Harriet Quimby se torna a primeira mulher a pilotar um avião através do canal da Mancha – 16 de abril de 1912

Harriet Quimby (1875-1912) em seu monoplano Blériot | Fonte: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos
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Harriet Quimby nasceu no dia 11 de maio de 1875, em Michigan, nos Estados Unidos. Quando adolescente, Quimby e sua família se mudaram para a Califórnia, onde as mulheres já estavam saindo dos papéis tradicionais que lhes foram designados. Esse ambiente descontraído da sociedade californiana influenciou diretamente a jovem mulher, alimentando seu desejo por romance e aventura.

De início, Quimby tinha se interessado pela carreira de atriz, mas foi em meio às palavras que ela de fato se encontrou, tanto que aceitou, já na idade adulta, o cargo de redatora da San Francisco Dramatic Reviews. Ela prosperou como redatora, e fez seu nome como uma das principais jornalistas do estado da Califórnia. Contudo, mesmo prosperando, Quimby queria mais aventuras, viagens e desafios. A carreira de Harriet como jornalista lhe deu liberdade e retorno financeiro, o que possibilitou suas buscas por aventuras e desafios. Antes de se apaixonar pela aviação, a jovem mulher se interessou por automóveis.

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Um pôster do International Air Meet de 1910, realizado no Dominguez Field, Califórnia, EUA | Fonte: Arquivos da California State University Dominguez Hills

Em 1906, o passeio de 100 milhas por hora de Quimby em um carro de corrida gerou um artigo de tirar o fôlego e um amor permanente pela velocidade e liberdade que os automóveis representavam (Hall da fama da Aviação Nacional, 2004). Contudo, foi na aeronáutica que Harriet de fato se encontrou. Ela sabia que na aviação ela poderia encontrar seu lugar no mundo. Após redigir um artigo sobre um aeronauta japonês, ela passou a estar constantemente nos campos de aviação de Nova Iorque. Em 1910, Quimby foi a Los Angeles cobrir o primeiro encontro aéreo realizado nos EUA, e poucos meses depois, cobriu o Belmont Air Meet.

Foi neste evento que Harriet decidiu começar as aulas de aviação. Não se sabe ao certo o que a motivou, mas, de acordo com o Hall da Fama da Aviação Nacional, ela havia comentado com seus amigos que o voo parecia ser fácil, e que ela acreditava poder pilotar sozinha. Foi a partir desse momento que Quimby começou sua jornada no mundo da aviação, se inscrevendo em uma escola de voo. Ademais, convenceu seu editor de que a revista deveria pagar por suas aulas de pilotagem, pois em troca, ela transformaria suas experiências em conteúdo para a revista.

A notícia de que uma mulher estava em busca de se tornar aviadora se espalhou, e foi um choque, pois naquela época nenhuma mulher americana havia feito essa atividade. Ademais, a aviação era considerada uma atividade cara, perigosa, e destinada a “jovens ousados”. Não era considerado um ofício para “senhoras gentis e encantadoras”. Harriet era uma estudante rápida, ansiosa, e sempre prestava atenção nas suas atividades. Em pouco tempo ela conquistou o público, que a chamava de “bird girl”, e passou a receber cartas de fãs. 

Em agosto de 1911, Quimby ganhou a licença #37, sancionada pela Federação Aeronáutica Internacional e administrada pelo Aeroclube da América, sendo a primeira mulher americana a ganhar uma licença de piloto. A partir daí, Harriet se juntou a um grupo de exibição e começou a participar de diversas competições. Quase um mês licenciada, Quimby ganhou sua primeira corrida de cross-country.

Um mês depois de ter recebido sua licença, e diante de 15.000 pessoas na Feira do Condado de Richmond, a recém pilota se tornou a primeira mulher a pilotar um avião à noite. Ela ficou conhecida como uma aviadora extremamente segura, dedicada às verificações e ao uso do cinto de segurança; tendo até mesmo escrito um artigo sobre como evitar os perigos no voo. Esse texto foi tão importante, que ajudou a estabelecer a necessidade de listas de verificação, uma ferramenta que faz parte da rotina de todo piloto contemporâneo.

