1. Introdução — Mackinder ainda explica o mundo?
Ensinar Geopolítica apresenta uma dificuldade particular: seu objeto parece envelhecer mais rapidamente do que os conceitos utilizados para explicá-lo. Guerras começam e terminam, governos são substituídos, alianças são reorganizadas e novas tecnologias alteram a capacidade dos Estados de controlar territórios e projetar poder. Em sala de aula, isso produz uma tentação compreensível: acompanhar a conjuntura. Rússia e Ucrânia, China e Taiwan, Oriente Médio, OTAN, BRICS, petróleo, rotas comerciais e disputas territoriais sucedem-se como temas, frequentemente acompanhados por mapas, notícias e análises produzidas enquanto os próprios acontecimentos ainda estão em curso.
Foi da experiência com esse tipo de aula que surgiu a inquietação que orienta este artigo. Ao trabalhar Geografia e Geopolítica no Ensino Médio, percebi que reconhecer os principais acontecimentos internacionais não significava necessariamente compreendê-los. Os estudantes podiam localizar a Ucrânia, identificar Taiwan, reconhecer a OTAN ou discutir a ascensão chinesa e, ainda assim, encontrar dificuldades quando convidados a estabelecer relações entre território, circulação, recursos, tecnologia e poder. Quanto mais a aula se aproximava da sucessão diária das notícias, maior era o risco de a Geopolítica se transformar em uma espécie de inventário permanentemente atualizado de conflitos internacionais.
O problema não está na utilização da atualidade. Seria difícil imaginar o ensino de Geopolítica sem ela. A questão está em transformar informação em capacidade de interpretação. Saber onde acontece uma guerra não significa necessariamente compreender por que determinado território adquiriu importância estratégica. Reconhecer a localização de um estreito marítimo também não significa compreender os fluxos que lhe conferem relevância. Do mesmo modo, conhecer os países integrantes de uma aliança ou organização internacional pouco diz, por si só, sobre a distribuição espacial de poder que condiciona suas escolhas.
Foi nesse ponto que a história do pensamento geográfico e geopolítico passou a me interessar não apenas como conteúdo, mas como possibilidade metodológica.
Essa escolha encontra aproximação com a discussão desenvolvida por Márcia Helena Alvim e Marcelo Zanotello (2014) acerca das relações entre História das Ciências e educação científica. Os autores defendem um diálogo capaz de incorporar ao ensino os aspectos culturais da produção científica e as condições históricas de produção de sentidos, tendo como horizonte uma formação cidadã, reflexiva e crítica. A contribuição dessa perspectiva para a Geopolítica parece particularmente fértil. Conhecer historicamente uma teoria não significa acrescentar algumas datas antes de apresentar seus conceitos, mas compreender que aquilo que posteriormente aparece nos livros como conhecimento sistematizado foi produzido por sujeitos inseridos em determinadas sociedades e diante de problemas próprios de seu tempo.
Transportar essa perspectiva para a história da Geografia e da Geopolítica modifica significativamente a maneira de trabalhar seus autores clássicos. Mackinder deixa de aparecer apenas como “o autor do Heartland”; Mahan não precisa ser reduzido à fórmula do “poder marítimo”; Ratzel pode ser retirado da associação automática entre determinismo e expansionismo; e Spykman deixa de ser apenas o nome que acompanha um mapa do Rimland. Antes de perguntar o que esses autores ainda explicam, interessa compreender o que procuravam explicar.
Essa distinção importa porque parte da força didática dos modelos geopolíticos reside justamente em sua capacidade de simplificação. Um mapa do Heartland possui enorme poder visual. Em poucos minutos, o estudante consegue identificar um núcleo continental, áreas periféricas e relações de posição. O problema aparece quando a representação é separada das condições históricas que a produziram e passa a funcionar como chave permanente de interpretação. Nesse caso, o mapa corre o risco de deixar de ser um modelo e adquirir a aparência de destino.
A história do pensamento geopolítico pode cumprir outra função. Em vez de servir apenas como introdução cronológica — Ratzel, Mahan, Mackinder, Spykman — ela pode mostrar que os conceitos geopolíticos também foram respostas a perguntas historicamente formuladas. Ensinar sua história significa, então, reconstruir as questões que tornaram possível sua elaboração.
A hipótese deste artigo nasce daí: o que permanece pedagogicamente relevante nos clássicos da Geopolítica são menos as respostas que formularam do que as perguntas que nos ensinaram a fazer sobre as relações entre espaço e poder.
