Congresso de Segurança Internacional e Geopolítca
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DO CAMPO DE BATALHA AO FEED: A INOVAÇÃO MIDIÁTICA COMO TÁTICA DE RECRUTAMENTO EM MASSA DO ESTADO ISLÂMICO (2014-2020)

Photo by Kindel Media on Pexels

1. INTRODUÇÃO 

O presente estudo tem como objetivo analisar a evolução das táticas de recrutamento do Estado Islâmico (EI), organização que, entre 2014 e 2020, protagonizou um fenômeno de mobilização global inédito. O cenário se transformou radicalmente em junho de 2014, quando a proclamação do Califado e a quebra das fronteiras coloniais entre Iraque e Síria permitiram que o grupo deixasse de ser apenas uma insurgência local para se tornar uma entidade paraestatal. Essa ruptura ocorreu em duas frentes complementares e sequenciais. A primeira foi uma inovação midiática, entendida aqui como a criação de uma estrutura profissional de produção e distribuição de propaganda com estética cinematográfica, multiplataforma e voltada a públicos segmentados capazes de competir com veículos jornalísticos tradicionais. A segunda, decorrente da primeira, foi uma inovação tática no recrutamento: a transposição dessa capacidade de produção midiática para uma lógica de captação em massa, substituindo a seleção presencial e restrita por um funil digital de engajamento em escala global. Para entender a real dimensão desse movimento, a pesquisa utiliza a comunicação estratégica e a psicologia social como ferramentas de análise, permitindo compreender como o grupo conseguiu romper com os modelos tradicionais de insurgência clandestina.

A ascensão do Estado Islâmico vai muito além de uma disputa territorial comum, se trata de um dos fenômenos mais complexos da atualidade, marcado por profundas tensões identitárias e por uma gestão profissional da violência política. O foco deste estudo recai especificamente sobre a “máquina” de propaganda digital criada pelo grupo, com um destaque para o Al Hayat e o uso tático das redes sociais durante o auge e a queda do seu território físico. O enfoque adotado é o da comunicação estratégica, base teórica que orienta a análise das configurações do recrutamento em massa, responsabilizando a inovação comunicacional pela capacidade do grupo de atrair recrutas em escala global. 

Através de uma revisão crítica da história do grupo, associada a um estudo sobre como a radicalização ocorre no ambiente virtual, esta pesquisa busca evidenciar o impacto real dessa mudança de estratégia. Os princípios das insurgências antigas, que priorizavam o segredo absoluto e a seleção rígida de poucos membros  um modelo “boutique” foram substituídos pelo Estado Islâmico por uma lógica de volume, visibilidade e engajamento identitário. Essa virada não foi apenas uma atualização tecnológica, mas uma mudança metodológica, que ampliou o alcance do grupo muito além de suas fronteiras geográficas.

A consolidação dessas duas inovações midiática e tática  deu origem, após as perdas territoriais físicas a partir de 2017, à institucionalização do “Califado Virtual”. O conceito não corresponde a uma substituição do projeto territorial do Estado Islâmico, mas à sua continuidade por outros meios: após perder o controle de centros físicos, o grupo transferiu para o ambiente digital a preservação de sua identidade política, de sua propaganda e de sua capacidade de mobilização. Nesse sentido, a institucionalização do Califado Virtual representa um marco na repercussão global do conflito, evidenciando a capacidade de adaptação e a resiliência da organização não como abandono do projeto de um Estado real, mas como estratégia de preservação da ideologia e da coesão do grupo enquanto o domínio físico era combatido. O grupo mostrou-se capaz de continuar mobilizando um público global, com a intenção clara de projetar poder e desestabilização mesmo sem controle territorial, o que evidencia sua transformação em uma entidade onipresente e traz consequências graves para a estabilidade mundial.

Diante desse cenário, a pergunta que guia este trabalho é: a estratégia de recrutamento do Estado Islâmico constitui uma inovação tática em relação ao modelo das organizações antecessoras? A hipótese defendida é afirmativa, pois a transição de um recrutamento presencial  que dependia da confiança construída “olho no olho” para um ecossistema digital de massa evidencia uma inovação tática intencional, e não apenas uma resposta contingente às circunstâncias. Essa mudança rompeu com o paradigma clássico do terrorismo e exige novas formas de enfrentamento. A pesquisa, portanto, não se limita a descrever as ferramentas usadas, mas busca analisar a estratégia que fundamentou essa configuração inédita de mobilização.

