Os métodos dedutivo e indutivo: uma análise comparativa

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Método: Uma breve introdução

Métodos e técnicas de pesquisa são ferramentas imprescindíveis para tornar uma análise científica, diferenciando-a de uma pesquisa comum, ou de resultados baseados em achismos e meras opiniões. Dentre elas, o método pode ser caracterizado, em síntese apertada, como o caminho ou meio pelo qual se transforma um conhecimento imperfeito, incompleto e bruto, em um conhecimento científico, lapidado e confiável.

De acordo com Prodanov e Freitas (2013), no passado, diversos pensadores almejavam encontrar um método que fosse universal, sendo, assim, aplicável aos mais diversos ramos do conhecimento. Na atualidade, por outro lado, fala-se em uma multiplicidade de métodos, os quais serão escolhidos e/ou implementados de acordo com o objeto a ser investigado. Desta forma, é possível afirmar que as diversas ciências dispõem de uma grande variedade de métodos e ferramentas de pesquisa.  

É a partir dessa noção inicial que serão analisados dois dos principais métodos presentes no campo da pesquisa científica, quais sejam: o método dedutivo e o indutivo.  Por se tratarem, portanto, de duas formas de organização de pensamento centrais no quesito “metodologia”, a presente análise é essencial, não apenas por explanar os elementos que compõem cada uma delas, como também por apresentar aos pesquisadores os pontos positivos e negativos das referidas ferramentas, trazendo ao debate reflexões iniciais quanto às facilidades e dificuldades que podem ser encontradas no emprego dos respectivos métodos. 

O estudo se desenvolve em três seções principais, sendo as duas primeiras aquelas destinadas a explicar os métodos indutivo e dedutivo, e a terceira voltada para traçar um panorama comparativo entre ambos, apresentando as principais críticas tecidas a cada um deles. Por fim, é demonstrado que, apesar das dificuldades e limitações inerentes aos respectivos métodos, eles ainda estão presentes em diferentes áreas da ciência, manifestando relevância e contribuindo para a construção de importantes estudos científicos. 

O Método Dedutivo

De maneira sucinta, o método dedutivo pode ser conceituado como uma cadeia de raciocínio lógico que se inicia em uma análise do geral em direção a um conhecimento específico. Parte, portanto, de “princípios reconhecidos como verdadeiros e indiscutíveis e possibilita chegar a conclusões de maneira puramente formal, isto é, em virtude unicamente de sua lógica.” (GIL, 2008, p. 9)

Tendo como um dos principais expoentes Descartes (sem esquecer de Spinoza e de Leibniz), autor da célebre frase “penso, logo existo”, é um método baseado no pressuposto de que apenas a razão é capaz de fazer com que o conhecimento verdadeiro seja alcançado. (GIL, 2008)

O pilar do método dedutivo é o silogismo, “que consiste numa construção lógica que, a partir de duas proposições chamadas premissas, retira uma terceira, nelas logicamente implicadas, denominada conclusão.” (GIL, 2008, p. 9). O exemplo clássico de silogismo, adaptado por diversos manuais de metodologia é:

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Fonte: Elaborado pela autora. Adaptado de GIL, 2008, p. 9

Sendo assim, o dedutivismo é uma cadeia de raciocínio que parte da análise do geral para o particular, alcançando-se, ao final, uma conclusão. É caracterizado, portanto, como um raciocínio descendente (LAKATOS; MARCONI, 2003). 

De acordo com Henriques e Medeiros (2017), tanto a matemática como a filosofia se valem do método dedutivo, uma vez que a sua função central é a de constatar o que já se encontra, de maneira implícita, no antecedente, de modo que a validade da conclusão decorre, necessariamente, da validade das premissas. Ou seja, em sendo as premissas verdadeiras, a conclusão também o será. Não há como ser diferente. 

O Método Indutivo

O método indutivo é baseado em um raciocínio exatamente oposto ao dedutivo. Parte-se, portanto, do específico em direção ao geral. De acordo com Marconi e Lakatos (2003), o objetivo do referido método é alcançar conclusões de teor mais amplo, quando comparadas ao conteúdo das premissas que foram utilizadas como base do pensamento. 

Em outras palavras, a “indução é um processo mental por intermédio do qual, partindo de dados particulares, suficientemente constatados, infere-se uma verdade geral ou universal.” (LAKATOS; MARCONI, 2003, p. 86).

Henriques e Medeiros (2017) subdividem a indução em vulgar, formal e científica. A primeira delas diz respeito à tendência humana de generalizar características comuns, a partir de observações superficiais de determinados fatos. A conclusão a que se chega com esse tipo de indução muitas vezes é errônea, segundo os mesmos autores.

