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A Segurança Climática no Sahel

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A agenda das mudanças Climáticas , particularmente no âmbito de fóruns e organismos internacionais, tem adquirido uma nova dimensão de destaque: a associação entre crise climática e a intensificação de conflitos securitários (Bonner, 2025). Nesse sentido, o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) reconhecem as mudanças climáticas como um “multiplicador de ameaças” (Charbonneau, 2022). Já a União Africana (UA), compreende que as mudanças climáticas constituem uma “ameaça existencial às comunidades africanas, ecossistemas e  economias” (African Union, 2022 apud Charbonneau, 2022). Assim, averigua-se que a segurança climática tem se tornado cada vez mais relevante para a análise dos conflitos contemporâneos (Charbonneau, 2022).

Porém, a identificação do meio ambiente como um fator de risco não é uma associação historicamente dada ou, inclusive, uma compreensão pacificada entre os formuladores de políticas globais e a academia especializada. Por não ser direta nem determinística (Bonner, 2025), a relação entre mudanças climáticas e conflitos é percebida distintivamente por diferentes atores. A OTAN, por exemplo, foca nas capacidades operacionais e nos riscos globais de conflitos armados e migrações climáticas, ao passo que a UA enfatiza possíveis ameaças ao desenvolvimento regional e à segurança populacional. Na literatura, por outro lado, nota-se o predomínio da rejeição a ligações diretas e casuais entre clima e conflito (Charbonneau, 2022).

Consequentemente, diferentes concepções e entendimentos da análise da questão climática a partir de uma perspectiva securitária acarretam divergências sobre as respostas apropriadas às problemáticas enfrentadas. Assim, conforme sintetiza Charbonneau (2022):

Apesar do crescente consenso sobre as consequências das mudanças climáticas para a segurança, há pouco ou nenhum acordo sobre o que isso implica em termos de políticas ou ações, sobre a natureza da relação entre mudanças climáticas e segurança, sobre a relação entre mudanças climáticas e conflitos armados, ou sobre o que os atores militares e de segurança devem fazer a respeito (Charbonneau, 2022, p.97, tradução própria).

Com isso, o contexto no qual a segurança climática surge como objeto de preocupação e a evolução histórica do uso do conceito, bem como a sua operacionalização por atores globais e regionais, tornam-se elementos cruciais para a reflexão acerca dos impactos concretos de tal construção discursiva e prática no cenário internacional. 

Um conceito em disputa

 A discussão, portanto, é iniciada no final da década de 1980, a partir de estudos de ameaças relacionadas à degradação ambiental (Pavia; Simões, 2025). Nessa lógica, entendia-se que as mudanças climáticas, ao gerarem a degradação, a redução da disponibilidade e da qualidade dos recursos naturais, poderiam vir a gerar a emergência de conflitos internos, a partir da escassez de insumos básicos. Assim, a explicação inicialmente proposta era quase malthusiana, associando linearmente a escassez de recursos com a eclosão de disputas (Pavia; Simões, 2025). 

Em seguida, à medida que se aprofunda a compreensão global acerca do significado e das implicações das mudanças climáticas, a ênfase é deslocada para a possível relação entre ambiente e conflito. A título exemplificativo, estudos sobre recursos não-renováveis, como diamantes e petróleo, passam a compreender que a extração de tais recursos são potencializadores de conflitos e, inclusive, guerras civis (Charbonneau, 2022). Nesse processo, ainda, termos como Estados falidos, terrorismo, fluxos migratórios e instabilidade regional passam a integrar o rol de vocábulos associados às questões climáticas (Charbonneau, 2022). Logo, argumenta-se que tal narrativa sustenta a mobilização de apoio internacional que, em geral, é dirigida por países do Norte global à regiões consideradas vulneráveis, normalmente pertencentes ao Sul global. Com isso, há a normalização do intervencionismo estrangeiro na África, a partir da construção de perspectivas que “nos dizem muito mais sobre mecanismos e práticas de segurança e sobre dinâmicas regionais de intervenção e governança do que sobre conflitos armados africanos” (Charbonneau, 2022, p.102, tradução própria).

