência nos documentos normativos da UNESCO (2023), que define a educação para a paz como um processo contínuo voltado a desenvolver o conhecimento, as habilidades e os valores necessários para transformar conflitos e construir culturas de paz. A articulação entre educação para a paz e soft power é recente na literatura de relações internacionais, mas cresce em importância à medida que atores não estatais ganham protagonismo na produção de narrativas globais.
Quando uma jovem de 13 anos escreve sobre empatia e paz e tem seu texto reconhecido na sede da ONU, ela está simultaneamente praticando educação para a paz e produzindo soft power. Essa espontaneidade é, paradoxalmente, o que confere ao episódio sua maior força — e é o Lions Internacional o ator que torna essa conexão possível.
O LIONS INTERNACIONAL: ORGANIZAÇÃO TRANSNACIONAL E INFRAESTRUTURA DE SOFT POWER
3.1 História, Missão e Inserção no Sistema Internacional
Fundado em 1917 em Chicago, Illinois, por Melvin Jones, o Lions Internacional é hoje uma das maiores organizações de serviço voluntário do mundo, com presença em mais de 200 países e territórios e aproximadamente 1,4 milhão de membros distribuídos em mais de 46 mil clubes. Sua missão é capacitar voluntários a servir suas comunidades, atender a necessidades humanitárias, encorajar a paz e promover o entendimento intercultural.Do ponto de vista das relações internacionais, o Lions Internacional é um ator transnacional de relevância crescente.
Com status consultivo junto ao Conselho Econômico e Social da ONU (ECOSOC), a organização participa regularmente dos fóruns multilaterais das Nações Unidas. Essa inserção não é meramente protocolar: ela confere ao Lions o papel de mediador legítimo entre a sociedade civil global e os fóruns multilaterais formais, exatamente nos termos descritos por Keohane e Nye (1977) ao analisarem o papel das organizações transnacionais na interdependência complexa.
O Lions Day, realizado anualmente na sede da ONU em Nova York, é a expressão mais visível dessa inserção. Durante o evento, a organização celebra suas contribuições à paz e ao desenvolvimento humano diante da comunidade internacional, anuncia os vencedores de seus concursos e reafirma seu compromisso com os valores das Nações Unidas. É nesse palco que a vitória de Adriene Mirelly foi anunciada em 19 de março de 2026 — transformando uma conquista local em um evento de relações internacionais.
3.2 O Lions no Brasil e na América Latina: Uma Rede Capilar de Soft Power
No Brasil, o Lions Internacional mantém uma das maiores redes da América Latina, com centenas de clubes ativos em todas as regiões do país. Essa capilaridade é estrategicamente relevante: ela significa que a plataforma transnacional do Lions não fica restrita às capitais e às metrópoles, mas penetra municípios do interior, comunidades rurais e regiões historicamente marginalizadas — como a Zona da Mata Sul de Pernambuco, onde se situa Palmares.
Os clubes locais funcionam como pontos de entrada entre as comunidades e a organização global. São eles que identificam talentos, estabelecem os contatos com a estrutura internacional, orientam os candidatos e garantem que o concurso chegue efetivamente às escolas. Sem o Lions Clube de Palmares, a plataforma do Lions Internacional simplesmente não alcançaria Adriene Mirelly. É nesse sentido que a rede local do Lions pode ser compreendida como uma infraestrutura de soft power distribuída: ela está presente onde o Estado central frequentemente não chega, e é exatamente nessas margens que os talentos mais surpreendentes emergem.
Na América Latina, o Lions Internacional desempenha papel semelhante em outros países, viabilizando a participação de jovens de contextos periféricos em concursos internacionais de alcance global. Contudo, a vitória de Adriene é inédita: nenhum outro brasileiro havia conquistado o primeiro lugar no Concurso Internacional de Redação da Paz em toda a história do prêmio, o que reforça a singularidade do caso e justifica seu estudo como fenômeno de soft power não estatal.
3.3 O Concurso Internacional de Redação da Paz: Funcionamento e Dimensão
3.3. O Concurso Internacional de Redação da Paz: Funcionamento e Dimensão Pedagógica
O Concurso Internacional de Redação da Paz é destinado exclusivamente a jovens com deficiência visual entre 11 e 13 anos de idade. Sua criação reflete uma escolha deliberada do Lions Internacional: ao reservar o concurso a jovens com deficiência visual, a organização afirma que a reflexão sobre a paz não é privilégio de quem enxerga com os olhos — ela pertence a quem enxerga com outros sentidos, outras perspectivas, outras experiências de mundo.
