1 . Introdução
“Você estava completamente ciente do poder das suas palavras e você usou o rádio — o meio de comunicação com o maior alcance — para disseminar o ódio e a violência. Sem uma pistola, um facão ou qualquer arma física, você causou a morte de milhares de civis inocentes”. Tal frase dita pela juíza Navi Pillay do Tribunal Penal Internacional (TPI), a Ferdinand Nahimana, fundador e ideólogo da Rádio Televisão Livre das Mil Colinas (RTLM), rádio ruandesa responsável pela incitação ao genocídio de 1994.
Com base no chamado “Caso da Mídia”, em que foi julgado Ferdinand Nahimana, o presente artigo busca compreender a interação da população com o genocídio por meio da conferência dos impactos da mídia de massa, a qual veicula a mesma informação para vastas extensões territoriais. A abrangência da televisão, da rádio, dos jornais e, agora, das redes sociais cresceu no século passado devido a um número maior de pessoas letradas e com acesso à tecnologia de transmissão. Também no século XX, os assuntos de relevância global e nacional passaram por profundas transformações que os intensificaram, como as Guerras Mundiais e a descolonização.
Dessa forma, com a eclosão de conflitos armados mais complexos, o apoio popular tornou-se essencial em uma medida nunca antes vista e os meios de comunicação foram instrumentalizados para suprir tal necessidade. Em muitos desses contextos, as guerras não foram iniciadas devido a um senso de ameaça à segurança nacional, mas sim, por objetivos de regimes dominantes — totalitários e expansionistas, no caso da Alemanha, ou vingativos e repressivos, como os partidos hutu.
Com isso, compreende-se que o domínio dos meios de comunicação é feito para garantir a eficácia de estratégias de manipulação da opinião popular, as quais, em casos genocidas, tinham como ponto em comum a definição de grupos inimigos do Estado ou do povo. A perseguição estatal aos judeus na Alemanha nazista e o engajamento massivo de integrantes da etnia hutu no assassinato de tutsis em Ruanda são exemplos de genocídios que contaram com a participação do aparato midiático no plano de extermínio, explorando e exacerbando tensões sociais já existentes. Este artigo disseca o comportamento da população nesses cenários e, ao identificar os fenômenos sociais que o causou, descreve como os mesmos propiciam a obediência à incitação ao genocídio criminalizada no artigo 25 do Estatuto de Roma.
Há o objetivo de tornar mais tangível a análise da influência da mídia na percepção popular de conflitos armados de modo geral. Buscou-se responder à pergunta “de qual forma a mídia perpetua justificativas para conflitos armados e influencia a população a validar e até engajar com a violência?”, por meio do estabelecimento de uma sequência de fenômenos comportamentais comuns ao Holocausto e ao Genocídio de Ruanda, facilitando, assim, a comparação com tendências características da cobertura de casos atuais. A metodologia adotada, a qual consiste no detalhamento, com exemplos históricos, de conceitos psicológicos e sociológicos e na identificação de relações de causas e consequências entre eles, representa uma análise que deve ser feita em toda situação de suspeita de vilanização de um grupo ou de uma nação para fins de perseguição ou de limpeza étnica, tendo em vista a crescente informalidade e a volatilidade da imprensa nacional e internacional.
2 . Referencial Teórico
2.1 Conceituando a desumanização e a dessensibilização
Dentre os processos relativos aos crimes em massa, mais especificamente, aqueles com motivações étnicas, Gregory Stanton (2012), define 10 estágios de um genocido, sendo o primeiro a classificação de divisões sociais, ou seja, o estabelecimento da ideia de que existem grupos imiscíveis em uma sociedade, algo que é feito com maior facilidade quando esta apresenta baixa variabilidade étnica. Entretanto, “todas as culturas possuem categorias que distinguem as pessoas em “nós e eles” com base na etnia, raça, religião ou nacionalidade” (Stanton, 2012).
O estágio da simbolização consiste na atribuição de nomes e de símbolos às classificações e também é algo defendido por Stanton como inerente à percepção humana de sociedade. A discriminação, o terceiro estágio, é a consolidação da ideologia de exclusão por meio de leis, de costumes e do poder político. Se o grupo-alvo ainda não teve seus direitos revogados, é nessa fase que esses são negados. Tal ação abre caminho para a criação de leis arbitrárias, humilhantes e segregacionistas.