Por outro lado, há a percepção de que as raízes para inúmeros conflitos internos não estão meramente nas questões climáticas, mas sim  nas especificidades históricas, políticas e sociais dos atores envolvidos (Charbonneau, 2022). Assim, o efeito potencializador das mudanças climáticas reside no fato de que estas acentuam fatores pré-existentes em dada região, contribuindo para o cenário de instabilidade (Pavia; Simões, 2025). Com isso, a correlação direta entre crise climática e violência armada é contestada, evidenciando a segurança climática como um campo político disputado (Charbonneau, 2022) por atores de visões e interesses distintos. No continente africano, portanto, as mudanças climáticas possuem a capacidade de exacerbar conflitos que possuem dentre suas causas elementos que vão para além do âmbito climático per se. 

A segurança climática no continente africano

A partir desse contexto, a África emerge como uma região em que a interação entre clima e conflito é posta em evidência. Isso pois o aumento da frequência e da intensidade de eventos climáticos extremos afeta desproporcionalmente o continente, cuja taxa de aquecimento, em torno de +0,3°C entre 1991 e 2023, é ligeiramente superior à média global (WMO, 2023). Com isso, em 2023, a temperatura foi 0.61°C superior à média de 1991-2020 e 1.28°C à de 1961-1990, fazendo daquele ano um dos mais quentes da série histórica (WMO, 2023). Ainda, outros desafios enfrentados no tocante à dimensão climática incluem ondas de calor extremo, que ultrapassam os 49°C, a rápida elevação do nível do mar, além de precipitações e secas anormais (WMO, 2023). Como resultado, além da deterioração da qualidade de vida das populações locais, os riscos relacionados ao clima impactam o produto interno bruto (PIB) dos países, reduzindo-o anualmente  entre 2% e 5% (WMO, 2023). 

Já a realidade securitária do continente é moldada a partir de aspectos estruturais que remontam ao colonialismo e aos processos de independência na segunda metade do século XX (Matsimbe, 2023). Assim, “golpes de Estado, conflitos internos e externos, projetos políticos frustrados, bloqueio de desenvolvimento socioeconômico e múltiplas intervenções das grandes potências” (Visentini, 2025, p.14) compuseram um cenário de instabilidade nos Estados recém independentes. Portanto, diferentes regiões africanas têm enfrentado conflitos prolongados, de raízes históricas, cujos impactos incluem crises humanitárias, deslocamentos populacionais, assistência humanitária, mobilização de organismos internacionais e Missões da Organização das Nações Unidas (ONU), com o auxílio de governos estrangeiros (Matsimbe, 2023). 

Tendo em vista o acima exposto, depreende-se que o agravamento das condições climáticas globais afeta de modo particular o continente africano (WMO, 2023). Ainda, o histórico de ingerência externa, tanto no período colonial como no pós-independência, assim como as características próprias das dinâmicas inter-africanas, geram um contexto de fragilidade estatal, tensões e disputas (Matsimbe, 2023). Assim, a dimensão climática, quando englobada ao campo securitário, amplia um já complexo quadro de manutenção de conflitos internos. Além disso, exemplifica como a narrativa da segurança climática pode vir a ser instrumentalizada por organismos internacionais e atores externos como forma de legitimação de sua presença no continente (Charbonneau, 2022). Nesse viés, nota-se que:

Desde a Segunda Guerra Mundial, a África sempre foi um local fundamental para intervenções e políticas internacionais de paz e segurança; um imaginário espacial e histórico de locais específicos onde se encontram diversos atores, ideias, relações, práticas e experiências que, por sua vez, moldam as possibilidades de paz e segurança (Charbonneau, 2022, p.102, tradução própria).

A partir desse cenário, destacam-se as discussões acerca da segurança climática no Sahel. Englobando dez países — Burkina Faso, Camarões, Chade, Gâmbia, Guiné, Mali, Mauritânia, Níger, Nigéria e Senegal — a região é uma uma zona semi-árida e de transição ecológica ao sul do deserto do Saara de grande vulnerabilidade ambiental (Bonner, 2025). Ainda, é considerada política e institucionalmente frágil, devido a fatores como baixa capacidade estatal, desigualdade entre grupos sociais,  histórico de conflitos violentos e décadas de operações militares regionais lideradas pela França (Charbonneau, 2022). Em suma, a região experimenta mobilidade populacional significativa, flutuações sócio-econômicas, instabilidade política e constantes conflitos, que vêm sendo influenciados, de maneira crescente, também por fatores ambientais (Bonner, 2025). 

