Diferentes facetas da identidade árabe o pan-arabismo e o nacionalismo árabe

Países do Mundo Árabe | Arte: Camila Benzaquen - Fonte: JaneUk86, PromesaArtStudio, Viktorcvetkovic, PromesaArtStudio, DreamCursor e flowgraph de Getty Images via Canva; DAPA Images, Daboost, ibreakstock, shaadjutt, teresinagoiafoto, Mehaniq, Itana e Oleg via Canva; Wikimedia Commons; Bandeiras oficiais.
Bandeiras dos países do Mundo Árabe
Diferentes facetas da identidade árabe
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Ao contrário do que soa a história, a caracterização dos Estados que compõem o complexo Mundo Árabe sempre esteve muito aquém da unidade, pois as circunstâncias tendem à desintegração. Apesar de possuir pontos em comum, a história das relações intra-árabes remonta a diferentes fatores que refletem em aspectos distintos da identidade árabe-islâmica.

Do movimento Nacionalista árabe cristalizaram-se duas correntes: o nacionalismo árabe e o pan-arabismo (MAZRUI, p.185, 2010). Apesar de possuírem vínculos entre si e certas correspondências etimológicas, e, para alguns autores se tratarem de sinônimos, estes termos podem ser interpretados de maneiras diferentes.

O nacionalismo árabe surge em certos países em um contexto de independência colonial, e o pan-arabismo representaria a ideia da constituição de uma unidade árabe. Consequentemente, o termo nacionalismo árabe representa algo diferente do nacionalismo árabe local, que é muito mais amplo (egípcio, sírio, saudita, et al.) (VICENZI, p. 1, 2006). O termo denota, primeiramente, o reconhecimento étnico, antes mesmo do reconhecimento da nacionalidade em questão.

O conceito de pan-arabismo, fundamentado na ocasião da Primeira Guerra Mundial na parte asiática do mundo árabe, foi inicialmente rejeitado por militares egípcios e intelectuais. Não repercutiu muito e não teve significativa relevância na África do Norte. Apesar disso, os teóricos pan-arabistas afirmam que, na verdade, este conceito de unificação foi muito influenciado pelos ideais egípcios (MAZRUI, p.187, 2010).

Os países árabes da África do Norte se reconheciam mutuamente entre três ideologias: o nacionalismo, o socialismo e o islã. Dentre estes, o nacionalismo árabe foi impulsionado por diferentes fatores. O despertar secular do povo árabe surgiu em que encontrou força, em um momento de insubmissão frente ao domínio dos turcos e a presença das influentes instituições europeias (SILVA, p.71, 2010). O islã, no que lhe concerne, caracteriza-se por ser a mais antiga ideologia no mundo árabe. Dele, realizou-se o propósito de guiar as concepções da ampla maioria e também mobilizar as massas, definindo suas percepções acerca de problemas sociais e culturais que surgiam.

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Os Estados da África do Norte possuem três ideologias | Fonte: Frontiers of Travel

Apesar do conceito pan-islamismo não ser o foco central deste trabalho, há de mencionar a sua importância como fator integrador da comunidade islâmica. O seu papel exercido na libertação da estagnação muçulmana, da submissão aos poderes estrangeiros e a prevenção à ocidentalização moral e cultural dos povos muçulmanos deu as bases para se aliarem os ideais de emancipação dos conceitos tratados aqui (VICENZI, p. 88, 2006). Além disso, segundo a autora, os reformistas islâmicos teriam contribuído com a preservação da língua árabe por meio da educação, conservando a identidade nacional no mundo árabe.

Contudo, não é a religião islâmica que caracteriza os ideais pan-arabistas. Apesar de forte elo entre algumas nações, nem todas que se reconhecem entre a comunidade árabe compartilham da fé islâmica. Entretanto, revestidos da fé religiosa, movimentos anti-imperialistas na segunda metade do século XX foram catapultados pelo islamismo, tendo repercutido na coordenação de movimentos políticos pan-islâmicos.

Dito isso, pode-se contextualizar os conceitos com dois exemplos distintos. O primeiro, o nacionalismo árabe, pode ser observado no caso concreto da Palestina. Segundo Vicenzi, o período que abarca da Primeira Guerra Mundial até a criação do Estado de Israel, é marcado por intensidade anticolonial (VICENZI, p.58, 2006). O país costumava ser uma antiga terra de exploração para a Grã-Bretanha até maio de 1948, quando seu mandato estava prestes a acabar.

A construção de uma identidade social coletiva é observada por Makkawi (1999) entre árabes-palestinos cidadãos de Israel. Segundo a autora, há o clamor legítimo por autodeterminação dos árabes-palestinos. Isso perpassa a influência do estado judeu que, de certa forma, limita o reconhecimento da nacionalidade dos palestinos, deixando-os emocionalmente feridos, socialmente deslocados, politicamente perdidos, nacionalmente prejudicados e sem liderança.

Truman encaminhou em maio de 1946 a deliberação do presidente de admitir cerca de 100.000 refugiados no país e em outubro ter declarado seu apoio para a criação de um Estado judeu. Durante todo o ano seguinte, o Comitê Especial das Nações Unidas para a Palestina recomendou a partilha da Palestina em dois Estados: um judeu e um árabe. A região tem como território o berço de três das maiores religiões monoteístas da história.

