Hiroshima: A bomba atômica segundo o olhar dos japoneses

john hersey e o testemunho da bomba atômica

O livro Hiroshima foi escrito pelo jornalista John Hersey, filho de missionários americanos nascido na China, em 1914. Ao retornar aos Estados Unidos estudou na Escola de Hotchkiss e na Universidade de Yale. Durante sua carreira profissional trabalhou nas redações das revistas Time e Life. Depois, tornou-se jornalista internacional e passou a cobrir batalhas durante a Segunda Guerra Mundial.

Em seguida foi trabalhar para a revista The New Yorker; em 1946, por motivações profissionais Hersey foi para o Japão fazer uma reportagem sobre a bomba atômica que destruiu Hiroshima, primeiramente publicada na revista e mais tarde na forma de um livro. Harold Ross, o criador do The New Yorker, e William Shawn, o editor, foram os responsáveis pela ideia de escrever sobre o que aconteceu no Japão. Com relação à obra, vale destacar que o autor utilizou como fontes entrevistas e depoimentos dos sobreviventes, produzindo uma visão humanista do sofrimento das vítimas da bomba.

John Hersey, autor de Hiroshima
John Hersey (1958), foto de Carl Van Vechten

como a história foi relatada

A reportagem desenvolve as questões relacionadas à bomba atômica lançada pelos EUA, em 6 de agosto de 1945 na cidade de Hiroshima, no Japão. Dessa forma, ela narra a história de seis sobreviventes, contando desde os momentos anteriores a explosão até quarenta anos depois. Assim, o foco central da obra é mostrar o terrível impacto que a bomba teve na vida dos japoneses, que durou não só nos dias subsequentes ao bombardeio, mas que durou gerações. O livro também aborda sobre os sentimentos da população japonesa em relação à bomba atômica, aos sobreviventes, aos EUA e ao governo japonês. Além disso, outra temática tratada no livro é o impacto do surgimento da nova bomba para o mundo e o que ela simbolizava naquele momento.

A obra “Hiroshima” é bem estruturada, as divisões são claras e as partes se articulam, sendo perceptível que há dois grandes momentos: os acontecimentos até poucos dias depois do bombardeio e o que aconteceu na vida dos seis sobreviventes quarenta anos depois. Essa primeira parte é constituída pelos quatro primeiros capítulos, que buscam explicar a visão de cada protagonista em uma linha temporal. As histórias são contadas ao mesmo tempo e a cada acontecimento o autor narra o que cada um estava fazendo.

A segunda parte do livro consiste no capítulo cinco, acrescentado ao texto original quarenta anos depois (a partir da edição de 1985) e é estruturada de forma que o autor conta os quarenta anos de vida de cada protagonista separadamente. Não há capítulos mais importantes que outros, mas os três primeiros capítulos são mais impactantes porque mostram em que condições as pessoas atingidas estavam, toda a dor e sofrimento que viram e enfrentaram.

seis testemunhas

O primeiro capítulo, Uma luz silenciosa, nos apresenta os seis sobreviventes, narra o que eles fizeram momentos antes da detonação da bomba e o momento exato da detonação. Os seis protagonistas são:

Reverendo Kiyoshi Tanimoto
O Reverendo Kiyoshi Tanimoto,
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Masakasu Fujii, um médico
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Hatsuyo Nakamura, uma viúva
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Wilhelm Kleinsorge, padre católico da Companhia de Jesus
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Toshiko Sasaki, funcionária da Fundição de Estanho
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Terufumi Sasaki, cirurgião

Segundo o autor, já havia boatos de que a qualquer momento a cidade seria bombardeada por aviões B-29, então a população estava ansiosa e com medo. Algo que todos relataram é que na manhã do dia seis o alarme antiaéreo soou, mas uma hora depois soou o alarme de que não havia perigo. Os operadores de radar japoneses acharam que por serem só três aviões era apenas uma missão de reconhecimento.

Ao ler a obra, nos deparamos com a vida de seis pessoas que – assim como outros milhares – tiveram suas vidas marcadas para sempre pelo primeiro ataque atômico da História. O revendo Tanimoto, no dia seis, acordou muito cedo e foi se encontrar com um amigo. Os dois juntos foram à casa do Sr. Matsui para deixar um armário e no caminho ouviram os alarmes. Momentos depois que chegaram, viram um clarão no céu, apavorados correram e se esconderam como puderam. Por estarem a 3 km do centro tiveram tempo de reagir. Assim como a maioria, eles não escutaram nenhum barulho. Na verdade só foi possível escutar o barulho da explosão, aqueles que estavam a mais de 32 km de distância. O reverendo não sofreu nenhuma lesão e, após se levantar, correu em direção à cidade para encontrar sua família.