De modo complementar, a conjuntura retratada impacta diretamente na propensão ao conflito desses países. Segundo Pavia (2021, apud Pavia; Simões, 2025, p.147) uma série de condições, quando existentes em conjunto, aumentam a tendência a conflitos nos Estados africanos, a saber: i) a falta de sobreposição entre o Estado e a nação; ii) um regime não-democrático e; iii) a presença dominante do Estado na sociedade civil e na economia. Nesse âmbito, os Estados do Sahel vão ao encontro das condições descritas, o que auxilia, em partes, a explicar a realidade securitária da região. 

Já conforme defende Charbonneau (2022), o atual contexto securitário do Sahel pode ser visualizado enquanto reflexo da manifestação das forças históricas e estruturais na África. Logo, torna-se necessário compreender que as experiências africanas de paz e segurança resultam dos legados coloniais e das estruturas, relações e hierarquias de poder presentes e exercidas nas relações internacionais. Assim, a associação entre clima e segurança está inserida nas hierarquias de produção de conhecimento e em práticas discursivas contestadas, nas quais o continente africano é frequentemente constituído como objeto de análise e intervenção (Charbonneau, 2022). 

Isto posto, a segurança climática pode vir a ser instrumentalizada para reiterar reivindicações políticas que defendem a necessidade de engajamento securitário e intervenção militar externa no Sahel (Charbonneau, 2022). Essa linha argumentativa, baseia-se em pressupostos de segurança ocidentais, segundo os quais “o status quo pode ser mantido, uma minoria de elite pode preservar sua posição, os problemas ambientais podem ser marginalizados e o descontentamento e a instabilidade podem ser contidos” (Rogers, 2021, p.271 apud Charbonneau, 2022, p. 101, tradução própria). 

Assim, ainda de acordo com Charbonneau (2022), uma política internacional de manutenção do status quo, baseada na relação entre as crises climática e securitária, pode vir a tornar o Sahel, novamente, objeto de intervenção permanente. Portanto, a associação direta e excessivamente simplificada entre aspectos ambientais e conflitos deve ser problematizada, enquanto as raízes históricas, as dinâmicas políticas, as relações de poder e a economia política dos conflitos não devem ser encobertos ou ignorados na análise securitária e ambiental do continente (Charbonneau, 2022).

Nessa perspectiva, a seguir será abordado um dos conflitos internos existentes na região do Sahel, com o intuito de examinar como e por quais atores a narrativa da segurança climática é operacionalizada, bem como de que maneira a estrutura histórica é interpretada e, por fim, quais os efeitos dessa leitura sobre a dinâmica concreta da violência e da crise climática na região. Assim, tratar-se-á do caso do Mali na tentativa de melhor compreender a relação entre segurança e meio ambiente na África contemporânea. 

Mali como caso emblemático

A República do Mali, localizada na região central do Sahel, é uma ex-colônia francesa, que alcançou a independência em 1960. É predominantemente islâmica sunita e conta com uma população étnica e linguísticamente diversa (Pavia; Simões, 2025). O cenário pós-independência é de constante instabilidade política e fragilidade institucional, o que fica demonstrado pelos cinco golpes de Estado bem-sucedidos já ocorridos no país (Pavia; Simões, 2025). Adicionalmente, o contexto do Mali é permeado questões como:

Os efeitos de transbordamento da guerra civil na Líbia, o retorno de combatentes tuaregues que participaram desse conflito, o tráfico de armas associado àquela região, o “abandono” ao qual foram submetidas as populações do vasto Norte do Mali, a tentativa efêmera de criação do Estado de Azawad e as intervenções internacionais que se seguiram (Franco, 2021 apud Pavia; Simões, 2025, tradução própria).

Assim, a situação securitária do Mali se deteriorou a partir de 2012, quando uma rebelião tuaregue, inicialmente aliada a grupos jihadistas associados com a Al-Qaeda, expulsou o exército malinês e os representantes políticos do Estado da região (Charbonneau, 2022). Em sequência, um golpe militar agravou a crise e paralisou a capacidade de reação do Estado, permitindo a continuidade da atuação dos grupos jihadistas, que expandiram suas áreas de controle. Com isso, a incapacidade do governo malinês e a crescente preocupação com uma possível expansão do terrorismo na região, foram prerrogativas para a França (ex-potência colonizadora) conduzir a operação Serval, com o objetivo de expulsar os grupos extremistas da região, e para a implementação da Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização do Mali (MINUSMA, na sigla em inglês), operacionalizada pela ONU e com a liderança francesa (Charbonneau, 2022). 

