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NECROPOLÍTICA E CONTROLE DE CONVENCIONALIDADE: A LETALIDADE POLICIAL ENQUANTO VIOLAÇÃO DE DIREITOS HUMANOS NO ESTADO DO RIO DE JANEIRO
O comércio internacional de um país é tão forte quanto a quantidade de empresas capazes de competir no mercado global. A amplitude da base exportadora como fator de competitividade, inovação e desenvolvimento econômico
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O comércio internacional de um país é tão forte quanto a quantidade de empresas capazes de competir no mercado global. A amplitude da base exportadora como fator de competitividade, inovação e desenvolvimento econômico

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1. Introdução

Toda tentativa de medir a força comercial de um país esbarra em um problema silencioso: os indicadores mais usados são também os mais parciais. O valor total exportado, o saldo da balança comercial e a fatia de uma economia no comércio mundial têm a virtude de serem comparáveis e a limitação de serem mudos sobre o que mais importa. Informam quanto um país vende ao exterior, mas nada dizem sobre quantas empresas sustentam esse resultado, em quais setores, a partir de quais regiões e por quanto tempo. Descrevem o placar sem descrever o time.

Durante boa parte do último século, essa distinção pareceu irrelevante. Consolidou-se a ideia de que economias competitivas eram, simplesmente, as que exportavam muito, e o aumento das exportações converteu-se em objetivo em si — sinônimo de crescimento, de geração de divisas, de projeção internacional. A estrutura empresarial por trás dos números raramente entrou na conta.

Convém olhar com mais atenção. Exportar quinhentos bilhões de dólares por ano é, sob qualquer critério, um feito notável. Mas há uma diferença profunda entre alcançar essa cifra por meio de algumas centenas de grandes empresas concentradas em poucos setores e alcançá-la com milhares de empresas espalhadas por diferentes portes, cadeias e territórios. O resultado agregado pode ser idêntico; a competitividade que ele expressa, não. No primeiro caso, a inserção internacional é privilégio de poucos; no segundo, é competência difundida.

Essa diferença — entre volume e amplitude — é o objeto deste artigo. A tese que aqui se defende é direta: a verdadeira vantagem competitiva de uma nação não reside apenas na capacidade de suas maiores empresas exportarem mais, mas na sua capacidade de transformar um número crescente de organizações em competidoras globais permanentes. A base exportadora — o conjunto das empresas que disputam mercados externos de forma contínua — deixa de ser um simples somatório de exportadores para constituir um ativo estratégico nacional. Quanto mais ampla, diversa e dinâmica, maior a difusão de tecnologia, conhecimento e boas práticas por toda a economia, e maior a capacidade do país de absorver choques e reinventar-se.

Há uma assimetria que torna o argumento urgente. Em praticamente todas as economias, as pequenas e médias empresas respondem pela maioria esmagadora dos negócios e por cerca de dois terços dos empregos, mas por parcela muito menor das exportações — em geral, menos de um terço do valor exportado nas economias avançadas. O grosso das vendas externas concentra-se em um punhado de grandes companhias. Essa distância entre peso econômico e presença internacional não é um detalhe estatístico: é a medida exata do potencial competitivo que permanece inexplorado quando um país trata a exportação como assunto de poucos.

O ambiente internacional torna essa lacuna mais custosa. A fragmentação das cadeias globais de valor, a digitalização dos negócios e a instabilidade geopolítica recompensam economias diversificadas e capazes de recompor rapidamente suas estruturas produtivas. Segurança econômica, resiliência de suprimentos e autonomia estratégica são hoje preocupações legítimas — mas são consequências de uma base produtiva ampla e competitiva, não substitutas dela. Este artigo trata, portanto, da causa antes do efeito: da competitividade nacional entendida como a capacidade de multiplicar empresas aptas a competir no mundo.

2. O que o volume exportado não revela

Por décadas, o valor das exportações, o saldo comercial e a participação no comércio mundial firmaram-se como as referências para avaliar a competitividade de um país. Continuam indispensáveis, mas carregam uma limitação de origem: medem o resultado sem descrever a arquitetura que o gera. Duas economias podem exportar volumes idênticos e, ainda assim, possuir capacidades competitivas radicalmente distintas.

Tome-se o caso de dois países que exportam, cada um, quatrocentos bilhões de dólares ao ano. No primeiro, quatro quintos desse valor saem de poucas centenas de grandes empresas reunidas em um número reduzido de setores. No segundo, a mesma cifra resulta de milhares de empresas de portes, regiões e segmentos variados. À primeira vista, são igualmente competitivos. Sob o ponto de vista estrutural, são economias que pouco têm em comum.