Há também a indução formal, na qual a conclusão é resultado de uma verdadeira enumeração de todos os fatos de uma série completa, de modo que nada de novo será acrescentado à enumeração do antecedente (HENRIQUES & MEDEIROS, 2017). 

Por fim, no que diz respeito à indução científica, trata-se daquela criada por Galileu e, em seguida, refinada por Bacon. Em linhas gerais, possibilita que, após a observação rigorosa de alguns casos a partir de circunstâncias e ângulos diversos, seja atribuída uma validade para todos os elementos que estejam presentes em uma mesma categoria. Para tanto, é preciso que se repita o experimento por várias vezes, já que uma amostra insuficiente poderia levar a um resultado errôneo ou falacioso. (HENRIQUES & MEDEIROS, 2017) 

Para Marconi e Lakatos (2003, p.87), é preciso que sejam cumpridas três etapas na indução, quais sejam:

a) Observação dos fenômenos. Nessa etapa, observamos os fatos ou fenômenos e os analisamos com a finalidade de descobrir as causas de sua manifestação.

b) Descoberta da relação entre eles. Na segunda etapa, procuramos, por intermédio da comparação, aproximar os fatos ou fenômenos, com a finalidade de descobrir a relação constante existente entre eles.

c) Generalização da relação. Nesta última etapa, generalizamos a relação encontrada no precedente, entre fenômenos e fatos semelhantes, muitos dos quais ainda não observamos (e muitos inclusive inobserváveis). (LAKATOS; MARCONI, 2003, p. 87) 

Dando sequência à explicação dos passos a serem seguidos no raciocínio explanado, os mesmos autores trazem o seguinte exemplo de aplicação do método indutivo:

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Fonte: Adaptado de LAKATOS; MARCONI, 2003, p. 87

Segundo Gil (2008), a importância do método indutivo na constituição das ciências sociais é inegável, já que “serviu para que os estudiosos da sociedade abandonassem a postura especulativa e se inclinassem a adotar a observação como procedimento indispensável para atingir o conhecimento científico.” (GIL, 2008, p. 11)

Um exemplo de uso de método indutivo comumente utilizado em pesquisas científicas é aquele que se pode observar dos estudos realizados com base em uma amostra da população, posto que, a partir da análise dos dados coletados, são alcançados resultados generalizados para toda uma população da mesma espécie (ZANELLA, 2013).  

Uma análise crítica e comparativa entre os métodos indutivo e dedutivo

Após uma breve análise de cada um dos métodos abordados no presente estudo, pode-se afirmar que a principal semelhança entre ambos é o objetivo de, por meio dos respectivos raciocínios e premissas empregadas, alcançar um conhecimento científico confiável ou, em outras palavras, atingir uma conclusão que pode ser considerada como verdadeira.

No método dedutivo, caso as premissas utilizadas sejam verdadeiras, é indubitável que a conclusão também assim o seja. Por outro lado, o resultado obtido por meio da indução é visto por muitos apenas como uma probabilidade.

Apesar disso, Michel (2015) afirma que, caso a ciência empregue somente raciocínios dedutivos, não haverá o progresso, mas sim apenas confirmações do que já era anteriormente conhecido. É com o indutivismo que são abertas as portas para a descoberta de novos caminhos e princípios que beneficiarão a humanidade. 

No que diz respeito às diferenças entre os referidos métodos, a primeira que salta aos olhos é a oposição do raciocínio traçado por cada um deles para que se chegue a uma conclusão: enquanto o dedutivo parte do geral para o particular, o indutivo trilha o caminho oposto. 

De acordo com Marconi e Lakatos (2003), cada um dos argumentos referidos têm finalidades diferentes. O dedutivo tem por objetivo explicar o conteúdo das premissas. Já o indutivo, tem como escopo a ampliação do alcance dos conhecimentos. E continuam a traçar uma comparação entre os métodos apreciados ao afirmarem que

Analisando isso sob outro enfoque, diríamos que os argumentos dedutivos ou estão corretos ou incorretos, ou as premissas sustentam de modo completo a conclusão ou, quando a fonna é logicamente incorreta, não a sustentam de forma alguma; portanto, não há graduações intermediárias. Contrariamente, os argumentos indutivos admitem diferentes graus de força, dependendo da capacidade das premissas de sustentarem a conclusão. Resumindo, os argumentos indutivos aumentam o conteúdo das premissas, com sacrifício da precisão, ao passo que os argumentos dedutivos sacrificam a ampliação do conteúdo para atingir a ‘certeza’. (LAKATOS; MARCONI, 2003, p. 92)

 Em outras palavras, enquanto a indução é caracterizada como hipotética e experimental, a dedução, por sua vez, é lógica e traz segurança aos resultados obtidos. Nesse contexto, a partir das considerações de Wesley Salmon, Marconi e Lakatos (2017) elaboraram um quadro esclarecedor acerca das principais características que distinguem os métodos dedutivo e indutivo, a seguir exposto: 