Quando Mahan observa os oceanos, somos levados a perguntar como circulação, comércio, portos e capacidade naval se relacionam com poder. Quando Mackinder observa a Eurásia, surge outra questão: de que maneira transformações técnicas na mobilidade podem modificar a importância estratégica de uma região? Com Spykman, o olhar se desloca para as zonas de contato entre poderes terrestres e marítimos. Mesmo quando suas respostas já não são suficientes, algumas dessas perguntas permanecem intelectualmente produtivas.
A proposta metodológica apresentada nas páginas seguintes nasceu desse problema docente e foi sistematizada em quatro movimentos: contexto, modelo, confronto e reinterpretação. Não se trata de uma metodologia experimental cuja eficácia de aprendizagem tenha sido mensurada. Trata-se de uma sistematização construída a partir da prática de ensino de Geografia e Geopolítica no Ensino Médio, cujo objetivo é deslocar os clássicos da memorização conceitual para a construção de problemas.
A pergunta que dá título ao artigo — Mackinder ainda explica o mundo? — não será respondida simplesmente com um sim ou um não. Ela funcionará como procedimento de investigação. Em alguns momentos, o pensamento de Mackinder permite identificar relações espaciais que continuam relevantes. Em outros, suas limitações são pedagogicamente mais interessantes do que suas permanências. Ensinar a história da Geopolítica, nessa perspectiva, não significa conduzir o estudante ao passado antes de permitir que ele compreenda o presente. Significa mostrar que as próprias ferramentas utilizadas para interpretar o presente também possuem uma história.
2. Os clássicos e a construção de um olhar geopolítico
Uma apresentação convencional da história da Geopolítica costuma organizar seus autores em uma sucessão relativamente conhecida. Friedrich Ratzel aparece associado ao território; Alfred Thayer Mahan, ao poder marítimo; Halford Mackinder, ao Heartland; Nicholas Spykman, ao Rimland. A sequência é didaticamente conveniente, mas cobra um preço: os conceitos podem terminar separados dos problemas que lhes deram origem.
Uma possibilidade diferente consiste em perguntar, diante de cada autor: qual era o problema que estava tentando compreender?
No caso de Friedrich Ratzel, essa pergunta conduz ao final do século XIX e à consolidação de uma Geografia Política interessada nas relações entre Estado, população, posição e território. Sua Politische Geographie, publicada em 1897, apresenta capítulos dedicados ao Estado e ao solo, ao crescimento espacial dos Estados, à posição, ao espaço, às fronteiras e às relações entre terra e mar (RATZEL, 1897). Esse conjunto já sugere algo mais complexo do que a associação escolar entre Ratzel e uma forma elementar de determinismo geográfico.
Isso não significa retirar sua obra das condições políticas e intelectuais do imperialismo europeu, nem ignorar problemas presentes em suas formulações. Significa evitar o caminho inverso: interpretar um autor do século XIX exclusivamente a partir dos usos políticos e das simplificações que suas ideias receberam posteriormente.
Para o ensino, talvez o aspecto mais produtivo esteja em perceber que o território deixa de funcionar apenas como palco da política. A organização espacial passa a integrar a própria reflexão sobre o Estado. Essa mudança aparentemente simples abre um conjunto de perguntas: de que maneira a posição interfere nas possibilidades de um Estado? O que uma fronteira representa além de uma linha? Qual relação existe entre população, organização política e território? Não é necessário aceitar as respostas de Ratzel para reconhecer a importância das perguntas.
Com Alfred Thayer Mahan, o problema muda de escala e de perspectiva. Em The Influence of Sea Power upon History, 1660–1783, publicado em 1890, Mahan colocou os interesses marítimos no centro de uma interpretação histórica que relacionava comércio, poder naval, posição, bases e prosperidade nacional (MAHAN, 1890). Reduzi-lo à ideia de que “quem possui uma grande marinha possui poder” empobrece consideravelmente seu argumento.
O mar que interessa a Mahan é também um espaço de circulação. O poder marítimo não se resume ao combate naval; envolve condições que permitem utilizar, proteger e disputar as vias pelas quais circulam comércio e influência. Essa observação torna seu pensamento especialmente interessante para a sala de aula porque obriga a olhar o mapa de maneira diferente. O oceano deixa de ser o espaço vazio entre os continentes e passa a ser uma superfície de conexão.
Há algo de muito atual nessa pergunta, embora não necessariamente em todas as respostas de Mahan. Segundo a UNCTAD, cerca de 80% do volume do comércio internacional de mercadorias é transportado por mar (UNCTAD, 2025). Evidentemente, o sistema marítimo contemporâneo não é aquele observado por um oficial norte-americano no século XIX. Contêineres, grandes terminais portuários, cadeias globais de valor, sistemas digitais de logística e novas estruturas empresariais transformaram profundamente a circulação. Ainda assim, a pergunta sobre a relação entre circulação e poder permanece.