A diferença é de natureza, não de grau. Onde a capacidade exportadora se apoia em poucos agentes, uma crise setorial, uma mudança regulatória ou uma ruptura logística basta para contaminar toda a economia. Onde ela se distribui por muitos, o risco se dilui e a capacidade de adaptação aumenta. O valor exportado mede a intensidade da atividade comercial; nada garante que meça sua qualidade estrutural. Não por acaso, a concentração é a regra, e não a exceção: nas economias avançadas, cerca de setenta por cento do valor exportado em bens provém das grandes empresas, e um pequeno grupo de firmas costuma responder pela maior fatia das vendas externas de qualquer país.

Daí decorre um deslocamento analítico que este artigo considera decisivo. À pergunta tradicional — “quanto um país exporta?” — é preciso somar outra, de igual relevância: “quantas empresas conseguem competir no exterior de forma consistente?” A primeira mede um fluxo; a segunda, uma capacidade. E capacidades, ao contrário de fluxos, são o que permite a uma economia sustentar desempenho quando as condições mudam.

O deslocamento não é retórico. Quando poucas empresas concentram as exportações, os ganhos da inserção internacional — receita, tecnologia, qualificação, prestígio — permanecem represados nesse grupo estreito. Quando milhares competem lá fora, esses ganhos irrigam regiões, cadeias e setores inteiros. O patrimônio competitivo de uma economia, nessa leitura, não está apenas nos grandes exportadores que ela já possui, mas na sua capacidade de formar novos exportadores de maneira contínua. É aí que se separam as economias profundamente internacionalizadas daquelas cuja presença externa nunca ultrapassou uns poucos segmentos.

3. A base exportadora como ativo estratégico

Por muito tempo, as políticas de internacionalização de pequenas e médias empresas foram apresentadas como instrumentos de fomento ao empreendedorismo ou de promoção comercial: abrir portas, facilitar acesso a mercados, aumentar o número de exportadores. Objetivos legítimos, mas de ambição modesta diante do que está em jogo. O efeito mais importante da internacionalização não se mede pela receita de quem exporta, e sim pela transformação que ela impõe a toda a estrutura produtiva ao redor.

Competir no exterior obriga a empresa a evoluir. Mercados internacionais impõem padrões mais exigentes de qualidade, conformidade, rastreabilidade, sustentabilidade e eficiência; permanecer neles exige aprendizado permanente. A empresa que antes atendia apenas ao mercado interno passa a adaptar produtos, buscar certificações, apertar controles, incorporar tecnologia e desenvolver competências gerenciais que o mercado doméstico jamais lhe cobrou. Não se trata de produzir mais, e sim de produzir melhor.

Esse aprendizado raramente fica confinado à empresa exportadora. Fornecedores precisam se qualificar para atender novos requisitos; operadores logísticos elevam seus padrões; prestadores de serviços se especializam; instituições financeiras criam instrumentos de apoio ao comércio exterior; universidades e centros tecnológicos se aproximam das demandas concretas da indústria. A internacionalização de uma única empresa costuma arrastar consigo dezenas de outras organizações inseridas na mesma cadeia. Quando o movimento se repete em milhares de empresas ao mesmo tempo, deixa de ser um fenômeno empresarial e passa a ser econômico: forma-se um ambiente produtivo mais sofisticado, e a competitividade deixa de ser atributo de algumas firmas para tornar-se característica do território.

É por isso que a base exportadora merece ser tratada como ativo estratégico nacional, e não como a soma contábil de quem preenche uma declaração de exportação. Quanto mais ampla e diversa, maior a capacidade da economia de gerar conhecimento, incorporar inovação, distribuir oportunidades e sustentar crescimento no longo prazo. Não surpreende que as economias mais competitivas do planeta dediquem atenção crescente à internacionalização de empresas menores: o objetivo não é elevar exportações no trimestre seguinte, mas robustecer, de forma permanente, a competitividade de toda a estrutura produtiva.

4. Produtividade e inovação: o comércio como aprendizado

Há um traço comum às economias que alcançaram alta competitividade: converteram a internacionalização em um processo contínuo de aprendizado. Exportar, nelas, nunca foi apenas vender para fora. Foi expor-se a ambientes mais duros, a consumidores mais exigentes e a normas mais complexas — e sair desse contato mais capaz do que entrou.

A evidência empírica é consistente nesse ponto. Empresas que exportam tendem a ser mais produtivas do que as voltadas exclusivamente ao mercado interno, e a distância dificilmente se explica só por autosseleção das melhores. A exposição internacional favorece a absorção de tecnologia, o acesso a insumos e conhecimento de fronteira e a adoção de práticas gerenciais mais avançadas, elevando a eficiência ao longo do tempo. Organismos como a OCDE e o Banco Mundial documentam esse mecanismo de aprendizado pela exportação em economias de perfis muito distintos.

