Início da Guerra da Coreia – 25 de junho de 1950

A estátua dos irmãos simboliza a Guerra da Coreia e retrata os sofrimentos passados do povo coreano e sua determinação em alcançar a harmonia nacional, unificação e propriedade | Fonte: Wikimedia Commons
Início da Guerra da Coreia - 25 de junho de 1950 1

A Guerra da Coreia teve início no dia 25 de junho de 1950, com a invasão e tentativa de anexação do território da Coreia do Sul por parte dos norte-coreanos. É importante salientar que além desta conflagração ter sido o primeiro conflito bélico de grande proporção durante o período da Guerra Fria, também foi responsável por dividir os até então aliados durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), Estados Unidos da América (EUA), União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) e China, em lados opostos devido aos interesses políticos de cada uma das partes.

Apesar deste evento estar completando 71 anos na data de hoje, a sua importância para o entendimento da configuração bipolar do Sistema Internacional durante a Guerra Fria (1945-1991) é imprescindível. Esta informação relaciona-se ao fato de que foi durante este período que EUA e URSS perceberam que a disputa pela hegemonia mundial não ocorreria somente na Europa, mas sim em todas as regiões do globo.

As reverberações deste conflito bélico se mantêm até hoje em dia. O armistício que serviu como cessar-fogo e fim do choque das tropas, em julho de 1953, continua em voga, o que significa, tecnicamente, que a Coreia do Norte e a Coreia do Sul se mantém em estado de beligerância, já que nenhum acordo de paz foi redigido ainda. Além do mais, o paralelo 38°N prossegue separando as duas Coreias. 

Antecedentes da Guerra da Coreia 

Ao longo da história, a península coreana sempre sofreu inúmeras intervenções e/ou foi controlada diretamente por outros Estados, sobretudo pela China e pelo Japão. Apesar disso, em 1895, a Coreia consegue  independência da China após uma guerra entre japoneses e chineses. Contudo, a independência não dura muito tempo, visto que com a saída de Pequim, o território passou a ser disputado e influenciado pela Rússia e pelo Japão. 

Dessa forma, o futuro da Coreia é, mais uma vez, decidido no campo de batalha por potências estrangeiras. Um  novo conflito militar entre japoneses e russos ocorre entre 1904 e 1905, dando a vitória para Tóquio, que  a controlar a península coreana até 1910, ano em que esta é formalmente anexada. Este quadro perdura até o final da Segunda Guerra Mundial, com a derrota do império japonês, em 1945, pelas forças aliadas, principalmente pelos Estados Unidos e pela União Soviética. 

Todavia, a península coreana estaria sob influência e disputa de potências estrangeiras novamente, neste caso, dos norte-americanos e dos soviéticos. Ambos entram em acordo e definem que a região norte da península coreana deveria ficar sob a influência de Moscou, com a liderança de Kim Il-Sung, enquanto a porção sul seria tutelada por Washington, governada por Syngman Rhee. Dessa maneira, ficou definido entre estadunidenses e soviéticos que o paralelo 38°N estabeleceria a divisão entre as porções norte e sul da Coreia, proporcionando a formação de dois novos países: a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, ilustração 1. 

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Ilustração 1 – Divisão das duas Coreias no Paralelo 38°N | Fonte: Wikimedia Commons

Apesar da divisão, ainda havia ambições, por parte das duas Coreias, de controlar todo o território da península coreana. Quem se articulou e procurou aliados – no caso a URSS e a China – para iniciar uma guerra de conquista, foi a Coreia do Norte. Esta em junho de 1950 invade a Coreia do Sul. Assim, se tem o ponto de partida para o  início da Guerra da Coreia. 

A Guerra da Coreia (1950-1953)

Devemos nos ater a algumas projeções político-militares para entendermos as nuances que levaram a Guerra da Coreia e a participação da China e dos EUA, diretamente, e da URSS, sobretudo, indiretamente. A China continental, liderada então por Mao Tse-tung, queria garantir a formação de um Estado aliado na península coreana para que a região da Manchúria – devolvida para o controle de Pequim pós-libertação soviética com a derrota das forças do império japonês nesta região em 1945, ilustração 2 – não sofresse invasões estrangeiras novamente. Assim, nada melhor do que a formação de um Estado tampão pró-China. 

