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O IMPACTO DAS MUDANÇAS DE GOVERNO NA POLÍTICA EXTERNA DA TURQUIA: UMA ANÁLISE DOS ENTRAVES À INTEGRAÇÃO REGIONAL (1923-2024)
A hand holds a Turkish flag in front of the iconic ancient ruins of Ephesus, Turkey. A hand holds a Turkish flag in front of the iconic ancient ruins of Ephesus, Turkey.

O IMPACTO DAS MUDANÇAS DE GOVERNO NA POLÍTICA EXTERNA DA TURQUIA: UMA ANÁLISE DOS ENTRAVES À INTEGRAÇÃO REGIONAL (1923-2024)

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1. INTRODUÇÃO

A posição geográfica e geopolítica da Turquia confere ao país um papel singular no sistema internacional contemporâneo. Situada entre a Europa e a Ásia, a Turquia desempenha funções estratégicas em diversas frentes: é membro da OTAN, candidata histórica à União Europeia, potência regional no Oriente Médio e no Cáucaso, e ator-chave em negociações multilaterais.

Essa multiplicidade de inserções, no entanto, não é acompanhada de uma política externa linear ou previsível. Tal posicionamento, ao mesmo tempo em que amplia o protagonismo do país, desafia os moldes tradicionais do multilateralismo e levanta questões sobre a coesão dos blocos e instituições regionais.

Diante deste cenário, surge a seguinte pergunta de pesquisa: Como as transformações políticas domésticas da Turquia, entre os períodos de Atatürk e Erdoğan, influenciaram sua política externa e sua inserção em processos de integração regional?

Este estudo tem como objetivo principal analisar como as mudanças políticas domésticas moldam a política externa e, por consequência, o envolvimento do Estado turco em arranjos regionais. Como objetivos específicos, propõe-se investigar como as transformações de regime e identidade nacional impactaram a formulação da política externa e avaliar o papel de atores políticos e instituições na redefinição dos interesses internacionais da Turquia, a fim de compreender como as estratégias de regionalismo adotadas pelo país refletem seu contexto doméstico.

A escolha desse tema é justificada pela necessidade de compreender como fatores domésticos, muitas vezes negligenciados nas análises de política externa, são centrais para definir os rumos de Estados que aspiram a protagonismo regional. Para isso, será realizada uma introdução do contexto histórico e teórico dos processos de integração regional e de análise de política externa, destacando sua relevância para compreender as transformações políticas domésticas do Estado turco. Em seguida, será analisada a mudança de regime e as políticas adotadas nos governos de Atatürk e Erdoğan, refletindo na sua inserção internacional.

Para atingir os objetivos delineados neste estudo, será realizada uma análise qualitativa. A principal abordagem envolveu pesquisa bibliográfica e documental, enfatizando o caráter teórico-argumentativo. A revisão bibliográfica se baseou em obras acadêmicas que abordam os fatores domésticos como catalisadores da política externa. Além disso, foram destacados conceitos para a discussão teórica, especialmente relacionado à literatura no âmbito dos processos de integração regional.

2. DE DENTRO PARA FORA: ENFOQUES TEÓRICOS SOBRE REGIONALISMO E POLÍTICA EXTERNA

Ao longo das décadas, os governos turcos adotaram estratégias distintas de inserção externa: ora buscando aproximação com o Ocidente e a União Europeia, ora priorizando relações estratégicas com o mundo islâmico e os povos turcomanos. Tais oscilações não podem ser compreendidas à parte das transformações políticas domésticas, que alteram não apenas os interesses nacionais percebidos, mas também a identidade internacional do Estado. Nesse sentido, o caso da Turquia se revela emblemático para a compreensão das relações entre as políticas domésticas e os processos de integração regional.

Para isso, é necessário antes compreender como se formam os processos de integração regional. Segundo Hurrell (1995), a definição de região e a dinâmica do regionalismo não são facilmente delimitados, por isso a proximidade e a continuidade geográfica são fatores importantes para distinguir o regionalismo de outras formas de organização. Para ele, as definições de região podem variar e a dinâmica do regionalismo refere-se a uma variedade de processos, são eles: regionalização, consciência e identidade regionais, integração econômica regional, coesão regional e cooperação regional interestatal.

Sendo este último de interesse neste artigo, destaca-se que a cooperação interestatal pode ser formal ou informal, e níveis elevados de institucionalização não são garantia de eficácia ou importância política. Ou seja, por um lado, a cooperação pode ser a resposta a desafios externos e à necessidade de ajuste das posições regionais nas instituições internacionais ou nos fóruns de negociação. Por outro, podem ser estabelecidos para garantir o bem-estar, promover valores ou resolver problemas comuns, particularmente aqueles relacionados ao crescimento dos níveis de interdependência regional (Hurrell, 1995).