A seguir, Stanton afirma que a desumanização “supera a repulsa natural do ser humano pelo assassinato”, sendo a evolução do tratamento de grupos que são legalmente inferiores, ao igualá-los a vermes, insetos ou pragas. Para Bandura (1999), a desumanização é determinada pela forma pela qual são representados os integrantes do grupo-alvo, sendo o processo psicológico induzido e internalizado a partir de descrições, uma vez que pessoas são brutalizadas mais facilmente quando são vistas como animais considerados baixos (Gibson; Haritos-Fatouros, 1986, apud Bandura, 1999). Prosseguindo nos postulados de Stanton, o sexto estágio conceitua a polarização, cujas características são a transmissão de propagandas extremas por grupos de ódio e o uso da violência política.
Convém citar que a linha temporal que Stanton estabelece possui limitações a respeito da lacuna entre a simbolização e a discriminação. Não são definidas as causas para a vilanização do grupo, nem o motivo pelo qual a simbolização contribui para a violência — tanto simbólica, quanto armada.
Uma vez conceituadas as etapas pelas quais passam sociedades genocidas, é importante direcionar o foco para a mídia, a qual pode gerar uma percepção de forma natural, a partir da interpretação de informações imparciais, ou de forma induzida, quando determinadas linhas de raciocínio são incutidas no imaginário popular a partir da divulgação seletiva, repetitiva e estratégica de informações, tanto sobre os grupos-alvo, de modo a gerar desumanização, quanto durante a preparação e a efetivação da violência. Tendo isso em mente, analisa-se o conceito de dessensibilização. Na literatura psicológica, sobretudo em artigos relativos ao tratamento de fobias, a “dessensibilização sistemática” é introduzida como de autoria de Joseph Wolpe (1958) e definida como um procedimento inibidor de ansiedade por meio da exposição gradual a estímulos progressivamente mais difíceis de tolerar, iniciada em situações de relaxamento (Coelho, 2015).
Na aplicação desse conceito à esfera emocional, Carvalho (2009) realizou experimentos que expunham dois grupos a imagens violentas, entre outros tipos. Seus resultados mostraram que o grupo mais exposto às consequências gráficas da violência (mutilações) demonstrou uma maior facilidade em ignorar distratores críticos no decorrer do experimento, enquanto o grupo exposto somente a imagens de armas e representativas de ataques teve mais agitação emocional ao ver as mutilações. Ou seja, os participantes expostos às imagens mais intensas com maior frequência relataram menor agitação emocional perante todas as categorias de imagens e apresentaram uma redução da sensibilidade emocional relativa a todas as imagens. A dessensibilização emocional foi generalizada a estímulos de diferentes conteúdos.
2.2 O efeito em massa
Um conceito comportamental relevante para a análise da mídia de massa na reação da coletividade a atrocidades é o “bystander effect“, que corresponde ao fato de que a vontade de ajudar ou de impedir um evento chocante, geralmente considerado perigoso, é inibida quando os indivíduos têm consciência de que outras pessoas estão cientes de tal ocorrido ou ação (Garcia et al., 2002).
Albert Bandura (1999) analisou o desengajamento moral na prática de atos desumanos, afirmando que este constitui um problema humano crescente a níveis individuais e coletivo. O autor investigou fenômenos que levam à isenção de culpa que uma coletivo sente pelas atrocidades que comete direta ou indiretamente. São mecanismos relevantes a desumanização, o desvio de responsabilidade, a abordagem por meio de eufemismos e a exposição gradual.
O desvio de responsabilidade consiste no seguinte fato apresentado pelo autor: atos que um indivíduo habitualmente não pratica, uma vez endossados por autoridades, não são vistos como frutos da vontade própria. Assim, seus agentes não se sentem responsáveis pelas suas ações e se poupam de reações de culpa.

Relativa à dessensibilização, a exposição gradual e repetida à violência discriminatória e à incitação desta consiste na “rotinização” de atos desumanos, acompanhados de aumentos no nível de dano do ato cometido conforme o desconforto que as pessoas sentem ao tolerar os atos em questão diminui (Bandura, 1999). O abrandamento de termos relativos (linguagem eufemizada) é um caminho para retratar condutas nocivas como respeitáveis e para reduzir responsabilidades pessoais (Bandura, 1999).
