As implicações do fim da parceria militar entre os Estados Unidos e o povo curdo O posicionamento internacional e as consequências para os curdos

Os curdos possuem grupos com particularidades e estão localizados em quatro regiões diferentes | Masoud Zada via Pixabay
A bandeira do curdistão representa a autonomia dos grupos étnicos, mas eles ainda almejam um território

Em 2019, o apoio financeiro e militar garantido pelos Estados Unidos ao povo curdo no combate ao Estado Islâmico teve seu fim. De acordo com Donald Trump, após a queda do Estado Islâmico, o apoio às Milícias Curdas não seria mais necessário devido à ideia de que o país estaria gastando, de forma desnecessária, em guerra de terceiros .

Tendo em vista que a população curda da Síria possuía um grande aliado contra o Estado Islâmico, e que isso lhe garantia uma estabilidade frente às investidas turcas, a chance de legitimidade regional poderia estar mais perto de ser alcançada. Contudo, essa mudança na política norte-americana quebrou as expectativas de legitimação, afastando ainda mais o ideal de um possível Estado-Nação curdo no Golfo Pérsico.

As múltiplas nacionalidades

Anteriormente à discussão da relação norte-americana com os curdos, é necessária a compreensão da diversidade de movimentos políticos desse grupo étnico localizado na região denominada Curdistão. Os curdos habitam uma região montanhosa entre cinco países, e são considerados o quarto maior grupo étnico do Oriente Médio, sendo o maior sem um Estado. Em suma, objetivam, de forma mais imediata, o reconhecimento e sistemas governamentais com maior representatividade. Além disso, esses povos administram as regiões que habitam, e como alguns pontos têm alta concentração de petróleo, há uma insatisfação entre os países que são exportadores de petróleo. Em alguns países, há um maior reconhecimento das áreas governadas pelos partidos curdos, enquanto em outros, como na Turquia, há maior problematização dessa autonomia.

Como visto na imagem ao lado, a região onde se localiza a população curda abrange quatro países principais: Turquia, Irã, Iraque e Síria. Sendo assim, os movimentos localizados em cada um dos países possuem algumas particularidades.

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Os curdos localizados na Turquia possuem um principal partido atuante, o Parti Karkerani Kurdistán (PKK), cujo objetivo é conquistar uma autonomia territorial. A relação da Turquia com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão é um tanto instável e o país denomina o movimento como uma organização terrorista.

Na Síria, há o Partiya Yekîtiya Demokrat (PYD), com afiliação ao PKK da Turquia, possuindo milícias que atuam contra o governo de Assad. Suas principais reivindicações giram em torno do reconhecimento constitucional dos direitos curdos, democracia e luta contra repressão por parte do Governo de Damasco.

Os curdos, e o que eles denominam como Curdistão, estão localizados em quatro países: Turquia, Síria, Irã e Iraque
Fonte: Wikimedia Commons

No Iraque, há dois principais partidos que mobilizam forças em busca de autonomia territorial: oYekêtiy Niştîmaniy Kurdistan (PUK) e o Partiya Demokrat a Kurdistanê (KDP). Ambos os movimentos disputam entre si, evidenciando que os partidos além de heterogêneos também podem entrar em conflito por maior representatividade. Apesar disso, são considerados os movimentos mais democráticos, estáveis e funcionais no Iraque.

O movimento curdo no Irã possui apoio do partido PUK do Iraque e atua com o Hîzbî Dêmukratî Kurdistanî Eran (PDKI). O partido curdo iraniano também possui conflito com o governo de Teerã e objetiva reduzir a contrastante diferença social que a minoria curda do país está sujeita. Tal fato não é exclusivo do Irã, pois em todos os países que a região do Curdistão se encontra seu povo constitui minorias marginalizadas próximos à margem da extrema pobreza.

Tais grupos políticos possuem rivalidades entre si e com os governos dos países que se encontram. Destacando a Turquia, o país não se preocupa apenas com o partido localizado em suas fronteiras, mas também com os movimentos feitos pelo PYD da Síria, acreditando que seu fortalecimento influencia os curdos localizados em seu país.

A relação dos EUA com o movimento curdo sírio no combate ao Estado Islâmico

As implicações do fim da parceria militar entre os Estados Unidos e o povo curdo 2
Regiões nas quais o Estado Islâmico se localizava | Fonte: Investigações da BBC

 Com a ascensão do Estado Islâmico (EI), o grupo, ao se autoproclamar um califado abrangendo a região do Curdistão ocidental (Síria) e o Curdistão do sul (Iraque), passou a produzir ameaças internacionais com atentados terroristas e ambições expansionistas. Com o objetivo de barrar o avanço do EI ao ocidente, iniciado no final do governo de Obama, foi formada uma cooperação entre os Estados Unidos e os povos curdos, principalmente as milícias curdas da Síria. O PYD e o YPG (Unidades de Proteção do Povo), juntamente com os Estados Unidos, mobilizaram-se contra o grupo terrorista e, em meados de 2015, iniciaram a luta armada.