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Fonte: MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 92

Quanto às críticas, o método dedutivo, como já observado anteriormente, tem como seu principal opositor o argumento de que, por meio dele, nada de novo é produzido ou conhecido. Segundo Gil (2008), uma das objeções ao dedutivismo é aquela baseada no fato de que se apresenta como um raciocínio “essencialmente tautológico, ou seja, permite concluir, de forma diferente, a mesma coisa.” (GIL, 2008, p.10)

O mesmo autor também ressalta o caráter eminentemente apriorístico do método dedutivo como um outro ponto negativo a ser considerado, já que, “de fato, partir de uma afirmação geral significa supor um conhecimento prévio”. Como é que se pode afirmar que todo homem é mortal?” (GIL, 2008, p. 10)

Por outro lado, também não faltam críticas ao método indutivo. Dentre os principais questionadores desse tipo de raciocínio, merece destaque Popper, o qual argumentou que, para se chegar ao geral, partindo do particular, seria preciso que a observação de fenômenos isolados fosse realizada de modo infinito. Assim, em razão da limitação da quantidade dos fatos observados, nunca se poderia chegar a uma generalização. (GIL, 2008)

Reflexão final

Apesar das críticas atribuídas a ambos os métodos e das suas limitações intrínsecas, é importante ressaltar que cada um deles tem uma relevância singular para a pesquisa científica. E, para comprovar tal afirmação, concluindo, assim, a análise do presente estudo, nada melhor do que trazer à baila os esclarecimentos feitos por Marconi e Lakatos (2003) a respeito dos exemplos práticos fornecidos por Wesley Salmon:

A relação entre evidência observacional e generalização científica é de tipo indutivo. Várias observações destinadas a determinar a posição do planeta Marte serviram de evidência para a primeira lei de Kepler, segundo a qual a órbita de Marte é elíptica. Essa lei refere-se à posição do planeta, observada ou não, isto é, o movimento passado era elíptico, o futuro também o será, assim como o é quando o planeta não pode ser observado, em decorrência de condições atmosféricas adversas. A lei – conclusão – tem conteúdo muito mais amplo do que as premissas – enunciados que descrevem as posições observadas.

Os argumentos matemáticos, por sua vez, são dedutivos. Na geometria euclidiana do plano, os teoremas são todos demonstrados com base em axiomas e postulados. Não obstante o conteúdo dos teoremas já esteja fixado neles, esse conteúdo está longe de ser óbvio.(LAKATOS; MARCONI, 2003, p. 93)

Desta feita, apesar das dificuldades e insuficiências inerentes a cada um dos métodos analisados no presente estudo, o certo é que eles são de grande relevância para diferentes áreas do conhecimento. São, portanto, considerados como ferramentas centrais na organização lógica dos pensamentos que guiam diversas pesquisas científicas, contribuindo, de diferentes modos, para a construção de importantes estudos científicos.  

Referências

HENRIQUES, Antonio; MEDEIROS, João Bosco Medeiros. Metodologia científica na pesquisa jurídica. 9. ed., rev. e reform. – São Paulo : Atlas, 2017.

PRODANOV, Cleber Cristiano; FREITAS, Ernani Cesar de. Metodologia do trabalho científico [recurso eletrônico]: métodos e técnicas da pesquisa e do trabalho acadêmico – 2. ed. – Novo Hamburgo: Feevale, 2013.

GIL, Antonio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed. – São Paulo : Atlas, 2008.

MARCONI, Marina de Andrade; LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de metodologia científica. 5. ed. – São Paulo: Atlas, 2003.

ZANELLA, Liane Carly Hermes. Metodologia de pesquisa. 2. ed. reimp. – Florianópolis: Departamento de Ciências da Administração/UFSC, 2013.
MICHEL, Maria Helena. Metodologia e Pesquisa em Ciências Sociais: um guia prático para acompanhamento da disciplina e elaboração de trabalhos monográficos. 3 ed. São Paulo: Atlas, 2015.

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Sobre o Autor

Graduada em Direito pela UFPE; Pós-graduada em Processo Civil e do Trabalho pela Escola Superior da Magistratura do Trabalho da 6ª Região - Centro Universitário Tiradentes; Mestra e Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Direito da UFPE; na linha de Relações Contratuais Internacionais; Pesquisadora do Grupo de Pesquisa Integração Regional, Globalização e Direito Internacional. Áreas de interesse: União Europeia, Mercosul, Direito Comunitário, Acordos entre Blocos, Acordo União Europeia - Mercosul, Legislação fitossatinária da União Europeia, Comércio agropecuário entre Mercosul e UE, Brexit, Euroceticismo, Legislações e políticas migratórias de ambos os blocos, Refúgio.

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