Finalizando os conceitos referentes ao impacto coletivo, analisa-se o papel da comunicação social em si, já que “as guerras não implicam apenas a violência, mas também a persuasão, a contrainformação, o convencimento e o combate ideológico” (Subtil, 2015, p. 1). A aproximação (no sentido de maior relevância) da população às guerras nas quais suas forças armadas estavam inseridas teve suas origens na Primeira Guerra Mundial da seguinte forma:
Foi crucial promover sentimentos e lealdades, recrutar soldados, induzir ódio ao inimigo, amor à pátria, manter a moral das populações e, em suma, mobilizar a sociedade para um esforço conjunto capaz de apoiar a ação bélica do Estado (Subtil, 2015, p. 21).
Sobre o período entreguerras, Subtil (2015) comenta a respeito da ascensão do consumo, da publicidade, da esfera do entretenimento e da utilização das técnicas de informação para o convencimento e a mobilização dos indivíduos em prol dos objetivos do poder político, acompanhada da institucionalização do campo da comunicação. Na Segunda Guerra Mundial, foram mais comuns as estratégias de consulta à população e os esforços significativos, por parte das nações, no sentido de conhecerem os seus públicos, de terem eficácia persuasiva na publicidade e adesão ativa às mensagens políticas.
A mídia de massa, cada vez mais acessível a grande parte da população, assumiu a função de principal indutora e difusora, em larga escala, de emoções, mensagens e fervores, que apelavam aos sentimentos de comunhão. Assim, a propaganda pode ser definida como uma estratégia de manipulação da opinião de forma a causar a concordância com ela e a incapacidade de realizar outra opção.
2.3 A incitação no contexto do Direito Internacional
O artigo 25 do Estatuto de Roma, intitulado “responsabilidade criminal individual”, criminaliza, na sua alínea e), “no caso de crime de genocídio, incitar, direta e publicamente, a sua prática”. Com base nisso foram julgados, em casos desde então (com enfoque para aqueles do Tribunal Penal Internacional para Ruanda, sobretudo o ‘Caso da Mídia’), indivíduos associados a grandes canais midiáticos e culturais. Em textos que esclarecem a lei internacional, são consideradas as diferenças entre o crime do genocídio e crimes contra a humanidade ou crimes de guerra a “intenção para o ato subjacente e o dolus specialis que singulariza o delito, isto é, a intenção de destruir, no todo ou em parte” (Palazzo, 2026). Assim, o genocídio é “a negação do direito à existência de grupos humanos inteiros, assim como o homicídio é a negação do direito à vida de seres humanos individuais”, segundo a Resolução 96 da Assembleia Geral das Nações Unidas.
3 . Metodologia
Este artigo foi produzido a partir da revisão de literatura a respeito de estratégias por meio das quais a mídia permeia o imaginário popular e provoca reações de conformidade com o que está sendo vinculado. De modo a apresentar exemplos históricos de resultados dos processos comportamentais analisados foi realizada a combinação de aspectos do Genocídio de Ruanda e do Holocausto às bases conceituais estabelecidas no referencial teórico, as quais são relativas à classificação das divisões sociais, à simbolização, à polarização, à discriminação, à desumanização, à eufemização dos planos de extermínio, à dessensibilização, ao efeito bystander, ao desvio de responsabilidade, à exposição gradual e à incitação à violência.
Portanto, a fim de responder à pergunta “de qual forma a mídia perpetua justificativas para conflitos armados e influencia a população a validar e até engajar com a violência?” foi feita a reorganização e a relação de etapas do genocídio de Stanton (2012) com transmissões da Rádio-Televisão Livre das Mil Colinas (RTLM), com publicações do jornal Kangura e com as do jornal Der Stürmer, entre outras formas de propaganda hutu power e nazista, sobretudo sob a ótica da polarização como precursora da desumanização.
A seguir, analisou-se a complementaridade de desumanização e a dessensibilização para a intensificação de tais estágios. Permeando os exemplos, foram identificados os efeitos conceituados por Garcia et al. (2002) e Bandura (1999), com a visão geral definida por Subtil (2015), a respeito da necessidade da mídia como utensílio para o controle emocional da população para inspirar apoio popular às ações bélicas.
4 . Resultados e Discussão
4.1 A mídia como suporte de estratégias de polarização
Para Stanton (2012), a classificação e a simbolização são descritas como fenômenos naturais às sociedades, mas que, mesmo assim, convém ser citados como precursores do genocídio. Devido à ausência de explicação sobre o porquê de essas etapas serem relevantes e nocivas, se são naturais a todas as sociedades, argumenta-se que a polarização (estágio 6 na teoria de Stanton) é o diferencial, pois precede a desumanização (estágio 4) e é um fator para a organização da violência (estágio 5).