O processo seletivo opera em múltiplas etapas. Os clubes locais — como o Lions Clube de Palmares — são responsáveis por divulgar o concurso nas escolas, identificar estudantes elegíveis, orientar a produção das redações e submeter os textos à avaliação. As redações passam por seleções em nível local, distrital e, finalmente, internacional, onde uma comissão avalia os textos com base em critérios que incluem originalidade, coerência argumentativa, domínio da língua e profundidade da reflexão sobre o tema proposto.
Para o ciclo 2025-2026, o tema foi ‘Together as One’ — Juntos como Um —,convidando os participantes a refletir sobre convivência intercultural, respeito à diversidade e construção coletiva da paz. Esse tema ressoa com os valores centrais da Carta das Nações Unidas e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, especialmente o ODS 16, voltado à promoção da paz, justiça e instituições eficazes.
Do ponto de vista pedagógico, o concurso incorpora os princípios da educação para a paz definidos pela UNESCO: estimula a reflexão crítica sobre conflitos globais, desenvolve a empatia e a perspectiva intercultural, e reconhece a voz dos jovens com deficiência como agentes legítimos na construção da paz. O atode escrever sobre paz é, em si mesmo, uma prática de educação para a paz — e o anúncio do vencedor na sede da ONU transforma essa prática pedagógica em um evento diplomático de alcance global.
3.4 O Lions Day na ONU: Um Ato Diplomático
O anúncio da vitória de Adriene durante o Lions Day na sede da ONU merece análise específica, pois ele não é um detalhe protocolar. A escolha da sede das Nações Unidas como palco da premiação é uma declaração política: ela posiciona o Concurso Internacional de Redação da Paz não apenas como uma competição literária entre jovens com deficiência, mas como um evento inscrito na agenda internacional da paz e dos direitos humanos.
Ao anunciar em Nova York que a vencedora é uma estudante de 13 anos de uma escola pública do Nordeste do Brasil, o Lions Internacional envia uma mensagem com múltiplas dimensões: que a paz é pensada e praticada nas margens do sistema; que jovens com deficiência têm perspectivas originais e valiosas sobre a convivência humana; e que organizações da sociedade civil podem ser vetores de reconhecimento e visibilidade tão ou mais eficazes do que os governos. Do ponto de vista do soft power, esse ato diplomático não estatal tem um valor simbólico que nenhuma campanha governamental conseguiria replicar com a mesma autenticidade.
A GESTÃO MUNICIPAL DE PALMARES: POLÍTICA PÚBLICA COMO BASE ESTRUTURAL
4.1 A Sala Lúdica de Tecnologia Assistiva
A vitória de Adriene Mirelly não pode ser compreendida sem que se examine a base estrutural construída pela gestão municipal de Palmares. Em 18 de abril de 2026, a Prefeitura inaugurou a Sala Lúdica de Tecnologia Assistiva, espaço planejado para atender cerca de 100 estudantes com deficiência visual, auditiva, intelectual e física, equipado com impressora braille, tablets, leitores de tela, sistema Devox, materiais pedagógicos adaptados e painéis sensoriais (PREFEITURA DE PALMARES, 2026).
Esse investimento da gestão do prefeito José Bartolomeu de Almeida Melo Júnior é a base material sem a qual nenhum soft power seria possível. A impressora braille que permite a Adriene e seus colegas acessar materiais pedagógicos adaptados é, em última análise, um instrumento de inclusão que viabilizou o desenvolvimento de uma estudante cujo talento chegou ao palco da ONU. O investimento em formação continuada dos professores para o Atendimento Educacional Especializado (AEE) completou essa estrutura, garantindo que os equipamentos fossem acompanhados de práticas pedagógicas adequadas.
4.2 A Parceria com o Lions Clube e a Secretaria Municipal de Educação
A ponte entre a política pública local e o palco internacional foi construída pela parceria entre o Lions Clube de Palmares e a Secretaria Municipal de Educação, coordenada pela secretária Elizângela Neves. Coube ao Lions Clube identificar o concurso, estabelecer o contato com a organização internacional e patrocinar a participação local. À Secretaria, coube o trabalho in loco: identificar estudantes com deficiência visual na rede, mobilizar professores, disponibilizar tempo e espaço pedagógico e acompanhar o processo seletivo.
