O feminismo como teoria de Relações Internacionais Uma análise sobre sua origem e aplicação

Fonte: Scorpio via Canva
O feminismo como teoria de Relações Internacionais 1

O feminismo começou a ser abordado nas Relações Internacionais a partir do último século, sendo possível apenas por causa da desconstrução em torno do tema. Desde então, o feminismo – além de um movimento social e uma maneira de pleitear igualdade – é uma abordagem teórica que existe, de fato, nas Relações Internacionais, mas isso não é o suficiente para convencer todos os acadêmicos e teóricos da área de sua existência. Muitos preferem ignorar o feminismo no campo teórico, mesmo que vários debates pudessem ser mais produtivos se o feminismo fosse exposto como abordagem (NOGUEIRA & MESSARI; 2005).

Apesar de ser uma área de estudo das ciências sociais, o campo de Relações Internacionais preferiu não tratar sobre feminismo. De acordo com Nogueira e Messari (2005, p. 223), “tal estudo dizia-se neutro e objetivo e, portanto, não havia lugar para questões de identidade em geral e questões de gênero em particular”.

O feminismo dentro das Relações Internacionais não é mais uma questão de ser neutro e objetivo ou não, mas de aceitar a realidade do sistema internacional. Por isso,

Abordagens que usam o gênero como categoria de análise no estudo das relações internacionais procuram, nas instituições e normas do sistema internacional, explicações para a assimetria nas relações entre os gêneros e instâncias de constituição de identidades de homens e mulheres (DO MONTE, 2013).

O presente artigo – oriundo de um projeto de mulheres brasileiras – visa contribuir para a pesquisa dentro da escola feminista, visto que,

Se a escola feminista é marginal como nos países de onde vêm a maioria das feministas das RI (EUA, Reino Unido e Austrália), isso é ainda mais verdadeiro no Brasil. Mesmo se comparado a outros países fora do eixo anglo-saxão, como na Índia – de onde vem parte das feministas pós-coloniais -, Malásia (CHIN, 1997) ou Coreia do Sul (MOON, 1998) faltam trabalhos feministas de RI no país (PAIVA, 2014, p. 12).

Este estudo também pretende realizar uma análise acerca do surgimento da abordagem teórica feminista nas Relações Internacionais, com o objetivo de debater a importância dessa ideologia, apesar dela não ser tão reconhecida e utilizada como as teorias de mainstream. Desse modo, no primeiro tópico será apresentado o que são as teorias de Relações Internacionais e os debates que surgiram. O segundo item irá retratar o surgimento do debate feminista nas Relações Internacionais. No terceiro ponto, o feminismo será explicitado como teoria de Relações Internacionais. Por fim, no último tópico, será apresentado uma aplicação prática da ideologia no contexto da pandemia de COVID-19.

Portanto, com o intuito de possibilitar a pesquisa acerca da origem e aplicação do feminismo como teoria de Relações Internacionais, o presente estudo utilizou o método analítico descritivo com pesquisa bibliográfica em fontes secundárias de autores como Cynthia Enloe, Jacqui True, João Pontes Nogueira e Nizar Messari. Com o objeitvo de complementar a construção metodológica da pesquisa, foram usados dados estatísticos do report Mulheres em tempos de pandemia e Folha Informativa COVID-19 do Escritório da OPAS e da OMS no Brasil.

O que são as teorias de Relações Internacionais

Durante muitos anos, questões internacionais e de política exterior eram tratadas como assuntos exclusivos de militares e diplomatas, além de ocuparem pouquíssimos espaços no meio acadêmico (NOGUEIRA; MESSARI, 2005). Após a Primeira Guerra, a atenção mundial se volta para entender as causas desse conflito catastrófico e como evitar futuros. Assim, é criada a primeira cadeira de Relações Internacionais na University of Wales, em Aberystwyth, buscando compreender questões relacionadas à cooperação e segurança internacional (SARFATI, 2005).

Como toda nova ciência, os primeiros estudos de Relações Internacionais eram bastante utópicos e não foram suficientes para impedir o surgimento de uma nova guerra (SILVA, 2009). Somente com o fim da Segunda Guerra Mundial, as Relações Internacionais ganharam força e se tornaram relevantes para explicar os problemas internacionais. Com o campo de estudos sendo retomado, a necessidade de teorias que explicassem o funcionamento do Sistema Internacional passou a ser fundamental (SILVA, 2009).

