A teoria de Wallerstein: a posição chinesa no sistema-mundo diante da pandemia

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O ano de 2020 será marcado, em certos países, por uma instabilidade política, mas no cenário internacional o que marcará mesmo será a pandemia (COVID-19). O primeiro caso registrado foi em dezembro de 2019, na China (Wuhan), nos mercados exóticos (com animais silvestres) que existem no país. Uma doença do gênero não é a primeira vez que o mundo assiste, outras como SARS, MERS, Ebola, por exemplo, já assolaram o mundo.

Porém, seus respectivos impactos dependeram de alguns fatores comparando com a atual pandemia. Tomando o caso da Ebola, que é uma doença mais crítica em relação às outras, uma vez que a sua taxa de letalidade (51%) é maior, não impactou tanto o mundo devido seu epicentro inicial. Por exemplo, a Serra Leoa foi um dos países mais impactados, e analisando os voos que partem da capital – Freetown – são só para cinco países: Marrocos, França, Bélgica, Turquia e Líbano. Então, observa-se que maneiras de dispersão do vírus foram e são mais difíceis.

Por sua vez, fazendo a mesma análise para Wuhan, os voos que partem da cidade chinesa é pelo menos cinco vezes mais que a cidade africana. Alguns países expressivos são: Itália, Rússia, Inglaterra, Turquia, Emirados Árabes, Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão. Se caminharmos mais para o norte chinês temos Beijing, capital do país, que possui uma maior capilaridade de voos. Em relação aos Estados Unidos o número de cidades aumenta pelo menos seis vezes comparando com o epicentro chinês, Wuhan, assim como para a Europa há um aumento na conexão “eurásia”. Isso descartando cidades mais próximas e populosas, como Xangai.

O motivo desta escrita não é analisar a amplitude do novo coronavírus, ou seja, a capilaridade dele comparado as outras doenças já assistidas, bem como sua disseminação. A finalidade é trazer a teoria sistema-mundo (TSM) capitalista (Análise dos Sistemas-Mundo) de Immanuel Wallerstein para entender a posição da China na pandemia. De antemão o sociólogo enxerga por “análise dos sistemas-mundo”:

Boletim de Análises Internacionais


Conteúdo exclusivo para analistas e profissionais que querem entender o campo internacional por meio de análises elaboradas por especialistas. Boletim enviado todas as semanas.

[…] mais do que uma perspectiva; é também mais do que uma teoria, se é que é uma teoria. É um movimento do saber, e isso é de crucial importância para o desenvolvimento futuro das ciências sociais históricas. Um movimento do saber é um movimento social intelectual. (WALLERSTEIN, 2012, p. 17)

Tal análise é essencial, porque a pandemia mostrou uma dependência mundial ao país asiático, tendo em vista que grande parte de equipamentos de proteções individuais (EPIs) e equipamentos da área médica-hospitalar se encontra na China, para isso serão expostas três notícias da BBC News, Nexo Jornal e Época que ilustrarão algumas coisas a respeito.

Inicialmente cabe ressaltar sobre a hegemonia existente nas Teorias das Relações Internacionais que eram vistas, predominantemente, com a visão realista, entretanto, após o debate “neo x neo” (neorrealismo x neoliberalismo) maneiras alternativas de se enxergarem os estudos e os fatos internacionais começaram a surgir. Os olhos que antes eram voltados apenas para a política externa, poder, anarquia, soberania e, principalmente, segurança; agora olhavam para temas como “hegemonia, da emancipação e da desigualdade; a centralidade do Estado como ator; o meio ambiente; as questões culturais; a integração das estruturas econômicas na reflexão sobre a política mundial; […]” (NOGUEIRA; MESSARI, 2005, p.133). Tendo a Teoria Crítica como alicerce nessa ruptura hegemônica de pensar Relações Internacionais (RI).

Seguindo essa premissa o que se tem é um predomínio positivista na produção teórica nas RI, e a implicância disso é como o objeto de estudo é posto. Nas teorias “tradicionais” o objeto é visto como imutável – o Estado sendo o centro das ações, por exemplo -, ao passo que as teorias não-tradicionais, ou também chamadas de pós-positivistas parte de uma forma oposta. Nesse sentido, novamente, a teoria crítica traz um novo pensar, porque “procura identificar as possibilidades de mudança na realidade observada, analisando tensões e contradições que questionem o equilíbrio de uma certa ordem social” (NOGUEIRA; MESSARI, 2005, p. 137).