Isto pode ser confirmado por Coggiola: “a certeza que um Estado judeu seria mais vital sem uma ampla maioria islâmica foi o que fez os comandos militares empurrarem os palestinos para a fuga (p. 265, 2016)”. Portanto, nota-se que, neste processo, não se atenderam todas as composições étnico-religiosas que partilhavam o território palestino. O momento da criação do Estado de Israel, e do consequente êxodo dos palestinos é conhecido no Mundo Árabe como ‘’A catástrofe’’ ou al-Nakba. A guerra árabe-israelense, de 1948, ficou conhecida pelos israelenses como “Guerra da Independência” ou “Guerra da Liberação”; foi e é considerada pelos palestinos como parte de al-Nakba (COGGIOLA, p. 266, 2016)

Posteriormente à Resolução que constituiu o Estado de Israel, tem-se a insurgência do Exército de Libertação Árabe, uma força de voluntários palestinos organizada pela Liga Árabe. A ascensão deste grupo relaciona-se com a ideia do nacionalismo árabe, ou pan-arabismo, em termos políticos, pois estes movimentos reivindicavam um “despertar árabe” da identidade (FERRABOLI, 2007).

Em contrapartida, o conceito de pan-arabismo se torna mais complexo de exemplificar, pois, a pesquisa da sua definição é difusa. Ora se entende ser um sinônimo de nacionalismo árabe, ora que diferem entre si. De acordo com VICENZI, os termos podem ser concebidos de forma permutável, como explica a autora:

Pan-arabismo é aceito no geral como um movimento e uma doutrina que visam à unidade política árabe, assim como o “nacionalismo árabe”. Com base nisso, usaremos “pan-arabismo” e “nacionalismo árabe” de modo intercambiável, como um movimento que visa à unificação política dos povos de língua árabe, cuja ideologia é marcada pela crença de que todos os árabes compartilham uma história, uma cultura e uma língua. O termo “arabismo”, quando utilizado, denota identidade cultural árabe, mas não desejo ou luta por unidade política. Assim, um arabista não é necessariamente um nacionalista árabe (VICENZI, p. 1, 2006).

Os esforços em definir e relacionar estes conceitos são explicados pela complexidade das histórias das nações do Mundo Árabe, que apesar de terem pontos comuns em suas histórias, desenvolvem conquistas por independência e constituições políticas e culturais próprias. A dificuldade em conceituar o termo pode ser explicada por Ferraboli, conforme demonstra a autora:

Durante essa fase inicial do pan-arabismo, tentou-se promover e definir o próprio conceito de Nação Árabe, criar um vocabulário político para o nacionalismo árabe e identificar o “nós” e o “eles” na geografia da identidade (BARNETT, 1993).
“Nós”, neste caso, referia-se à comunidade imaginada formada por aqueles que “falavam árabe, olhavam para a história dos árabes com orgulho e consideravam-se árabes” (KHALIDI, 1991, p. 1.365). “Eles”, logicamente, referia-se a todos aqueles que não compartilhavam do sentimento de “companheirismo profundo e horizontal” com aqueles que pertenciam à Nação Árabe. O próprio conceito de Mundo Árabe nasceu durante essa fase inicial e o termo está intimamente conectado com a ideia de “nós” definida acima (FERRABOLI, 2007).

Esse ideal de “nós e eles”, que discernia os países da comunidade árabe, foi responsável pela criação da Liga Árabe de Estados, uma tentativa de promover economicamente a cooperação intra-árabe. Regionalmente, mas ainda motivados pelo pan-arabismo, também se encontram exemplos de tentativas de integração político-econômica, formalizando os blocos econômicos: a República Árabe Unida (RAU, de 1958); a Federação das Repúblicas Árabes (1971); o Conselho de Cooperação do Golfo (CCG, de 1981); a União do Magreb Árabe (UMA, de 1989) e o Conselho de Cooperação Árabe (CCA, de 1989). Destes, apenas o CCG e a UMA permanecem em atividade, ainda que com sérios problemas estruturais (FERRABOLI, 2007).

Porém, essa constituição não foi unânime no mundo árabe. No caso da Síria, durante o declínio do Império turco otomano, tem-se a ocupação dos franceses, aliados dos turcos, no território do império. Este foi um dos estopins que incitaram o sentimento de nacionalismo, apesar de os árabes sírios não se alinharem totalmente ao que propunha Faysal, governante da Síria. Havia um sentimento de nacionalismo local, porém às avessas.

Enquanto lá a população saudava a língua árabe em detrimento do turco e do francês, ao mesmo tempo, se mantinham muito distantes do que Faysal defendia, bem como de outros quadros nacionalistas em seu entendimento do projeto nacionalista árabe e em sua susceptibilidade a esse. Conforme Vicenzi, na região do Crescente Fértil, pode-se observar a mais expressiva manifestação de fragmentação e diversidade das identidades (p. 107, 2006).