 Para realizar esse estudo, é adotada uma abordagem qualitativa. Dessa forma, o foco não reside na mensuração quantitativa de dados, mas na interpretação das táticas de comunicação e dos fenômenos sociais que permitiram a ascensão do grupo. Quanto aos objetivos, a pesquisa é exploratória e descritiva: exploratória por investigar a complexidade do recrutamento digital e do Califado Virtual, e descritiva por detalhar o funcionamento prático da Al Hayat e do funil digital de recrutamento. O embasamento técnico vem da pesquisa bibliográfica, apoiada em teóricos da segurança internacional e da comunicação, e da pesquisa documental, realizada por meio da análise de relatórios oficiais.

2. DO CAMPO DE BATALHA À TRANSIÇÃO DIGITAL 

O ano de 2014 marca o ponto de inflexão definitivo na trajetória do jihadismo global e da segurança internacional. A ascensão do Estado Islâmico (EI) deixa de ser uma questão de insurgência local e se torna um grande desafio à ordem geopolítica que foi estabelecida no Oriente Médio após a Primeira Guerra Mundial. O marco zero dessa nova fase ocorreu em 29 de junho de 2014, quando Abu Muhammad al-Adnani anunciou a restauração do Califado e a supressão das fronteiras coloniais com o acordo de Sykes-Picot entre Iraque e Síria. (Cockburn, 2015) 

2.1 Ascensão do Estado Islâmico e o recrutamento territorial 

A ascensão do Estado Islâmico não pode ser vista como um evento súbito, mas sim como um desdobramento previsível de escolhas políticas concretas no contexto do pós 2003 no Oriente Médio. A invasão do Iraque, baseada em premissas falhas, e a dissolução das instituições locais sem um plano de reconstrução criaram um vácuo de poder. Esse cenário, que foi agravado por políticas sectárias que marginalizaram os sunitas, formou um terreno fértil para a emergência e expansão do extremismo. (Cockburn, 2015)

Do ponto de vista genealógico, as raízes do Estado Islâmico se remontaram em 1999, com a fundação do grupo Jama’at al Tawhid wa al-Jihad por Abu Musab al-Zarqawi, que logo após fundar o grupo se filiou a Al-Qaeda. Aproveitando-se do colapso institucional iraquiano, o EI ganhou impulso ao recrutar sunitas e explorar tensões sectárias. Após se reorganizar como “ Estado Islâmico do Iraque” em 2010, o grupo capitalizou sobre a retirada

das tropas americanas e a guerra civil síria para que conseguisse expandir seu território. (Lister, 2014) A captura de Mosul e a proclamação do Califado, transformaram o grupo de uma insurgência para uma entidade paraestatal, priorizando o controle físico de populações como base de legitimidade, uma estratégia de governança competitiva que era distinta da Al-Qaeda. (Kilcullen, 2016) 

Nesse período inicial, a forma de recrutamento do Estado Islâmico dependia fundamentalmente de métodos tradicionais. A estratégia que predominava era o recrutamento presencial, que operava através das redes locais preexistentes, como mesquitas e comunidades sunitas marginalizadas no Iraque e na Síria. (Barrett, 2014) O processo de recrutamento era bem pessoal e baseado em laços de confiança familiar e religioso, onde os recrutadores que eram muito respeitados abordavam seus recrutas em ambientes físicos. (Lister, 2014) 

Este modelo inicial que era usado se difere do “recrutamento boutique” que era praticado pela Al-Qaeda, que era um modelo mais hierárquico, centralizado e focado em poucos indivíduos com qualificações específicas. (Cronin, 2009) E indo ao contrário desse modelo, o EI adotou um modelo de recrutamento mais abrangente desde o início, ou seja, mostra como seus primeiros recrutas eram, eles apresentavam um perfil bem mais distinto, eram homens adultos iraquianos e sírios que eram motivados por questões locais e concretas, como o desemprego e a perda de status político. (Cockburn, 2015) 

