A Descaracterização de Herói e a Crítica em Chapolin Colorado

A Descaracterização de Herói e a Crítica em Chapolin Colorado 1

Criado por Roberto Gómez Bolaños, Chapolin Colorado é um seriado que foi exibido em original entre os anos de 1970 e 1979 e no início dos anos 1980 já como parte de outro programa. Com um humor simples e puro, um programa com classificação indicativa para todas as idades, foi sucesso em seu país de origem, bem como em todos outros países da América Latina, estando até hoje na programação diária de vários destes Estados. O objetivo deste trabalho é apresentar como o personagem Chapolin Colorado é caraterizado (e descrito), dentro do contexto mexicano, e os significados das expressões utilizadas pelo herói, fazendo uma breve análise com relação aos heróis consagrados do cinema norte-americano e a crítica que Bolaños traz em seu seriado.

Ao tratar deste objeto de estudos é feita uma pesquisa bibliográfica qualitativa, através do método analítico dedutivo – descritivo e explicativo. Primeiro, são apresentados alguns conceitos e definições sobre herói, anti-herói e outros conceitos a serem trabalhados no segmento do trabalho. Na sequência é feito um breve contexto histórico da época da criação do personagem, quem foi Roberto Gómez Bolaños – criador e intérprete do personagem – e a caracterização do herói latino-americano. Por fim, é feita a análise através dos conceitos estabelecidos de herói e anti-herói e levantada a questão das críticas feitas no seriado, analisando as expressões utilizadas e as sátiras construídas em suas estórias.

Referencial teórico

Para tratar do tema proposto, faz-se necessário apresentar alguns conceitos que julgamos importante para uma melhor compreensão do que será analisado. Em um primeiro momento, apresentamos e trazemos a conceptualização de um herói, bem como suas origens e principais características, de acordo com alguns dos autores que versam sobre a temática. Em um segundo momento, faz-se a caracterização de anti-herói e, por fim, são abordados alguns conceitos de Meyer (2015) sobre relações interculturais.

Conceitos de Herói e suas formas

Heróis são pessoas reais ou imaginárias com caraterísticas altamente valorizadas em uma cultura servindo como modelo de comportamento. O Batman, o Snoopy ou até mesmo a Barbie nos Estados Unidos, o Asterix na França e o Mr. Bumble na Holanda serviram como heróis culturais. E, nesta era da televisão, a aparência se tornou muito mais importante do que era antes (Hofstede, Hofstede, & Minkov, 2010).

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De acordo com Sullivan e Venter (2010), o termo é entendido como um indivíduo visto positivamente; para alguns, é visto como uma criação e um serviço para a sociedade em geral, refletindo valores e comportamentos sociais dominantes, contribuindo para a integração social, fornecendo um ponto de transcendência para as pessoas comuns atingirem experiências antes inacessíveis. Outros identificam-nos com base em suas realizações e, especificamente, por atos de coragem ou ações altruístas. Apesar das diferenças entre as opiniões, estas definições mantém a ideia de que os heróis são indivíduos colocados em posições públicas devido a algum feito ou qualidade que possuam. Os heróis foram definidos como aqueles que servem como modelos individuais de conduta pessoal, aspirações e ações.

Além disso, podem representar a autoimagem das pessoas que identificam, em si mesmas, certas qualidades, mas que gostariam de desenvolvê-las. Seguindo esta ideia, a figura heroica pode servir como modelo que forma a base de um possível “eu”, que então poderá ser desenvolvido seguindo este modelo. Assim, o herói pode ser o que possui uma habilidade, trato ou posição que inspire um indivíduo a imitá-lo e se esforçar para atingir seus objetivos. Pode-se dizer que, dentre tantas definições de heróis, diferentes grupos sociais podem ter diferentes conceitos para herói dentro de uma mesma cultura (Sullivan & Venter, 2010; Keczer, File, Orosz & Zimbardo, 2016).

Os heróis podem vir em muitas variedades como os que desejam ser heróis e os que são sem desejar, heróis que atuam em grupo ou heróis solitários, além do anti-herói e dos heróis trágicos. E, embora geralmente tratados por uma visão positiva, eles podem expressar lados sombrios ou até negativos do ego. Mas o arquétipo do herói geralmente representa o ser humano em ações positivas, podendo demonstrar as consequências da fraqueza e da relutância em agir (Vogler, 2007).