De acordo com a CNN (2019), os Estados Unidos providenciaram equipamentos e armamentos para as forças curdas, além de pagar estipêndio mensal, uma forma de pagamento monetário semelhante a um salário, para cada soldado no valor de até 400 dólares. A Turquia opunha-se veemente à contribuição norte-americana às milícias curdas na região. O país, que denomina os movimentos dos grupos como terrorismo, considera a ameaça do Curdistão maior que aquela traga com a ascensão do Daesh. Este foi um fator problemático e uma das justificativas dadas por Trump ao cortar o financiamento ao contraterrorismo do grupo étnico.

A Turquia é um membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e, baseado na concepção de defesa coletiva entre os membros do grupo, mostrou-se contrária ao financiamento norte-americano por entender que o país estaria alimentando o fortalecimento de uma milícia que gera inseguranças e ameaças à nação turca. Sendo assim, a decisão norte-americana de finalizar o apoio se deu, não apenas por justificativa financeira de que estaria gastando em guerras alheias (curdos lutando por suas terras), como também por uma concepção de responsabilidade para com o país, que não só faz parte da organização, mas que também auxiliou em suas guerras, enfatizando o Conceito Estratégico de 2010 da OTAN que abarca defesa coletiva, gestão de crises e segurança cooperativa.

Contudo, a comunidade internacional e, até mesmo os republicanos dos Estados Unidos, se mostraram insatisfeitos com tamanha decisão. Para a comunidade internacional, após a guerra contra o Estado Islâmico, os Estados Unidos abandonaram uma população que lutou lado a lado com o país. Para os republicanos, a retirada do apoio seria crucial para a retomada das atividades do Estado Islâmico, tendo em vista que os curdos eram responsáveis pelas prisões onde os terroristas se encontravam.

De acordo com Lindsey Graham, senador republicano, tal ação não apenas garantiria a reemergência do Califado de EI, como abriria margem para a atuação da Rússia, do Irã e da China. Baseando-se em uma concepção de cálculos estratégicos (ALLISON, 1969), a decisão norte-americana não seria racional em vista da ameaça do ISIS. Além disso, o corte no financiamento foi considerado uma sentença à população curda, que passou a ser atacada diretamente ao norte da Síria pela Turquia. Sem seu apoio, milícias curdas não suportariam os ataques da Turquia e não conseguiriam conter a reemergência do grupo terrorista.

Porém, na visão de Trump, o fim do financiamento não apenas traria maior estabilidade às relações com a Turquia, parceira da OTAN, como também pouparia despesas em guerras de terceiros. O cálculo dos benefícios em si viria a partir da medição do que seria a prioridade norte-americana. Com as reeleições em 2020, a promessa de sair de conflitos do Oriente Médio deveria ter sido cumprida para que Trump conseguisse ter maior apoio eleitoral. Por parte do Congresso Republicano, esse risco seria um tanto quanto irracional, pois tanto a segurança quanto a influência norte-americana na região estariam comprometidas, havendo possibilidade de maior envolvimento por parte russa e chinesa na região.

Resultados em 2020

 Após a construção de uma cooperação entre curdos com a Síria para conter as investidas turcas, os curdos sírios vêm reportando à comunidade internacional insuficiência de recursos para manter suspeitos de filiação com ISIS presos. Para além da quebra de cooperação com os Estados Unidos e dos ataques feitos pelo país vizinhos, agora, esse povo tem de lidar com a ingerência internacional. Os suspeitos são de mais de 50 países, nos quais 1000 homens e 4000 mil mulheres estão em campos de refugiados. Como resposta, autoridades curdas da Síria chegaram à conclusão de que começariam a realizar julgamentos dos detentos na espera de que houvesse acordos com governos do ocidente.

O governo curdo sírio objetiva a repatriação de combatentes para enfrentar a justiça de seus países de origem, ou a criação de um tribunal internacional para julgamento como forma de diminuir gastos e evitar fuga dos terroristas a partir de fornecimento financeiro por parte dos Estados. As fugas são uma das principais preocupações da comunidade ao norte da síria. As prisões que detém os suspeitos são de condições precárias, no qual há poucos guardas e baixa estrutura para suportar possíveis rebeliões.

Por mais que tenha havido grande mobilização internacional no combate ao ISIS e no reconhecimento da comunidade curda na luta contra o ator não-estatal, ao fim da ameaça do DAESH a comunidade internacional esqueceu que, após o enfraquecimento do mesmo, ainda haveria consequências a serem resolvidas. Como dito acima, as milícias curdas não correspondem à margem populacional com grande capital, não possuindo estrutura para responsabilizar-se totalmente pelos resquícios do que um dia foi uma ameaça internacional.