Esse modelo de parceria público-civil demonstra que o soft power não estatal não emerge do vácuo: ele precisa de ancoragem institucional local. A gestão municipal criou as condições; o Lions Clube trouxe a plataforma; a Secretaria de Educação fez a conexão entre os dois. O resultado foi uma cadeia completa — da Sala Lúdica de Tecnologia Assistiva à sede da ONU em Nova York — em que cada elo foi igualmente necessário.
ADRIENE MIRELLY: TRAJETÓRIA, REDAÇÃO E DIMENSÃO HISTÓRICA
5.1 Uma Voz das Margens para o Mundo
Adriene Mirelly da Silva nasceu em Palmares, na Zona da Mata Sul de Pernambuco — região historicamente marcada pelo ciclo açucareiro e porprofundas desigualdades socioeconômicas. Diagnosticada com glaucoma ainda na infância, passou por treze cirurgias oftalmológicas, desenvolvendo ao longo desse processo formas singulares de perceber e compreender o mundo. Sua trajetória é, ela própria, uma narrativa de paz positiva no sentido galtungiano: a superação de violências estruturais por meio da educação, da criatividade e do apoio comunitário.
Aluna da rede pública municipal, Adriene representa um perfil que raramente aparece nos noticiários internacionais como protagonista de excelência intelectual: jovem, nordestina, de escola pública, com deficiência visual. Sua vitória é, por isso, uma ruptura simbólica poderosa: ela demonstra que as vozes mais reflexivas sobre paz não estão necessariamente nas universidades do Norte Global, mas podem emergir de uma sala de aula do interior de Pernambuco que teve acesso a uma impressora braille e a professores capacitados.
Nos termos da Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CRPD) — ratificada pelo Brasil em 2008 —, a conquista de Adriene afirma o direito das pessoas com deficiência à participação plena na vida cultural e pública, não como exceção heroica, mas como resultado esperado de políticas de inclusão bem implementadas.
5.2 A Redação: Paz com os Olhos do Coração
No texto vencedor, Adriene argumenta que a paz não é um estado abstrato nem resultado de acordos diplomáticos: ela se constrói nas atitudes cotidianas, no gesto de ouvir, de respeitar, de enxergar o outro para além das diferenças. Sua tese articula experiência pessoal e reflexão universal com uma naturalidade que impressionou os avaliadores internacionais de dezenas de países. “Aprendi que não se enxerga com os olhos. A gente também enxerga com o coração. A paz começa quando respeitamos as diferenças e olhamos para o outro com amor.” (ADRIENE MIRELLY DA SILVA, 2026)
A metáfora central — ver com o coração — parte da experiência da deficiência visual para construir um argumento ético sobre os limites da percepção sensorial e a primazia da empatia nas relações humanas. Ao mencionar crianças afetadas por conflitos armados, Adriene demonstra consciência geopolítica e solidariedade intercultural notáveis para uma jovem de 13 anos. Do ponto de vista do soft power, a redação é um instrumento preciso: ela atrai, emociona e convence sem coagir — projeta valores que o Brasil deseja associar à sua imagem internacional de forma autêntica e espontânea.
IMPLICAÇÕES PARA A POLÍTICA EXTERNA BRASILEIRA E AGENDA DE PESQUISA
6.1 Um Modelo de Soft Power Construído desde as Margens
A conquista de Adriene reforça a ideia de que o soft power mais eficaz não é aquele produzido por campanhas institucionais em Brasília, mas o que emerge de práticas sociais autênticas nas margens do sistema. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU — em especial o ODS 4 (educação de qualidade e inclusiva), o ODS 10 (redução das desigualdades) e o ODS 16 (paz, justiça e instituições eficazes) — fornecem o enquadramento normativo no qual a conquista se inscreve com perfeita coerência, associando o Brasil a valores centrais da agenda global contemporânea.
O episódio de Palmares sugere um modelo replicável em escala nacional: a combinação entre investimento municipal em tecnologia assistiva e educação inclusiva, parceria com o Lions Internacional e participação em concursos globais pode ser sistematizada como estratégia deliberada de soft power a partir das margens. Municípios que investem em salas de tecnologia assistiva não estão apenas cumprindo uma obrigação legal — estão criando as condições para que talentos locais projetem valores brasileiros em fóruns internacionais de prestígio.