Reorganizando a teoria, entende-se que a utilização dos processos de percepção cultural e informacional como ferramentas de polarização, resulta no apoio à perseguição estatal de grupos-alvo, uma vez que é empregada, em discursos políticos, a estratégia adotada de tornar determinados assuntos relativos à política e ao bem-estar público indissociáveis de questões culturais e identitárias, sendo o principal exemplo a propaganda expiatória.
No contexto da definição de divisões sociais pela mídia, uma das suas grandes funções é moldar a percepção de composição da sociedade. Sem que a classificação e a simbolização ocorram, não é possível definir com clareza um grupo inimigo que ameaça o bem-estar dos demais.
A simbolização é feita com qualquer elemento físico ou abstrato. Na Alemanha, a identificação de judeus por meio estrelas de Davi, algo que a fonte Holocaust Encyclopedia afirma que foi realizado em algumas regiões da Europa ao longo do século XVIII, sendo, portanto, apenas reintroduzido pelo partido nazista (inicialmente na imprensa e posteriormente na forma de elementos obrigatórios na vestimenta), para reforçar o objetivo dessa etapa, que é gerar familiaridade e raciocínio inconsciente.
A narrativa também enfatizava a existência de diferenças físicas que destacavam os judeus e os diferenciavam dos demais europeus, assim como, em Ruanda, traços como as estaturas elevadas dos tutsis, seus narizes e as cores e formatos dos seus olhos eram um critério de diferenciação das etnias. Um exemplo de como a simbolização foi combinada com o uso de linguagem operacional de incitação direta à violência é o seguinte fragmento de uma transmissão da rádio RTLM:
Olhe para a estatura da pessoa e para a aparência física dele. Só olhe para o seu nariz pequeno e depois quebre-o. Depois nós iremos para Kibungo, Rusumo, Ruhengeri, Byumba, todos os lugares. Nós descansaremos após libertarmos o nosso país” (Comitê Internacional da Cruz Vermelha, 2014).
Tal simbolização foi um resgate da distinção adotada pelos belgas — abominados pela etnia vingativa devido ao seu papel na instauração do governo tutsi nos anos pré-revolucionários. A adoção por parte dos hutus de critérios estabelecidos durante o domínio colonial da Bélgica foi uma subversão ideológica para intensificar o processo de dominação popular e a reprodução da narrativa segregacionista. Além disso, na fase colonial belga, a análise de características físicas de ruandeses serviu como base para outra forma de reforço e identificação da divisão entre etnias, a utilização de cartões de identidade étnica (Longman, 2001).
Em suma, tal método fortalece a radicalização da população ao funcionar como um claro gatilho para as linhas de raciocínio às quais a população é exposta por meio da mídia de massa. Tal conclusão se assemelha ao que Gilbert, Flora et al. (2007) resumem como “cognitive scripts”: um tipo de raciocínio estabelecido por meio do condicionamento e da observação, frequentemente associado à agressão. A mídia desempenha o papel de condicionamento de scripts, ao fornecer estereótipos e associações que evocam sentimentos intensos de insatisfação e raiva.
Uma forma de estabelecimento de scripts é a propaganda expiatória. Tal conceito é acrescentado à classificação e à simbolização para explicar a conjuntura de ódio ocasionada e intensificada pela polarização e que leva à discriminação. Foi comum tanto à Alemanha, quanto à Ruanda polarizada, a culpabilização de um grupo social como causa de uma frustração compartilhada (problemas sociais, econômicos, crises, incertezas e mazelas sociais), transformando tal grupo no que corresponde a expressão “bode expiatório”. No início da moldagem da mentalidade popular, a exploração do estado de fragilidade em que a população se encontra a convence de que a luta contra o grupo-alvo trará benefícios tangíveis. É comum a combinação dessa estratégia à estereotipagem. Kabanda (2007) resume os estereótipos relativos à etnia tutsi, dizendo:
Os tutsis viraram aqueles que “levaram tudo”, que estavam “em todos os lugares”, que controlavam os negócios, que governavam apesar de aparências, que constituíam a maioria na educação, tanto em termos de professores, quanto de estudantes, na igreja e em todas as esferas que simbolizavam o progresso (Kabanda, 2007, p. 63).