Os estudiosos das questões internacionais argumentam que elas possuem uma qualidade distinta dos problemas investigados pelas ciências sociais que se ocupam dos processos que ocorrem no espaço doméstico. Por isso, precisamos de uma teoria que dê conta dessa especificidade e de uma disciplina acadêmica que congregue os estudos e reúna os pesquisadores dedicados às relações internacionais (NOGUEIRA & MESSARI; 2005, p. 3).

O primeiro grande debate da disciplina ocorre entre as teorias realista e os chamados idealistas. A teoria realista, protagonizada pelo estudioso E.H. Carr, é dita como uma teoria que aceita a realidade como ela é, e analisa suas consequências. Já os idealistas ou utópicos, para Carr, buscavam estudar o mundo como deveria ser (SILVA, 2009). O segundo grande debate, de acordo com Silva (2009), já não era mais sobre o que estudar, mas focava na parte metodológica do campo e era protagonizado pelas teorias behaviorista e tradicionalista. Nogueira e Messari (2005) afirmam que os realistas científicos defendiam uma maior influência das ciências exatas nas teorias e criticavam a falta de diálogo com outros campos de estudos científicos.

Após a Guerra Fria e o surgimento de novos atores não estatais, como multinacionais e organizações internacionais, surge uma necessidade de separação entre a política doméstica e a política internacional, assim como das chamadas high politics (alta política, focada na segurança internacional) e low politics (baixa política, voltada às questões domésticas como economia e tecnologia) (NOGUEIRA & MESSARI; 2005). Sendo assim, o terceiro grande debate ocorre entre os chamados neo-realistas/neo-liberalistas e o neo-marxismo (JACKSON & SORENSEN; 2003).

Sarfati (2005) afirma que no período pós-Guerra Fria, correntes que estavam sendo geradas na década de 1980 ganham espaço na discussão teórica do campo de Relações Internacionais. Assim, teorias contemporâneas – as quais ainda estão em desenvolvimento – são marcadas pelo pluralismo caracterizado pela separação entre as teorias positivistas – que seriam as clássicas estudadas até o momento -, e as pós-positivistas, como construtivismo, feminismo, teoria crítica e pós-modernismo (SARFATI, 2005).

Sendo assim, o debate teórico passa a ser discutido como um todo e os estudiosos do campo tentam descobrir como deve ser uma boa teoria de Relações Internacionais. Ademais, segundo Sarfati (2005), mais recentemente passou a ser questionado se seria possível construir um diálogo e uma síntese teórica do campo de relações internacionais.

Como surgiu a teoria Feminista

O feminismo pode ser definido como “uma teoria política que coexiste e interage com um movimento político dedicado a erradicar os problemas que mulheres enfrentam em função de seu sexo (SJOBERG & VIA; 2010, p. 9, tradução nossa). Esta definição, de acordo com Paiva (2014), foi utilizada com o objetivo de elucidar o feminismo em função do que ele procura exercer, em vez de pela forma como ele procura exercê-la.

O movimento feminista, antes de chegar ao estudo das relações internacionais, passou por duas etapas, conhecidas como primeira e segunda onda. A primeira (séc. XIX e XX) lutou pela inserção das mulheres na política e pelo sufrágio universal (NOGUEIRA; MESSARI, 2005), e foi “um dos mais marcantes movimentos transnacionais dos tempos modernos (HALLIDAY, 1999, p. 171)”. A Segunda Onda, década de 1960, expandiu a discussão feminista para desigualdades institucionais informais e formais, através do slogan “o pessoal é político (SEGRAN, 2014)”, com uma agenda de cidadania e inclusão social (NOGUEIRA; MESSARI, 2005).

O feminismo foi introduzido na academia de fato durante a Segunda Onda, na ocasião em que cursos sobre “Estudos da Mulher” e “História da Mulher” foram lecionados em instituições de ensino superior; assim como ocorreu a publicação da primeira revista a respeito do tema (Feminist Studies, de 1972) e as primeiras conferências em universidades foram desenvolvidas (MESSER-DAVIDOW, 2002). Nos anos 1990, surgiu a Terceira Onda. Segundo Isadora Paiva (p. 14):

Feministas da Terceira Onda buscam cultivar uma pluralidade de vozes no feminismo, com um protagonismo de feministas negras e pós-colonialistas. A Terceira Onda foi influenciada pelo pensamento pós-estruturalista, em que divisões como masculino/feminino são vistas como construções sociais para manter o poder de grupos dominantes.

