Irã: como a estratégia de “vilanização” molda as relações de poder dentro do sistema internacional atual

Foto: Abedin Taherkenareh/EPA/Newscom
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 Após os atentados de 11 de setembro de 2001, os Estados Unidos da América passaram a indicar os vilões do sistema internacional e decidiu, por sua conta, que eles deveriam ser punidos. O “Eixo do mal”, para George W. Bush, em seu discurso para o Congresso Americano de 2002, era formado pelo Irã, Iraque e Coreia do Norte. Do inicio do século XXI para o ano de 2019 (dois mil e dezenove), o foco das hostilidades norte-americana não se modificou tanto, com o Irã e a Coreia do Norte sendo, ainda, apontados como os grandes vilões do sistema.

O Irã tem um longo histórico de conflito com certos atores do sistema internacional, em especial a Europa e os Estados Unidos, desde a Revolução Iraniana, em 1979, quando o Xá, que apoiava os interesses econômicos europeus e estadunidenses na região, foi retirado do poder. Porém, o que pouco se comenta a respeito do país é o seu poder sobre o Oriente Médio. Na região, é como se houvesse uma guerra fria regional, entre Arábia Saudita e Irã pela hegemonia dentro dessa parte do mundo, com os países vizinhos. Este cenário de conflitos é extremamente importante para o cenário internacional econômico contemporâneo, porque envolve a disputa de poder por uma das regiões mais ricas do mundo, graças ao petróleo existente lá de alto valor comercial, além de ser um cenário de disputas de interesses entre três grandes atores estatais internacionais (Irã, Arábia Saudita e Estados Unidos).

Para entender todo esse cenário, é preciso fazer as interpretações certas em cima dos interesses de cada um desses atores. A grande problemática que este trabalho levanta é como manter o Irã como o grande vilão internacional pode ajudar nas ambições dos países citados, assim, para a melhor compreensão, a primeira parte do trabalho se fixará na compreensão histórica sobre as relações de inimizade com o Irã; a segunda parte se fixa em entender o interesse em cima desse país e, por último, a terceira parte deste trabalho foca na teorização, ou seja, como as teoria de Relações Internacionais e Economia Política Internacional ajudam a compreender melhor a problemática.

Este trabalho não busca fazer um juízo de valor sobre os bons ou maus Estados, mas analisar os lucros que existem em manter o Irã como um país “excluído” ou desfavorecido.

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O histórico de inimizades iraniano

Desde a Revolução Iraniana, em 1979, a relação do Estado Persa com os EUA, entre outros, tem chegado ao limite continuamente. Além disso, desde a Primavera Árabe, em que houve as revoltas contra os regimes totalitários, o Irã passou a ser detentor de grande influência sobre seus vizinhos, o que apenas preocupou seu maior rival, a Arábia Saudita. Nessa zona de conflitos, os Estados Unidos da América criaram uma grande relação de inimizade com o governo iraniano, relação esta que se acentuou após o ataque de drones a SAUDI ARAMCO, na Arábia Saudita, e a morte do General iraniano Qasem Soleimani, em janeiro de 2020. O ataque dos drones a uma das principais refinarias de petróleo da Arábia Saudita, que acabou levando o preço do petróleo às alturas, trouxe, novamente, à tona os conflitos entre esses três, e fez muitos temerem o pior. A campanha de vilão do Oriente Médio já era algo constante na mídia ocidental, porém, após o ataque, essa campanha se tornou mais expandida, com os governos americano e saudita se esforçando ao máximo nisso, para definitivamente desbancar o Irã. Para entender essa necessidade é preciso entender a história por trás dessas relações.

A relação entre a Arábia Saudita e o Irã se manteve completamente instável desde a Revolução no Irã. Existem dois fatores para isso, o primeiro é o fator religioso, e o segundo, é o fator poder. A Arábia Saudita acredita ser a verdadeira herdeira do profeta Maomé, e é governada por uma monarquia sunita, enquanto o Irã é um governo xiita, com isso, as alianças entre os países do Oriente acabam sendo levadas por essas questões, sendo os países de governo e os grupos sunitas seguindo a Arábia Saudita, e os governos e grupos xiitas seguindo o Irã. Isso acaba modificando todo o sistema de relações do Oriente Médio.

Pela visão saudita, o Irã é uma grande ameaça a segurança política e econômica do país, porque quer aumentar o seu status quo na área, aumentando suas ambições imperialistas que envolvem mudar a balança de poder no golfo, a qual ainda é parte favorável a Arábia Saudita. Por essa visão, os interesses iranianos são os de difundir sua república e desmantelar os governos existentes em volta. Os políticos sauditas apontam como prova a Guerra do Iemen, com os iranianos apoiando as forças rebeldes, consideradas terroristas, dos Houthi. Essas intervenções iranianas seriam, então, a prova do imperialismo iraniano, que busca desestabilizar as fronteiras sauditas, como o Hezbollah, no Líbano, também apoiado pelo Irã.