Tal estereótipo advém de um contexto histórico de governos tutsis, associados à colonização belga durante os quais os hutus alegaram ter sofrido marginalização socioeconômica. Resgatando sentimentos de opressão, o estereótipo do “tutsi ganancioso” inspirava ódio na população. Ao promover o genocídio de 1994, mesmo não estando mais vigente a ordem que favorecia a etnia tutsi foram resgatados tais raciocínios.
Semelhantemente, no contexto da hiperinflação alemã e da crise com início no Tratado de Versalhes, intensificada com colapsos econômicos sucessivos, tanto na propaganda amplamente difundida, quanto em pronunciamentos políticos, a figura do judeu também foi atrelada à ganância e à vantagem financeira, enquanto o resto da população sofria os impactos da recessão pós-guerra. O acúmulo de riqueza por parte desse grupo foi retratado como uma causa da crise, sendo popular a frase “os judeus são nossa desgraça” (Holocaust Encyclopedia).
Em síntese, assim como nos campos de batalha, na mídia, também era necessário que lado estivesse contra o outro. Para isso, a luta pela melhoria das condições sociais foram tornadas indissociáveis de questões étnicas. Um exemplo de polarização política foi a perseguição de hutus moderados, considerados traidores. Na música popular de Simon Bikindi, a canção “Njyewe nanga Abahutu” (‘eu odeio estes hutus’) convoca “camaradas” a se unirem contra o inimigo e traidor da etnia, em tom de anticoexistência, citando “hutus des-hutuizados” como uma espécie menos que humana (Gowan, 2012).
4.2 Como a desumanização leva à dessensibilização
A propensão ao extermínio é inerentemente desumana, sendo necessário um aparato midiático planejado, estratégico e duradouro para que a população seja convencida de que tal extermínio é justificável. Por isso, a desumanização ocorre como consequência da confiança depositada na mídia e nas autoridades, cujos discursos ideológicos são caracterizados pela propaganda expiatória. A desconstrução da empatia pelo grupo vilanizado é feita através da repetição das associações anteriormente mencionadas e da manipulação da linguagem para aproximar o grupo-alvo de animais, seres que provocam nojo ou até objetos, algo que facilita a brutalização e a canalização do ódio. Exemplos são a comparação de judeus com animais, o uso recorrente dos termos “baratas” (‘Inyenzi’) como substituição de “tutsis” e a frase “está na hora de cortar as árvores altas”, utilizada para sinalizar o início do genocídio (Comitê Internacional da Cruz Vermelha, 2014).
No contexto social analisado, a dessensibilização pode ser definida como a perda de sensibilidade, a qual significa a ocorrência de uma reação emocional de preocupação, frustração, medo ou raiva, em resposta a um estímulo angustiante, nesse caso correspondente a um tratamento discriminatório, humilhante ou violento que provoca sofrimento ou injustiça — leis e práticas discriminatórias, além de discursos que viabilizam a violência. Foi enfatizado por Wolpe (1958, apud Coelho, 2015) que a dessensibilização às fobias ocorre quando gradual e em contextos que não são associados à dor, como o de relaxamento muscular. Semelhantemente, no cotidiano, a falta de estranhamento com a violência ocorre quando ideias genocidas estão inseridas em contextos de assimilação de informações rotineiras com exposição gradual conforme as definições de Bandura (1999). Sustentada pela desumanização, a forma mais direta e inicial de dessensibilizar a população é eufemizar a linguagem na abordagem de leis discriminatórias ou dos planos de extermínio.
A dessensibilização também explica a diferença entre a percepção da violência entre opositores e apoiadores dos agentes que perpetuam a violência. Ambos têm o ponto em comum de não conseguirem impedir o plano genocida seja pela repressão que o poder político exerce ou pela implacabilidade, a última sendo consequência direta da desumanização.
Entre cidadãos que reconhecem que há mal na violência étnica é natural que haja o efeito bystander, conceituado anteriormente como senso de isenção da responsabilidade, a partir da crença de que há alguém com uma maior capacidade de provocar mudança. Essa é a resposta para a pergunta “por que os alemães não impediram Hitler?”. Já em apoiadores e simpatizantes da ideologia de vilanização, o efeito percebido é de radicalização, fanatismo e desvio de responsabilidade. A relação entre comandos de autoridades e agressões por pessoas comuns, expressa no gráfico 1, combina-se com a crença na propaganda expiatória, sendo então, a ponte entre a aceitação e o engajamento com a violência incentivada.
