Dois anos de COVID-19: pandemia e sociedade internacional – 31 de dezembro de 2019

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Desde  que o primeiro caso de COVID-19 foi confirmado, se vive a maior crise sanitária do século. E desta resultaram muitas outras: crises políticas e econômicas, negacionismo, o crescimento do movimento anti-vacina e a evidência do aumento das desigualdades sociais e da fragilização de grupos minoritários e racializados em meio a esse contexto. A pandemia deixa milhares de mortos, famílias desfalcadas e órfãos, tudo em meio ao aumento de desemprego e crises dos sistemas de saúde. E frente a isto tudo, como a sociedade internacional se portou? Dos Estados aos demais atores, um dos grandes papéis deste momento histórico foi evidenciar precisamente quais são as fraquezas e fortalezas do sistema frente à gestão de uma crise desse tamanho. O objetivo deste breve artigo, portanto, é realizar uma breve retrospectiva dos últimos dois anos para analisar os impactos internacionais do Coronavírus e retirar destas algumas lições necessárias para o futuro.

Pandemia, quarentena, lockdown: como começou?

Começa de uma forma sutil: é o fim de 2019, e há uma doença respiratória circulando em um mercado de Wuhan, na China. Avança de uma forma avassaladora: mero mês após a primeira identificação da SARS-CoV-2, em dezembro, é declarada uma emergência de saúde pública internacional pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Mal o vírus atingiu o Brasil, em março de 2020, foi declarada a pandemia do que ficou conhecido como COVID-19, ou Coronavírus (LIM, 2021).

A primeira reunião internacional para considerar a então epidemia foi organizada no dia 22 de janeiro, pelo Comitê de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional, ocasião na qual as opiniões a respeito do status desta possível emergência de saúde  pública se dividiram (DAVIES e WENHAM, 2020). Depois da China, se tornou foco do COVID-19 a Itália; que no dia 30 de março de 2020 já contabilizam 101.739 casos e 11.591 mortes. Em maio, os Estados Unidos se tornaram o mais novo epicentro da pandemia: em 25 de março de 2020 o número de casos chegava a 1.818.871, o que alcança seu ápice em 4 de janeiro de 2021, e resulta, até 25 de outubro de 2021, em 44.940.696 casos e 726.846 mortes. O próximo país a se tornar o epicentro da doença foi o Brasil, que em 27 de julho de 2020 contava com 2.662.485 casos e 92.475 mortes – uma crise que fica simbolizada pela crise do oxigênio no Amazonas em janeiro de 2021, cujas perdas somaram a 5.879 até 13 de janeiro de 2021. O país como um todo, até 25 de outubro de 2021 registrava 21.680.488 casos e 604.228 mortes.

Tendo em vista a natureza desta crise sanitária, um tema permeia a discussão desde o início: o desenvolvimento de uma vacina. Apesar do alcance transnacional da pandemia, a produção destas é localizada, e refletiu as tensões típicas do sistema internacional. Em agosto de 2020, a Rússia foi o primeiro país a registrar uma vacina pronta para uso, a Sputnik V, mas é recebida com desconfiança a respeito da confiabilidade e eficácia da vacina russa. O mesmo ocorre com a Coronavac, vacina chinesa, que ficou pronta no final de 2020 assim como a Pfizer, do laboratório BioNTech; a Astrazeneca, da Oxford; e a Jansen, da Jonhson & Jonhson, as mais aplicadas ao redor do globo.

Com as vacinas prontas e já tendo contratos firmados por alguns países desde o período de testes, começa no dia 7 de dezembro de 2020 o primeiro programa de vacinação em massa de um país, e, assim, a fora do período de testes. A britânica Margaret Keenan, de 90, se torna a primeira pessoa a ser imunizada em um avanço que logo se tornaria global. Isto não significou o fim da pandemia, visto que uma imunização completa da população está distante e os efeitos das crises derivadas são vastos. Ainda assim, a vacina é um excelente ponto de partida para esta análise. 

Política, saúde e sociedade internacional

Uma pandemia, por natureza, é mais abrangente e não é limitada por fronteiras. Uma pandemia que ocorre em um mundo intrinsecamente dependente de cadeias de produção e dos fluxos de serviço, bens e finanças, fica ainda mais vulnerável (BASRUR e KLIEM, 2021). O impacto do COVID-19, portanto, evidenciou uma problemática política tanto quanto foi uma questão de saúde pública (DREZNER, 2020). O problema, como apontam Davies e Wenham (2020), é que as decisões políticas contrastam, em demasiados casos, às instruções sanitárias – mesmo que houvesse o alerta a respeito da necessidade de máscaras e isolamento, aqueles no poder, quando decidiam quais indicações iriam seguir e que políticas iriam implementar, se mantiveram na zona de conforto e efetivamente foram os responsáveis por decidir quem vivia e quem morria.