Agora, cabe explicar os três níveis hierárquicos do sistema internacional da TSM, e posteriormente entender a posição da China, que segundo a professora Isabela Nogueira, da UFRJ, chama de “relação virtuosa”, principalmente, com os Estados Unidos; pois os norte-americanos olham com bons olhos a capacidade expressiva chinesa. O que dá para entender o motivo da atual posição chinesa. Portanto, os níveis são: centro, periferia e semiperiferia. Porém, essa análise é de caráter volátil, dado que “os Estados do centro podem converter-se em semiperiféricos e os semiperiféricos em periféricos” (ARRUDA, 1983, p. 172), e isso não influência na essência do sistema e análise.

O primeiro nível, é onde se encontra os países que detêm produtos de alto valor agregado, tecnologias avançadas, mão de obra valorizada. O segundo nível, “uma economia-mundo […], produtora de bens cuja mão de obra é mal remunerada, mas que é parte integrante do sistema global da divisão de trabalho, dado que as mercadorias produzidas são essenciais para seu uso diário” (ARRUDA, 1983, p. 171), ou seja, de bens de baixa categoria.

O terceiro nível, por sua vez, é o que desenvolve dois papeis dependendo das circunstâncias, ou seja, “que estão entre o centro e a periferia em variadas condições, tais como a complexidade das atividades econômicas, a força do aparato do Estado, a integração cultural” (ARRUDA, 1983, p. 172), pois, dependendo da análise países semiperiféricos podem ser centro em relação à periferia, e periferia em relação aos países centrais. Também são conhecidos como “amortecedores” do sistema-mundo (Brasil e China são exemplos).

Um quadro síntese Martins (2015) trará elementos políticos e culturais que “são importantes para caracterizar e definir se um país faz parte do centro, semiperiferia ou da periferia do sistema-mundo” (MARTINS, 2015, p. 100).

NívelAspecto EconômicoAspecto PolíticoAspecto Cultural
CentroPaíses com produção de alto valor agregado tecnológico; produtor e exportador de tecnologia; mão de obra especializadaPaíses que são Estados fortes, tendo a capacidade de ampliar seu domínio para além de suas fronteirasPossuem forte identidade nacional e ampliam sua indentidade como referencial para além de suas fronteiras
Semi-periferiaPaíses de industrialização de baixo valor tecnológico agregado; não produz tecnologia, mas absorve; mão de obra semi-qualificada e não especializadaEstados que têm o controle de sua política interna, mas não exercem influência externaPossuem identidade cultural e nacional média
PeriferiaPaíses que produzem produtos primários apenas; mão de obra não especializadaEstados que nem possuem o controlde da sua política interna, nem exercem influência externaNão possuem identidade nacional ou é fragmentada, prevalendo identidades ética ou religiosa
Fonte: O próprio autor – baseado na obra de Wallerstein

Agora serão separadas as notícias, e entender também a ascensão chinesa, ao que a professora da UFRJ chama “relação virtuosa” com o centro, principalmente, com os EUA. Segue a ordem: 1) BBC News; 2) Nexo Jornal e 3) Época.

A respeito da primeira notícia, o jornal traz como países ocidentais evidenciaram uma dependência em relação à China no tocante à produtos médicos e hospitalares. De acordo com a BBC, “a China concentra mais da metade da produção de máscaras e cerca de um quinto no caso dos respiradores” (BBC NEWS BRASIL, 2020).

A falta de países possuírem autonomia, e evidenciando essa dependência gerou algumas tensões no cenário internacional. Notou-se o confisco de máscaras e alguns países sendo acusados de desviar equipamentos; ilustrando a natureza humana hobbesiana, que o “homem é o lobo do homem”, e até de certa forma o egoísmo de algumas nações.

A matéria ainda evidencia o isolamento brasileiro na diplomacia, e a necessidade do país se juntar a outros países latino-americanos para tentar concorrer com a demanda de países considerados ricos. Um pesquisador que concedeu uma entrevista à BBC afirma que “o isolamento diplomático do país na atual gestão deve complicar a possibilidade de ajuda internacional” (BBC NEWS BRASIL, 2020). Exemplo disso, foi a aliança feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para fomentar pesquisas, testes, vacinas contra a COVID-19.