O termo super-herói pode ser dividido em algumas categorias: (1) humanos com habilidades sobre-humanas; (2) vigilantes; e (3) deuses, deusas, alienígenas e robôs. Os primeiros são caraterizados por terem algum tipo de habilidade inata superior à dos humanos normais. Estas habilidades podem ser, por exemplo, a capacidade de voar, a invisibilidade ou uma força descomunal. Típicos heróis que se enquadram neste critério são o Homem-Aranha e o Hulk (Russell, 2013).

A segunda categoria, a dos vigilantes fantasiados, é a que representa os personagens que não tem habilidades sobre-humanas, mas que possuem algum tipo de habilidade ou uma excelente forma atlética que é útil para o combate ao crime. Neste caso, os exemplos mais conhecidos são o do Batman, o Arqueiro Verde e o Homem de Ferro. A última categoria é a categoria de “todo o resto”, onde estão inclusos deuses e deusas (como Thor e Ares), alienígenas (como o Super-Homem) e robôs (o Visão e Tornado Vermelho). Suas habilidades e origens são bem variadas, mas, em geral, possuem habilidades iguais aos dos super-humanos. Este grupo coloca ainda um esforço extra para se misturar na sociedade quando não estão em suas aparências de heróis (Russell, 2013).

Conceito de Anti-herói

O conceito de anti-herói pode causar muita confusão, pois um anti-herói não é o oposto de um herói, mas um tipo do mesmo, que pode ser um fora-da-lei ou até mesmo um vilão do ponto de vista da sociedade, mas que tem a simpatia de quem o vê. Nos identificamos com estes estranhos porque todos nos sentimos estranhos uma vez ou outra. O anti-herói pode ser classificado em duas categorias: (1) os que possuem muito em comum com heróis convencionais mas tem um forte toque de cinismo ou qualidades feridas; ou (2) os heróis trágicos, figuras centrais de uma história que podem não ser admiráveis ou até simpáticos, que agem de maneira que podemos considerar deplorável certas vezes (Vogler, 2007).

O primeiro caso de anti-herói pode ser um solitário que foi rejeitado pela sociedade ou a rejeitou. Eles podem ganhar no final e ter a simpatia da sociedade, mas são marginalizados, como o Robin Hood. Geralmente são homens honrados que saíram da corrupção da sociedade, ex-policiais ou soldados que se desiludem e operam então à sombra da lei. Eles são amados por serem rebeldes, não se importando com o julgamento da sociedade, como muitas pessoas gostariam de agir. A segunda categoria de anti-herói é a da ideia clássica do herói trágico. Os heróis defeituosos que nunca superam seus próprios medos, temores internos, e são derrotados por eles. Eles podem ser encantadores e com qualidades admiráveis, mas no final seus demônios internos é que se sobressaem (Vogler, 2007).

O que difere um anti-herói de um vilão é o seu código ético, as normas que ele segue para intervir na sociedade, a sua conduta (Bone, 2014 como citado em Baranita, 2015). O herói é apresentado, na maioria dos casos, como a versão melhorada de uma pessoa comum, porque enquanto nos identificamos com ele e admiramos o personagem, percebemos que ele é melhor certos aspectos, enquanto que no caso do anti-herói acontece ao contrário (Plencner, Kraľovičová & Stropko, 2014 como citado em Baranita, 2015).

Alguns conceitos de Meyer sobre relações interculturais

Para destacar alguns pontos dentro do seriado Chapolin, cabe aqui pontuar alguns conceitos sobre relações interculturais estabelecidos por Meyer (2015) em seu livro The Culture Map. A relatividade cultural é o ponto central para se entender o impacto da cultura nas interações sociais, bem como entender como as culturas internacionais compreendem umas às outras. No que tange a comunicação, a linguagem a reflete nos diversos estilos culturais que usam de tal linguagem, por exemplo, o japonês e o hindi são línguas de alto contexto, nas quais uma alta quantidade de palavras pode ter diversos significados (Meyer, 2015).

Os Estados Unidos, por exemplo, possuem a cultura de mais baixo contexto do mundo. O Brasil e o México, se comparados aos EUA e ao Japão, ficam em um meio termo. Mas se comparados somente aos EUA, os Estados brasileiro e mexicano são de alto contexto. Como definições desenvolvidas originalmente pelo antropologista norte-americano Edward Hall, uma boa comunicação de baixo contexto é precisa, simples e clara, enquanto que a de alto contexto é sofisticada, diversificada e dita nas entrelinhas (Meyer, 2015). Estes conceitos serão importantes para a diferenciação dos personagens mais tarde.