O apogeu da sua fama ocorreu em 1912, quando ela subiu em um biplano Beriot (exposto na foto de capa), e se dirigiu aos penhascos de Dover, no Reino Unido, em busca de um pouso seguro em Calais, na França. Ela havia atravessado o Canal da Mancha, um braço de mar que separava os britânicos dos franceses. O sucesso desse voo estava no fato de que, apesar de ter errado o alvo devido às más condições climáticas do dia, ela conseguiu derrubar o avião com segurança nas praias de Hardelot-Plage, Pas-de-Calais.

Imagem de satélite do Canal da Mancha. É possível ver os pontos pelas quais Quimby passou.
Foto de satélite do Estreito de Dover (Canal da Mancha) | Fonte: NASA

Alguns meses depois do seu espetacular voo pelo Canal da Mancha, a revista feminina estadunidense Good Housekeeping publicou um texto que Harriet havia escrito anteriormente. Tal artigo enaltecia a aviação, alegando que era o esporte ideal para as mulheres.

Não existe esporte que proporcione a mesma quantidade de emoção e diversão e exija em troca tão pouca força muscular. É mais fácil do que andar, dirigir ou andar de automóvel; mais fácil do que golfe ou tênis … Voar é um esporte excelente e digno para as mulheres … e não há razão para ter medo, desde que se tome cuidado (Harriet Quimby, apud Hall da Fama da Aviação Nacional, 2004).

Após essa publicação, Quimby se dirigiu para o Harvard-Boston Aviation Meet, onde seria uma das atrações principais. Após um dia de abertura de sucesso, sendo o destaque do dia, Quimby resolveu fazer o percurso que já havia sido planejado para o dia seguinte. O que era para ser mais um sucesso da pilota mais famosa dos Estados Unidos, acabou em tragédia. De acordo com o Hall da Fama da Aviação Nacional (2004), no fim do voo, o avião parou no céu repentinamente, e depois mergulhou em direção à água em alta velocidade. A queda foi tão rápida, que Harriet e William Willard, organizador do evento que estava no passageiro do bimotor, foram arremessados de suas cadeiras. Ambos morreram instantaneamente. 

Ainda não se sabe ao certo a causa do acidente, mas o que é certo é a triste perda da “bela e dinâmica voz feminina da aviação da América”, Harriet Quimby. Mesmo com a sua morte, seu espírito e ousadia viveram, influenciando a vida de mulheres que logo mais se tornariam grandes aviadoras, como Amelia Earhart, Jackie Cochran, e muitas outras. Para muitos, a história de Quimby pode não trazer tanto significado ou comoção, mas para as mulheres da época, em um mundo onde as mulheres não tinham voz e ainda estavam presas às “tarefas e profissões de mulher”, Harriet foi inspiração e força.

As mulheres na aviação

Apesar de ser “comum” ter mulheres exercendo “profissões masculinas” durante as guerras, elas nunca conseguiam de fato continuar nesses postos quando esses conflitos acabavam. Elas eram excluídas e tratadas como meras substitutas de última instância. Contudo, isso mudou na Segunda Guerra Mundial. O desenvolvimento tecnológico da época, que aperfeiçoou os sistemas de comunicação, e o surgimento de pensadoras que debatiam a questão de gênero, criaram um cenário favorável à atuação das mulheres. De acordo com Stafleu (2019), o aumento da demanda por mulheres no mercado de trabalho deveu-se à quantidade de homens que tinham sido mutilados na guerra e não podiam trabalhar.

No início do século XX, era incomum ter mulheres nas forças armadas, com exceção das enfermeiras e das mulheres responsáveis por serviços burocráticos. A única potência que de fato permitiu a entrada de mulheres na linha de frente foi a União Soviética.

Elas eram mecânicas, atiradoras de elite (função na qual tiveram grande destaque), instrutoras, médicas, pilotas de tanques, e integrantes da força aérea do temido Exército Vermelho (Aeronáutico, 2021).

