A vida não é útil – Ailton Krenak (2020)

Imagem: Companhia das Letras | Design: Marianna Oliveira via Canva Pro
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“Por que insistimos em transformar a vida em uma coisa útil? Nós temos que ter coragem de ser radicalmente vivos, e não ficar barganhando a sobrevivência. Se continuarmos comendo o planeta, vamos todos sobreviver por só mais um dia. […] . As religiões, a política, as ideologias se prestam muito bem a emoldurar uma vida útil. Mas quem está interessado em existência utilitária deve achar que esse mundo está ótimo: um tremendo shopping” .

KRENAK, 2020, P. 52

É em tom provocativo que Ailton Krenak intitula sua obra e nos convida a uma reflexão anti-sistêmica, acerca dos rumos que estamos dando para nossa casa: o planeta Terra.

Diante dos novos cenários forçadamente trazidos pela pandemia de Covid-19, o líder indígena Ailton Krenak – atuante na região do Vale do Rio Doce, onde se situa a tribo dos Krenak –, nos apresenta a obra “A vida não é útil” como uma reflexão acerca do modelo econômico capitalista no qual estamos inseridos, e seus impactos sobre a natureza e os ecossistemas que garantem os insumos necessários à vida e à subsistência.

Crítico ferrenho do modo de vida voltado ao consumo desenfreado, e suas intrínsecas características insustentáveis – que carregam consigo a degradação ambiental, as práticas nocivas aos corpos, às mentes e aos ecossistemas – Krenak aponta os enormes problemas da disseminação de visões limitadas e excludentes daquilo que se convencionou chamar de humanidade e civilização. No trecho abaixo, por exemplo, critica fortemente a anteposição dos fatores econômicos em detrimento dos fatores sociais e políticos, principalmente num momento de crise extrema como o da pandemia de Covid-19 em solo brasileiro.

A ideia da economia, por exemplo, essa coisa invisível, a não ser por aquele emblema de cifrão. Pode ser uma ficção afirmar que se a economia não estiver funcionando plenamente nós morremos. Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro.[…] Somente quando o último peixe estiver nas águas, e a última árvore for removida da terra, só então o homem perceberá que ele não é capaz de comer seu dinheiro”.

KRENAK, 2020, P. 09

Krenak critica também a grande influência exercida pelas corporações em âmbito mundial, que tornou o ambiente político e social em um ambiente capitalizado, onde não se separam mais os interesses financeiros dos deveres políticos e sociais que envolvem o atendimento das necessidades primárias das populações. A imersão, cada vez mais profunda, na sociedade do consumo tornou indivisíveis o ser e o ter, fazendo com que hoje todo o bem estar almejado pelas civilizações esteja atrelado ao acúmulo de riqueza e seu emprego no consumo desenfreado.

A obra, organizada na forma de blocos de textos – todos adaptados de palestras, entrevistas, manuscritos e discursos realizados pelo autor entre o período de 2017-2020 –, aborda, em tom provocativo, a ascensão dos governos de extrema-direita no Brasil e no mundo, e sua forte conexão com o aumento exponencial da degradação ambiental e do número de mortes em sua decorrência. Como exemplos disso, menciona os famosos casos de desastres ambientais ocasionados por grandes empresas como a Vale e a Samarco (em cidades como Mariana e Brumadinho), que saíram impunes após cometerem crimes ambientais, levando à morte de muitas pessoas e ecossistemas regionais, outrora considerados sagrados pelas populações nativas. 

Além das fortes críticas ao modo produtivo em si, e aos governos que o perpetuam, Ailton Krenak também tece críticas ferrenhas ao atual governo de Jair Bolsonaro, que possui grande parcela de culpa nas mais de 500 mil mortes por Covid-19, por conta da disseminação do negacionismo científico, e dos escândalos de corrupção que perpetuam a mesma lógica corporativa cartesiana aplicada mundialmente entre os mercados liberais: a lógica do lucro máximo, mesmo em situações que exigem a avaliação de ganhos relativos em detrimento de ganhos absolutos. Que neste caso, seria o “ganho” de impedir que mais mortes ocorressem – a partir da priorização dos investimentos nas áreas da saúde e da ciência, além da atuação incisiva na corrida pela vacina –, ao invés do foco total nos ganhos econômicos.

Em perspectiva crítica, Krenak aponta: “Isso que as ciências política e econômica chamam de capitalismo teve metástase, ocupou o planeta inteiro e se infiltrou na vida de maneira incontrolável” (KRENAK, 2020, p. 23-24). A partir de uma visão marxista, Krenak critica a forma como o sistema capitalista – e seus desdobramentos mais recentes – aumenta a disparidade na distribuição das riquezas geradas pelos Estados, na qual bilionários, donos de grandes empresas como a Tesla e a Amazon se encontram hoje acastelados em uma posição na qual assistirão o mundo sofrer com a degradação causada por suas próprias empresas, mas não serão atingidos por seus impactos, pois acumularam renda suficiente para salvaguardar a si próprios e seus patrimônios, e buscar inclusive meios de deixar o planeta para trás, caso as mudanças sejam irreversíveis.