BREVE CONTEXTO HISTÓRICO, O CRIADOR E O PERSONAGEM

Todo processo histórico latino americano é muito complexo, envolvendo colonização, lutas pela independência e o empenho pela formação de uma identidade nacional. E, apesar da emancipação política adquirida pelos países latinos, eles se depararam com a crescente potência norte-americana que, desde o século XIX, desenvolveu uma política imperialista no que tange a todo continente americano, através de doutrinas como o Destino Manifesto e a Doutrina Monroe. Para que isso ocorresse, entretanto, fazia-se necessária uma justificativa ideológica para legitimar a dominação (Silva, Andrade, Paiva, Sousa, & Souza, 2012).

Tal processo é perceptível, em grande parte, no âmbito cultural e facilitado pelo desenvolvimento da indústria cultural estadunidense, sendo digno que eram de destaque os “heróis” que engrandecessem a nação e também a propagação do American Way of Life através dos meios de comunicação de massa. (Silva et al., 2012, pp. 19-20).

Durante todo o século XX a América Latina passou por amplas tensões sociais e distúrbios no âmbito político e econômico, originados pela fragilidade do continente no cenário internacional. Com a consolidação do sistema capitalista, a América Latina permaneceu em uma condição de periferia, dependente do capital internacional e sob a influência ideológica e cultural das superpotências, em especial, os Estados Unidos (Silva et al., 2012).

O Chapolin Colorado surgiu em um momento difícil da América Latina, no contexto da Guerra Fria, disputada pelos dois blocos antagônicos: o capitalista, representado pelos Estados Unidos, e o socialista, com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A partir da metade do século XX, A América Latina passou por um processo mais célere de urbanização e industrialização (Silva et al., 2012). Argentina, México e Brasil foram os que deram as melhores respostas no pós-Segunda Guerra, conseguindo diversificar suas economias e convertendo-se nos países com o maior desenvolvimento industrial da região (Moreira, Quinteros, & Silva, 2010).

Apesar desta modernização, nenhum deles tornou-se desenvolvido e antigos e novos problemas assolavam a região, impedindo sua modernização, como a concentração de renda, a pobreza e a desigualdade social. Estes problemas levaram a uma grande pressão por justiça social, melhor distribuição de renda e igualdade e reformas radicais (como o caso da reforma agrária). Estas pressões visavam combater a ordem vigente e o capital estrangeiro – especialmente norte-americano – que aparecia em sua forma mais concentrada, através do imperialismo (Silva et al., 2012). Estas, são algumas das críticas levantadas pelo Chapolin através do humor.

O criador

Chapolin Colorado (do espanhol, El Chapulín Colorado) é um personagem criado e interpretado por Roberto Gómez Bolaños, transmitido em original entre 1970 e 1979 na televisão mexicana e passando, em muitos países da América Latina, até hoje na programação fixa de emissoras regionais, como no caso do Brasil (Rodrigues, 2016).

Nascido em 1929 na Cidade do México e conhecido também pelo seu trabalho com Chaves (do espanhol, El Chavo del Ocho) – o outro seriado humorístico do autor e intérprete –, Bolaños recebeu o apelido de Chespirito, uma analogia feita pelo diretor de cinema Agustín Delgado ao nome inglês Shakespeare no diminutivo, e o assumiu em seu programa. Além dos seriados, Chespirito gravou 3 filmes – dentre eles, El Chanfle –, produziu uma novela, além de protagonizar uma obra de teatro. Sendo um dos atores de comédia mais conhecidos da América Latina, Bolaños lutou contra doenças respiratórias e a diabetes nos últimos 10 anos de sua vida. Morreu em 2014, com 85 anos (Cardoso, 2009; Nájar, 2014).

O personagem principal

O Chapolin (Anexo 1) possui um traje bastante peculiar: consiste em uma roupa vermelha, bermuda e tênis amarelos, com um coração – também amarelo – no peito, onde se encontram as letras iniciais de seu nome, CH, que fazem alusão a um besouro comestível e conhecido popularmente no México pelo nome chapuline. Ele possui antenas que detectam a presença do inimigo (em uma clara alusão ao sentido aranha, do Homem Aranha, da Marvel Comics). Sua arma, uma marreta biônica, é uma referência ao martelo do super-herói Thor – também da Marvel (Rodrigues, 2016). A cor do seu uniforme tem uma origem também bastante interessante: o vermelho foi escolhido (após descartar o azul) devido a técnica de filmagem Chroma Key. Além do descarte do azul, Bolaños havia pensado no branco e também no preto, descartados pela possibilidade de problemas com reflexos e por lembrar o luto, respectivamente (Joly, Thuler, & Franco, 2012).