Segundo algumas autoras, existe a Quarta Onda do feminismo. Para a escritora e ativista Jennifer Baumgardner, essa onda se iniciou em 2008 e permanece atualmente. Essa onda compreende temas LGBTQI+, teoria racial, e está associada aos direitos de aborto, reprodução e ao apoio às mulheres trans (OXFORD WOMEN INTERNATIONAL, 2017).

Foi na terceira onda que os ideais feministas foram incluídos na disciplina de Relações Internacionais (NOGUEIRA; MESSARI, 2005). Para a escola feminista de RI, a disciplina de Relações Internacionais é androcêntrica. Essa afirmação se deu em comparação a outras ciências sociais, devido ao fato de que as primeiras análises feministas surgiram nas RI cerca de duas décadas após o feminismo ter entrado na academia (HALLIDAY, 1999).

Segundo Christine Sylvester (1996 apud NOGUEIRA; MESSARI, 2005), alguns teóricos de Relações Internacionais dispensam a importância do feminismo, afirmando que a perspectiva de gênero não possui finalidade para seu estudo. A autora declara, também, que existe um outro grupo de autores de RI que se referem a existência da participação feminista em notas de rodapé de página e conclusões. Desse modo, não reconhecem a relevância do debate contemporâneo teórico feminista para as RI.

À vista disso, a disciplina de Relações Internacionais começou a ter que lidar com a importância da categoria de gênero na política internacional, quando, em algumas guerras na década de 1990, o estupro de mulheres foi usado como uma arma para limpeza étnica. Esse fato ocorreu não por elas serem de um grupo étnico diferente, mas por serem, simplesmente, mulheres (NOGUEIRA & MESSARI, 2005).

Trabalhos sobre o feminismo só começaram a aparecer nas Relações Internacionais a partir do final da década de 1980 (ENLOE; 1989). A ascensão do pensamento feminista fez parte do movimento dos pós-positivistas, através da crítica às teorias de mainstream (REUS-SMIT, 2005) – conhecido como o Terceiro Debate, a partir dos anos 1980 (LAPID, 1986). A escola feminista, nas Relações Internacionais, outrora foi caracterizada como “os escritos de feministas que se identificam como estudiosas de relações internacionais (…), que constituem uma comunidade de estudiosas que lê e se refere aos trabalhos umas das outras (LOCHER & PRÜGL; 2001, p. 115, tradução nossa). Segundo Paiva (2014, p. 10):

Esta comunidade surgiu em volta de um grupo de escritos programáticos na virada da década de 80 para 90 (entre eles Elshtain, 1987; Cohn, 1987; Enloe, 1989; Tickner, 1992; Peterson 1992), que ajudaram a criar uma rede de acadêmicos que ainda hoje são pontos de referência. Esse grupo de autoras foi responsável pela criação da seção para estudos de gênero na International Studies Association em 1990, e posteriormente contribuíram para o estabelecimento de uma revista dedicada ao feminismo nas RI: o International Feminist Journal of Politics, de 1999.

Por fim, a teoria feminista nas Relações Internacionais pode ser definida como “uma análise cujo foco é a categoria gênero, com uma ênfase na mulher, e uma epistemologia crítica (à positivista) (PAIVA, 2014, p. 17)”.

A Teoria Feminista como Teoria de Relações Internacionais

Conforme exposto no tópico anterior, é perceptível que a teoria feminista como teoria de relações internacionais surgiu como uma nova maneira de observar os fenômenos no cenário político internacional. Segundo True (2005), as estudiosas feministas utilizam as análises de gênero para desconstruir a estrutura teórica das Relações Internacionais e revelar o enviesamento em conceitos de poder, segurança e soberania.

Para True (2005), as feministas argumentam que os conceitos no campo de RI são em sua maioria associados à masculinidade e à experiência do homem, incluindo a análise dos conceitos de poder feitos por Morgenthau (TICKNER, 1988 apud TRUE, 2005.) Ainda de acordo com True (2005), a ruptura política após os eventos de 2001 trouxeram um novo fôlego às correntes feministas nas Relações Internacionais tendo em vista a extensão que permite focar agentes não estatais, pessoas marginalizadas e concepções de poder alternativas. True (2005) separa as teorias feministas de relações internacionais em três divisões, sendo elas: feminismo empírico, analítico e normativo. 