2.2 Mecanismos psicológicos e sociais da radicalização 

A compreensão da eficácia do recrutamento do Estado Islâmico precisa de uma análise que ultrapasse os fatores políticos, focando nos mecanismos psicológicos e sociais. O EI demonstrou uma capacidade sofisticada de explorar a necessidade humana fundamental de pertencimento, atraindo indivíduos que se sentiam alienados, marginalizados ou sem direção em suas sociedades de origem. Para muitos desses recrutas, a entrada nesse grupo não era motivada apenas por religiosidade, mas pela busca de uma causa geracional e contestatória, um fenômeno que era descrito como islamização da radicalidade que significa na análise do autor que não é o Islã que radicalizou os recrutas, mas e a sua radicalidade que leva os recrutas a adotarem uma versão extremista do Islão. (Roy, 2017) Especificamente em relação ao público alvo adolescentes e jovens adultos, que estão na fase de desenvolver sua própria identidade, se mostraram particularmente suscetíveis a essas narrativas que o EI soltava buscando validação social nesses grupos. (Boyd, 2014)

Para esses indivíduos, o Estado Islâmico oferecia bem mais do que apenas uma causa militar, eles ofereciam uma comunidade acolhedora e um senso de propósito existencial que eles sentiam que faltava em suas vidas. (Stern;Berger, 2015) Dentro das comunidades online e dos grupos de mensagens, os recrutas encontravam validação, e eram colocados em grupos que eles sentiam que eram valorizados. Essa satisfação de necessidades psicológicas básicas gerava nesses recrutas um comprometimento emocional poderoso, muitas vezes até maior do que a própria doutrinação ideológica. (Winter, 2015) A busca por identidade era atendida pela oferta de um novo status dentro do grupo, onde o recruta deixava de ser um indivíduo marginalizado e se tornava parte de algo muito maior. (Berger, 2015) 

A Teoria de Identidade Social oferece um framework essencial para que se possa entender a polarização dos recrutas. O EI explorava a vontade dos indivíduos de querer elevar sua autoestima se fazendo pertencer a grupos fortes. O Estado Islâmico construiu uma identidade de grupo coesa, que eles chamavam de Ummah (comunidade de fé islâmica) global, que era definida em oposição binária e absoluta aos infiéis e apóstatas. (Stern; Berger, 2015) Essa mentalidade de polarização do EI, que estabeleceu essa lógica do “nós contra eles” era sempre reforçada através de rituais, linguagens compartilhadas e narrativas de cerco, isolando psicologicamente e completamente o recruta do seu antigo ambiente. (Sunstein, 2017) 

O processo de radicalização funciona como uma sala de espelhos: ele se alimenta da tendência que as pessoas têm de só olhar para onde elas se sentem representadas, quando as pessoas ficam presas em grupos onde todos pensam igual, elas param de questionar a realidade. O que antes era apenas uma opinião se torna uma verdade absoluta, empurrando a pessoa para extremos sem que ela nem perceba. Nesse sentido o ecossistema digital do Estado Islâmico, mergulhava os recrutas em ambientes onde toda as informações recebidas validavam as perspectivas extremistas. E dessa forma eles tornavam extraordinariamente difícil para os recrutas questionarem as narrativas que o grupo mostrava, pois todo o fluxo de informação do grupo era blindado pelos algoritmos e pela curadoria dos recrutadores, e isso reforçava continuamente a ideologia radical e impedia o acesso a visões que eram contraditórias as deles. (Sunstein, 2017) 

2.3 A legitimidade religiosa e a estrutura militar 

Na sua fase inicial de recrutamento o Estado Islâmico vai para além das suas motivações políticas e sociais, o grupo dependia de dois pilares institucionais: a construção

de uma legitimidade religiosa que fosse inquestionável e a oferta de uma carreira militar profissionalizada. O EI fez uma estrutura para que pudesse oferecer aos seus recrutas uma combinação bem feita de justificação divina e ascensão pragmática. ( Barrett, 2014) 

A legitimidade religiosa para o EI servia como a base ideológica primária. O grupo não enquadra a sua luta apenas como uma insurgência política, mas como um imperativo teológico e uma obrigação islâmica de estabelecer um Estado autêntico, o EI não queria que seus recrutas fossem lá lutar apenas por um pedaço de terra ou por poder político, mas que eles soubessem que estavam indo cumprir uma missão sagrada que tinha sido ordenada por Deus para restaurar a verdadeira lei da terra. (Maher, 2016) Para conseguir operacionalizar esta narrativa, o grupo recorria quase sempre a líderes religiosos locais que atuavam como intermediários de confiança no processo de recrutamento. Esses líderes religiosos davam uma validação islâmica para essas operações, e com essa validação eles transformavam a violência em um dever espiritual, oferecendo assim aos seus recrutas uma justificativa moral para suas ações. (Lister, 2014) 

