O Impacto da Globalização no Conceito de Território

Globalização - Arte: Edmon de Haro
Globalização

O objetivo deste texto é identificar se a globalização afeta a definição do conceito de território, através dos seguintes passos: 1. Conceito de Território; 2. ‘O Que é  Globalização?’; e 3. Como a globalização reforma o conceito de território. O texto foi escrito a partir da leitura de fontes secundárias, como, livros e artigos.

A hipótese é de que a globalização mudou o que pode ser entendido, conceitualmente, como território. A globalização pode ser entendida, principalmente, como o fluxo de informações que acontece rapidamente a todo instante, podendo ser maléfico ou benéfico às populações.

Conceito de Território

Existem três relevantes etapas as quais explicariam a formação do território como conhecemos, segundo Cataia (2011, p.118):

a) a formação da densidade , que teria conduzido à criação da pólis grega e das sociedades hidráulicas (Egito, Mesopotâmia); b) o Império universal, que começa com a Constituição de Alexandre e se prolonga pelo Império Romano e; c) por fim, a época da modernidade Ocidental, ou seja, do Estado Territorial, que daria seus primeiros sinais de vida com o fim do feudalismo.

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O conceito de território, primeiro, era usado para denominar uma área em torno de uma cidade-Estado que estava sob sua dominação, não havendo a existência de um  poder único. Então o conceito aceitava a divisão do poder político em sua definição, mas com unidade e soberania entre os territórios, essa descentralização não é mais aceita em princípio. Território é um espaço onde se tem limite e relação de poder econômico, social, político, cultural. É o espaço onde o estado não é o único que tem poder.

Não podemos reduzir o conceito de território a apenas uma simples materialidade da construção social do espaço ou com o poder mediado por essa materialidade. Assim, é importante e devemos ressaltar que a percepção de território parte da inferência de três pontos principais, como ressaltam Haesbaert e Limonad (1999, p.10): 1) há diferença entre espaço geográfico e território, mesmo que muitos autores utilizem os dois termos, ‘espaço geográfico’ tem um sentido muito mais amplo que território; 2) territórios são construções históricas baseadas em relações de poder (concretas e simbólicas) e, portanto, construção social, envolvendo tanto o espaço social quanto o geográfico (e em certa medida natural). 3) o conceito de território possui um âmbito mais subjetivo que podemos chamar de identidade territorial ou até mesmo de ocupação abstrata, e um âmbito mais objetivo que podemos chamar de controle do espaço, e é alcançado pelos seguintes meios: ações políticas e econômicas.

Se nas antigas sociedades o ser humano ocupava todas as áreas de seu território por meio da posse simbólica, nas sociedades contemporâneas o território é tido pelo ponto de vista utilitário, como meio de governança para atender às necessidades humanas. Haesbaert e Limonad (1999, p.10) falam sobre a  diferença da exclusão e da integração populacional nas sociedades tradicionais e no mundo moderno:

enquanto o território mais estável nas sociedades tradicionais era em geral fragmentador e excludente em relação a outros grupos culturais mas profundamente integrador e holístico no que se refere ao interior do grupo social, no mundo moderno capitalista a fragmentação territorial interna ao sistema é uma necessidade vital para a sua reprodução (a começar pela instituição da propriedade privada e pela dessacralização da natureza, divorciada do social), sendo que esta forma de organização territorial, cada vez mais moldada pela mobilidade, pelos fluxos e pelas redes, tende a fragmentar e, destarte, a assimilar todo tipo de cultura estrangeira.

A fragmentação do território faz com que de certa forma a população deixe de lado sua cultura, pode ser por pressão ou até mesmo voluntária, e acabe adquirindo a cultura de outros povos na qual não faz parte. Esse processo faz com que muitas culturas sejam extintas, justamente por conta da mobilidade e desse fluxo de redes acelerado, em que algumas culturas e ideologias são compelidas.

O que é a Globalização?

A globalização é um processo de incorporação política, cultural, social e econômica. Esse acontecimento é causado pela inevitabilidade do capitalismo alcançar novos mercados, essencialmente quando o mercado atual está saturado. Mas esse capitalismo de mercado não necessariamente é algo agradável para todos, como Milton Santos (1994, p.18-19) deixa explícito:

Quando se fala em Mundo, está se falando, sobretudo, em Mercado que hoje, ao contrário de ontem, atravessa tudo, inclusive a consciência das pessoas. Mercado das coisas, inclusive a natureza; mercado das ideias, inclusive a ciência e a informação; mercado político. Justamente, a versão política dessa globalização perversa é a democracia de mercado. O neoliberalismo é o outro braço dessa globalização perversa, e ambos esses braços – democracia de mercado e neoliberalismo – são necessários para reduzir as possibilidades de afirmação das formas de viver cuja solidariedade é baseada na contiguidade, na vizinhança solidária, isto é, no território compartido.

Com a globalização, surgem o neoliberalismo e a democracia de mercado. Na perspectiva dos atores hegemônicos, na democracia de mercado o território é o suporte das redes. Essas redes carregam regras e normas utilitárias, parciais, parcializadas, egoístas, as verticalidades, enquanto as horizontalidades hoje debilitadas são obrigadas, com suas forças limitadas, considerando o número total de atores.