O personagem principal – de nome homônimo ao programa – é uma sátira a figura do super-herói com as brincadeiras e piadas feitas, além dos personagens extravagantes e as situações absurdas apresentadas dentro da série (Santos, 2015). É “um anti-herói latino-americano”, de acordo com Cardoso (2009, p. 154). Também conhecido como Vermelhinho e Polegar Vermelho (no Brasil), ele é um herói que descontrói o conceito de herói como um verdadeiro deus. Através do discurso, faz críticas ao modelo norte-americano que é imposto aos Estados da América Latina, por meio da mídia – televisão, rádio – para satirizar esta imposição e aceitação da indústria cultural nos países latino-americanos, neste período conturbado para o continente que foi durante as décadas de 1960 e 1970 (Silva et al., 2012).

A crítica feita por Roberto Bolaños é justamente através do modo de agir contrário à lógica capitalista – Chapolin elogia o ócio, não possui nem bens materiais nem dinheiro, quem dirá poderes especiais ou armas muito poderosas. Ele é atrapalhado, engraçado e, apesar de herói, não pratica atos grandiosos como salvar o mundo ou destruir os inimigos da humanidade. Ele é “um contraponto a redução da vida ao materialismo, a superioridade étnica, ao Destino Manifesto de um determinado povo como o enquadramento imposto pela ideologia capitalista norte-americana” (Silva et al., 2012, p. 24). A intenção do personagem era satirizar a imagem que os Estados Unidos faziam (e fazem ainda) dos povos latino-americanos, mostrando que olhar para o que deu certo nas sociedades desenvolvidas capitalistas nunca foi a solução para a América Latina, ou seja, nunca foi adaptar dos moldes estrangeiros ou fazer uma cópia dos mesmos (Silva et al., 2012).

As piadas não eram datadas, o humor era abrangente e, deste modo, mais comercial e menos político – sem deixar de ser politizado, até pelo fato do Polegar Vermelho se auto intitular herói do Terceiro Mundo. O detalhe é que é um herói diferente: desastrado, com medo, ou seja, humano com uma honestidade descomunal, de acordo com Kaschner (2006 como citado em Cardoso, 2009).

Ele é estabanado e muitas das trapalhadas lembram as da comédia “O Gordo e o Magro”, bem como as do personagem de Charlie Chaplin. Locutor de frases como “Sigam-me os bons!”, “Não contavam com minha astúcia!”, “Calma, calma, não criemos pânico!”, seu embaraço é tão grande que, em momentos de apreensão, o personagem troca as palavras desta última frase por “Palma, palma, não priemos cânico” (Buckowski, 2011; Silva et al., 2012).

Recentemente, até como uma forma de homenagem, foi anunciada a criação de uma super-heroína pela Marvel – nomeada The Red Locust –, inspirada no Chapolin Colorado. Seu uniforme em vermelho traz o coração amarelo ao peito e as antenas caraterísticas do Chapolin (Segura, 2017).

A DESCARACTERIZAÇÃO DO HERÓI TRADICIONAL E A CRÍTICA NO PROGRAMA HUMORÍSTICO

O Chapolin Colorado é uma sátira aos modelos de heróis construídos pelos Estados Unidos, com superpoderes e a bela estética. Ele é “um herói atrapalhado, feio, magro, medroso, sem nenhum tipo de poder, com poucos recursos e, além disso, mulherengo” (Silva et al., 2012, p. 27).

O Batman e o Arqueiro Verde, enquadrados na categoria de Vigilantes, são os que mais se aproximam na caracterização de herói como base para o Chapolin, por serem humanos fantasiados a defender as pessoas. O Super-Homem, enquadrado na tipificação três dos heróis, sendo ele um alienígena, fica bem distinto da conceptualização trazida ao Polegar Vermelho. Mas todos diferem do nosso personagem pelos recursos disponíveis e, inclusive, pela forma física e beleza. Em uma caracterização como a de Anti-herói, no caso do Deadpool, até pode-se trazer a questão da beleza do personagem, que tem o rosto desfigurado, mas difere-se muito pela questão de ele ter sofrido uma mutação genética, possuindo assim habilidades como a de se regenerar.