O componente militar, paralelamente, atraía indivíduos através da promessa de prestígio e organização. A estrutura de combate do EI se diferenciava por conta da sua sofisticação, uma característica que foi herdada diretamente da incorporação de ex-oficiais do exército iraquiano e do partido Baath. Esses veteranos do exército que possuíam experiências táticas da era de Saddam Hussein, trouxeram essas experiências para poderem implementar cadeias de comando claras e táticas superiores às de outras milícias regionais. (Barrett, 2014) 

Para os recrutas iniciais que possuíam alguma experiência de combate o EI oferecia  uma carreira mais estruturada, onde as suas experiências e habilidades bélicas eram valorizadas e recompensadas com status e com uma oportunidade maior de liderança. Quando junta essa capacidade militar técnica com a autoridade religiosa, o grupo se transformou não apenas em uma organização terrorista, mas também como uma entidade paraestatal que é capaz de governar e combater simultaneamente. (Lister, 2014) Porém esse modelo que o EI usou de recrutamento dependia fortemente da presença física e de redes locais, o grupo tinha uma limitação geográfica que seria superada somente quando tivesse a expansão para o meio digital. ( Winter, 2015) 

3. A INOVAÇÃO MIDIÁTICA E O RECRUTAMENTO EM MASSA (2014-2020)

A transição do Estado Islâmico de uma insurgência local para uma ameaça global foi dada por conta de uma revolução na sua estratégia comunicativa. O EI se diferenciou de seus antecessores, que utilizavam a internet de forma rudimentar, quando o grupo desenvolveu um ecossistema midiático mais profissional e também quando começaram a usar uma tática de recrutamento digital em massa. (Winter, 2015) Embora a ascensão territorial tenha suas raízes nas dinâmicas locais do Iraque e da Síria, a transformação em um fenômeno global ocorreu por conta da mudança de narrativas que teve no pós 2014. 

Quando o grupo proclamou o Califado, ele não desafiou apenas as fronteiras geopolíticas, mas também redefiniu a sua forma de recrutamento. Se antes a Al-Qaeda passava a ideia de uma insurgência eterna e clandestina, o EI passou a mostrar a ideia de uma realidade tangível de um Estado que estava em funcionamento. (Cockburn, 2015) Essa virada permitiu que o grupo conseguisse transitar da narrativa de destruição, que foi focada na guerra contra o Ocidente, para uma narrativa de construção. A propaganda do EI deixou de focar apenas em combate para começar a exibir a vida cotidiana de uma sociedade utópica, tornando assim o Califado como uma marca global que prometia cidadania e pertencimento. (Berger, 2015) 

A mudança de status de milícia para entidade paraestatal foi fundamental para poder diversificar o perfil dos recrutas. O apelo à “construção do Estado” atraiu não apenas combatentes, mas também engenheiros, médicos, administradores e famílias inteiras que desejavam viver sob a Sharia. Diferente dos recrutas locais que eram motivados por queixas políticas, esse novo contingente global foi chamado pela promessa sofisticada de participar de um projeto histórico e divino de governança. (Lister, 2014) Porém essa promessa só foi possível ser comunicada em massa por meio da infraestrutura midiática que o grupo desenvolveu simultaneamente, superando as limitações físicas do recrutamento anterior. (Winter, 2015) 

3.1 Al Hayat e a profissionalização da propaganda 

Para conseguir disseminar essa nova narrativa que criou, o EI estabeleceu o Al Hayat Media Center em 2014, que acabou coincidindo com a proclamação do Califado. A criação desse centro mostrou a profissionalização das operações de propaganda, elevando essa propaganda de esforços descentralizados e amadores para uma operação midiática de nível corporativo. Diferente de outros grupos que produziam conteúdos de baixa qualidade técnica, o Al Hayat introduziu padrões de produção cinematográfica, distinguindo o EI pela sua estética de alta definição e consistência visual. (Tamimi, 2015) 