Assemelhando ambos os casos aos exemplos de Carvalho (2009), percebe-se que, quanto à violência em específico, a agitação emocional é reduzida, ao serem banalizadas alusões, representações e, por fim, a própria violência. O emprego da linguagem eufemizada e o desvio da responsabilidade são estratégias para a banalização.
4.3 Da dessensibilização à incitação
Na mente radicalizada, sobretudo pela propaganda expiatória e pelo nacionalismo, a dessensibilização não corresponde à indiferença quanto à violência, mas sim à percepção de que ela é uma solução cabível para o problema que a coletividade enfrenta. Nesse caso, ela significa a penetrabilidade da linguagem imperativa de violência no imaginário popular. Tal fenômeno foi observado no evento marco do início do genocídio de Ruanda, no qual o desencademento da violência foi uma resposta a uma ameaça percebida, uma conjuntura que poderia ocasionar o retorno de um estado em que a etnia hutu não exercia liderança, catalisado por um evento chocante, a morte do presidente Juvénal Habyarimana por uma queda de avião.
Apesar de episódios de coordenação de violência popular facilitada pela mídia e pela comunicação em massa, como a Noite dos Cristais de 1938, a forma primária de extermínio no Holocausto foram a violência, principalmente pela Schutzstaffel (SS), nos guetos, nos campos de trabalho concentração e de extermínio, enquanto em Ruanda, o assassinato era feito nas ruas, pela população comum integrante de milícias Interahamwe, utilizando ferramentas cotidianas de trabalho manual, como a machete, algo facilitado pela divulgação de nomes e localizações de tutsis considerados mais perigosos (Comitê Internacional da Cruz Vermelha, 2014). Para a interpretação desses fatos são relevantes as conclusões de Carvalho (2009) quanto à ausência de reação emocional ao enxergar armamentos e objetos que possuem relação com a violência, algo que, então, desfaz concepções éticas de repulsa à mesma, o que permite afirmar que a dessensibilização e a consequente incitação foram mais eficazes em Ruanda.
Os resultados da aplicação da metodologia foram esquematizados da seguinte forma:

Fonte: Elaborado pela autora, 2026
5 . Considerações Finais
A partir da revisão de literatura foi encontrada uma relação de condicionalidade e de causa e consequência entre a polarização, a desumanização, a dessensibilização e a incitação, sendo a dessensibilização o principal fenômeno responsável pela validação e pelo engajamento com a violência em si, não apenas com o ódio e com tensões étnicas.
O processo de aplicação da metodologia possui muitas oportunidades de expansão, tanto com a análise do genocídio sob o viés desse artigo, elucidando os estágios finais do genocídio diferenciando os impactos de diferentes meios de comunicação com a dissecação de publicações, além de novas perspectivas, como as de fenômenos emocionais associados à dessensibilização, como a “fadiga de compaixão”, e à violência, como o impacto de incutir o sentimento de medo na população, explorado em muitas transmissões da RTLM.
Para análises mais específicas, pode-se partir de um princípio que os resultados deste estudo permitiram concluir: a penetrabilidade do imaginário popular ao tipo de propaganda em questão é mais elevada em momentos de crises de valores e socioeconômicas, acompanhadas da polarização política e social. Assim, a sequência estabelecida poderá ser relevante para uma análise de tendências contemporâneas de desumanização e dessensibilização, em países acusados na Corte Internacional de Justiça de estarem cometendo genocídio, como Israel, e outros que podem não ter planos de extermínio, mas sim de controle da população por meio das estratégias supracitadas.
É possível testar a segunda possibilidade com o estudo do caso dos Estados Unidos, abordado por Palazzo (2026), tendo em vista o atual estado de polarização política, as denúncias de desumanização de imigrantes e de dessensibilização da população aos crimes contra menores de idade cometidos por Jeffrey Epstein e pela elite. Além disso, a nação possui suas próprias leis para a incitação ao genocídio, não aderindo o Estatuto de Roma e não tendo sofrido nenhuma persecução penal para possíveis violações direitos humanos e crimes de guerra (Palazzo, 2026). O fenômeno da internet também estabelece novos pontos de discussão referentes à dessensibilização uma vez que esta intensifica fluxos de informação e o emprego das estratégias analisadas neste artigo.
REFERÊNCIAS
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Bolsista pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) em História e em Linguagens, presidente de um clube estudantil de Relações Internacionais voltado para aulas, debates e simulações de órgãos internacionais. Líder da organização de conferências do tipo, tendo participação premiada duas vezes na Ivy League Model United Nations Conference, na Filadélfia.