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Ilustração 2 – A região da Manchúria, em verde, e o Controle do Império do Japão da península Coreana antes do fim da Segunda Guerra Mundial | Fonte: Christophe cagé via Wikimedia Commons

Il-Sung teve mais problemas para obter apoio da URSS. A Coreia do Norte convenceu o líder soviético, Joseph Stalin, a apoiá-lo no seu ímpeto ofensivo levando em consideração o discurso do então secretário de Estado dos EUA, Dean Acheson, que havia afirmado em fevereiro de 1950 que a Coreia estava fora da área de cobertura de interesse dos Estados Unidos na Ásia. 

A partir disso, Stalin decidu apoiar Il-Sung, pois avaliava que na pior das situações ocorreria choque militar entre as forças norte-americanas e da China comunista. Se este cenário acontecesse, não seria ruim para a URSS, já que empurraria ainda mais Pequim para a zona de influência soviética. Apesar da participação de pilotos soviéticos nesta guerra, grande parte do auxílio da URSS se deu com o envio de equipamentos militares, tanto para a China quanto para a Coreia do Norte. A China via sua maior participação militar na guerra da Coreia como uma oportunidade de receber sistemas de armas e tecnologia bélica soviética. 

A guerra teve início  quando a Coreia do Norte, equipada com armas da URSS e com apoio da China, invadiu a Coreia do Sul em 25 de junho de 1950. O exército norte-coreano tomou a capital sul-coreana, Seul, em apenas três dias de batalha. O sucesso inicial do lado norte se deu tanto pelo ataque ter sido realizado de forma inesperada, quanto pela experiência de batalha do exército norte-coreano. Grande parte dos combatentes do norte tinham lutado na guerra civil chinesa, como também tinham amplo conhecimento da geografia dos teatros de batalha. 

O lado sul do embate militar pediu ajuda estadunidense, que este aceitou prontamente. Washington temia que uma Coreia comunista pudesse gerar um efeito dominó de regimes socialistas no leste asiático. Os Estados Unidos não iriam sozinhos para esta guerra. Se aproveitando da abstenção soviética no Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) – feita por este como forma de protesto pelo fato de Taiwan ser considerada a representante de toda China na Organização das Nações Unidas (ONU) – Washington conseguiu passar uma resolução, ganhando apoio do (CSNU) para liderar uma coalizão internacional para deter a Coreia do Norte de conquistar o território da Coreia do Sul. 

O famoso general e herói de guerra estadunidense, Douglas MacArthur, – um dos responsáveis por conduzir a vitória dos EUA sobre o império japonês na Segunda Guerra Mundial – tornou-se comandante das tropas de coalizão da ONU, que chegaram em solo coreano em 1 de junho de 1950, encontrandogrande dificuldade devido à grande resistência das tropas norte-coreanas. 

A situação só começou a melhorar para as tropas da coalizão da ONU e da Coreia do Sul no final de agosto, quando o Reino Unido enviou contingentes de soldados. Além do mais, bombardeiros navais auxiliaram com o enfraquecimento das tropas norte-coreanas devido à destruição, sobretudo, das linhas de logística desta. Em 26 de setembro, graças à chegada de mais combatentes, sistemas de armas no geral e a implementação de excelentes estratégias militares no nível tático e operacional, as forças da ONU conseguiram liberar a Coreia do Sul dos exércitos da Coreia do Norte. 

Era para a conflagração ter terminado neste estágio, tendo em vista que os EUA conseguiram seu objetivo inicial, livrar a Coreia do Sul das tropas do lado do norte. Todavia, Washington decidiu ir mais adiante. MacArthur convenceu o então presidente estadunidense, Harry Truman, que as forças da ONU, sob liderança dos EUA, atacassem a Coreia do Norte. Truman temia que uma invasão do lado norte-coreano da península colocasse a China de vez na guerra. Seu temor foi concretizado. 

As tropas, sob a liderança de MacArthur, conseguiram conquistar Pyongyang em 12 de outubro, acarretando em uma maior participação da China na guerra. As tropas chinesas não só libertaram a capital norte-coreana, como começaram a empurrar as tropas da coalizão da ONU para fora da Coreia do Norte e iniciaram ataques ao território da Coreia do Sul. MacArthur acreditava que os EUA deveriam ir até as últimas consequências e até mesmo invadir a China. Inclusive, o comandante das tropas na ONU no final de 1950 alegou que os Estados Unidos deveriam usar suas armas nucleares para acabar com a guerra da Coreia de maneira rápida e em termos favoráveis aos EUA. 