A partir disso, o autor emite uma crítica ferrenha à nova corrida espacial – que se estabelece entre grandes empresas privadas, como a SpaceX –, que vem buscando com cada vez mais rigor o envio e permanência de seres humanos no espaço sideral, a fim de observar a possibilidade de colonização de outros planetas no futuro. De acordo com Krenak (2020, p. 14) “se uma parte de nós acha que pode colonizar outro planeta, significa que ainda não aprenderam nada com a experiência aqui na Terra. Eu me pergunto quantas Terras essa gente precisa consumir até entender que está no caminho errado”. 

Resgatando muito dos conhecimentos de sua tribo e de suas experiências enquanto ativista, no tocante à relação de coexistência e co-constituição entre os seres e o meio ambiente, Ailton Krenak aborda a relação entre o homem e a natureza, e o quanto o esquecimento desta conexão primitiva – uma das consequências da modernidade –, e o tratamento da Terra como algo estático (e não como o organismo vivo que realmente é), acaba por conferir à sociedade a ideia de que humanidade e natureza são esferas apartadas. Todavia, são esferas que possuem não somente forte ligação, como também nutrem uma relação de co-dependência da primeira, em relação à segunda.

Ao esquecer-se de que a vida na Terra não é permanente, e depende inteiramente das condições prévias da natureza, a espécie humana acaba por sucumbir a um modelo econômico que há muito se mostra insustentável, com quedas cíclicas e cada vez mais profundas, que conduzem não somente o Brasil, mas o mundo todo, para um cenário de degradação que pode vir a ser irreversível. Krenak (2020, p. 11) é provocativo ao indagar “será que a única maneira de mostrar para os negacionistas que a Terra é um organismo vivo é esquartejá-la? Picá-la em pedaços e mostrar: ‘Olha, ela é viva’?”. Evocando as práticas do povo Jê – ao qual pertencem as tribos dos Krenak, dos Xavante, dos Krahô e dos Kayapó –, o autor mostra que mesmo aqueles que se abstém de adentrar o sistema capitalista, como é o caso das tribos nativas que escolhem se isolar em seus territórios, acabam sofrendo as consequências trazidas pela lógica exploratória de um sistema que invade suas terras, e retira delas na forma de recurso econômico, o que na verdade é a natureza em seu mais puro estado de organismo vivo.

Muito se fala atualmente da redução de impactos no meio ambiente, e há até mesmo acordos e tratados em âmbito internacional (como o Acordo de Paris, por exemplo) que têm como objetivo a cooperação para a mitigação dos impactos ocasionados pelo sistema produtivo, que é baseado em atividades extrativas e matrizes energéticas não renováveis. Entretanto, Krenak aponta que o problema em si é muito mais profundo, residindo no modelo econômico em si, que cartesianamente, prioriza a geração de lucro em detrimento da preservação da vida humana, e enquanto este persistir sem modificações drásticas, os esforços de mitigação serão nulos.

O sistema capitalista tem um poder tão grande de cooptação que qualquer porcaria que anuncia vira imediatamente uma mania. Estamos, todos nós, viciados no novo: um carro novo, uma máquina nova, uma roupa nova, alguma coisa nova. Já disseram: “Ah, mas a gente pode fazer um automóvel elétrico, sem gasolina, não será poluente”. Mas será tão caro, tão sofisticado, que se tornará um novo objeto de desejo“.

KRENAK, 2020, P. 30-31

Assim, o ciclo em que estamos inseridos se torna cada vez mais difícil de ser rompido, de modo que apenas avançamos ao seu ritmo. A lógica capitalista nos tira inclusive a possibilidade de reflexão e de criação de um pensamento crítico acerca das atividades que exercemos, ou se queremos, de fato, exercê-las, pois estas nos são simplesmente impostas, incutidas em todas as coisas de nosso cotidiano.

A sensibilidade de Ailton Krenak – advinda de seus traquejos junto à sua tribo e de suas crenças na ancestralidade – lhe confere uma visão excepcional acerca da espécie humana e de seu elevado ego, que faz com que se considere a espécie mais importante do planeta, e portanto, digna de devastar sua própria casa.

“É mais ou menos o seguinte: se acreditamos que quem apita nesse organismo maravilhoso que é a Terra são os tais humanos, acabamos incorrendo no grave erro de achar que existe uma qualidade humana especial. Ora, se essa qualidade existisse, nós não estaríamos hoje discutindo a indiferença de algumas pessoas em relação à morte e à destruição da base da vida no planeta”.