Diante da ineficiência das forças do Mali e da ONU para atingir os objetivos de estabilização, a intervenção francesa, inicialmente posta como temporária, foi prolongada, convertendo-se na operação regional Barkhane, que expandiu sua área de atuação para a região do G5 Sahel, ou seja, Mali, Níger, Burkina Faso, Chade e Mauritânia (Charbonneau, 2022). Porém, as circunstâncias continuaram a deteriorar, marcadas por violência crescentes, contestações ao arranjo estabelecido para a Missão — a França ocupava-se das questões securitárias e de combate ao terrorismo, enquanto o Mali e a ONU tratavam dos aspectos políticos, de negociações de paz, desenvolviment, etc. —  e novos golpes militares, ocorridos em 2020 e 2021 (Charbonneau, 2022).

Sob o novo governo militar, o Mali iniciou um processo de ruptura do papel tradicional exercido pelo Ocidente e substituição da presença deste por de novos atores extrarregionais (Pavia; Simões, 2025). Assim, utilizou-se da retórica, de amplo apoio popular, de culpabilização dos atores externos, especialmente a França, dos fracassos do projeto de estabilização e a crescente insegurança na região, ao mesmo tempo em que aproximou-se da Rússia via contratação de mercenários do Grupo Wagner (Charbonneau, 2022). Por conseguinte, as forças francesas iniciaram sua retirada do Mali em um contexto de tensionamento diplomático entre os dois países, uma vez que Paris rejeitava quaisquer alegações de culpa e a junta militar no poder malinês endurecendo cada vez mais seu posicionamento anti-francês (Charbonneau, 2022; Pavia; Simões, 2025). No entanto, as tropas foram somente deslocadas para o Níger, garantindo assim, a manutenção da presença francesa no Sahel (Charbonneau, 2022).  

As operações Serval e Barkhane, em síntese, resultaram em um aparato regional de governança securitária centrado nas capacidades militares francesas, ainda que com o apoio da ONU, da União Europeia e dos próprios Estados do Sahel, além da aprovação tácita das organizações regionais africanas (Charbonneau, 2022). Essa dinâmica pode ser interpretada como uma forma de governança contra-insurgência que legitima e embasa intervenções estrangeiras prolongadas, que priorizam  o controle populacional e territorial sem questionar as bases estruturais da violência combatida, uma vez que constrói a “ameaça terrorista” como elemento constante e que perpetua a atuação externa na região (Charbonneau, 2022).

Nesse contexto, a  segurança climática é inserida na realidade securitária no Sahel, a partir de práticas e narrativas que enfatizam a relação entre mudanças climáticas, pobreza, migrações, conflitos armados, terrorismo e extremismo (Charbonneau, 2022). Assim, organismos internacionais e governos estrangeiros constroem o imaginário de que a emergência climática observada na região multiplica as ameaças existentes, uma vez que contribui diretamente para o aumento do terrorismo e da migração, em especial para a Europa (Charbonneau, 2022). A fala de António Guterres, então Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados e atualmente Secretário Geral da ONU, sintetiza tal visão:

Os países do Sahel estão entre as principais vítimas dos efeitos acelerados das mudanças climáticas. Embora a seca e a desertificação não sejam novidade no Sahel, o aumento de sua frequência e intensidade é, e provavelmente piorará no futuro, como uma potencial fonte de conflito por recursos escassos e um novo fator de deslocamento forçado… [condições que] estão sendo exploradas por ideologias baseadas em etnia ou extremismo religioso (Guterres, 2012 apud Charbonneau, 2022, p.99, tradução própria). 

Para Charbonneau (2022), essa abordagem, predominante entre os formuladores de políticas globais do mundo ocidental, fortalece e legitima a conduta militarizada da França no que diz respeito aos riscos associados às mudanças climáticas no continente africano, além de reforçar a suposta necessidade da presença militar francesa no Sahel. O longo histórico de operações militares no Mali, portanto, demonstra a consolidação de um padrão de relacionamento pós-colonial entre os Estados do Sahel e o mundo externo, em que a região é interpretada como uma zona de intervenção constante por atores internacionais, sobretudo da França (Charbonneau, 2022). Nesse sentido, o termo France-Afrique demonstra a complexidade da atual e controversa relação entre as antigas colônias e a França, que continua a exercer certa dominação — agora de forma mais indireta, via aspectos econômicos, financeiros, militares e políticos (Pavia; Simões, 2025) e, mais recentemente, climáticos. 