Uma característica que distingue a pandemia do Coronavírus (e, com certos limites, as outras epidemias do século XXI) das pandemias do passado é o aceleramento tecnológico que permitiu o desenvolvimento da vacina no mesmo ano em que ela começou. Nos últimos dois séculos, os avanços das doenças foram reduzidos, ainda que nunca inteiramente apagados, devido ao saneamento urbano, saúde alimentar e inovações médicas – motivos pelos quais a maioria das epidemias dos séculos XX e XXI tiveram efeitos profundos, mas rápidos (LIM, 2021). 

Devido a este fator na gestão de prioridades, em muitos casos, política e economia precederam as recomendações sanitárias (DREZNER, 2020). Mais do que isto: apesar da natureza transnacional do progresso científico necessário para que as vacinas fossem desenvolvidas em tão pouco tempo (BASRUR e KLIEM, 2021), houve pouco interesse por parte dos Estados em cooperar. Estados Unidos e China não foram capazes de superar suas disputas comerciais para tomar um papel de liderança, e, portanto, as organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas (ONU) e a OMS também foram relegadas a um papel de suporte. Mesmo a União Europeia e a ASEAN, grandes organizações regionais, não puderam agir frente a disputas internas e reações nacionalistas e unilaterais à pandemia (DAVIES e WENHAM, 2020; BASRUR e KLIEM, 2021).

Para Davies e Wenham (2020), esta disparidade é particularmente visível no caso da OMS, que procura a autoridade sobre questões de saúde pública com base em liderança performativa e expertise técnica ao mesmo tempo em que não tem nenhuma autoridade direta sobre os Estados-membros. Principalmente no primeiro ano da pandemia, a organização sofreu duras críticas por ser ou demasiadamente política (e do lado da China), ou não política o suficiente.  Como poderia a OMS, com sua mera autoridade sanitária, preceder o poder político e econômico dos Estados? A falta de equilíbrio destes fatores e falha em priorizar tornou a pandemia mais fatal do que poderia ter sido.

Jogos de poder, cooperação e Coronavírus

Países diferentes tiveram níveis distintos de sucesso em suas estratégias para lidar com a  pandemia. Alguns, como Vietnã e Nova Zelândia, tiveram sucesso, enquanto outros, como Brasil e Estados Unidos, falharam em vários aspectos (DREZNER, 2020). Uma das causas que definiram o sucesso de alguns países e o fracasso de outros foi o tempo de resposta para a pandemia – alguns governos agiram rapidamente em decretar estado de emergência, lockdown e quarentena obrigatórios, testes em massa e difusão de informação correta, enquanto outros decidiram tratar a crise como algo menos impactante (“uma gripezinha”, se preferir). Para além do direcionamento político, no entanto, houve também, Estados que simplesmente não tiveram recursos materiais e financeiros para lidar com a pandemia.

Em um ambiente tão pesado como uma emergência sanitária, as condições políticas, sociais e econômicas de um país, para além de suas relações e interesses com a vizinhança, são fatores que se tornam essenciais para definir as políticas nacionais e a coordenação (ou conflitualidade) internacional (DAVIES e WENHAM, 2020). Os graus de abertura e controle em países ditatoriais e democráticos, por exemplo, resultam em jornadas diferentes de políticas públicas e relações externas, de forma a ilustrar a natureza assimétrica da sociedade internacional (SENHORAS, 2020). O impacto supranacional desta assimetria foi o choque da dinâmica das relações internacionais – em meio a medidas de isolamento, recessões e quebras nas cadeias de produção e consumo – que aprofundou a crise multilateral em função das diferentes estratégias de saúde, securitização e economia (SENHORAS, 2020; BASRUR e KLIEM, 2021). 

Como já vimos, as ações estatais durante a pandemia foram, em muitos casos, regidas primariamente pelo interesse nacional: a China viu uma oportunidade de ganhar soft power na distribuição de máscaras e vacinas, enquanto os Estados Unidos, na era Trump, foram regidos primariamente por políticas nacionalistas e tentativas de reestruturar as cadeias globais para superar a dependência chinesa (BASRUR e KLIEM, 2021). Houve cooperação, mas, apesar da interdependência entre os Estados, ela não foi consistente. 

Além disso, o contexto do avanço tecnológico, industrial e globalizado do Coronavírus não serve apenas para desenhar os sistemas de interdependência e competição ou possibilitar a rapidez dos avanços científicos (PORTO-GONÇALVES, ROCHA e TRINDADE, 2020). É determinante, também, para evidenciar as vulnerabilidades das periferias, ao expor os Estados e as populações fragilizadas pelo controle, por parte das elites, do próprio processo de globalização e distribuição de poder durante a pandemia.    Se países ricos foram capazes de desenvolver, produzir, comprar e estocar as vacinas, as nações empobrecidas se viram obrigadas a lutar, em um mercado desesperado, pelas que sobram. Estados Unidos as jogam fora e países europeus planejam uma terceira dose, ainda que apenas 37% da população mundial esteja completamente imunizada – e apenas 12% da população em Bangladesh, 4,5% da população angolana e 0,25% da haitiana já tenham tomado as duas doses em outubro de 2021. 