O ponto mais relevante, porém, é que esses ganhos não se esgotam em quem exporta. A empresa internacionalizada é uma porta de entrada de conhecimento. Ela observa tendências antes dos concorrentes domésticos, frequenta feiras e missões, negocia com fornecedores globais, adapta produtos a culturas diversas e absorve métodos desenvolvidos em outros mercados. Esse acervo escapa das fronteiras da organização por vias corriqueiras: profissionais mudam de emprego, fornecedores replicam padrões, clientes passam a exigir mais, consultorias disseminam práticas, escolas técnicas ajustam seus currículos. A literatura econômica chama a isso de transbordamento — spillover — de conhecimento; na prática cotidiana das economias competitivas, é apenas o modo como o comércio internacional educa um país inteiro.

A produtividade, vista assim, deixa de ser função apenas do estoque de máquinas ou do investimento em tecnologia. Passa a refletir também quantas empresas uma economia consegue expor, de forma sustentada, aos desafios da concorrência internacional. Aí reside talvez a maior contribuição de uma base exportadora ampla: transformar o comércio exterior num mecanismo permanente de aprendizagem econômica. E a inovação segue a mesma lógica. Costuma-se atribuí-la a laboratórios, universidades e orçamentos de pesquisa — fatores essenciais, mas insuficientes. A inovação também nasce da intensidade da competição. A empresa que disputa apenas o mercado local inova segundo padrões locais; a que disputa mercados globais convive com rivais de vários países e exigências que empurram a fronteira do possível. Quanto maior a exposição internacional do tecido empresarial, mais veloz a incorporação de novas tecnologias e modelos de gestão — e mais dinâmico o ecossistema de inovação que daí resulta. Ampliar a base exportadora é, nesse sentido, ampliar a própria capacidade nacional de aprender.

5. Densidade exportadora e resiliência estrutural

Nenhuma economia está imune a choques. Crises financeiras, conflitos, viragens tecnológicas, eventos climáticos e mudanças regulatórias podem alterar em pouco tempo as condições de competição de setores inteiros. O tamanho do estrago, contudo, não depende só da intensidade do choque; depende, sobretudo, de como a economia está estruturada.

Quando a inserção internacional de um país se concentra em poucas empresas, poucos produtos ou poucos setores, qualquer tropeço desse grupo se propaga com rapidez pelo conjunto. O problema não é a existência de grandes exportadores — eles geram riqueza, emprego, investimento e inovação, e são insubstituíveis. O problema é a dependência: quando a competitividade externa de uma nação repousa quase inteiramente sobre um pequeno número de agentes, a economia herda a fragilidade deles. Uma base exportadora ampla dilui esse risco, distribuindo a capacidade de gerar divisas e presença internacional por muitos ombros em vez de poucos.

Convém, porém, distinguir duas coisas frequentemente confundidas. Uma economia pode gerar centenas de exportadores ocasionais sem alterar sua estrutura — empresas que vendem uma vez ao exterior e recuam ao primeiro obstáculo. Outra pode formar empresas capazes de permanecer nos mercados internacionais, acumulando competências competitivas duradouras. Só a segunda fortalece a economia no longo prazo. Exportadores ocasionais aumentam estatísticas; exportadores permanentes transformam economias. O objetivo não é multiplicar registros de exportação, mas distribuir, de fato, a capacidade de competir.

Essa densidade tem, ainda, uma dimensão territorial que raramente recebe destaque. As grandes corporações tendem a se concentrar em polos industriais e financeiros consolidados; as pequenas e médias empresas estão em toda parte — em cidades médias, no interior, em arranjos produtivos locais. Quando essas empresas alcançam mercados externos, parte dos ganhos permanece onde elas estão: gera emprego, eleva renda, adensa a rede local de fornecedores e serviços, atrai investimento em logística e aproxima escolas técnicas das necessidades da produção. A exportação, tratada quase sempre como fenômeno nacional, funciona também como instrumento de desenvolvimento regional. Ampliar a base exportadora não resolve, sozinho, desigualdades históricas — mas leva oportunidade internacional a lugares que os grandes fluxos de comércio costumam ignorar. É a mesma tese vista de outro ângulo: a força comercial de um país se mede pela sua capacidade de fazer a oportunidade externa chegar a um número crescente de empresas, em um número crescente de regiões.

6. Uma agenda de competitividade nacional

Se a competitividade internacional de um país depende, em larga medida, de quantas de suas empresas conseguem competir no mundo, então ampliar a base exportadora deixa de ser política de promoção comercial para tornar-se estratégia de desenvolvimento econômico. A mudança de perspectiva altera o próprio objetivo da ação pública.