É importante ressaltar que, diferentemente de alguns tipos de integração regional, esses instrumentos de cooperação são claramente estatistas, formulados para proteger e ampliar a atuação do Estado e o poder do governo. Além disso, envolvem a reafirmação e extensão da autoridade estatal como parte de um processo pelo qual os Estados estão, cada vez mais, dispostos a trocar determinado grau de soberania por uma influência maior sobre as políticas de outros Estados e sobre a gestão de problemas comuns.

Por isso, o autor destaca que a cooperação regional é vulnerável à política doméstica de cada um dos Estados, visto que os chefes de governo priorizam seus interesses nacionais, os quais influenciam diretamente o seu nível de comprometimento. Para demonstrar isso, ele apresenta três maneiras de relacionar os fatores domésticos ao regionalismo, são elas: regionalismo e coerência estatal, teorias da convergência, tipo de regime e democratização.

O primeiro refere-se à coerência e viabilidade dos Estados e das estruturas estatais que determinam as possibilidades de cooperação e integração regionais. Entende-se que a maioria dos problemas graves pós-Guerra Fria não está relacionado a falta de legitimidade entre os Estados, mas dentro deles. A ausência de aparatos estatais efetivos e limites territoriais mutuamente aceitos dificulta o processo de construção da região, quando não impossibilita (Hurrell, 1995). Sendo assim, organizações regionais são mecanismos importantes para legitimidade e apoio de governantes de sociedades fragilizadas, em que instabilidade política, interrupções de regime, má gestão econômica e degradação ambiental são recorrentes (Mesquita, 2019).

O segundo, por sua vez, busca compreender a dinâmica da cooperação regional por meio da convergência das preferências de política doméstica entre os Estados da região. A convergência, portanto, surge da implementação de políticas com enfoque nacional, e não internacionalista, que podem resultar no fortalecimento do papel do Estado. Assim, a liberalização do comércio e a expansão das exportações, marcada por políticas liberais de mercado, foram resultados desta convergência social, política e econômica (Hurrell, 1995).

Por último, destaca-se a importância dos fatores internos, como a estabilidade política e os processos de democratização, para o avanço dos mecanismos de integração e cooperação regionais. Entende-se, portanto, que mudanças no cenário doméstico impactam diretamente o processo de integração e cooperação regionais. Estados com estruturas institucionais frágeis não são capazes de promover processos de cooperação eficazes e nem de sustentar suas organizações regionais.

Além disso, o tipo de regime de cada país influencia de maneira significativa o seu envolvimento no regionalismo (Hurrell, 1995). A política externa, nesse sentido, é profundamente influenciada pelo processo eleitoral, conforme discutido por Onuki e Oliveira (2013). Em que as preferências dos líderes e dos partidos políticos são moldadas em função de interesses domésticos, especialmente no que diz respeito à necessidade de atender a grupos de interesse, coalizões políticas ou demandas do eleitorado. 

De acordo com Hermann (1990), mudanças de governo frequentemente resultam em alterações significativas na política externa. O autor classifica essas alterações em quatro níveis: ajuste, programa, objetivo e orientação. O ajuste refere-se a pequenas mudanças na implementação das políticas, sem alterar seus fundamentos. O programa envolve a modificação de estratégias ou instrumentos usados para alcançar objetivos previamente definidos. Já a mudança de objetivos implica redefinir as metas que orientam a política externa. Por fim, a mudança de orientação corresponde a uma transformação mais ampla, que altera os princípios e valores que fundamentam a política externa de um país. 

Para Vigevani e Cepaluni (2007), essas mudanças estão profundamente ligadas a fatores domésticos, como a ascensão de novos governos com agendas diferentes, alterações na estrutura de poder internacional ou pressões de atores internos e externos. Essa abordagem permite compreender como mudanças de governo podem reorientar a política externa, redefinindo prioridades e estratégias em função de novas coalizões e demandas políticas.

Assim, é possível observar que as eleições desempenham um papel crucial na formulação da política externa, pois determinam os valores e prioridades dos líderes eleitos, que frequentemente refletem os interesses e demandas de seus eleitorados. Isso evidencia a importância de analisar os fatores domésticos e as mudanças de governo para compreender as dinâmicas da política externa e sua relação com os processos de integração e cooperação regionais (Vigevani e Cepaluni, 2007).