De fato, embora o Irã esteja em situação financeira crítica, com as sanções americanas, ainda aloca uma grande quantidade de seus recursos na ajuda a seus apoiadores, especialmente, do Hezbollah, Hamas e Houthis, considerados grupos terroristas, por muitos. Devido a isso, a Arábia Saudita acabou se aproximando dos Estados Unidos para receber auxilio na contenção da “ameaça iraniana”, que beneficiaria ambos os envolvidos.

A relação do Irã e dos Estados Unidos da América é um pouco mais antiga, sendo que, antes da Revolução, eles eram aliados, ou melhor, o Irã auxiliava os interesses americanos no país. Antes de todos os conflitos, com a ascensão do Xá Pahlevi ao trono iraniano, os EUA, no meio da Guerra Fria, viram o Irã como uma oportunidade, não só de conter o avanço soviético no Oriente Médio, mas também como um ponto para assegurar reservas de petróleo no Golfo Pérsico.

Com a queda do Xá e a Revolução Iraniana, as ambições norte americanas no Irã viram seu fim, colocando os, antes, aliados em lados opostos da balança. A Crise dos Reféns (1979-1981), episódio em que americanos ficaram retidos em solo iraniano até a eleição dos Majili, no Governo Carter, foi quando as sanções realmente começaram, em que o governo americano passou a pressionar economicamente e diplomaticamente o Irã, cortando relações comerciais e parando de importar petróleo iraniano. Além disso, o Irã representa ameaça direta a Israel, um dos principais aliados dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Somado a tudo isso, existem mais fatores de rixa nessa relação. A partir do 11 de setembro de 2001, os EUA instituíram a Guerra ao Terror, em que o Irã, pela presença da Al-Qaeda, foi classificado como um dos vilões do sistema. O constante apoio a terroristas localizados no Libano, no Iraque, no Iemen e em Israel não promove uma melhor reaproximação. Focando na questão econômica, essa reaproximação pacifica também não parece muito próxima, já que as sanções não foram suficientes para a completa desestabilização do petróleo iraniano, que ainda pode contar com Rússia e China, somando a isso a questão do Estreito de Ormuz, que o Irã ameaçou fechar, sendo a rota comercial mais importante do mundo, já que é por onde escoa bilhões de dólares em petróleo de todo o mundo, sendo um ponto de extrema estratégia econômica e política.

Por que interessa o Irã?

Diante desse cenário, é preciso compreender que as estratégias utilizadas para perpetuar a imagem de “vilão internacional” do Irã possuem objetivos claros. Quando se trata sobre o Oriente Médio, o petróleo é sempre considerado, mas também por sua variação e por sua influência. Por exemplo, no Oriente Médio se encontram as maiores reservas de petróleo líquido, ideal para exportação por ser fácil de ser retirado do solo e preparado para vender.  Petróleo bruto, como o encontrado em território americano, é mais difícil de ser retirado e preparado para exportação, gerando mais custos em cima disso. A facilidade de acesso a esse produto influencia como se dão as relações entre seus exportadores.

Irã e Arábia Saudita são aqueles que possuem as maiores reservas do Oriente Médio, e do mundo, enquanto que os Estados Unidos ficam abaixo no ranking, no décimo primeiro lugar, em reservas de petróleo. No caso da Arábia Saudita, mesmo tendo uma reserva muito superior, ainda fica em competição com o Irã que, por sua vez, apresenta recursos suficientes para se manter estável e auxiliar seus aliados, o que constantemente apavora a Arábia Saudita.

Os Estados Unidos, por sua vez, são os maiores consumidores de petróleo do mundo, em especial por causa da gasolina, mas a sua reserva não é tão grande. Vários estudos divulgados apontam que, de acordo com o consumo atual, o estoque de petróleo dos Estados Unidos se esgotará em sete anos. São comuns notícias sobre acordos e compras de petróleo pelo governo americano, já que ele busca manter uma reserva estratégica em solo americano. Garantir o apoio dos ricos exportadores do Oriente Médio, é de grande valia para os EUA. Essa constante briga por esse importante recurso natural, e pelo que ele significa quando se trata de poder, influencia no tipo de relação que se instalou entre EUA, Arábia Saudita e Irã.

Teorizando os interesses em torno do Irã

Os interesses de um país devem sempre ser interpretados com cautela, visando entender ao máximo seu objetivo final. Os EUA sempre demonstraram seu interesse por se materializar como a grande hegemonia do mundo, principalmente com o fim da Guerra Fria e queda da União Soviética. John Mearsheimer explica que uma hegemonia é “um Estado tão poderoso que domina todos os outros Estados do sistema”, trazendo a ideia de segurança internacional, porque ninguém poderá ameaçá-lo, e ele controlará as ameaças.

Somado a isso, Robert Gilpin, em um de seus capítulos de Global Political Economy(2001), discorre sobre a estabilidade hegemônica. A teoria da Estabilidade Hegemônica é, primeiramente, associada a Charles Kindleberg em World in Depression: 1929-1939, em que ele aponta uma correlação entre o domínio de uma grande potência e a estabilidade hegemônica. Segundo Gilpin, a hegemonia, dentro da ideia de dominação acima, não quer dizer necessariamente uma coação, “hegemonia torna a cooperação mais viável e não é, como alguns sugeriram, contrário à cooperação” (GILPIN, 2001).