A estrutura interna do Al Hayat era igual a de uma agência de mídia ocidental, era organizada em departamentos especializados com cadeias de comando claras. O EI investiu em equipamentos de ponta, incluindo drones e câmeras HD, que eram operadas por equipes dedicadas à captação, edição e pós-produção, elevando o padrão estético do grupo ( Stern; Berger, 2015). Além da produção de vídeos a estrutura do grupo contava com um departamento de design gráfico que era responsável por criar uma marca visual coerente e de tradução, que adaptava a propaganda para múltiplos idiomas como o inglês, francês e alemão, permitindo assim que a mensagem do Estado Islâmico ultrapassasse barreiras linguísticas e que atingisse uma audiência global muito maior. ( Ingram, 2017) 

A estratégia de conteúdo do EI era bem sofisticada e altamente segmentada. O grupo compreendeu que diferentes públicos respondiam a diferentes estímulos, pois enquanto vídeos de violência eram usados para intimidar inimigos, os materiais que eram focados na utopia como mostrar a segurança, os serviços sociais e a irmandade, esses vídeos eram direcionados aos potenciais recrutas. (Stern; Berger, 2015) Essas produções intelectuais se manifestaram nas revistas digitais, como a Dabiq, que apresentavam um design editorial impecável e artigos teológicos bem mais complexos. Essas publicações do EI serviam para atrair indivíduos que buscavam uma justificação teórica e religiosa para a sua radicalização, o grupo oferecia para seus recrutas uma estrutura de fé coerente e que era intelectualmente estimulante. ( Maher, 2016) 

3.2 Redes sociais como “ Funil Digital” de recrutamento 

A inovação midiática do Estado Islâmico não se restringiu apenas à produção de conteúdo de alta qualidade, ela residiu na sua capacidade de transformar plataformas de redes sociais em um mecanismo sistemático e personalizado de recrutamento. (Berger, 2015) Esse mecanismo opera através do conceito de funil digital, que era uma estratégia de movimentação segmentada onde indivíduos vulneráveis são primeiramente identificados e engajados no ambiente aberto das redes sociais e, posteriormente, induzidos a migrar para canais privados e criptografados. (Ingram, 2017) O Twitter serviu inicialmente como a principal plataforma , ele era o topo do funil, sendo a plataforma que eles escolheram para a disseminação de propaganda de amplo alcance. O objetivo do EI nessa fase era a triagem de indivíduos. Os recrutadores monitoravam ativamente as redes, eles usavam a plataforma para poderem identificar os indivíduos que expressassem alienação, vulnerabilidade social, ou os que demonstrassem interesses por tópicos jihadistas ou religiosos extremos. (Berger; Morgan , 2015) Uma vez que os recrutadores encontravam um alvo que eles consideravam promissor, eles iniciavam uma fase que chamavam de engajamento personalizado. Diferente da abordagem agressiva da propaganda de massa, o recrutador abordava o alvo de uma forma mais simpática e amigável. O processo de recrutamento era centralizado na construção de um relacionamento de confiança que eles chamavam de rapport,oferecendo aos recrutas a validação, a amizade e o senso de pertencimento que frequentemente faltavam em suas vidas. (Neumann, 2016) 

Os recrutadores agiam como mentores ou confidentes, desempenhando um papel crucial na ressocialização dos alvos. O objetivo era transformar indivíduos que se sentiam excluídos socialmente em membros valorizados e aceitos pelo grupo, satisfazendo a necessidade psicológica de identidade e pertencimento. (Boyd, 2014) 

O aprofundamento desse relacionamento levava à migração tática para canais de comunicação privados e criptografados, como o Telegram. Essa migração era essencial, porque ela protegia o recrutador da moderação das plataformas e criava um ambiente mais controlado, onde o alvo era exposto a conteúdos mais radicais sem o contraponto de visões contraditórias. Nesse ambiente privado, ocorria a radicalização intensiva, com o uso direcionado de conteúdo do Al Hayat para reforçar o viés de confirmação e preparar o recruta para o comprometimento final. (Ingram, 2017) 

3.3 A adaptação tática e a resiliência digital 

A verdadeira medida da inovação do Estado Islâmico é a sua capacidade de resiliência e adaptação tática diante das campanhas de moderação.A eficácia das plataformas abertas como o Twitter foi essencial para a triagem inicial , permitindo o alcance de uma audiência global antes da intervenção das empresas de tecnologia. (Winter, 2015) 