KRENAK, 2020, P. 22

A perspectiva indígena acerca de nós humanos tem um caráter bem mais humilde e plural no vínculo à natureza e às outras espécies, admitindo que somos passíveis ao erro, e que não temos total liberdade para degradar o ambiente em que vivemos, dado que este também se trata de um organismo vivo e tão importante quanto os nossos próprios. A conjunção entre os seres humanos e a natureza que os abriga é essencial para que a sociedade – hoje corrompida pela lógica do consumo voraz –, volte a perceber a indissociação entre a vida humana e a vida deste organismo adoecido que é a Terra, bem como a responsabilidade que nos é conferida em mantê-lo vivo, haja vista que condicionada a este está a nossa própria existência.

Isso mostra que existe muito conhecimento e sabedorias latentes para além da estrutura ocidental que foi disseminada em âmbito global – desde sua estrutura econômica, até sua estrutura educacional (que serve aos interesses econômicos) – como sendo o modelo de desenvolvimento mais eficaz. A única eficácia deste modelo, entretanto, é para acelerar o processo de destruição irreversível da Terra, arrastando junto todos os organismos que nela existem.

Ainda que todas as críticas realizadas ao longo da obra sejam ferrenhas, e mostrem o lado mais lúgubre da sociedade capitalista e seus devastadores impactos, Krenak é também um respiro em meio à correnteza que nos leva a estes lugares obscuros. O autor evidencia que mesmo que a maior parcela do planeta esteja hoje corrompida pela lógica devastadora do capitalismo extrativista, ainda há aqueles que lutam contra a correnteza, colocando todos os esforços possíveis em iniciativas que possam nos dar uma alternativa a esse modelo produtivo que enterra dia após dia todos os resquícios de vida de que dispomos. Afirma ele: “o tempo passou, as pessoas se concentraram em metrópoles e o planeta virou um paliteiro. Mas agora, de dentro do concreto, surge essa utopia de transformar o cemitério urbano em vida” (KRENAK, 2020, p. 12).

Com o conhecimento de sua tribo e suas vivências junto a outras tribos, o autor nos mostra os grandes esforços que vêm sendo feitos diariamente por aqueles que lutam conjuntamente por uma existência menos mecânica, menos guiada pelo capital e mais conectada com a terra a qual pertencem. Movimentos estes que hoje sofrem com o desrespeito e negligência por partes das estruturas governamentais, mas que ainda assim, lutam bravamente não somente por seu espaço físico no território brasileiro, mas também pela preservação de seu espaço social, cultural e político, como os verdadeiros nativos de Pindorama, outrora colonizada e transformada neste Brasil, que hoje mata a si próprio de dentro para fora.

Sobre o autor:

Ailton Krenak, nascido em 1953, é indígena pertencente à tribo dos Krenak, que habitam a região do vale do Rio Doce. A tribo dos Krenak é conhecida por sua forte ligação com a ecologia, e também por ser uma das mais afetadas pelos desastres ambientais que vêm sendo provocados em solo brasileiro nos últimos anos, principalmente pelas atividades ligadas ao extrativismo mineral. Ailton é ativista do movimento socioambiental e de defesa dos direitos indígenas, além de líder e organizador da Aliança dos Povos da Floresta, que reúne comunidades indígenas e ribeirinhas na Amazônia. Além disso, é co-autor da proposta da Unesco que criou a Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço; Comendador da Ordem do Mérito Cultural da Presidência da República; e recebeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora/MG.

Ficha catalográfica:

Título: A vida não é útil

Autor: Ailton Krenak

Editora: ‎ Companhia das Letras; 1ª edição (7 agosto 2020)

Idioma: ‎ Português

Capa comum: ‎ 128 páginas

ISBN-10: ‎ 8535933697

ISBN-13: ‎ 978-8535933697

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Sobre o Autor

Professora de Geopolítica e Segurança Internacional da Escola Superior de Relações Internacionais. Editora e colunista da Revista Relações Exteriores. Mestra em Estudos Estratégicos Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (PPGEEI-UFRGS). Bacharela em Relações Internacionais pelo Centro Universitário Ritter dos Reis (UniRitter Laureate International Universities). Pesquisadora associada ao Instituto Sul-Americano de Política e Estratégia (ISAPE), ao Núcleo de Estudos Estratégicos, Geopolítica de Integração Regional (NEEGI-UNILA), e ao Laboratório de Estudos em Defesa e Segurança (LEDS-UniRitter). Contato: [email protected] Lattes: http://lattes.cnpq.br/2313622364568146. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4282-410X.

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