Mackinder apresenta talvez o caso mais conhecido — e, por isso mesmo, aquele que exige maior cuidado. Em janeiro de 1904, diante da Royal Geographical Society, Halford Mackinder apresentou “The Geographical Pivot of History”, posteriormente publicado em The Geographical Journal (MACKINDER, 1904). Seu argumento precisa ser lido no ambiente estratégico do início do século XX, marcado pelo imperialismo, pela competição entre potências e por profundas mudanças na mobilidade terrestre.
Uma das preocupações de Mackinder estava na expansão ferroviária e nas consequências que a integração de grandes extensões continentais poderia produzir sobre a histórica vantagem da mobilidade marítima. A leitura de Venier (2004) é particularmente importante nesse ponto porque recoloca o texto nos debates estratégicos e na política externa britânica do período eduardiano. Isso reduz a tentação de transformar Mackinder retrospectivamente em alguém que teria simplesmente “previsto” as disputas geopolíticas dos cem anos seguintes.
Há ainda uma precisão conceitual relevante para o ensino. O texto de 1904 trabalha centralmente com a ideia de pivot area, a área-pivô. A formulação de Mackinder não permaneceu imóvel. Em Democratic Ideals and Reality, publicado em 1919, após a Primeira Guerra Mundial, o autor retomou e desenvolveu suas interpretações sobre a “Ilha-Mundo” e o Heartland (MACKINDER, 1919). Apresentar aos estudantes uma “teoria de Mackinder” pronta e imutável apaga justamente um aspecto valioso para a aprendizagem: teorias também mudam quando seus autores confrontam novos acontecimentos.
A pergunta que pode ser recuperada de Mackinder é mais interessante que a simples memorização dos limites cartográficos do Heartland: como uma transformação técnica na circulação modifica o valor estratégico do espaço?
No início do século XX, as ferrovias estavam no centro desse problema. Hoje podemos formular a mesma pergunta diante de ferrovias de alta capacidade, corredores logísticos, gasodutos, portos, satélites, redes de telecomunicação ou cabos submarinos. A resposta certamente não será a de Mackinder. A pergunta, contudo, ainda produz investigação.
Nicholas Spykman oferece um último deslocamento. Em obras como America’s Strategy in World Politics (1942) e, postumamente, The Geography of the Peace (1944), a relação entre poder e posição é reconsiderada a partir da segurança dos Estados Unidos e do equilíbrio de poder na Eurásia (SPYKMAN, 1942; 1944). A conhecida ênfase sobre o Rimland direciona a atenção para as margens densamente povoadas e estrategicamente disputadas da massa eurasiática.
Em sala de aula, o interesse não deveria estar em substituir Heartland por Rimland, como se estivéssemos escolhendo o mapa correto. O que muda é a pergunta. Por que determinadas bordas continentais concentram circulação, população, poder econômico e disputas entre potências? O que acontece nas zonas de contato entre forças continentais e marítimas?
Colocados dessa maneira, Ratzel, Mahan, Mackinder e Spykman deixam de formar apenas uma linha do tempo da Geopolítica. Cada um produz uma maneira de olhar o espaço. É precisamente essa pluralidade que permite transformar a história da disciplina em instrumento didático.
3. O que permanece e o que mudou?
Recuperar os clássicos não significa supor que o século XXI possa ser encaixado em modelos concebidos entre o final do século XIX e a primeira metade do XX. Esse seria justamente o movimento contrário ao que se pretende defender. O mapa político permanece importante, mas já não basta.
Fronteiras, recursos naturais, profundidade territorial, acesso ao mar e posição continuam influenciando relações internacionais. Ao mesmo tempo, o poder contemporâneo circula por estruturas que não podem ser compreendidas exclusivamente pela extensão territorial dos Estados. Empresas transnacionais, sistemas financeiros, cadeias produtivas, plataformas digitais, satélites, redes energéticas, centros de processamento de dados e cabos submarinos acrescentaram outras geografias ao mapa político.
Mahan escreveu em um mundo muito diferente, mas a vulnerabilidade dos corredores marítimos não desapareceu. O Review of Maritime Transport 2025, da UNCTAD, mostra como tensões geopolíticas e mudanças nas rotas marítimas aumentaram distâncias, custos e incertezas logísticas. Em maio de 2025, a tonelagem que atravessava o Canal de Suez ainda estava 70% abaixo dos níveis de 2023; o relatório também chama atenção para a relevância do Estreito de Ormuz, por onde passam cerca de 11% do comércio mundial e aproximadamente um terço do petróleo transportado por via marítima (UNCTAD, 2025).