A migração em massa que o EI teve para o Telegram não foi aleatória, mas uma necessidade tática de segurança. A criptografia da plataforma se tornou essencial para a manutenção das redes de apoio após a perda territorial do Califado no pós–2017. Essa pressão exigiu uma fragmentação estratégica, onde o EI passou a operar como um Califado virtual descentralizado, composto por células autônomas coordenadas digitalmente. (Nações Unidas, 2024) 

A descentralização permitiu que o EI mantivesse uma base de apoio global mais dispersa e ativa. Para garantir a sobrevivência do conteúdo sob ataque constantes de moderação, o grupo adotou a tática de “enxame” que é um modelo de resiliência de rede onde múltiplas contas podiam se reorganizar automaticamente após suspensões. (Fisher, 2015) Para que o grupo conseguisse furar o bloqueio e manter sua propaganda ativa e em circulação, eles começaram a utilizar as hashtags que estavam em alta para infiltrar suas mensagens nas conversas globais, expondo seu material a audiências que seu material não era procurado tão ativamente. (Ingram, 2017) 

Até 2020, o EI havia estabelecido o modelo da inovação tecnológica que era contínuo. Ao invés de depender de um único ponto de falha, como uma cidade ou uma plataforma, o grupo assegurou a sua sobrevivência ideológica por meio de uma arquitetura de comunicação mais distribuída. Essa adaptação do EI comprovou que o seu playbook digital era o verdadeiro sucessor do Califado territorial, servindo de modelo para o financiamento e operação de combatentes estrangeiros na atualidade. ( UN CTED, 2023) 

4. AS IMPLICAÇÕES DO PLAYBOOK DIGITAL E O LEGADO DO CALIFADO VIRTUAL 

O que se pode chamar de playbook digital do Estado Islâmico, entendido aqui como o conjunto articulado de práticas de inovação midiática, funil de recrutamento e resiliência operacional desenvolvido pelo grupo entre 2014 e 2020, não representou apenas uma inovação tecnológica, mas uma revolução estratégica que redefiniu a gestão da guerra ideológica. Conforme argumenta (Ingram 2017), a capacidade do EI de mobilizar recrutas em massa e sustentar sua resiliência operacional alterou o panorama da segurança internacional, evidenciando que a migração para o meio digital não foi apenas uma tática entre outras, mas o legado mais duradouro do grupo.

4.1 A ruptura do paradigma: Do recrutamento boutique ao modelo de massa 

A principal evidência da inovação que o Estado Islamico teve vem da sua capacidade de romper com o modelo operacional que era dominante do terrorismo transnacional.O paradigma anterior, representado pela Al-Qaeda, operava com uma tática de recrutamento boutique. Esse modelo era limitado por uma hierarquia centralizada e dependente de processos de verificação rigorosos, focando apenas em indivíduos com histórico e qualificações específicas para missões complexas. (Cronin, 2009) O EI, por outro lado, estabeleceu um modelo de mobilização em massa descentralizada, sendo a exploração sistemática das redes sociais a sua principal alavanca. (Ingram, 2017) Diferente da Al Qaeda, que mantinha os processos de seleção mais rígidos, o Estado Islâmico inovou ao democratizar o acesso ao terror, aceitando assim uma diversidade maior dos perfis e das motivações que antes seriam destacados pelas organizações tradicionais. (Stern; Berger, 2015)

A tática de mobilização que o EI usou resultou em uma escala sem precedentes de um grande volume digital. No auge das suas operações digitais, por volta de 2014, o grupo mantinha uma vasta rede que cresceu bastante pois variou de 46.000 a 90.000 contas ativas no Twitter. Essa rede operava em uma estrutura de núcleo e periferia que garantia que a  propaganda que eles faziam ultrapassasse as bolhas jihadistas e atingisse a triagem inicial de dezenas de milhares de potenciais alvos recrutas. (Berger; Morgan, 2015) O sucesso que o Estado Islâmico teve em alcançar públicos não tradicionais resultou em um recrutamento que percorreu mais de 100 países, comprovando assim mais uma vez que a tecnologia permitiu ao EI superar o caráter restrito do terrorismo transnacional. ( The Soufan group, 2017) 