A atual tendência é que vários lugares sejam integrados verticalmente, e isso é e pode ser feito em qualquer lugar. O crédito internacional é fornecido aos países mais pobres, permitindo que a rede atenda a grandes capitais. No entanto, as localidades também podem ser integradas horizontalmente para reconstruir uma base comum de vida que pode estabelecer normas locais e regionais. Santos (1994, p.19), faz uma crítica quanto a isso:

Na união vertical, os vetores de modernização são entrópicos. Eles trazem desordem às regiões onde se instalam porque a ordem que criam é em seu próprio, exclusivo e egoístico benéfico. Se aumenta a coesão horizontal isso se dá ao serviço do mercado, mas tende a corroer a coesão horizontal que está a serviço da sociedade civil como um todo. Mas a eficácia dessa união vertical está sempre sendo posta em jogo e não sobrevive senão às custas de normas rígidas – ainda que se fale em neoliberalismo.

A globalização afeta a vida humana além do aspecto econômico, também afetando características culturais e sociais. O território que antes era conhecido como algo definido por fronteiras e era regulado por seu Estado, com a globalização perde essa definição e ganha um novo sentido, sendo vislumbrado como rede, conectando mercadorias, bens, serviços e pessoas. A globalização vem justamente da ideia de diminuição de poder do Estado como o principal ator nas etapas e práticas territoriais, como resultado diluição das fronteiras e do início e solidificação de uma identidade urbana, acontecendo assim, o que chamamos de desterritorialização (Mello e Paula, 2017, p.96).

O território se torna um ponto da rede global. As redes produzem uma aceleração, já que a sua principal característica é a informação, não apenas distribuindo, como também fazendo circular os dados. Por isso, grandes empresas como Facebook e Google são tão importantes, por contas da grande quantidade de informações que elas fazem circular. (KAHIL; PEREIRA, 2006, p.219)

Contudo, a chegada da globalização e a diminuição da distância, o acesso veloz à informação foi facilitado, como também a troca de opiniões. Mas um dos principais problemas é a desigualdade social que ela proporciona, na qual poder e renda estão principalmente concentrados nas mãos de poucas pessoas, o que vincula o problema às contradições do capitalismo. Além disso, há uma forma deturpada de comunicação entre os territórios, onde as culturas, os princípios e os valores são reproduzidos a partir de uma ideologia dominante. Assim, forma-se uma hegemonia de opiniões em que os mais poderosos exercem uma maior influência e até mesmo um controle perante as regiões menos favorecidos economicamente, ofuscando suas matrizes tradicionais.

Há também o que chamamos de barreiras, que podem ser visíveis – como muros nas fronteiras, exemplo, Muro de Berlim – ou invisíveis através de burocracias e segregação no direito de pertencer ou não a determinado território. Temos também o problema do acesso aos espaços e seus recursos naturais, gerando consequências para tais ações.

Claro que a globalização não trouxe apenas aspectos negativos ao mundo, a difusão do conhecimento, a comunicação entre regiões distantes que antes era quase impossível, estão entre os pontos positivos. Não podemos esquecer também da configuração do espaço geográfico internacional em redes, como: transporte, trocas comerciais, comunicação, Porém a positividade ou a negatividade sobre a globalização depende de quem aborda o assunto e qual é a sua ideologia empregada nesta análise.

Considerações Finais

Por meio da discussão apresentada, é possível perceber como o conceito de território tem se tornado cada vez mais flexível e relevante ao seu contexto. Por muito tempo, os territórios foram vinculados à ideia de poder nacional por meio do estabelecimento e manutenção de fronteiras. Com a globalização, os questionamentos sobre esses componentes surgem, pois não haveria mais uma identidade nacional e sim global. Assim como o rápido fluxo de informações, pessoas, capitais, bens e mercadorias.

Percebemos também, que a globalização pode ser extremamente importante e positiva – através da circulação do conhecimento -, como pode ser excludente e negativa – como as segregações que ocorrem a partir dos atores mais poderosos – dependendo do ponto de vista e de quem a analisa. Mas o fato é que, sim, a globalização transformou e transforma o conceito de território, bem como o território também muda a percepção de globalização.

Referências Bibliográficas

SANTOS, Milton; SOUZA, Maria Adélia A. de; SILVEIRA, Maria Laura. Território: Globalização e Fragmentação. São Paulo: HUCITEC, 1998.

CATAIA, Marcio Antonio. Território Político: Fundamento e Fundação do Estado. Uberlândia: Sociedade & Natureza, 2011.

HAESBAERT, Rogério; LIMONAD, Ester. O Território Em Tempos de Globalização. Revista Eletrônica de Ciências Sociais Aplicadas, vol. 1, 2007.

PAULA, Sara Aparecida de; MELLO, Leonardo Freire de. Território e Sociedade na Era da Globalização: Apontamentos teóricos sobre os Novos Muros na Europa. Iandé Ciências e Humanidades, 2017.

PEREIRA, Mirlei Fachini Vicente; KAHIL, Samira Peduti. O território e as redes: considerações a partir das estratégias de grandes empresas. Rio Claro: Programa de Pós-Graduação em Geografia, IGCE-UNESP/AGETEO, 2006. p. 219.

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