Esses dados poderiam ser apresentados em uma aula simplesmente como atualidades. A leitura histórica de Mahan permite fazer algo diferente. A questão passa a ser por que determinados pontos de uma rede mundial concentram tamanha importância e como o controle, a segurança ou a interrupção dos fluxos afetam relações de poder.
A diferença é pequena na aparência, mas grande do ponto de vista pedagógico. O estudante deixa de memorizar que Suez ou Ormuz são “pontos estratégicos” e passa a perguntar o que torna um lugar estratégico.
Mackinder permite movimento semelhante. A questão não é procurar o Heartland em cada conflito envolvendo a Eurásia. É perceber que a importância de uma posição geográfica não existe independentemente das técnicas de circulação disponíveis em cada período histórico. A ferrovia que modificava a percepção de Mackinder sobre o interior eurasiático no início do século XX lembra que distâncias políticas não são medidas apenas em quilômetros.
Em A natureza do espaço, Santos (2006) permite pensar técnica, objetos, ações e redes como componentes inseparáveis da produção do espaço. O meio técnico-científico-informacional não elimina o território; ao contrário, depende de uma materialidade extremamente concreta. A informação pode circular quase instantaneamente, mas necessita de cabos, antenas, satélites, energia, servidores e centros de processamento. Mercadorias inseridas em cadeias produtivas globais continuam atravessando portos, ferrovias, rodovias e canais.
Essa aproximação ajuda a evitar outra simplificação frequente: a ideia de que a globalização teria tornado a Geopolítica clássica irrelevante porque o território teria perdido importância.
O que mudou não foi a existência do território, mas a maneira pela qual diferentes territórios são articulados por redes técnicas e políticas cada vez mais complexas.
Milton Santos permite, portanto, realizar um movimento importante para a proposta deste artigo: passar do território às redes sem abandonar o território.
Nesse ponto, a limitação dos clássicos torna-se produtiva. Se Mahan nos ensina a olhar as rotas marítimas, podemos perguntar o que acontece quando uma parte importante dos fluxos estratégicos passa a ser informacional. Se Mackinder nos obriga a pensar como a ferrovia altera a importância do continente, podemos perguntar quais infraestruturas modificam atualmente o valor relativo dos lugares. Se Spykman direciona o olhar para determinadas bordas continentais, podemos investigar se essas áreas continuam concentrando população, infraestrutura, comércio e competição estratégica — e por quais razões.
A teoria deixa de ser um molde no qual o presente precisa caber. Passa a ser um ponto de partida que o próprio presente pode contestar.
É também aqui que a crítica ao determinismo precisa aparecer com maior clareza. A posição geográfica de um Estado não determina automaticamente suas escolhas políticas. Recursos não produzem inevitavelmente conflitos. Fronteiras não possuem um significado estratégico fixo. A Geografia estabelece condições, possibilidades, custos e oportunidades que são interpretados por sociedades, governos e outros atores.
Um mapa não decide iniciar uma guerra.
Essa afirmação simples é importante em uma aula de Geopolítica porque modelos cartográficos possuem grande poder de convencimento. Setas, círculos, áreas coloridas e zonas de influência podem produzir a impressão de que determinado comportamento político é consequência inevitável da localização. A contextualização histórica dos modelos ajuda justamente a romper essa aparência de inevitabilidade.
4. Dos clássicos à sala de aula: contexto, modelo, confronto e reinterpretação
Se a história das ciências pode contribuir para revelar o conhecimento como produção cultural e historicamente situada, como sugerem Alvim e Zanotello (2014), a história da Geopolítica pode ser utilizada de modo semelhante. Isso exige, porém, que ela deixe de ser apenas uma cronologia de autores.
A proposta que tenho utilizado para organizar esse percurso pode ser sintetizada em quatro movimentos: contexto, modelo, confronto e reinterpretação.
A sequência não deve ser entendida como uma receita rígida. Trata-se, antes, de uma maneira de evitar que o conceito seja apresentado ao estudante antes do problema que lhe deu origem.
O primeiro movimento é o contexto. Antes de apresentar o mapa de Mackinder, por exemplo, interessa reconstruir o mundo que ele observava. O que significava a expansão das ferrovias no início do século XX? Qual era a posição britânica no sistema internacional? Que transformações estavam ocorrendo na competição entre poderes terrestres e marítimos?