Ao observar o “Feminismo Empírico”, é possível analisar a falta de representatividade e a negação da participação feminina no mundo político. O autor aponta que há no campo das RI uma representação de que as experiências masculinas podem contar para ambos homens e mulheres. Segundo Tickner (2002 apud TRUE, 2005), as feministas constantemente trabalham para encontrar uma resposta para a pergunta: “onde estão as mulheres nas relações internacionais?”. Enloe (1989) explica que existem muito mais mulheres engajadas no campo do que são apresentadas. Milhares de mulheres são atores internacionais importantes, desde as secretarias de Chefes de Estado, as mulheres de embaixadores e grandes protagonistas femininas, como Hillary Clinton e Angela Merkel. As mulheres sempre foram parte das relações internacionais para aqueles que decidem enxergá-las (ENLOE, 1984, 1994, 2000 apud TRUE, 2005).

O “Feminismo Análitico”, por sua vez, estuda, segundo True (2005), a desconstrução do conceito de gênero como delimitador de capacidades, tendo em vista que no campo das Relações Internacionais a construção de masculino é associada à autonomia, soberania e racionalidade enquanto o feminino é associado à falta dessas características. Ainda segundo True (2005), feministas apresentam que noções de poder, autonomia e anarquia, por exemplo, são inseparáveis da divisão de gênero, tendo por consideração que esses conceitos são associados à masculinidade e experiência masculina, em um cenário dominado por homens.

Teóricos feministas argumentam que o maior organizador do poder de gênero é o Estado (CONNELL, 1990 apud TRUE, 2005), ou seja, o Estado manipula a identidade de gênero para sua união interna e legitimidade internacional. Enloe (1989) completa a linha de pensamento ao dizer que as relações entre governos dependem não somente do poder econômico e militar, mas em como controlam suas mulheres como símbolos – símbolos de consumidoras, trabalhadoras e apoio emocional, vendendo a imagem da mulher como consumidora e atriz política, demonstrada diretamente pelas ações que influenciam o turismo, praias tropicais, sexualidade das mulheres e o serviço das comissárias de bordo (ENLOE, 1989).  

Segundo True (2005), “Feminismo Normativo” pode ser compreendido pela intenção de transformar uma agenda normativa em uma mudança global. Essa teoria questiona como a reprodução da hierarquia de gênero neutraliza outras formas de poder no mundo político. Essa corrente reconhece que não existe um espaço ideal para feministas abordarem relações internacionais. Para Christine Sylvester (1994 apud TRUE, 2005), todos os lugares para falar e agir como mulher são problemáticos, pois são construídos para excluir, no entanto, a experiência da mulher pode enriquecer o campo e tornar a teoria das Relações Internacionais mais crítica e universal. 

Aplicação prática da teoria Feminista

Em dezembro de 2019, registrou-se o primeiro caso de COVID-19 no mundo, e no primeiro semestre de 2020 o vírus já tinha se espalhado por outros países ao redor do globo. Muitas nações em questão de poucos dias chegaram ao limite dos seus sistemas de saúde e tiveram que impor medidas rígidas na tentativa de reduzir a disseminação do vírus na população. 

De acordo com a Folha Informativa COVID-19 do dia 3 de fevereiro de 2021 do Escritório da OPAS e da OMS no Brasil, mais de um ano depois do primeiro caso, são 2.244.713 mortes e 103.362.039 casos confirmados de pessoas contaminadas pelo vírus no mundo. Já no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde, no dia 19 de fevereiro eram 10.081.676 casos e 244.765 mortes.

Todos estão sofrendo direta ou indiretamente as consequências da pandemia, contudo, existem pessoas que já se encontravam em situação de vulnerabilidade que tiveram sua situação agravada com os efeitos dessa crise sanitária. Em um cenário considerado normal, as desigualdades econômicas e do mercado de trabalho já são preocupantes para as mulheres, e quando se olha o cenário de pandemia, elas são muito mais alarmantes. Ademais, o fato de vivermos em um país e em um mundo com desigualdade de gênero fica ainda mais em evidência.