4.2 O metamorfismo do recruta: Da queixa política à crise de identidade 

O funil digital do Estado Islâmico mostrou-se bem eficaz, sobretudo devido à mudança profunda no perfil psicológico e motivacional de seus recrutas. Diferente do recrutamento territorial tradicional, que priorizava a doutrinação religiosa e questões sectárias locais, a estratégia do EI globalizou o apelo ao explorar as vulnerabilidades psicológicas dos recrutas, como a busca por pertencimento e identidade (Roy, 2017). A propaganda era meticulosamente planejada para que pudesse suprir essa necessidade de pertencimento, Boyd (2014) também fala que o grupo fazia as buscas por validações sociais como mecanismo de engajamento. O recrutador online assumia um papel de mentor, construindo um vínculo emocional profundo com o recruta, que era definido como grooming (aliciamento), tendo como objetivo fazer o recruta confiar cada vez mais no seu recrutador, e facilitava o isolamento social necessário à radicalização final, uma vez que o recruta acreditava e confiava mais no estranho do que na sua própria família (Saltman; Smith, 2015). 

A análise de casos confirma essa eficácia. O caso de Mohammed Bailor Jalloh, que foi recrutado aos 15 anos pelo Instagram, mostra como os recrutadores chegavam aos jovens isolados. (Berger, 2018) O recrutamento feminino, como o da Shamima Begum, mostra como funcionava a segmentação das narrativas que eles usavam como a utopia estatal e a maternidade para mulheres, e a ideia de combate para os homens. ( Saltman; Smith, 2015) Já o caso de Aine Davis, um criminoso que foi recrutado na prisão mostra a capacidade que o grupo tinha de oferecer a redenção aos desajustados sociais. ( Neumann, 2016) 

A exposição em grande escala que o grupo tinha criou expectativas irreais, como demonstrado no caso do Abdurahman Beleboni, que foi atrás da desradicalização após combater na Síria, e esse caso mostra o limite da propaganda. A dissonância que teve entre as narrativas sofisticadas que o grupo mostrava e a realidade brutal provocou uma desilusão, e isso foi o fator chave para que muitos recrutas pedissem a desradicalização. ( Coolsaet, 2016)  

4.3 O legado tático e as implicações para a segurança 

Ao analisar o impacto duradouro que o Estado Islâmico teve fica evidente que sua maior contribuição para a história do terrorismo não foi territorial, mas sim comunicacional. A verdadeira inovação do grupo foi transformar sua derrota militar em uma vitória de sobrevivência digital. Ao perder o controle físico de cidades como Mosul e Raqqa, o EI não desapareceu, ele realizou uma migração estratégica para o que o (Winter, 2015) define como “Califado virtual” que representa a desvinculação estratégica entre a ideologia e a necessidade de um território físico. 

A adaptação dessa estrutura digital não é acidental, mas sim fruto de uma adaptação técnica deliberada. O grupo aprendeu a burlar os mecanismos de controle das grandes plataformas utilizando táticas de enxame (Fisher, 2015), em que a rede se regenera automaticamente quando as contas são derrubadas. Junto com essa rede de enxame, o uso criativo das hashtags populares permitiu que a propaganda do grupo furasse as bolhas extremistas e se infiltrasse em conversas globais cotidianas, garantindo a circulação da mensagem que o EI estava querendo passar (Ingram, 2017). 

O aspecto mais alarmante desse legado que o EI teve é a capacidade de replicação. O EI estabeleceu um padrão de sucesso que vai além de barreiras ideológicas. No cenário contemporâneo, esse manual de branding e mobilização do grupo foi absorvido por insurgência como o Boko Haram e,  também, pela extrema-direita na Europa e na América do Norte. ( Berger, 2018) Isso comprova que o grupo estabeleceu o padrão definitivo para a sofisticação operacional do terrorismo moderno, independente da bandeira defendida. (Cronin, 2015) 

Por conta dessa realidade descentralizada, torna-se claro que a resposta internacional convencional se revela inadequada para conter a ameaça isoladamente. A eficácia do combate depende do foco na demanda, priorizando os programas psicossociais que precisam resolver a alienação e a exclusão social antes da radicalização. (Coolsaet, 2016) Além disso, a governança desse novo campo de batalha mostra que precisa de uma cooperação entre os governos e o setor privado, pois a velocidade de adaptação do Califado virtual supera a capacidade de resposta de qualquer Estado isolado. ( Nações Unidas, 2024; UN CTED, 2023).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Este trabalho buscou compreender se, e como o recrutamento do Estado Islâmico se tornou inovador ao longo do tempo, especialmente no período de 2014 a 2020, quando o grupo passou de uma insurgência para uma entidade paraestatal. Ao longo dos capítulos, foi possível demonstrar que essa transformação não se limitou apenas a uma simples modernização de ferramentas, mas estabeleceu uma mudança de paradigma tático em comparação aos padrões de recrutamento tradicionais de grupos anteriores, como por exemplo a Al-Qaeda. 