No caso da Arábia Saudita, trata-se da necessidade de ser uma hegemonia, mas regional. Mearhseimer aponta que ser uma hegemonia mundial é um objetivo difícil de ser alcançado, então é comum focos de poder na anaquia do sistema internacional, que se configuram em hegemonias regionais. Essas pequenas hegemonias são afetadas pelas relações de poder entre outros grandes Estados, como os Estados Unidos. A vontade por ser hegemonia é uma constante ambição entre Irã e Arábia Saudita dentro do Oriente Médio, e também, dependendo de quem vença a luta, é o interesse dos aliados dessa hegemonia, pois facilitaria a aliança econômica nesse rico território do mundo.

Assim, é do interesse saudita ser o grande poder no Oriente Médio, isso lhe traria estabilidade e, talvez, estabilidade a região e, sendo aliado do governo americano, conseguiria se manter como forte aliado de uma grande potência. Porém, o Irã também deseja desempenhar esse papel de “hegemonia” na região, sendo uma força poderosa no Oriente Médio. Considerando, agora, os desejos americanos, de ser, realmente, a grande hegemonia do sistema internacional e garantir essa posição também significa manter sua influência sobre as várias regiões do globo. Uma região rica, como o Oriente Médio, é uma influência considerável.

Para além disso, dentro da relação Irã-EUA, a teoria de Heckscher-Ohlim aponta uma outra direção para os interesses americanos que levam a constantes atritos com o país persa. Segundo essa teoria, “países se especializarão na produção dos bens que utilizam fatores de produção com abundância relativa, exportando esses bens e importando outros cujos fatores produtivos intensivos sejam relativamente escassos em seu território.” (COUTINHO, 2006).

Como visto no tópico anterior, os Estados Unidos são grande consumidores de petróleo sendo que, mesmo que eles estoquem certa quantidade de petróleo e exportem um derivado, o óleo de xisto, importar aquele produto tão essencial, mas tão difícil de se produzir em solo estadunidense, é uma boa motivação para garantir ainda mais sua presença no Oriente Médio. Desse modo, o Irã seria um obstáculo tanto para os planos econômicos e hegemônicos dos Estados Unidos, e para o controle da Arábia Saudita, portanto, garantir que a posição iraniana diante de outras importantes forças mundiais é uma boa estratégia para enfraquecer quaisquer desejos iranianos.

Considerações Finais

A partir de todo esse estudo, é perceptível o quanto a imagem negativa do Irã, e com isso sua desestabilização, podem acrescentar aos interesses sauditas e americanos, aquele na questão hegemônica, e este na questão de reservas petrolíferas. A relação do Irã com ambos esses atores é uma relação historicamente problemática, em que há o medo da ameaça que o Irã representa nas influencias da balança de poder do Oriente Médio, e com isso a constante necessidade de impedi-lo.

Todo esse jogo de xadrez elaborado liga profundamente questões econômicas, políticas e sociais do mundo todo, por isso, o que aconteceu com os drones na Arábia Saudita, não afetou só os sauditas, ou incomodou só os americanos, mas afetou todo o preço do petróleo e a organização dos países árabes, europeus e americanos, que assistiram apreensivos a situação e esperaram os resultados. As conseqüências verdadeiras ainda serão montadas pelas situações futuras, com a real redenção iraniana aos interesses sauditas e americanos, ou talvez a uma reviravolta que ninguém esperava.

Referências Bibliográficas

ARANTES, Maria Inez. Os EUA e a Guerra como instituição: o caso do Irã. Florianopolis, 2004.

COUTINHO, Eduardo Sena. De Smith a Porter: Um ensaio sobre as teorias do comércio exterior. Revista de Gestão USP, São Paulo, 2005.

FIORENZE, Rafaela Elmir; Visentini, Paulo Fagundes. Um Irã no meio do caminho. Revista Conjuntura Nerint, Porto Alegre, 2018.

GILPIN, Robert. Global Politic Economy: understanding the international economy order. Princeton University Press, New Jersey, 2001.

GONÇALVES, Reinaldo. A teoria do comércio internacional: uma resenha. Rio de Janeiro, 1997.

Saudi Arabian and Iran: beyond conflict and coexistence? LSE Middle East Report, 2018.

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Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade da Amazônia e graduanda em Direito pela Universidade Estácio FAP. É monitora do grupo de extensão e voluntariado Comunicar para Educar, pesquisadora do grupo de Rede de Enfrentamento a Violência contra a Mulher no Estado do Pará, ex-moderadora de conteúdo e atual membro da equipe audiovisual do site Internacional da Amazônia, e redatora voluntária do Diário das Nações. Pesquisa e comenta sobre Política Internacional, Segurança Internacional e Teorias Pós-coloniais e de Gênero nas Relações Internacionais.

Lattes: http://lattes.cnpq.br/0184759177605693
Instagram @mariaduda_eduarda

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