Considerando que a teoria feminista surgiu com o objetivo de poder ter um novo olhar ao se observar os fenômenos no cenário político internacional, é imprescindível que os países olhem para a situação das mulheres durante a pandemia, pois, essa situação não é só um desequilíbrio causado por essa crise sanitária, é o agravamento de problemas que as mulheres já enfrentavam sendo intensificados pela pandemia.

Como abordado anteriormente, teóricos feministas argumentam que o maior organizador do poder de gênero é o Estado (CONNELL, 1990 apud TRUE, 2005), ou seja, o Estado manipula a identidade de gênero para sua união interna e legitimidade internacional. Logo, o Estado não tem ações e políticas pontuais tendo em mente que as mulheres são o grupo que mais sofre com as sequelas da pandemia.

Segundo Enloe (1989), em sua contribuição para o feminismo analítico, os governos controlam suas mulheres como símbolos de consumidoras, trabalhadoras, sexualidade, e não como símbolos de autonomia, soberania e racionalidade como os homens são construídos no campo de RI. Ou seja, é imprescindível que os governos olhem para a situação das mulheres durante a pandemia e lhes ofereça proteção, poder e autonomia, em vez de subjugá-las a esses signos.

As organizações irmãs Think Eva e Think Olga, ainda no começo das semanas de isolamento social, lançaram o manifesto e reportMulheres em Tempos de Pandemia”. Ao ler os documentos, é clara a importância de um olhar de gênero e intersecções para a crise desencadeada pela pandemia do COVID-19 e seus efeitos na vida das mulheres. “Não haverá futuro feminino se as mulheres forem menosprezadas no presente”, as organizações provocaram.

Sem ter um olhar para a vulnerabilidade feminina no contexto de pandemia, mais mulheres ficarão invisíveis, como constatado pela pergunta de Tickner (2002 apud TRUE, 2005) “onde estão as mulheres nas relações internacionais?” Onde estão as mulheres durante a pandemia? Como enfatiza o feminismo empírico, explicitado no tópico anterior, há uma falta de representatividade e a negação da participação feminina no mundo político. Com a situação das mulheres durante a pandemia, essa falta de representatividade e negação é intensificada, visto que elas estão sofrendo os efeitos da crise sanitária de forma acentuada.

Não se engane, o impacto de todos os efeitos colaterais de uma pandemia recai prioritariamente sobre as mulheres, sobretudo as que estão em maior situação de vulnerabilidade”, afirma Nana Lima, Diretora de Impacto do Think Eva e Think Olga. Esses efeitos colaterais implicam em problemas relacionados a violência, saúde, economia e trabalho. Segundo o documento “Gênero e Covid-19 na América Latina e no Caribe: Dimensões de Gênero na resposta, publicado pela ONU em março anterior, 

Enfrentar uma quarentena é um desafio para todos, mas para mulheres em situação de vulnerabilidade pode ser trágico. No Brasil, onde a população feminina sofre violência a cada quatro minutos e em que 43% dos casos acontecem dentro de casa, essa preocupação é real (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2020).

Com a quarentena e as medidas de isolamento impostas durante a pandemia, houve um aumento nos casos de violência doméstica contra mulheres no mundo. O report Mulheres em Tempos de Pandemia lembra que casos de violência doméstica geralmente aumentam em períodos de estresse e perturbação prolongados, como crises financeiras e desastres naturais. 

Devido às medidas de restrição social, muitas empresas tiveram que fechar as portas e a taxa de desemprego aumentou, configurando uma crise econômica e gerando um ambiente de estresse. Além disso, também decorrente do isolamento, se tornou difícil as mulheres manterem distância dos seus agressores e conseguirem pedir ajuda, deixar seu lar e pedir abrigo a alguém de confiança. 

No que diz respeito à economia e ao trabalho, a crise econômica causada pela pandemia do COVID-19 piora ainda mais a situação de mulheres em trabalho informal, donas de pequenas e médias empresas, assim como mães e mulheres em empregos mal remunerados. De acordo com o report Mulheres em Tempos de Pandemia, são mais de 13 milhões de pessoas no Brasil que sobrevivem abaixo da linha de pobreza, com uma renda média de até 145 reais mensais; sendo que uma grande parte dessas pessoas são mulheres, negras, mães e chefes de família, muitas vezes mães solo, responsáveis por sustentar suas famílias.