 Há pouco tempo, os curdos eram vistos como grandes heróis contra o Estado Islâmico, porém, atualmente eles vivem sob constantes ataques cometidos pela Turquia que, mesmo com a chegada do Covid-19, não poupou forças em suas fronteiras. A geopolítica da região é confusa, mas a situação curda está bem clara. O que um dia foi uma esperança de reconhecimento de um possível Estado-Nação do Curdistão, atualmente é uma preocupação de responsabilidade frente aos terroristas do EI e de sobrevivência contra bombardeios de uma potência regional.

É necessário destacar também que Biden, à época vice-presidente do governo Obama, também configurou o PKK como grupo terrorista em uma de suas visitas à Turquia. Contudo, a aproximação de Erdogan com Trump e as trocas de farpas entre Biden e o presidente turco, intensificadas com a vitória do democrata nas eleições presidenciais dos EUA, podem modificar essa relação norte-americana com o país e com a comunidade curda . No geral, há uma baixa expectativa de retomada do financiamento aos movimentos curdos na divisa entre Síria e Turquia. O que pode ser esperado dos Estados Unidos é uma maior rigidez frente às investidas turcas na fronteira com a Síria.

Considerações finais

Com o desenrolar da situação neste ano, podemos concluir que, mesmo com alarde da comunidade internacional frente à decisão de Donald Trump, a questão curda passou para um segundo plano. O avanço do covid-19, e todas as complicações advindas com ele, fez com que o assunto não fosse priorizado. A Turquia continua sua atuação nas fronteiras – agora também contra o PKK – , os curdos não obtiveram resposta acerca do pedido de auxílio internacional e o que seria uma chance ao Curdistão de um Estado-nação foi minado. A legitimidade regional do povo curdo está cada vez mais distante, apesar das críticas internacionais feitas ao Donald Trump sobre o fim do apoio ao grupo étnico, mais especificamente ao FDS (Forças Democráticas Sírias, feita por milícias curdas e árabe).

A busca por um Estado Independente cria uma imagem da comunidade curda como separatista e violenta a partir de ameaças às soberanias nacionais. Muitos consideram-na terrorista, e países da região adotam posturas de forte repressão ao movimento. Em tese, segundo a Teoria Geral dos Estados (DALLARI, 2011), um Estado nasce a partir de alguns elementos: um povo homogêneo, território, governo próprio, soberania e a sua finalidade. Os curdos possuem seu povo, seus governos, sua finalidade, teórica e filosófica, mas não têm um território e soberania reconhecidos.

Há o desejo da comunidade curda de um Estado-Nação, e um povo homogêneo com identidade e cultura compartilhada possui o direito de transformar-se em Estado (DALLARI, 2011). Contudo, esse direito está longe de ser conquistado. Em um Sistema Internacional no qual a Soberania Estatal é primordial na condução das relações, qualquer ato de tentativa de repartição e reorganização dos territórios sem desejo desses países é pouco provável que aconteça. Apesar da breve esperança curda no período de combate ao ISIS, nenhum país da região mostrou-se disposto a ceder território para um novo Estado.

Deve-se ter em mente que a localização do Curdistão dificulta muito que tal desejo seja realizado. Localizado em fronteiras de quatro potenciais regionais e da Armênia, e tendo em vista o jogo de poder no SI, no qual nenhum Estado se arrisca a se contrapor totalmente aos grandes países produtores de petróleo, Irã e Iraque no top 10 do ranking mundial, as comunidades curdas estão praticamente sozinhas. Compreendemos, assim, a frase incorporada por Azad Cudi, atirador do exército voluntário do YPG: “Não temos amigos, só as montanhas”.

Referências bibliográficas

ALLISON, Graham T. Conceptual Models and the Cuban Missile Crisis. The American Political Science Review, v. 63, n. 3, p. 689-718, 1969.

DALLARI, Dalmo. Elementos da Teoria Geral do Estado. 30. ed. atual. e aum. [S. l.]: Saraiva, 2011. 279 p. ISBN 978-85-02-10375-2.  Disponível em: <https://forumninja.org/wp-content/uploads/wpforo/attachments/34777/1887-Dalmo-de-Abreu-Dallari-Elementos-de-teoria-geral-do-Estado-2011.pdf>. Acesso em: 4 nov. 2020.

ROONEY, Mildred. El «Estado Islámico»: la ruta a la autoproclamación de un califato contemporáneo. Agenda Internacional. 34. ed. Peru: PUCP, 2016. ISSN 1027-6750. Disponível em: <http://revistas.pucp.edu.pe/index.php/agendainternacional/article/view/15276/15741>. Acesso em: 31 out. 2020.

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Sobre o Autor

Graduanda em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Áreas de pesquisa: Segurança Internacional e Geopolítica, em especial a região do Golfo Pérsico (Relações Arábia Saudita e Irã). Interesse de pesquisa voltado para Economia Política Internacional e Política Externa Brasileira. Colunista na Revista Relações Exteriores.

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