Por ser este herói desastrado, medroso, honesto e, enfim, muito mais humano, seus inimigos muitas vezes o ridicularizam e se aproveitam desta situação. Ao incorporar esta ideia de um super-herói mais humano, com seus defeitos, desprovido de coragem e força, o que se pode dizer de um herói que, perguntado se ficaria parado perante o surgimento de um vilão, responde “Como parado? Minhas pernas estão tremendo!”. O humor apresentado em todo seriado tem uma conotação política sem precisar para isso ser agressivo, visto que não apresenta nenhuma revelação contundente, mas muitas sátiras suaves, conforme Kaschner (2006 como citado em Cardoso, 2009).

O personagem também é caracterizado por sua linguagem de alto contexto, simbólico do povo latino-americano, ainda mais se comparado a linguagem de baixo contexto norte-americana (Meyer, 2015). Em situações de medo, expressa sua vontade nas entrelinhas ou fazendo piadas, como quando solicitado, em diversas ocasiões, que enfrentasse diretamente os vilões, o herói responde com um “eu vou, eu vou…”, ficando estático em sua posição, expressando seu medo através da linguagem corporal.

Com estas características muito humanas, o Vermelhinho enfrente primeiros seus próprios medos, além de suas trapalhadas, para combater seus inimigos (Prado & Gomes, 2011, p. 47). E, ao contrário dos heróis norte-americanos, que salvam o mundo com seus superpoderes, a atuação do Chapolin está centrada em problemas cotidianos da população da América Latina. Ou seja, ele salva uma família que vai ser despejada por não pagar o aluguel, defende uma manicure de uma barbearia que está cansada dos abusos do chefe e dos clientes, protege um hotel da iminência de invasão de um bandido que está a solta (Silva et al., 2012). E, também contrário aos heróis clássicos – como alguns dos apresentados –, ele nem sempre ganha, como qualquer ser humano (Buckowski, 2011).

A característica temática do humorístico com relação a influência estrangeira nos países subdesenvolvidos é recorrente nos episódios, com sátiras e citações irônicas aos super-heróis norte-americanos. No episódio “O descobrimento da tribo perdida”, de 1973, um dos personagens que evoca o Chapolin zomba-o dizendo que teria sido melhor chamar o Batman ao invés do Polegar Vermelho. Prontamente, o herói latino responde “em primeiro lugar, Batman não está porque ele está em lua de mel com o Robin” (Silva et al., 2012; Santos, 2015).

Neste mesmo esquete, o herói afirma que irá ganhar dos índios “graças as facilidades da civilização moderna”. Ele continua sua explicação ao índio chefe da tribo: “…eu, homem branco, bom, venho com aviões, bombardeiros. Você sabe? Aviões? Avião? Pássaro de metal que voa? Por acaso já viu pássaro de metal voando?”; o índio prontamente responde “só os jatos da American Airlines”. Em outro episódio, “O pelotão de fuzilamento”, do ano de 1976, ao utilizar um cipó para se deslocar de um local ao outro, Chapolin comenta que inventou este método de deslocamento há muito tempo e ensinou esta técnica “a um tal de Tarzan dos macacos, mas ele não aprendeu bem não” (Silva et al., 2012; Santos, 2015).

No programa há também um personagem que critica de forma bem-humorada o capitalismo – o Super Sam (Prado & Gomes, 2011). Super Sam é o paradigma do poderio estadunidense. Utiliza um uniforme idêntico ao do Super-Homem. Seu sotaque é “carregado” e emprega sempre a expressão “Time is money, oh yeah!”. Além de usar uma cartola com a bandeira dos Estados Unidos (lembrando a cartola do Tio Sam), sua arma é um saco de dinheiro que leva sempre em suas mãos. Ele geralmente aparece quando alguém chama pelo Chapolin, mas como surge sem ser chamado, suas aparições têm caráter de intromissão nos mandatos do herói latino. No episódio “Hospedaria sem estrelas”, originalmente exibido em 1977, podemos ver isto muito bem exemplificado: quando um dos personagens, ao invocar Chapolin, se depara com a aparição do Super Sam, indagando-o: “eu estava pensando que quem vinha me ajudar era o Chapolin Colorado… porque ele é o maior herói da América” (Silva et al., 2012).