Dentre as trabalhadoras informais, as mulheres negras do Brasil representam 47,8%. Com a redução do fluxo de pessoas nas ruas e as medidas de isolamento, essas mulheres são impossibilitadas de adquirir sua renda, que geralmente é a única forma de sustentar a família. Outro grupo em situação precária são as milhares de trabalhadoras domésticas e diaristas que precisaram se afastar do trabalho.

O Feminismo Normativo, explicitado no tópico anterior, tem a intenção de transformar uma agenda normativa em uma mudança global. Em vista disso, diante do atual cenário de crise sanitária e humanitária mundial, as mulheres se tornam cada vez mais invisíveis, tendo cada vez menos espaço para poder falar e tornar sua experiência em uma mudança global, pois elas estão sendo silenciadas através da intensificação da violência que estão sofrendo durante a pandemia. A voz dessas mulheres pode tornar a agenda da questão de gênero em uma mudança global, em que elas possam se sentir seguras, protegidas e não sejam privadas do seu trabalho, independente das crises que o mundo vier a enfrentar. Essa mudança deve começar hoje, durante a atual crise do coronavírus.

De acordo com dados do PNUD (2015) apresentados no report, 40% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres, sendo que 41% são donas do próprio negócio. Por isso, é necessária a adoção de políticas e estratégias específicas, a nível municipal, estadual e federal para o empoderamento e a recuperação econômica das mulheres, que são problemas antigos que se intensificaram com o cenário da pandemia. Assim, percebe-se a importância do olhar feminista das sequelas que a pandemia deixa em mulheres no Brasil e no mundo.

Portanto, os autores internacionais precisam levar em conta que a questão do gênero na pandemia também é um problema internacional, uma vez que estamos observando mais mulheres sofrendo violência, sendo mortas e sendo privadas do seu emprego. Logo, se essa situação não for cuidada, ela irá refletir no cenário mundial, com mais mulheres tendo a sua liberdade tomada.

Considerações finais

Devido a divergências dentro da própria disciplina de relações internacionais com suas teorias, nos primeiros dois tópicos deste trabalho é possível perceber como o feminismo só encontrou oportunidade de se inserir nos estudos a partir da inclusão do Terceiro Debate, nos anos 80 – onde várias outras teorias também encontraram lugar de fala, visto que o objetivo era expandir o estudo e não limitar como o Primeiro e o Segundo Debate.

Conforme analisado no terceiro tópico do presente artigo, o estudo do feminismo ainda se mostra duvidoso para grandes autores como True – em Feminismo Empírico -, que aponta que as experiências masculinas devem ser tomadas como femininas, além de questionar a presença de mulheres na política, uma vez que, desde o século 20, as mulheres estão ascendendo a cargos mais altos e mostrando sua presença para quem decide repará-las. 

Além disso, no Feminismo Analítico, é possível concluir que a história é da presença majoritária de homens. Por isso, a experiência deles gerou a noção dos conceitos de poder, autonomia e anarquia. Coube ao feminismo a luta para atrelá-los à masculinidade e mostrar como a manipulação da identidade de gênero é sustentada pelo Estado.

Já com o Feminismo Normativo, deduz-se que não existe lugar para a mulher abordar identidade de gênero na agenda internacional contemporânea – de acordo com as prioridades escolhidas pelo mundo atual. Porém, com a crescente participação das mulheres no âmbito internacional, o feminismo tende a se expandir – tornando-se mais crítico e chegando a mais mulheres. Por isso, far-se-á a necessidade de analisar os avanços e retrocessos durante a pandemia, conforme foi elucidado pelo artigo.

Por fim, foi abordado o aumento do risco de desemprego e da violência sofrida por mulheres durante a pandemia do COVID-19, clarificando que problemas antigos não-resolvidos em esfera municipal, estadual e estatal estão sujeitos a se expandir e piorar, chegando a níveis internacionais, por estarem vulneráveis à instabilidade de crises como a atual. 

Sendo assim, a inserção de assuntos de identidade de gênero na agenda internacional não beneficia só a teoria feminista nas Relações Internacionais, mas a nível doméstico com a cidadã mulher enquanto indivíduo. Caso o feminismo fosse uma pauta fixa das prioridades dos Estados, haveria maior suporte estatal para a empregabilidade de mulheres que sustentam famílias, diminuindo também a violência doméstica sofrida diariamente.

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