Com fundamentação nisso, as populações do Sahel são “historicamente interpretadas como a fonte dos problemas ambientais devido à sua pobreza e vulnerabilidade”, sendo “representadas tanto em risco quando riscos à segurança” (Bonnecase, 2011 apud Charbonneau, 2022, p.100, tradução própria). Já os Estados sahelianos são concebidos como frágeis e incapazes de governar adequadamente, gerando assim áreas subgovernadas em que a violência, o terrorismo e a intensificação dos conflitos locais são postas em evidência, enquanto os atores externos, por sua vez, são idealizados enquanto  agentes capazes de promover a estabilização e a resolução dos conflitos (Charbonneau, 2022).

Dessa forma, o nexo clima-conflitos-terrorismo fundamenta as premissas que sustentam as estruturas e relações de poder no Sahel, moldando as compreensões sobre as possibilidades de gestão de crises, tanto atuais quanto futuras (Charbonneau, 2022). Assim, a construção normativa predominante descreve formas de governança que negligenciam práticas e modos locais, além de obscurecer os legados das estruturas de intervenção e dependência na formação dos Estados Sahelianos (Charbonneau, 2022). Em outras palavras, o discurso da segurança climática auxilia na estruturação de uma política internacional de intervenção constante na região, ao vincular crise climática e segurança enquanto preocupações primárias da comunidade internacional no tocante ao continente.

Conclusão

Percebe-se, a partir do acima exposto, que a associação entre as mudanças climáticas e a existência de conflitos internos assume um papel central no continente africano e, em especial, na região do Sahel. A segurança climática, nesse contexto, ultrapassa o âmbito meramente discursivo, possuindo implicações concretas na forma em que intervenções externas são elaboradas e justificadas. Como resultado, há a reconfiguração das agendas securitárias existentes, cujo foco é deslocado de dinâmicas históricas, políticas e econômicas para preocupações ambientais e de gestão de risco, de forma a apresentar a ingerência estrangeira como uma resposta necessária e incontornável na busca da pacificação do continente (Charbonneau, 2022; Pavia; Simões, 2025). 

Não se trata de desconsiderar a relevância do conceito de segurança climática para a análise dos conflitos africanos, mas sim de englobá-lo em uma abordagem crítica e contextualizada. Nesse intuito, as mudanças climáticas devem ser compreendidas como um fator “multiplicador de ameaças” em um contexto mais amplo, em uma análise que considera primariamente os fatores pré-existentes — como o legado colonial e seus impactos na construção social, econômica e institucional dos Estados africanos — e não somente a conjuntura ambiental. 

REFERÊNCIAS

BONNER, Ita. Climate-related Security Risks in the Sahel. Journal of Central and Eastern European African Studies, [S. l.], v. 5, n. 2, p. 72–83, 2025. Disponível em: https://jceeas.bdi.uni-obuda.hu/index.php/jceeas/article/view/317. Acesso em: 7 mar. 2026.

CHARBONNEAU, Bruno. The climate of counterinsurgency and the future of security in the Sahel. Environmental Science & Policy, [S. l.], v. 138, p. 97–104, 2022. Disponível em: https://jceeas.bdi.uni-obuda.hu/index.php/jceeas/article/view/317. Acesso em: 7 mar. 2026.

MATSIMBE, Hamilton. Conflitos Pós-Coloniais e Mobilização Internacional em África. Revista África(s), [S. l.], v.10, n.20, 2023. Disponível em: https://www.revistas.uneb.br/africas/article/view/19625. Acesso em: 8 mar. 2026.

PAVIA, José Francisco Lynze Zalago; SIMÕES, João Carlos Marques. Climate change induced instability and conflicts: Mali, Burkina Faso and Niger. Janusnet, e-journal of international relations, Lisboa, v.15, n.2, TD3,  p.141-158. Disponível em: https://janusnet-ojs.autonoma.pt/index.php/janus/article/view/169. Acesso em: 7 mar. 2026.

VISENTINI, Paulo. A África, da globalização à multipolaridade instável. Revista Debates, [S. l.], v. 19, n. 2, 2025. Disponível em: https://seer.ufrgs.br/index.php/debates/article/view/149023. Acesso em: 8 mar. 2026.

WORLD METEOROLOGICAL ORGANIZATION (WMO). State of the Climate in Africa 2023. Geneva: World Meteorological Organization, 2024. Disponível em: https://library.wmo.int/viewer/69000/download?file=1360_State-of-the-Climate-in-Africa-2023_en.pdf&type=pdf&navigator=1. Acesso em: 8 mar. 2026.

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