Evidencia-se, assim, que as teorias regionais se tornam relevantes para compreender esse fenômeno porque priorizam as particularidades de cada região, considerando que o regionalismo não é apenas resultado de pressões externas, mas também de fatores intrínsecos à própria região ao ressaltar os vínculos históricos, culturais e sociais entre os Estados. Ou seja, essa abordagem analisa como os processos de regionalismo se articulam para moldar o fenômeno regional (Hurrell, 1995). 

Por isso que a abordagem teórica do intergovernamentalismo, proposto por Andrew Moravcsik (1998), oferece uma lente mais adequada, ao considerar que as preferências nacionais são formadas internamente, com base em coalizões domésticas, e são posteriormente projetadas no cenário externo, numa dinâmica de dentro para fora (bottom-up). Essa teoria reconhece o peso das dinâmicas domésticas – como eleições, mudanças de governo, ideologias e disputas institucionais – na condução da política regional. No caso turco, a alternância entre governos laicos, militares e islâmicos revela o impacto das configurações políticas domésticas na orientação externa do país.

Dessa maneira, a formulação da política externa também pode ser compreendida a partir de teorias que privilegiam o papel das variáveis domésticas. A abordagem de Foreign Policy Analysis (FPA) enfatiza os processos decisórios internos, os líderes, as instituições e a construção de identidade como vetores da ação externa (Hudson, 2005). A identidade do Estado – ou seja, como os líderes percebem a si mesmos e ao seu lugar no sistema internacional – é um elemento chave para explicar escolhas de política externa, sobretudo em Estados em transição política.

Nesse sentido, a política externa da Turquia é um ótimo exemplo para analisar como as concepções de “papel nacional” (Holsti, 1970) moldam a conduta internacional. O autor propõe que os Estados agem com base em papéis que constroem para si, os quais podem mudar ao longo do tempo em razão de transformações domésticas. Durante o início da era republicana, sob Mustafa Kemal Atatürk, a Turquia adotou uma concepção de papel centrada no modernizador e defensor soberano, priorizando a consolidação interna, a modernização secular e o não intervencionismo. A política externa foi marcada pela cautela, buscando evitar o envolvimento em conflitos internacionais, ao mesmo tempo em que reforçava uma identidade inclinada para o Ocidente.

No entanto, o país tem reformulado esse papel sob a ascensão de Recep Tayyip Erdoğan e do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), buscando se afirmar como potência regional islâmica e euroasiática, o que implica uma mudança significativa em sua orientação de integração regional. A era do AKP redefiniu o papel internacional da Turquia para refletir tanto um legado histórico otomano quanto uma visão estratégica de influência regional — particularmente no Oriente Médio, no Cáucaso e na África. Por exemplo, os esforços de mediação da Turquia entre Israel e a Síria na década de 2000, seu ativismo nos conflitos sírio e líbio e seu envolvimento em ajuda humanitária e solidariedade islâmica enquadram a Turquia como estabilizadora regional e protetora das comunidades muçulmanas (Müftüler-baç, 2020).

O Conselho Turco (atual Organização dos Estados Turcos), criado em 2009 e impulsionado fortemente na última década, é um exemplo de regionalismo funcional, baseado em laços étnico-linguísticos com países turcófonos da Ásia Central. A Turquia também aumentou seu protagonismo na Organização de Cooperação Islâmica (OCI) e buscou atuar como mediadora em conflitos regionais, como na Síria, no Azerbaijão e entre Rússia e Ucrânia.

Portanto, as mudanças de regime, a islamização da política, o presidencialismo e o nacionalismo contemporâneo turco não apenas influenciam a política externa do país, mas também moldam o tipo de regionalismo que ele busca fomentar ou, até mesmo, do qual se afasta. Assim, analisar a política externa turca revela como a identidade, a história e as percepções de liderança moldam o engajamento de um Estado com o sistema internacional. A integração, nesse contexto, não é um fim universal, mas uma ferramenta moldada por prioridades domésticas.

3. ENTRE ATATÜRK E ERDOĞAN (1923-2024): RUPTURAS DE REGIME E O REPOSICIONAMENTO DA TURQUIA

A política interna da Turquia passou por transformações radicais desde a fundação da República, moldando sua identidade nacional e projetando diferentes visões de mundo para a política externa. Essa identidade nacional dominante reflete uma síntese entre a história e a cultura otomana-islâmica da Turquia com suas tradições nacionalistas, seculares, ocidentais e modernas, sobre as quais o Estado foi fundado por Mustafa Kemal Atatürk em 1923. Como resultado dessa mudança de identidade, a política externa da Turquia também mudou: “A identidade desempenha um papel significativo na construção e aplicação da política externa” (Bülent, 2004 apud Fuller, 2007).