Vale reter uma lição que vem de onde menos se esperaria. Os Estados Unidos, que abrigam algumas das maiores corporações do mundo e um dos sistemas de inovação mais potentes do planeta, seguem investindo em programas para levar pequenas empresas ao mercado externo. A razão aparece com nitidez nos números: em 2021, das cerca de 278 mil empresas norte-americanas que exportaram bens, 97% eram pequenas — mais de 271 mil companhias — e, ainda assim, respondiam por cerca de 35% do valor exportado. Uma economia madura reconhece, nesse contraste, que sua vitalidade competitiva não vem apenas do sucesso das gigantes, mas da renovação permanente de novos competidores globais — empresas menores que introduzem produtos, exploram nichos, testam tecnologias emergentes e reagem depressa às mudanças de demanda. Quem trata a internacionalização como mera política comercial colhe ganhos limitados; quem a entende como política de desenvolvimento transforma o comércio exterior em motor duradouro de produtividade e inovação.

O verdadeiro obstáculo raramente é a falta de disposição do empresário. É a complexidade do comércio internacional. Exportar exige conhecimento técnico, domínio regulatório, adaptação de produto, acesso a financiamento, capacidade logística, inteligência de mercado e gestão de risco. Na grande empresa, essas competências estão internalizadas; na pequena, viram custos que muitas vezes inviabilizam o primeiro passo — e, mais ainda, a permanência. Programas centrados apenas em abrir mercados, financiar operações e patrocinar feiras continuam úteis, mas não bastam para expandir de forma estrutural a capacidade competitiva de uma economia.

A agenda, portanto, deve deslocar-se do incentivo pontual para a construção de capacidades. Isso significa qualificação profissional, digitalização e simplificação dos processos de comércio exterior, agências de promoção mais robustas, acesso ampliado à inteligência de mercado, estímulo à inovação e ecossistemas capazes de amparar a empresa em seus primeiros — e mais frágeis — anos de vida internacional. O critério de sucesso não pode ser quantos novos exportadores surgiram num ano, mas quantos se tornaram capazes de permanecer competindo. Exportadores permanentes são o que efetivamente adensa a base — e é a densidade da base, não a contagem de estreias, que sustenta a competitividade estrutural de uma nação.

7. Considerações finais

Por décadas, o êxito comercial de um país foi lido no volume de suas exportações. O indicador continua válido, mas oferece apenas metade do retrato. A outra metade — a que este artigo procurou trazer para o primeiro plano — está na estrutura empresarial que sustenta esse desempenho: em quantas empresas competem no exterior, com que diversidade, a partir de quantas regiões e por quanto tempo.

Economias capazes de internacionalizar um número crescente de empresas colhem ganhos que transbordam a esfera comercial. Uma base exportadora ampla eleva a produtividade, acelera a inovação, difunde conhecimento por cadeias inteiras, espalha desenvolvimento por regiões antes marginais e reduz a dependência de poucos agentes. Torna a economia mais adaptável e mais preparada para um ambiente internacional de transformações rápidas — e é dessa adaptabilidade, e não de qualquer blindagem defensiva, que nasce a verdadeira segurança econômica.

A contribuição central deste artigo é uma proposta de medida. A densidade da base exportadora deveria ser tratada como indicador estratégico da competitividade nacional, ao lado do valor exportado e não abaixo dele. Enquanto as métricas tradicionais dizem quanto um país exporta, a amplitude de sua base revela como essa capacidade se distribui pelo tecido produtivo — e, portanto, quão sólida ela é. A distinção tem consequências concretas para quem formula política, pesquisa ou pratica o comércio internacional.

Talvez, no fim, a pergunta mais reveladora sobre o futuro comercial de uma nação não seja quanto ela exporta, mas quantas de suas empresas ela é capaz de transformar em competidoras globais. A resposta dirá, sobre o potencial econômico de um país, muito mais do que qualquer cifra registrada em sua balança comercial. É um deslocamento simples e, ainda assim, pouco praticado: parar de contar apenas o que se vende ao mundo e começar a contar quantos, dentro de casa, são capazes de vendê-lo. Nessa contagem — e não no tamanho do número final — mede-se a força real de um país no comércio internacional.

Referências

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Pamella Gite Ribeiro é especialista em Comércio Internacional, bacharel em Administração com ênfase em Comércio Exterior pela Universidade São Judas Tadeu de São Paulo e especializada em Global Business Management pela UCLA (University of California, Los Angeles). Possui mais de 10 anos de experiência em operações internacionais, com atuação em importação, exportação, logística internacional e gestão de supply chain.

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