Já o segundo jornal, busca trazer a respeito da indústria hospitalar brasileira. E para isso, o Nexo Jornal entrevista o pesquisador do Núcleo de Bioética e Ética Aplicada da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Reinaldo Guimarães. Segundo o pesquisador, o problema não foi só brasileiro, como também dos Estados Unidos, tendo em vista que a pandemia pegou os países de surpresa.

No que se diz respeito às mascaras, Guimarães afirma que o Brasil possui capacidade e o país não demonstra dificuldade para produção delas, como também aventais, equipamentos de proteção. Contudo, ele destaca que a problemática foi a demanda que aumentou em mil vezes, e ressalta que o país nesse sentido não apresenta deficiência tecnológica, único detalhe que quando a demanda aumenta, o que resta aos países é a importação para suprir o mercado interno.

Posteriormente, Reinaldo Guimarães pontua a dependência de 90% dos insumos que o Brasil usa, resultado da abertura comercial realizada pelo governo de Fernando Collor e Henrique Cardoso, “foi exatamente o momento em que a China e a Índia entraram como players globais nessa área de insumos farmacêuticos” (NEXO JORNAL, 2020), afirma o pesquisador. O ponto reflexivo dessa entrevista fica a respeito da lei brasileira de patentes, pois até então o que se fazia no país era engenharia reversa na produção de medicamentos.

Por fim, a última notícia analisada, a Época entrevista o empresário Ruy Baumer, diretor do Comitê da Cadeia Produtiva da Saúde e Biotecnologia da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP). Dois pontos cabem salientar: “Custo Brasil” e competitividade; eles estão interligados. Segundo Baumer, primeiramente deveria reduzir o chamado “Custo Brasil”. Este termo é muito usado no que se diz respeito aos problemas econômicos, fiscais e burocráticos, ou seja, pontos que influenciam diretamente a inserção, por exemplo, de produtos nacionais no mercado internacional.

Logo o “Custo Brasil” estará ligado, portanto, à competitividade, que segundo o empresário hoje, para produzir aqui o setor de saúde chega a pagar 48% de imposto. Na importação, o imposto é zero em todas as compras governamentais. Os hospitais classificados como sem fins lucrativos também não pagam imposto algum para importar, mas, se comprar no Brasil, paga. Como competir? (ÉPOCA, 2020)

É possível observar que as três notícias levam a concluir que a pandemia, um fenômeno que causa distúrbio nos mercados globais, torna o Brasil mais importador do que exportador na área médica-hospitalar. Ou seja, mostram a dependência até em nível global com a China, o que soa o alarme para os países em tornarem seus setores de saúde estratégico. Logo, leva a inferir que esse distúrbio corrobora para a mudança hierárquica na TSM.

 Há momentos de desequilíbrio estrutural nos mercados globais, durante os quais a capacidade produtiva e os custos altos não poderiam mais conviver com a falta de demanda e as margens de lucro elevadas. […] haveria uma mudança das bases produtivas para regiões do globo onde o custo de mão de obra e a perspectiva de geração de manda fossem promissores, abrindo a perspectiva para que países semiperiféricos ascendessem à condição de centrais (NOGUEIRA, 2008, pp. 48-49, grifos meus).   

Posto isso, é válido também salientar a capacidade de base manufatureira e produtiva chinesa, que demonstra uma expressividade diante outros países no sistema-mundo. E essa expressividade é vista com bons olhos para o centro, principalmente, os Estados Unidos.

É sob essa ótica que podemos caracterizar, do ponto de vista da geopolítica, o desenvolvimento chinês como um caso de “desenvolvimento a convite”, no qual a potencia expansiva, os Estados Unidos, colabora na criação de um adversário econômico ao mesmo tempo em que se beneficia das vantagens competitivas […] (NOGUEIRA, 2008, pp. 49-50).

Essa ascensão se deve pela posição que a China se encontra: como estágio final de produção. Os países semiperiféricos da região fornecem os chamados bens primários e a elaboração se encerra na China, ou seja, o país serve “de ‘fábrica final’ para a produção de bens que abastecem em grande medida as economias centrais” (NOGUEIRA, 2008, p. 43). O país, então, funciona como uma ponte do leste asiático para Estados centrais. E esse afloramento chinês é importante para novas avaliações nas relações econômicas entre a Ásia, União Europeia e Estados Unidos. Portanto, o afloramento chinês leva ao que ao que Nogueira (2008) chama de: “relação virtuosa” com o centro.