Desde então a Turquia tem lutado para definir sua identidade nacional, sendo descrita como um “país dividido”, situado entre o Oriente e o Ocidente, restando saber para qual lado se inclinará. No entanto, este artigo argumenta que a Turquia não se inclinará para um lado apenas. Em vez disso, o país descobriu que é mais benéfico para si equilibrar as relações em múltiplos lados e continuará a manter essa posição enquanto permanecer no interesse nacional, determinado pelo partido no poder (Fuller, 2007).

Essa política externa influenciou a identidade nacional da Turquia porque seus líderes estão engajando regiões que ela negligenciou desde a queda do Império Otomano. Muitas dessas regiões são, na verdade, o que englobava o Império Otomano ou regiões com as quais já teve relações estreitas. Como a liderança do Império Otomano também era o Califado Islâmico, a Turquia tem usado sua herança islâmica para cortejar vários Estados islâmicos no Oriente Médio, Norte da África, Cáucaso e Ásia Central.

Sendo assim, também tem usado sua história otomana comum e sua antiga influência para construir relações mais próximas com os Estados dos Balcãs. Ao mesmo tempo, a Turquia mantém sua forte conexão com a União Europeia na esperança de um dia se tornar membro, melhorando suas relações com um inimigo tradicional, a Rússia, por meio da reformulação de acordos de segurança energética e permanecendo parceira dos Estados Unidos, embora sob tensões recentes (Fuller, 2007).

Além disso, a própria identidade nacional nunca é estática e está sempre mudando. Assim, destaca-se três períodos fundamentais: o Kemalismo fundador, os governos intermediários com intervenções militares, e a era Erdoğan. Cada um desses momentos reconfigurou o papel da Turquia no cenário internacional, impactando sua atuação nos processos de integração regional. 

Com a ascensão de Mustafa Kemal Atatürk e a Proclamação da República Kemalista (1923–1945), a Turquia rompeu com o legado otomano e iniciou um processo profundo de ocidentalização. As reformas kemalistas – como a laicização do Estado, a abolição do califado e a adoção do alfabeto latino – tinham como objetivo construir uma nação moderna e integrada ao sistema europeu. No plano externo, o princípio da não intervenção e da neutralidade guiou a política externa, com foco na estabilidade interna e na soberania territorial (Kinross, 2001).

Para Kinross (2001), esse período inicial é marcado por um isolamento estratégico: a Turquia evitava alianças regionais ativas e mantinha uma postura defensiva. Sendo assim, a prioridade era consolidar o novo Estado-nação, e a inserção internacional era instrumental para esse objetivo, não havendo ainda um projeto de integração regional.

Entretanto, com o fim da Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, a Turquia passou a integrar o bloco ocidental, aderindo à OTAN em 1952. Apesar de aproximações com a Europa – inclusive com a candidatura formal à União Europeia em 1987 –, a política interna turca foi marcada por instabilidade, com sucessivos golpes militares (1960, 1971, 1980) e o fortalecimento de uma elite secular-militarista. Durante esse período, o país oscilava entre esforços de democratização e retrocessos autoritários. A política externa seguia alinhada ao Ocidente, mas havia uma limitação estrutural à integração regional profunda devido à falta de coesão interna e à constante ruptura institucional (Yilmaz, 2005).

A política em relação ao Chipre, por exemplo, tornou-se um ponto de tensão regional e um dos maiores entraves à entrada da Turquia na UE (Yilmaz, 2005). Düzgün (2019), argumenta que a ilha, dividida desde 1974 após a intervenção militar turca, continua sendo um símbolo das contradições entre a política externa turca e os valores normativos da União Europeia. A não aceitação da República Turca do Norte do Chipre (reconhecida apenas por Ancara) e a presença militar permanente na região são pontos de tensão persistentes.

A adesão da República do Chipre à UE em 2004 sem a resolução do conflito foi vista como uma traição por parte da Turquia, que havia apoiado o Plano Annan de reunificação. Esse Plano foi uma tentativa de resolução do conflito promovido pela ONU entre 2002-2004, nas vésperas da entrada de Chipre na União Europeia. Kofi Annan liderou esforços que propunha uma solução federativa para a ilha, o que resultou no Plano Annan. A intenção, claramente, era resolver a questão cipriota antes da entrada do país na UE (Moulakis, 2007).