Uma análise inicial do grupo mostrou que o EI se consolidou em um contexto que foi marcado pelo vácuo de poder que teve após a invasão do Iraque, pelo agravamento das tensões sectárias e pela fragilidade das instituições estatais, se apoiando em redes locais, na legitimidade religiosa e na estrutura militar profissional para poder recrutar combatentes principalmente iraquianos e sírios. Esse primeiro modelo territorial que era centrado em vínculos presenciais e comunitários se mostrou bem eficaz no plano regional, mas ocorria de forma limitada geograficamente e era bem dependente da presença física de intermediários e lideranças locais. 

A partir de 2014, com a proclamação do Califado, foi observado que teve uma inflexão decisiva na estratégia do EI, que passou a investir em um ecossistema midiático profissional, com a criação de estruturas como o Al Hayat Media Center e o uso intenso de redes sociais abertas e aplicativos criptografados. Essa profissionalização que o grupo teve permitiu que eles pudessem abandonar o padrão de “recrutamento boutique”, que era restrito a perfis selecionados e com essa profissionalização eles puderam adotar um modelo de recrutamento em massa que foi capaz de atingir diversos públicos em mais de cem países. 

A pesquisa mostra que a verdadeira inovação do recrutamento do Estado Islâmico vem da articulação entre a tecnologia, a comunicação e a psicologia social. O grupo aprendeu a explorar algoritmos, funções digitais e bolhas de informação para que assim eles conseguissem identificar os indivíduos vulneráveis e assim pudessem construir relações de confiança com seus recrutas em ambientes privados e oferecer narrativas de pertencimento, status e propósito que de alguma forma respondia as crises de identidade, especialmente entre jovens marginalizados. Assim o perfil do recruta deixou de ser predominantemente local e motivado por queixas territoriais para incluir um eixo global que era atraído por promessas de comunidade, redenção e protagonismo histórico.

Ao conseguir demonstrar a migração do EI de um Califado territorial para um “Califado virtual” o trabalho mostra que o principal legado do grupo para o terrorismo contemporâneo não é uma ocupação de terras, mas sim um manual comunicacional e digital que pode ser replicado por outros atores extremistas, independente da ideologia. A utilização de estratégias como a de enxame, a descentralização online, o uso estratégico das hashtags e a utilização de múltiplas plataformas consolidam um padrão de resiliência digital que desafia as respostas tradicionais que eram baseadas apenas em instrumentos militares. 

Com essa pesquisa, conclui-se que o problema de pesquisa, se a estratégia de recrutamento do Estado Islâmico constitui uma inovação tática em relação ao modelo das organizações antecessoras, tem uma resposta afirmativa. A transição de um modelo baseado na confiança física para um ecossistema digital de massa comprova que houve uma ruptura com o paradigma clássico das insurgências. Por fim, a pesquisa indica que o enfrentamento eficaz não se resume à censura ou à repressão, mas exige que tenha a cooperação entre os governos e as plataformas para que possam tratar as motivações psicossociais que atraem os jovens para a radicalização. 

REFERÊNCIAS 

AL-TAMIMI, Aymenn Jawad. Aymenn Jawad Al-Tamimi’s Blog. [S. l.], [s.d.]. Disponível em: [https://aymennjawad.org/.] Acesso em: 31 out. 2025. 

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Vitória Nascimento
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Formada em Relações Internacionais e pós-graduanda em Jornalismo e Narrativas Digitais. Possui experiência em Relações Governamentais, políticas públicas, análise institucional e comunicação estratégica. Interessada em jornalismo, política e relações internacionais, dedica-se à pesquisa e à produção de conteúdo sobre questões políticas e sociais contemporâneas, buscando aproximar análise e comunicação.

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