O então presidente estadunidense não concordou com este pedido, pelo motivo de que, apesar das dificuldades que as forças da ONU estavam passando durante as ofensivas chinesas naquele momento, como fica explícito na batalha Chosin – 27 novembro a 13 de dezembro de 1950 –, não era necessário o emprego de armas nucleares. Levando em consideração o nível operacional da guerra, os motivos da recusa de Washington são: 

1. Mesmo quando as tropas da ONU realizavam retiradas, causavam número maior de baixas ao lado chinês se comparado com o número de baixas das forças da ONU; 

2. O atrito, desgaste das forças chinesas, trabalhava em favor das tropas da ONU e não ao contrário; 

3. A artilharia das forças da ONU estava causando grande dano ao outro lado; e 

4. Claramente as tropas da ONU tinham grande vantagem qualitativa se comparada às forças chinesas e norte-coreanas. 

Pelo anseio de engatilhar ataques contra o território chinês e por desobedecer a ordens diretas de Truman, MacArthur foi demitido, entrando em seu lugar o general Matthew Ridgway. Em março de 1951, o front de batalha se estabilizou na então fronteira pré-guerra, ou seja, no paralelo 38°N. Em julho do mesmo ano, iniciaram-se as conversas pelo fim da conflagração. Esta negociação perdurou por mais dois anos sem ganhos militares para nenhum um dos lados. Em 27 de julho de 1953, o fim do embate bélico acontece a partir da resolução de um armistício que perdura até hoje. Neste documento ficou estabelecido que as duas Coreias ficariam divididas pelo paralelo 38°N. 

No auge da Guerra, o lado que apoiava a Coreia do Norte chegou a contar com 1,4 milhões de soldados chineses, 260 mil soldados norte-coreanos e 26 mil combatentes soviéticos, totalizando cerca de 1,7 milhões de combatentes. Destes,700 mil acabaram sendo mortos em combate. Já a coalizão da ONU, sob liderança dos EUA, teve cerca de 600 mil militares sul-coreanos, 300 mil estadunidenses, 14 mil soldados britânicos e mais milhares de combatentes de mais de 20 países diferentes, totalizando quase 1 milhão de soldados. Destes, quase 180 mil foram mortos. No total, mais de 2,5 milhões de civis foram mortos na guerra da Coreia. 

A realidade da península coreana no pós-1953

Atualmente, a Coreia permanece dividida em duas, e o armistício entre o lado norte e o lado sul continua em voga, o que, tecnicamente, significa que estes países continuam em guerra, já que até hoje nenhum acordo de paz foi assinado. Houve tentativas de estabelecer a paz entre Seul e Pyongyang de 1953 para cá, sobretudo em 1972, 1985, 2000, 2007 e, mais recentemente, em 2018. Entretanto, nenhuma destas tentativas logrou frutos concretos de paz entre os lados. Até a contemporaneidade, a fronteira entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul, com 248 km de extensão, é a mais militarizada do mundo

No momento atual, a Coreia do Norte continua sendo governada nos mesmos moldes de 1953: uma ditadura com poder totalmente centralizado na mão do neto de Kim Il-Sung, Kim Jong-un. É um dos países mais isolados do mundo, ou seja, sem contato com outros países do Sistema Internacional. Devido ao medo de ser invadido, sobretudo pela Coreia do Sul e pelos EUA, Pyongyang investe massivamente nas suas forças armadas. Em 2006, realizou seu primeiro teste com armas nucleares, e busca construir um arsenal de Mísseis Balísticos Internacionais (ICBM, sigla em inglês) capaz de atingir o território estadunidense para ter um elemento dissuasório contra Washington. A Coreia do Norte tem como seu principal aliado a China. 

Por outro lado, a Coreia do Sul, desde 1953, se consolidou politicamente como uma democracia. Devido ao investimento e incentivo econômico dos Estados Unidos, tornou- se uma das economias mais diversificadas e com grande capacidade de desenvolvimento tecnológico. Assim como o lado norte, também faz grandes investimentos nas suas forças armadas, contudo, conta com grande assistência militar norte-americana, que possui bases militares do território sul-coreano.

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Sobre o Autor

Analista e professor de Relações Internacionais com foco em Segurança Internacional e Política Externa das Grandes Potências. Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos Internacionais (PPGEEI) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Bacharel em Relações Internacionais polo Centro Universitário Curitiba (UNICURITIBA). Pesquisador Associado ao Instituto Sul-Americano de Política (ISAPE).

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