Em seguida o autor fala sobre a viúva Hatsuyo Nakamura, que morava no bairro de Nobori-cho com seus três filhos. Na madrugada da véspera da explosão, ela e os filhos foram se refugiar em uma das “áreas seguras”, os lugares para onde as pessoas fugiam quando havia o alerta de bombardeio. Pela manhã  ao voltar para casa escutou o alarme de um novo perigo; contudo, resolveu seguir o conselho do presidente da Associação do Bairro segundo o qual as pessoas deveriam permanecer em casa. Logo depois, viu o clarão branco e foi jogada para longe. Ao se levantar não estava ferida e foi resgatar seus filhos.

Posteriormente, começa a historia do Dr. Fujii, que tinha um hospital particular às margens do rio Kyo. Na manhã desse dia foi para o terraço do seu hospital ler, e foi quando viu o clarão. Diferentemente dos dois testemunhos anteriores, para ele o clarão era de um amarelo intenso. Com a explosão foi jogado para o rio juntamente com seu hospital. Ele ficou com a maior parte do corpo submerso e preso entre vigas e, quando conseguiu sair, estava muito machucado.

A próxima história é a do padre alemão da Companhia de Jesus, Wilhelm Kleinsorge, que vivia com outros padres em Nobori-cho. No momento da explosão estava descansando em seu quarto; quando percebeu estava fora do prédio, com alguns cortes, mas vivo.

O Dr. Sasaki vem em seguida; um jovem cirurgião da Cruz Vermelha, estava na casa de sua mãe em Mukaihara e na manhã do dia seis de agosto acordou antes do horário normal e pegou o bonde mais cedo do que de costume. Tal fator foi decisivo para sua sobrevivência. Assim, ao chegar a Hiroshima foi para o hospital. Enquanto trabalhava, viu o clarão e se abaixou. Com isso, não teve nenhum ferimento e foi ver como estavam seus colegas.

Por fim, o autor conta sobre a jovem Srta. Sasaki, que era funcionária da Fundição de Estanho que ficava em Kannonmachi. No fatídico dia estava na sua sala trabalhando, quando viu o clarão. A fábrica desmoronou e ela perdeu a consciência por horas, ficando com a perna presa entre os escombros.

O segundo capítulo, O fogo, narra os momentos logo após o bombardeio e é um dos mais intensos. As pessoas que sobreviveram à explosão foram procurar seus familiares, como é o caso do senhor Tanimoto. Outras foram buscar abrigo nas “áreas seguras”, como foi o caso da senhora Nakamura e seus filhos, do padre Wilhelm Kleinsorge e seus colegas e do doutor Fujii. Além disso, no hospital, o cirurgião Sasaki passou horas socorrendo os pacientes que já estavam lá e os que chegavam procurando ajuda. A maioria tinha cortes e escoriações, mas muitos também tinham queimaduras gravíssimas e estavam mutilados e vomitando. Rapidamente, o hospital ficou lotado e pessoas feridas não paravam de chegar, implorando por ajuda.

Segundo os depoimentos, o autor conta que a cidade estava toda destruída, muitos lugares estavam em chamas e haviam nuvens de fumaça. As pessoas estavam assustadas, feridas e confusas sem saber o que aconteceu. Nesse momento, alguns especulavam que teria sido um Molotoffano hanakago, como “chamavam o ‘cesto’ ou ‘feixe’ de bombas que se espalhavam sozinhas” (HERSEY, 2002, p. 20).

Hersey também aponta que um dos motivos que levou muitos feridos a ficarem sem atendimento, acarretando em mortes que poderiam ser evitadas, foi que com a explosão muitos hospitais ficaram destruídos e muitos médicos morreram ou ficaram incapacitados. Esse foi o caso do doutor Fujii que, por estar muito ferido, não podia salvar ninguém. Com isso, milhares de indivíduos não tinham ninguém para salvá-los, tal como a Srta. Sasaki.

Um dos relatos mais emocionantes é do padre Kleinsorge. Ele percebeu que o fogo estava se espalhando por causa do vento, e junto com os outros padres correu para a “área segura” do bairro, a Praça de Armas Leste. Contudo, o caminho estava em chamas e decidiram ir para o parque Asano, onde muitos se refugiaram, como a família Takamura. Nessa trajetória, eles ouviram muitos indivíduos soterrados, suplicando por socorro. Infelizmente, com o avanço do fogo não podiam parar e ajudar.