Por fim, o que se pode inferir é que a China por mais ocupa de fato a posição semiperiférica, mas em momento de crise como a atual, ela se mostra um país central em relação aos demais (semiperiféricos e periféricos, principalmente), isso inclui o Brasil. Nota-se, também, que ela visa se tornar um país central assim como outros da União Europeia e Estados Unidos. Cuja finalidade é “aprofundar laços políticos e econômicos com a ASEAN, garantir seu espaço de influencia e firmar-se como líder regional” (NOGUEIRA, 2008, p. 47), na sua escalada vertical no leste asiático.

Referências

ANTONIO ACCO, MARCO. Os Estados, o sistema-mundo capitalista e o sistema interestatal: uma leitura crítica das contribuições de Immanuel Wallerstein. Brazilian Journal of Political Economy/Revista de Economia Política, v. 38, n. 4, 2018.

ARRUDA, J. J. A. Immanuel Wallerstein e o moderno sistema mundial. Revista de História, n. 115, p. 167-174, 1983.

BBC NEWS BRASIL. Covid-19 expõe dependência de itens de saúde fabricados na China. 2020. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52465757. Acesso em: 20 maio 2020.

ÉPOCA. ‘CHINA VENDE PARA QUEM PAGA MAIS’, DIZ DIRETOR DE CADEIA PRODUTIVA DA SAÚDE. 2020. Disponível em: https://epoca.globo.com/sociedade/china-vende-para-quem-paga-mais-diz-diretor-de-cadeia-produtiva-da-saude-1-24352681. Acesso em: 20 maio 2020.

FOLHA DE SÃO PAULO. Letalidade do novo coronavírus é pouco maior que a do sarampo e bem menor que a do ebola. 2020. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/02/letalidade-do-novo-coronavirus-e-maior-que-a-do-sarampo-e-bem-menor-que-a-do-ebola.shtml. Acesso em: 20 maio 2020.

FLIGHT CONNECTIONS. Direct flights from Beijing (PEK). Disponível em: https://www.flightconnections.com/flights-from-beijing-pek. Acesso em: 20 maio 2020.

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GODOY, William. O homem é o lobo do homem. 2019. Disponível em: https://filosofianaescola.com/politica/o-homem-e-o-lobo-do-homem/. Acesso em: 20 maio 2020.

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MARTINS, J. R. Immanuel Wallerstein e o sistema-mundo: uma teoria ainda atual? Iberoamérica Social: revista-red de estúdios sociales (V), 2015, pp. 95-108. Disponível em: <http://iberoamericasocial.com/immanuel-wallerstein-e-o-sistema-mundo-uma-teoria-ainda-atual/>. Acessado em: 22 mai. 2020.

NEXO JORNAL. Por que a indústria hospitalar é tão dependente do exterior. 2020. Disponível em: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2020/04/27/Por-que-a-ind%C3%BAstria-hospitalar-%C3%A9-t%C3%A3o-dependente-do-exterior. Acesso em: 20 maio 2020.

NOGUEIRA, Isabela. O lugar da China na economia-mundo capitalista Wallersteiniana. Textos de Economia, v. 11, n. 1, p. 39-53, 2008.

NOGUEIRA, João Pontes; MESSARI, Nizar. Teoria das relações internacionais: correntes e debates. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

WALLERSTEIN, I. A análise dos sistemas-mundo como movimento do saber. In: Vieira, P. A., Lima Vieira, R., & Filomeno, F.A. (org.). O Brasil e o capitalismo histórico: passado e presente na análise dos sistemas-mundo. São Paulo: Cultura Acadêmica Ed., pp.17-28.

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Sobre o Autor

Graduando em Relações Internacionais na UNESP/Franca. Membro do Grupo de Estudos de Defesa e Segurança Internacional (GEDES). Bolsista PIBIC/CNPq. Pesquisador da Escola de Guerra Naval (EGN). Integrante da Equipe de Coordenação do projeto "As RI e o novo coronavírus".

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