Durante o período da Guerra Fria, entretanto, ocorreram conflitos regionais. Um destes conflitos a ser observado foi a Guerra do Suez, no Egito. A crescente insatisfação dos egípcios com a dominação estrangeira e o alinhamento do rei com os ideais do Ocidente foram precursores para incitar movimentos pan-arabistas. Surge, então, a figura de Nasser, tornando-se Primeiro-Ministro no ano de 1954 e Presidente do Egito no ano de 1956.

No caso egípcio, este líder tornou-se um porta-voz expressivo dos ideais pan- arabistas, dada sua linha de defesa das questões árabes. A libertação colonial e a total independência e autonomia do Egito foram difundidas bem como uma postura contrária a Israel, uma vez que esse Estado se configurava com um aliado do ocidente dentro do Mundo Árabe, além da questão das violações aos direitos dos cidadãos árabes, por parte do Estado de Israel.

O período da Guerra Fria trouxe novos confrontos políticos no Oriente Médio. No pós-Guerra, estabeleceram-se tentativas de coordenações políticas pró pan-arabismo. Por fim, outros dois casos de unificação política e territorial no Mundo Árabe dessa época que podem ser destacados: a formação dos Emirados Árabes Unidos, em 1971, e a reunificação do Iêmen do Norte e do Sul, em 25 de maio de 1990 (FERRABOLI, 2007) e (SILVA, p. 127, 2010).

O ideal pan-arabista pode ter sido somado a um fenômeno recente, impulsionado por uma crise política, a Primavera Árabe. Esta é caracterizada por se tornar um movimento transnacional de revolta a regimes autoritários, conservadores e teocráticos e que, por consequência, teve um efeito dominó que causou  um grande impacto sobre as autocracias mais antigas do Norte da África e do Oriente Médio.

Apesar de haverem resultados divergentes no movimento, o princípio motivador dos protestos foi uma forte reivindicação popular, um espírito crítico e um ideal de libertação, como um impulso cultural e econômico de renovação, pautado no reconhecimento de problemas comuns às nações árabes envolvidas (Bahrein, Egito, Jordânia, Tunísia, Iêmen, Líbia e Síria). Assim, as bases de contestação em direção à democracia foram estabelecidas, baseadas em liberdade, igualdade e laicidade, que levaram às manifestações contrárias aos regimes ditatoriais. O movimento iniciou-se em 2010, porém, em alguns Estados, as consequências dos protestos perduram até os dias atuais, como a guerra civil na Síria.

Considerações finais

O ideal pan-árabe difundido por Nasser dificilmente se tornaria algo real. Dadas as dificuldades do Mundo Árabe, que ficou à deriva, sem uma liderança regional que oferecesse apoio para a integração do plano pan-arabista, não havia como colocar na prática a cooperação horizontal, intra-árabe. Os interesses econômicos das nações ricas em petróleo, como os sauditas, dificultam os esforços de integração, pois se pautam no alinhamento estratégico com os Estados Unidos, disseminando uma cooperação vertical e distante de outros países que não compartilham o mesmo alinhamento (FERRABOLI, 2007).

Fatores sistêmicos contundentes impedem a união do Mundo Árabe. Apesar de desencadeado por um sentimento anticolonial e identitário, as especificidades dos países e a dimensão na qual o ideal pan-arabista pretendia chegar, tornavam inviável a sua aplicação. A unificação política e criação de uma grande unidade dos países que possuem a língua árabe em comum, refletem uma ameaça para outros Estados, pois para as elites hegemônicas, seria mais complexo realizar negociações e exercer influência, principalmente sobre o Petróleo, se fosse constituído um sistema de Estados árabes forte, coeso e unido.

Referências bibliográficas:

FERABOLLI, Silvia. Relações internacionais do Mundo Árabe (1954-2004): os desafios para a realização da utopia pan-arabista. Contexto Internacional, Rio de Janeiro, v. 29, n. 1, p. 63-97, jun. 2007. FapUNIFESP (SciELO). Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/cint/v29n1/a03v29n1.pdf.

MAZRUI, Ali A. História Geral da África VIII: África Desde 1935. Brasília: [s.n], 2010. (Coleção História Geral da África)

MELO, Bruno Ferreira de. Nacionalismo Árabe ou Pan-Arabismo: facetas de um movimento difuso. 2018. 57 f. TCC (Graduação) – Curso de Ciência Política, Universidade de Brasília, Brasília, 2018.

SILVA, Adilson L. C. da. A Gênese das Fronteiras Modernas. In: Oriente Médio: A Gênese das Fronteiras. São Paulo: Zapt Editora Ltda, 2010, p. 71-131.

VICENZI, Roberta Aragoni Nogueira. Nacionalismo Árabe: Apogeu ou Declínio? 227 f. Tese (Doutorado) – Curso de Ciência Política, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2006.

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Sobre o Autor

Graduanda em Relações Internacionais pela Fundação Universidade Federal do Rio Grande (FURG). Atua na Universidade através do engajamento em grupos de pesquisa. Pesquisadora do Grupo de Estudo Interseccionalidades e Decoloniedades nas Relações Internacionais.

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