Desde então, o impasse tem dificultado avanços nas negociações de adesão e alimentado o argumento de um multilateralismo seletivo por parte da União Europeia – que, na visão turca, privilegia Estados-membros em detrimento de soluções de compromisso (Düzgün, 2019). Esse impasse evidencia como as dinâmicas domésticas e a construção da identidade nacional turca, especialmente o nacionalismo e a centralidade militar nas decisões de política externa, se chocam com os princípios normativos e consensuais do regionalismo europeu. A questão cipriota é, portanto, não apenas um entrave bilateral, mas um emblema de como o regime político e a orientação interna moldam os limites da integração regional.

A chegada do Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP) ao poder em 2002, com Recep Tayyip Erdoğan, marca uma nova fase da política turca. Nos primeiros anos, houve esforços de democratização e diálogo com a UE, com reformas pró-europeias que levaram à abertura formal das negociações de adesão em 2005. No entanto, a partir de 2010, vê-se um recuo democrático, acentuado após a tentativa de golpe de 2016, quando Erdoğan adotou um perfil fortemente centralizador e autoritário (Davutoğlu, 2001).

O referendo constitucional de 2017 consolidou esse processo, ao substituir o sistema parlamentarista pelo presidencialismo. A partir dessa mudança, o papel do presidente na formulação da política externa passou a ser preponderante, refletindo diretamente na condução das relações com vizinhos regionais e organizações internacionais (Müftüler-baç, 2020).

A política externa turca, por sua vez, passou a refletir uma identidade islâmica e nacionalista, com o abandono do ideal kemalista de ocidentalização. Erdoğan promoveu uma política de “profundidade estratégica” (Davutoğlu, 2001), buscando ampliar a influência turca no Oriente Médio, nos Bálcãs e na Ásia Central. A criação do Conselho Turco e a ênfase nas relações com países de maioria muçulmana demonstram uma nova orientação regionalista, que se afasta do multilateralismo liberal e se aproxima de um regionalismo seletivo e instrumentalizado.

Como um país importante dividido entre a Eurásia, a Turquia é um país central com múltiplas identidades regionais que não podem ser reduzidas a uma categoria única. Para Davutoğlu (2001), a Turquia deve se apropriar de uma nova posição em sua região, proporcionando segurança e estabilidade não apenas para si mesma, mas também para seus vizinhos e para a região. Os compromissos da Turquia, da África à Ásia Central e da UE à OCI, são parte de uma nova visão de política externa. No plano interno, a Turquia precisa aprofundar e enriquecer sua democracia, acomodar as diferenças dentro de sua sociedade e fortalecer a coordenação e o equilíbrio entre suas instituições.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A política externa da Turquia, entre 1923 e 2024, foi fortemente condicionada por transformações institucionais e disputas internas de identidade nacional. A comparação entre o regime parlamentar kemalista e o presidencialismo centralizador sob Erdoğan mostra que mudanças no arranjo político impactaram diretamente a forma como o país se posiciona regional e internacionalmente.      

Enquanto o presidencialismo sob Erdoğan consolidou uma nova lógica de formulação da política externa turca, marcada pela centralização decisória, personalização diplomática e instrumentalização das alianças regionais. A ruptura com o modelo parlamentar kemalista — baseado na laicidade, na cautela diplomática e na aspiração europeia — deu lugar a uma política externa mais assertiva, seletiva e identitária. 

A nova configuração institucional permitiu ao Executivo moldar estratégias externas alinhadas a uma identidade neo-otomana, com ênfase em vínculos étnico-religiosos e projeção de influência no Oriente Médio, Ásia Central e África. Iniciativas como a Organização dos Estados Turcos e o protagonismo na Organização de Cooperação Islâmica demonstram esse redirecionamento. Ao mesmo tempo, o afastamento da União Europeia e o impasse em torno da questão cipriota revelam os limites e as potencialidades do regionalismo e os processos de integração regional em contextos de instabilidade democrática e mudança de regime.

Essa trajetória confirma que o regionalismo não é neutro nem linear: depende da estabilidade institucional, das agendas domésticas e da legitimidade interna dos governos. Assim, a política externa turca passou a refletir mais as prioridades do regime do que compromissos duradouros com fóruns multilaterais. Portanto, da herança otomana ao presidencialismo contemporâneo, o regionalismo turco sempre foi questão de Estado.

REFERÊNCIAS

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Leticia Alencar Moura
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Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB). Especialista em Política Externa Brasileira (ESRI). Redatora do Observatório de Política Internacional (CEERI). Foi monitora bolsista em Processos de Integração Regional (UEPB). Atua nos seguintes temas: Política Externa, Integração Regional, Política Comparada e Relações Internacionais.

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