Tal conjuntura também foi relatada pelo senhor Tanimoto que, indo em direção ao centro, também viu indivíduos em extrema agonia fugindo, pedindo ajuda e vomitando. Em seu depoimento ele diz que sentia vergonha por ter saído ileso, mas que por estar preocupado em achar a sua família, não pôde ajudar ninguém e somente implorava a Deus que salvasse as pessoas que estavam sofrendo. Depois de algumas horas, as ruas estavam cheias de pessoas mortas e outras morrendo e vomitando. É nesse contexto que outra suposição surgiu em virtude das várias pessoas que estavam vomitando e nauseadas: começava-se a achar que os americanos haviam lançado um gás tóxico.

Muitos indivíduos se refugiaram no Parque Asano, porque tratava-se de um lugar era mais longe do centro e que, por ser coberto por árvores, seria menos provável de ser alvo de um novo ataque. Nesse lugar, segundo o padre Kleinsorge, as pessoas estavam sofrendo silenciosas, não choravam ou gritavam de dor. Tanto ele como o Sr. Tanimoto, que já tinha encontrado sua família e garantido que estava bem e seguros, ajudaram os feridos como puderam, dando água para beber e resgatando os que não podiam nem se mexer.

O terceiro capítulo, Detalhes estão sendo investigados, também é muito intenso. Ele continua narrando os dias posteriores à explosão, o que os seis protagonistas estavam fazendo para sobreviver e para ajudar os amigos, familiares e outras pessoas. Mesmo fazendo o melhor que podiam com recursos limitados, eles continuaram vendo pessoas muito feridas e morrendo. Nessa parte, o autor conta que, no dia sete, uma rádio transmitiu um comunicado que falava que Hiroshima sofreu um ataque de uma nova bomba. Também ouve um comunicado do presidente americano identificando a bomba como atômica e relatando sua grande capacidade destrutiva.

Logo depois do ataque, as pessoas que sobreviveram criaram várias teorias, mas nenhuma chegava perto da realidade; acreditavam ter sido uma bomba química ou que se tratava de materiais inflamáveis. Outro momento de grande peso foi quando, no dia quinze de agosto, o imperador do Japão fez um pronunciamento dirigido ao povo de Hiroshima dizendo que a guerra tinha acabado e que o Japão havia se rendido; este ato do soberano japonês – se dirigir diretamente aos habitantes de Hiroshima – teve um enorme significado para a população local, que se sentiu emocionada e compreendeu a rendição como um ato de sacrifício necessário para a paz mundial.

O capítulo seguinte, O pânico se espalha e matricária, começa a partir de doze dias após a explosão; nessa parte, o autor explora algumas consequências da bomba, como a radio-intoxicação. Diante disso, muitas pessoas, mesmo aquelas que não tiveram nenhum ferimento, começaram a ter náusea, fraqueza, perda de cabelos, febre e mal-estar. O surgimento destas sequelas e a compreensão de que as consequências do ataque nuclear ainda iriam durar por muitos anos, parte da população começou a nutrir ódio pelos americanos. Além disso, muitos cientistas e pesquisadores foram até a cidade para investigar e estudar os efeitos da radiação. Eles conseguiram determinar o ponto exato em que a bomba caiu e anunciaram que não havia risco em viver em Hiroshima.

Os médicos também formularam uma teoria segundo a qual a enfermidade seria composta por três estágios:

  1. o primeiro, vivenciado pelas pessoas mais próximas do centro da explosão, consistia na absorção de uma alta dose de radiação que levava à morte nas primeiras horas e dias após a explosão, com aqueles que sobreviveram à detonação sofrendo de dor de cabeça, mal-estar, febre, náusea e diarreia;
  2. o segundo estágio consistiu na piora da saúde dos sobreviventes, que mesmo após semanas apresentaram queda de cabelos, diarreia, febre alta, sangramento nas gengivas, redução dos glóbulos brancos e surgimento de petéquias na pele;
  3. aqueles que sobreviviam para vivenciar o terceiro estágio apresentavam uma contagem de glóbulos brancos acima do normal e muitos morriam devido a infecções. Em suma, o tempo e a gravidade da doença nas pessoas variavam de acordo com o organismo de cada um e o quanto de radiação elas receberam.

Percebeu-se também que os indivíduos que sofreram queimaduras provenientes da radiação térmica e os que ficaram parados por dias após a explosão tiveram menos radio-intoxicação. A radiação também fez com que as mulheres parassem de menstruar e tivessem problemas para engravidar; além disso, as grávidas tiveram seus fetos mortos ou com algum tipo de problema e muitos homens ficaram estéreis. Outro ponto importante é que tentaram impedir que as pesquisas sobre a bomba e seus efeitos fossem divulgadas para a população japonesa e para o mundo. Mas isso era algo impossível, e logo, começaram a circular panfletos com tais informações.