Em termos de relações internacionais, portanto, o paradigma de competição e cooperação da sociedade global não será alterado tanto quanto possibilitará novas jogadas por parte dos atores já posicionados (DREZNER, 2020). Isto não quer dizer que o Coronavírus não teve efeitos políticos – basta olhar para os resultados das eleições presidenciais estadunidenses – mas a segurança de saúde global é predicada em normas de reciprocidade e solidariedade, como definidos por quadros legais e regulações existentes (DAVIES e WENHAM, 2020). Cooperação, neste sentido, é uma peça que falta neste jogo no qual, por mais desigual que seja, todos os jogadores têm algo a perder. 

Conclusão: a pandemia atualmente e as lições para o futuro

Globalmente, no dia 07 de dezembro de 2021, a pandemia conta com 256.194.191 casos confirmados de COVID-19 e 5.254.116 de mortes registradas. A imagem não é absolutamente pessimista: mesmo sem uma cooperação consistente por parte dos Estados, é inegável que que houve uma maior aproximação por parte dos outros atores internacionais, desde a sociedade civil às ONGs, e que  ela ocorreu sem precedência nas comunidades da saúde, em particular entre os virologistas  (BASRUR e KLIEM, 2021). Com o andamento da vacinação, no início de dezembro de 2021, o número de casos e mortes cai no mundo todo, com 8.24 bilhões de doses já administradas, das quais 33.99 milhões são administradas diariamente.

No entanto, também é inegável que as políticas estatais impediram uma colaboração mais profunda, a exemplo de protecionismo de patentes e recusas de financiamento (BASRUR e KLIEM, 2021). Para a erradicação do SARS-coV-2 é necessário a vacinação máxima de toda a população global, mas enquanto a média da população mundial que recebeu pelo menos uma dose da vacina é de 55,2%, este número cai drasticamente para 6.3% nos países mais empobrecidos.

Há algumas lições imediatas frente a tudo que aconteceu até agora: a saúde econômica é dependente da saúde pública, e esta é, portanto, uma força dramática do ambiente macro. O avanço tecnológico pode tornar-se ainda mais rápido em momentos de extrema necessidade, e os Estados ainda são os principais responsáveis pelo mecanismo de tomada de decisão na saúde global (DREZNER, 2020; LIM, 2021). Já existem recomendações de especialistas relativas às lições a serem tomadas; Davies e Wenham (2020) sugerem, por exemplo, que a OMS deve adotar seu lado político ao lado do técnico, especificamente em termos de política externa e diplomacia. 

Enquanto as decisões tomadas ficarem presas aos jogos de poder e perdas financeiras, portanto, perderão de vista a real preocupação da pandemia: a vida humana. Vida esta que, por sua vez, deve ser vista em sua completude, e não hierarquizada por etnia, cor, nacionalidade ou classe. O Coronavírus evidenciou as falhas sistemáticas de governança e as assimetrias do sistema internacional,  e resta agora agir frente a estas evidências para evitar catástrofes maiores no futuro.

* Os dados apresentados foram coletados até o dia 07 de dezembro de 2021.

Referências Bibliográficas

BASRUR, R. e KLIEM, F. Covid-19 and international cooperation: IR paradigms at odds. SN Social Sciences, n. 1, v. 7, 2021. DOI: https://doi.org/10.1007/s43545-020-00006-4

DAVIES, S. E. e WENHAM, C., Why the COVID-19 response needs International Relations, International Affairs, v. 96, n. 5, p. 1227–1251, 2020. DOI: https://doi.org/10.1093/ia/iiaa135

DREZNER, D. The Song Remains the Same: International Relations After COVID-19. International Organization, v. 4, n. S1, p. 18-35, 2020. doi:10.1017/S0020818320000351

LIM, W. M. Editorial: History, lessons, and ways forward from the COVID-19 pandemic. International Journal of Quality and Innovation, v.  5, n. 2, p. 101-108, 2021 

PLATTO, S. et. al. History of the COVID-19 pandemic: Origin, explosion, worldwide spreading. Biochemical and Biophysical Research Communications, v. 538, p. 14-23, 2021. DOI: https://doi.org/10.1016/j.bbrc.2020.10.087 

PORTO-GONÇALVES, C. W., ROCHA, P. H. e TRINDADE, H. Uma geografia decolonial da pandemia: primeiras aproximações. In: Ibid. Pandemia: de Fratura Metabólica e Crise Sistêmica. 

SENHORAS, E. M. Covid-19 e os padrões das relações nacionais e internacionais. Boletim de Conjuntura, v. 3, n. 7, p. 105-110, 2020. 

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