A Descaracterização de Herói e a Crítica em Chapolin Colorado 9

Este episódio é carregado de representações da relação entre os EUA e América Latina. Em um hotel, com somente um quarto disponível, os dois heróis acabam por ser atendidos por dois personagens distintos que os colocam no mesmo quarto, sem perceberem um ao outro em momento algum – quando um está no quarto, o outro está no banheiro ou fora do cômodo. Ao chegar, o mexicano carrega apenas uma bagagem, demostrando a sua descrição e humildade, enquanto que o norte-americano carrega cinco pesadas malas, representando o excesso e o consumismo de seu país. No mesmo cômodo, a América Latina e os EUA entram em conflito: enquanto o Vermelhinho fecha janela do quarto, o Super Sam a prefere aberta. O herói norte-americano prepara seu café-da-manhã sozinho (o individualismo que está presente nos super-heróis e, principalmente, na sociedade norte-americana) e é o herói latino quem o come. Na hora de dormir, sem perceber, os dois heróis passaram a noite na mesma cama (Santos, 2015).

Em outro episódio importante em que Super Sam aparece, “Livrai-nos dos metidos, Senhor”, de 1973, um bandido soviético chamado Dimitri Panzov deseja casar-se com uma camponesa que já está comprometida. A camponesa, ao chamar pelo herói, percebe que quem surge é o herói errado, Super Sam. Ela então insiste que quer ser ajudada por “um dos seus”. Chapolin aparece já caindo, como de costume, e é apresentado ao Super Sam, que “veio para salvar a bonita senhorita”. O Polegar Vermelho se enche de patriotismo ao afirmar para o herói norte-americano que ele “está completamente enganado! Aqui não queremos heróis importados!” (Silva et al., 2012).

Os heróis duelam para decidir quem irá proteger a senhorita, que enquanto isso, é raptada, presa e amarada a uma bomba dentro de casa por Panzov. Chapolin corre do vilão soviético que, cansado, é levado a marretadas para dentro da casa da camponesa. Enquanto isso, Super Sam aproveitou desta perseguição para entrar na casa e desprender a camponesa que já havia se soltado e se encontrado com o noivo. A última cena do episódio é a mais impactante – do ponto de vista da crítica à Guerra Fria: com o soviético e o norte-americano dentro de casa, Chapolin acidentalmente senta no detonador da bomba, que explode. Da casa saem Dimitri Panzov e Super Sam – o soviético usando a cartola do herói americano e o estadunidense o chapéu russo. É a resposta do povo mexicano às duas superpotências da Guerra Fria: fora de nosso país (Silva et al., 2012; Santos, 2015).

Além disso, é possível ver a crítica social ao se fazer uma análise de algumas das frases principais ditas pelo personagem; quando soluciona alguma missão, sua frase clássica é “não contavam com minha astúcia!”. A frase pode remeter com fácil compreensão à ideia europeia e norte-americana quanto ao fracasso no âmbito político e econômico da América Latina. Entretanto, quando profere a chamada “sigam-me os bons!”, é exatamente uma resposta a esta ideia. “Os bons”, seria o povo latino-americano. Tendo o seu próprio herói, não necessitam dos “importados” norte-americanos, que julgam tão mal a América Latina (Silva et al., 2012).

Detentor de certa moral, Chapolin ensina os demais personagens através de suas histórias, de mesmo modo como alguns pais ensinam seus filhos. Ele as transforma, tirando do classicismo para o lado pedagógico, conta-as e ao final trata o que é certo e o que é errado nelas. É exatamente o que acontece no episódio “De acordo com o Diabo”, no qual o Polegar vermelho conta a história de Fausto para ensinar ao vilão sobre ambição (Buckowski, 2011).

Afora esta história, o seriado traz algumas outras reinterpretações de clássicos, como em “Julieu e Romieta” – uma versão de Romeu e Julieta (1597), de William Shakespeare –, “A História de Don Juan Tenorio” – retratando a obra Don Juan Tenorio, um drama publicado em 1844 por José Zorrilla –, “Branca de Neve e os sete Tchuim Tchuim Tchum Claim” (A Branca de Neve, dos irmãos Grimm), entre outros. Há ainda as incursões nas quais são retratadas histórias como as do herói suíço Guilherme Tell (retratado em “A história de Guilherme Tell”), do pianista polonês-francês Frédéric Chopin (“A fortuna de Frederic Chopin”), do navegador e explorador italiano Cristóvão Colombo (“A história de Cristóvão Colombo”), além de “O show deve continuar”, dividido em 6 partes, no qual são feitas inúmeras referências cinematográficas, como A Pantera Cor-de-Rosa (filme de 1963), Dom Quixote (de 1947) e, claro, sem deixar de homenagear Charlie Chaplin e também a série “O Gordo e o Magro”.