Em seguida, no capítulo cinco, o autor relata separadamente a vida dos seis sobreviventes ao longo de quarenta anos. Nesse contexto, Hersey fala que entre os japoneses surgiu um sentimento de preconceito em relação aos sobreviventes da bomba atômica ou hibakusha, como eram chamados. Os japoneses achavam que os hibakusha estavam doentes e que não serviam para trabalhar, casar e construir família.

Outro fato importante levantado pelo escritor, é que o governo japonês não queria se responsabilizar pelas perdas e pela saúde dos sobreviventes, que ainda tinham sequelas da radiação e estavam mais propensos a desenvolver câncer e outras doenças. Eles só conseguiram indenização e assistência do governo depois de anos. Isso ocorreu depois que os americanos testaram uma nova bomba de hidrogênio no atol de Bikini, afetando tripulantes de um navio com radiação, e a população se revoltou. Diante disso, o governo foi obrigado a criar políticas de assistência médica às vítimas das bombas.

Nesse contexto, o autor destaca que ao mesmo tempo em que havia políticas e discursos contrários à proliferação de armas atômicas e de exaltação a paz, as grandes potências continuavam criando e testando novas bombas. Para os japoneses, o que aconteceu com eles foi um sacrifício que impediria que algo parecido se repetisse novamente em qualquer lugar do mundo; contudo, Grã-Bretanha, França, China, Estados Unidos e União Soviética continuaram com os testes nucleares.

As opiniões e os sentimentos dos protagonistas e da população de Hiroshima sobre o ocorrido eram distintos: parte procurou seguir em frente sem guardar ressentimento dos americanos, outros não foram capazes. Contudo, mesmo depois de ter presenciado e sofrido situações terríveis, a maioria partilhava do sentimento de querer acabar com a guerra, e, pelo bem da pátria, suportaram seu sofrimento em silêncio. Diversos relatos tornam perceptível a devoção que o povo tinha pelo país e pelo imperador, e muitos simplesmente aceitaram o ocorrido como parte de um destino inevitável. O autor também levanta o questionamento sobre a necessidade do uso da bomba, mesmo que sem aprofundar ou se posicionar contra ou a favor.

É patente que os protagonistas, assim como muitas outras vítimas, tiveram suas vidas transformadas por tudo que presenciaram e sofreram com a bomba. Hiroshima impactou o mundo de muitas formas – configurou uma nova forma de se fazer jornalismo e deu uma nova perspectiva sobre a bomba atômica para as pessoas da época, mostrando o quanto ela foi devastadora. É uma obra magnífica, muito emocionante; o autor não utiliza a escrita para atribuir emoção aos fatos, ele escreve de uma forma que os próprios relatos dos sobreviventes e os acontecimentos em si geram uma grande comoção.

Um dos momentos mais impactantes foram os relatos do Sr. Tanimoto e do padre Kleinsorge sobre como eles passavam pelas ruas vendo sobreviventes que eles não podiam salvar e iam pedindo desculpas. Tal conjuntura leva a refletir o quão doloroso deve ser para um indivíduo escutar outro ser humano implorando por ajuda e não poder fazer nada, porque colocaria a própria vida em risco.

É provável que eles se sentissem culpados e impotentes, mas a verdade é que em um contexto inimaginável de sofrimento e medo, todos estavam lutando pela própria sobrevivência e isso é algo que ninguém pode julgar ou dizer que teria feito diferente. Hiroshima uma obra que leva a muitas discussões importantes e o autor soube discutir muito bem o tema, atribuindo um olhar humanizado sobre os acontecimentos e gerando empatia em qualquer leitor.

Essa é uma obra importante para aqueles que se interessam pela área de Relações Internacionais. Isso porque ela trata sobre um momento histórico que transformou todo o cenário internacional. Uma das características da Segunda Guerra Mundial é ter trazido muitas inovações sobre “como fazer guerra”. É também o momento em que os Estados Unidos se colocam como uma grande potência, principalmente após criarem e lançarem a bomba atômica. Assim, para além do estudo histórico sobre esse evento, é importante também observar com mais profundidade sobre o impacto que a bomba teve na vida dos japoneses. Por isso, é indispensável – ela traz uma perspectiva do que aconteceu segundo o olhar das próprias vítimas.

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Sobre o Autor

Graduanda em Relações Internacionais pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, com previsão de me formar em 2023. Atualmente, também, estudo línguas: inglês, francês, espanhol e japonês. Áreas de interesse: Imigração, Refugiados, Direitos Humanos, Geopolítica, Organizações Internacionais, Narcotráfico, Diplomacia e Pós-colonialismo.

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