O livro Bruxas da Noite: a história não contada do Regimento Aéreo Feminino russo Durante a Segunda Guerra Mundial, cuja resenha escrita por mim pode ser acessada aqui, descreve com maestria como foi difícil para as mulheres soviéticas conseguirem ir para a linha de frente da guerra, as dificuldades pelas quais passaram, como elas impactaram decisivamente a guerra, e como foram tratadas com descaso e ingratidão no pós-guerra.

Nos Estados Unidos, a situação das mulheres era um pouco diferente, pois elas passaram a exercer atividades masculinas por pura necessidade. Na primeira metade do século XX, por conta da escassez de homens para pilotar aviões nos Estados Unidos, as mulheres estadunidenses foram treinadas para pilotar aviões militares. Esse grupo de aviadoras ficou conhecido como Women Airforce Service Pilots (WASP). Mais de 1.100 mulheres foram treinadas, e elas provaram para o general comandante das Forças Aéreas do Exército que as mulheres podiam voar tão bem quanto os homens.

Contudo, as WASP foram dissolvidas em 1944, quando o número de homens disponíveis para o ofício era o suficiente, fazendo com que o serviço das aviadoras “já não fosse mais necessário”. Apesar das enormes contribuições, as integrantes deste grupo só receberam de fato o status militar em 1970, e em 2010 o então presidente Barack Obama “assinou um projeto de lei premiando a WASP com a Medalha de Ouro do Congresso“, a mais alta honra civil dada pelo Congresso dos Estados Unidos.

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O presidente Barack Obama assina o S.614 no Salão Oval em 1º de julho na Casa Branca. O projeto de lei concede uma medalha de ouro do Congresso às mulheres pilotos do serviço aéreo | Fonte: Assuntos Públicos da Força Aérea dos EUA
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Medalha de Ouro do Congresso concedida ao WASP em março de 2010 no Capitólio dos EUA | Fonte: Museu Nacional do Ar e do Espaço.

Apesar do pioneirismo das mulheres no setor da aviação ter sido há quase 80 anos, as mulheres ainda enfrentam muitas dificuldades e preconceitos nessa área, como será mostrado a seguir.

Mulheres aviadoras contemporâneas

Tomando o Brasil como estudo de caso, atualmente as mulheres militares fazem parte da  Academia e das Escolas da Força Aérea Brasileira (FAB), atuando como aviadoras, intendentes, controladoras de tráfego aéreo, paraquedistas, médicas, advogadas, historiadoras, et al. As mulheres na Aeronáutica ocupam postos do Terceiro-Sargento a Coronel em diversos setores. Contudo, há poucas mulheres nos cargos mais altos das Forças Armadas.

Dalva Mende e Luciana Mascarenhas (2020), as únicas duas mulheres entre os mais de 400 oficiais-generais das Forças Armadas, afirma que o problema não está na Marinha, no Exército ou na Aeronáutica, mas nas questões do papel da mulher na sociedade brasileira, que ainda é muito machista. Ademais, há também questões técnicas. 

A inserção feminina é mais recente e o acesso a carreiras que levam a postos altos, ligados à atividade-fim das Forças — o combate —, mais ainda. Como a carreira militar é longa, a ascensão leva décadas (BBC, 2020).

De uma maneira geral, as mulheres ainda precisam lutar muito para alcançar a equidade com os homens na aviação. De acordo com a A International Society of Women Airline Pilots, existem 7.409 mulheres piloto no mundo, apenas 5,18% dos pilotos das 34 principais empresas aéreas do planeta. É preciso mudar o pensamento machista e patriarcal da sociedade mundial, e criar políticas públicas para a inclusão das mulheres em todos os setores, e para alcançar a equidade salarial e de direitos com os homens.

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Sobre o Autor

Analista de Relações Internacionais. Editora assistente da Revista Relações Exteriores. Pós-graduanda em Comunicação e Jornalismo Digital. Pesquisadora do NEFRI.

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