Cabe ao Ministério das Relações Exteriores e ao Ministério da Educação reconhecer esse potencial e articulá-lo a uma política mais ampla de diplomacia cultural e educacional — inclusive estabelecendo canais formais de parceria com o Lions Internacional no Brasil para ampliar o alcance de iniciativas como o Concurso de Redação da Paz.
6.2 Tensões e Limites: Um Soft Power ÉticoHá, contudo, uma tensão que não pode ser ignorada: a conquista de Adriene não apaga os problemas estruturais do sistema educacional brasileiro.
A maioria dos municípios brasileiros não conta com salas de tecnologia assistiva, impressoras braille ou professores especializados em AEE. Celebrar Adriene sem enfrentar essas contradições seria instrumentalizar sua história de forma cínica. Um soft power ético é aquele que ao mesmo tempo projeta as conquistas e assume as responsabilidades — e Palmares deu um passo nessa direção ao inaugurar a Sala Lúdica em abril de 2026, transformando um episódio excepcional em política.
6.3 Agenda de Pesquisa Futura
Este artigo abre mais questões do que encerra. Futuras investigações poderiam aprofundar: (a) a percepção internacional da conquista de Adriene, por meio de análise comparada da cobertura midiática em diferentes países; (b) o impacto da vitória sobre as políticas de educação inclusiva em outros municípios pernambucanos; (c) a atuação comparada do Lions Internacional como produtor de soft power em outros países do Sul Global, especialmente na África e na América Latina; (d) os mecanismos internos de seleção e avaliação do Concurso Internacional de Redação da Paz e seus critérios de julgamento.
Pesquisas com metodologia qualitativa baseada em entrevistas — com a própria Adriene, seus professores, representantes do Lions Clube de Palmares, a secretária Elizângela Neves e o prefeito José Bartolomeu — poderiam enriquecer substancialmente essa compreensão.
O CASO ADRIENE MIRELLY NO CONTEXTO GLOBAL: PERSPECTIVA COMPARADA
7.1 O Concurso em Perspectiva Histórica: Vencedores Anteriores e Tendências Globais
Para compreender plenamente a dimensão histórica da vitória de Adriene Mirelly, é necessário situá-la no contexto do próprio Concurso Internacional de Redação da Paz ao longo de suas edições anteriores. Desde sua criação, o concurso reuniu jovens com deficiência visual de dezenas de países, produzindo uma galeria de vozes que refletem sobre paz a partir de experiências diversas de vigência de conflito, exclusão e esperança.
As edições anteriores tiveram vencedores majoritariamente provenientes de países do Norte Global ou de nações asiáticas com forte tradição em competições acadêmicas internacionais, como India, Filipinas e Países Baixos. A vitória de uma estudante brasileira do interior de Pernambuco representa, portanto, uma ruptura geográfica e social no perfil dos laureados, sinalizando que os mecanismos de inclusão implementados localmente são capazes de alterar trajetórias históricas de invisibilidade do Sul Global nesses fóruns.
Essa tendência também reflete uma transformação mais ampla na dinâmica dos concursos internacionais voltados a jovens: enquanto nas décadas de 1990 e 2000 esses espaços eram dominados por participantes de sistemas educacionais mais estruturados e com maior acesso a recursos, a difusão das tecnologias assistivas e o fortalecimento de políticas de inclusão em países em desenvolvimento começaram a democratizar as condições de competição.
O caso de Palmares ilustra esse fenômeno: não foi a abundância de recursos que produziu a vencedora, mas a combinação estratégica de investimento público focalizado, parceria com a sociedade civil e capacitação docente. Nesse sentido, Adriene é também um argumento vivo a favor das políticas de ação afirmativa einclusão no campo educacional.
7.2 Soft Power Não Estatal no Sul Global: Casos Analógicos
O fenômeno observado em Palmares não é inteiramente inédito no campo do soft power não estatal do Sul Global, ainda que a combinação de seus elementos seja singular. Casos analógicos podem ser encontrados em outros países em desenvolvimento que utilizaram concursos internacionais, festivais e premiações como vetores de projeção simbólica.