É importante salientar, que a série El Chapulín Colorado se enquadra bem nos moldes da narrativa trivial. Tal narrativa se caracteriza pelo automatismo, pela repetição e pelos clichês, em nível de enredo, personagens, temário, valores e final. Esse tipo de narrativa tem como propósito atingir a massa popular e como seu principal instrumento a televisão. Mesmo tendo caráter crítico, a série se enquadra nessa diretriz, pois tem caráter comercial, é feito para criticar, mas também para vender, usando como ferramenta o humor. (Silva et al., 2012, p. 30).

Estas paródias, como as citadas acima, são feitas por Roberto Gómez Bolaños com dois propósitos: por um lado, meramente pedagógica, pois visando atingir o público de todas as idades tem a responsabilidade de formar pessoas. Colocando o Chapolin colorado a contar a história de Fausto, ele está ensinando – indiretamente – as pessoas de casa que não se deve ambicionar o poder para benefício próprio, pois algo de ruim poderá acontecer. Por outro lado, tem a intenção de levar através da massa uma cultura letrada, homenageando trabalhos como o de Goethe que ainda hoje são transmitidos mundialmente – de modo mais especial, na América Latina (Buckowski, 2011).

Considerações Finais

Do momento em que Roberto Bolaños cria e interpreta seu herói, suas intenções sempre foram claras: trazer uma sátira aos heróis norte-americanos e apresentar uma versão que represente a visão estadunidense sobre o povo da América Latina – desastrado, medroso, sem poderes, magro e com recursos escassos. Ele foge aos principais conceitos de herói apresentados, pois com suas características muito humanas, enfrenta primeiro seus medos e trapalhadas para conseguir enfrentar seus inimigos. E não possuindo superpoderes, sua atuação é focada em ajudar a população latino-americana em seus problemas cotidianos. Sua principal virtude como herói é a bondade que traz em seu coração e a vontade em ajudar os outros.

A representação da influência estrangeira nos países subdesenvolvidos, a criação de um personagem que expressa o paradigma do poderio estadunidense – o Super Sam – e que só aparece em momentos inoportunos e com caráter de intromissão, as expressões emblemáticas do Polegar Vermelho, como “Sigam-me os bons” e “Não contavam com minha astúcia!”, a linguagem de alto contexto contrastada a de baixo contexto apresentada por Super Sam (cujo lema é “tempo é dinheiro”), são apenas alguns dos aspectos da crítica elaborada por Bolaños no contexto da exibição do seriado, que sempre deve ser lembrado: a Guerra Fria.

E é deste modo que as críticas de Chespirito estão presentes: demonstradas ao longo deste trabalho, sutis e de caráter comercial, apresentadas através do humor. Estas paródias, feitas para atingir o público de todas as idades, com a responsabilidade de formar pessoas, bem como levar a população uma cultura letrada homenageando diversos personagens célebres da literatura, da televisão e até da vida real.

Referências

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About the Author

Meu nome é Cristhofer Weiland sou mestre em História, Relações Internacionais e Cooperação, entusiasta desta área e do segmento de negócios, mercados e tecnologias, especialista em cooperação internacional, integração regional e relações interculturais. Terminei minha graduação em 2012 na Universidade de Santa Cruz do Sul, minha pós-graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2014 e em 2016 me mudei para Portugal para alcançar meu objetivo de ser mestre em Relações Internacionais – meta concluída com sucesso em julho de 2018. Desde 2013 trabalho com vendas, fazendo o elo entre as indústrias e os supermercados do Rio Grande do Sul. Desde 2016, quando me mudei para Portugal, sou o sócio-gerente desta empresa, atuo como professor de inglês (desde 2018) e professor de Relações Internacionais na Agência Relações Internacionais (desde junho de 2020). Trabalhei também em uma empresa multinacional americana em Portugal (em 2020) e estou sempre em busca de novos desafios.

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