A trajetória de Malala Yousafzai, ativista paquistanesa laureada com o Nobel da Paz em 2014, é frequentemente citada como exemplo de como vozes individuais das margens do sistema podem adquirir ressonância global capaz de transformar agendas políticas. Em menor escala, a participação de jovens africanos em olimpíadas científicas internacionais tem sido apontada como mecanismo de visibilidade que retroalimenta políticas de educação em ciências nos respectivos países.No próprio Brasil, experiências anteriores de projeção internacional via cultura e esporte — da Música Popular Brasileira ao futebol, passando pela arquitetura modernista de Oscar Niemeyer — demonstram que o país possui uma tradição nessa modalidade de soft power.
O que diferencia o caso Adriene é justamente seu caráter estrutural e replicável: não se trata de um gênio individual ou de um talento excepcional que emergiu apesar das circunstâncias, mas de uma estudante cujo potencial foi viabilizado por uma cadeia institucional deliberada. Essa estruturalidade é o que confere ao episódio sua maior significância para a teoria do soft power: ela sugere que o poder brando não estatal pode ser cultivado sistematicamente, e não apenas aguardado como produto da sorte ou do acaso.
7.3 Repercussão Mídiática e Construção de Narrativa Nacional
A cobertura midiática da vitória de Adriene Mirelly no Brasil merece atenção analítica específica, pois ela é em si mesma uma dimensão do soft power. Veículos como o Diário de Pernambuco e a Folha de Pernambuco veicularam a notícia com destaque, sublinhando os elementos que conferem ao episódio seu caráter simbólico: a origem nordestina, a deficiência visual, a escola pública, as treze cirurgias, o palco da ONU. Essa construção narrativa é coerente com o que Melissen (2005) denomina diplomacia pública de segunda geração: ela não é produzida por assessorias governamentais, mas emerge espontaneamente da própria força do episódio e de sua captura pelos meios de comunicação.
Do ponto de vista da construção de narrativa nacional, a história de Adriene oferece ao Brasil um argumento concreto e humanizado para sustentar sua imagem internacional de país diverso, criativo e comprometido com a inclusão. Em um momento em que o debate global sobre desigualdade educacional e direitos das pessoas com deficiência ganhou novos contornos — especialmente após os impactos da pandemia de COVID-19 sobre grupos vulneráveis —, a trajetória de uma jovem de Palmares projeta valores que o Brasil tem interesse estratégico em associar a sua imagem: resiliência, inclusão, paz. Cabe ao Estado brasileiro, portanto, não apenas celebrar esse episódio, mas internalizá-lo como parte de uma estratégia consciente de diplomaçia cultural e construção de imagem externa.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A vitória de Adriene Mirelly da Silva no Concurso Internacional de Redação da Paz do Lions Internacional é um acontecimento que merece ser lido em múltiplas camadas: como história de superação individual, como resultado de uma política pública local de educação inclusiva, como produto de uma parceria eficaz entre sociedade civil e poder público, e como manifestação concreta do soft power brasileiro não estatal.
O Lions Internacional ocupa posição central nessa análise: é ele que, por meio de sua rede capilar no Brasil e de sua inserção nos fóruns multilaterais da ONU, transforma o talento local em projeção global. O Concurso Internacional de Redação da Paz não é apenas uma competição literária: é uma infraestrutura deliberadamente construída para dar voz a jovens com deficiência visual em escala global, inscrevendo suas reflexões sobre paz na agenda internacional.
Sem essa infraestrutura transnacional, a redação de Adriene permaneceria restrita ao âmbito local, por mais brilhante que fosse. A gestão municipal de Palmares, por sua vez, criou a base estrutural sem a qual nenhuma projeção seria possível: a Sala Lúdica de Tecnologia Assistiva, a impressora braille, a formação docente, a parceria com o Lions Clube e a Secretaria de Educação. Cada elemento dessa cadeia foi necessário. E Adriene — com sua metáfora sobre enxergar com o coração — fez o resto.
Para a política externa brasileira, a lição é clara: o soft power mais duradouro nasce nas margens. Aprender a reconhecer, apoiar e amplificar essas vozes — em parceria com organizações transnacionais como o Lions Internacional — é, talvez, o principal desafio e a principal oportunidade da diplomacia cultural brasileira no século XXI.
REFERÊNCIAS
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Bacharel em Relações Internacionais , Especialista em Direito Internacional e Comercio Exterior - Pesquisador em Paradiplomacia da Revista de Relações Exteriores