A pergunta inicial deixa de ser “o que é o Heartland?” e passa a ser: qual problema levou Mackinder a olhar para o mapa dessa maneira?
Essa inversão produz uma diferença importante. O estudante encontra primeiro um problema e depois uma tentativa histórica de respondê-lo.
O segundo movimento é o modelo. Aqui entram os conceitos, mapas e categorias do autor, mas eles aparecem como uma construção que seleciona determinados elementos da realidade. Todo modelo vê algumas coisas melhor justamente porque deixa outras de fora.
Essa constatação pode ser explicitada ao estudante. O mapa de Mackinder não é o mundo; é uma forma de organizar o mundo para responder a determinadas perguntas.
Com Mahan, observamos circulação marítima, comércio, bases e capacidade naval. Com Mackinder, mobilidade continental e posição. Com Spykman, as zonas periféricas da Eurásia. O exercício não consiste em decorar cada representação, mas perceber para onde cada autor dirige nosso olhar.
O terceiro movimento é o confronto. O modelo histórico é colocado diante de um problema contemporâneo. É aqui que a atualidade retorna à aula, mas com uma função diferente. Ela não aparece apenas como informação a ser atualizada, e sim como situação capaz de testar o modelo.
O que Mahan permite compreender sobre as rotas marítimas atuais? O que não permite? O que a integração física da Eurásia sugere quando observada através de Mackinder? Quais elementos do século XXI escapam completamente à sua formulação?
O quarto movimento é a reinterpretação. É nessa etapa que o estudante precisa abandonar a segurança proporcionada pelo modelo. Depois de identificar o que a teoria ilumina, deve procurar aquilo que ela obscurece.
Tecnologia, atores não estatais, empresas, informação, finanças, questões ambientais e transformações sociais podem exigir outras categorias. Nesse momento, autores contemporâneos e outras tradições geográficas deixam de funcionar como “teorias concorrentes” e passam a fornecer instrumentos para ampliar a análise. A reinterpretação impede que a aula termine com a confirmação do clássico.
Essa talvez seja a diferença central da proposta. O objetivo não é demonstrar que Mackinder continua correto. Se o exercício terminar sempre comprovando o autor estudado, a análise se converteu em confirmação.
O resultado desejável é mais incômodo: compreender por que determinado modelo foi convincente em seu contexto, perceber aquilo que ainda consegue iluminar e reconhecer o momento em que deixa de ser suficiente.
5. Pensar a China por três mapas
A China contemporânea oferece um exercício particularmente interessante porque dificulta qualquer explicação geopolítica unidimensional.
Não é necessário começar a atividade apresentando uma teoria. É possível começar com mapas.
Um primeiro mapa pode representar as conexões terrestres entre a China, a Ásia Central e a Europa. Outro pode destacar portos, rotas oceânicas e estreitos utilizados pelo comércio asiático. Um terceiro pode representar a distribuição territorial das principais relações e tensões políticas do Indo-Pacífico.
A pergunta inicial é deliberadamente aberta: onde está o poder chinês nesses mapas? A resposta dificilmente será única. É justamente aí que os clássicos entram.
Pela lente de Mackinder, a atenção se desloca para a massa continental eurasiática. Ferrovias, corredores econômicos e conexões terrestres passam a ter outro significado. A Belt and Road Initiative torna o exercício especialmente interessante porque seus projetos combinam conectividade terrestre e marítima.
Isso não significa que a China esteja “aplicando Mackinder”. Tal afirmação confundiria semelhança espacial com causalidade e atribuiria uma matriz teórica específica a políticas cuja formação envolve interesses e processos muito mais complexos. O que podemos afirmar é que observar essas infraestruturas através da pergunta de Mackinder — como mudanças na mobilidade transformam o valor estratégico do espaço? — produz uma leitura possível.
Agora os principais elementos são o litoral, os portos, as rotas comerciais, o Mar do Sul da China, o Oceano Índico e os estreitos pelos quais circula parcela significativa do comércio marítimo. A questão deixa de ser apenas integração continental e passa a envolver acesso e segurança das redes marítimas.
Mais uma vez, o objetivo não é demonstrar que Mahan “previu” a China. Seu mundo histórico, sua concepção de poder e a estrutura econômica que analisava eram diferentes. O interesse está na pergunta sobre a relação entre circulação marítima e capacidade de projeção de poder.
Com Spykman, o mapa se reorganiza pela terceira vez. Taiwan, Japão, península coreana, Filipinas, Sudeste Asiático e demais espaços localizados nas bordas orientais da Eurásia ganham destaque. As relações entre poder continental, poder marítimo, alianças e posições periféricas tornam-se mais visíveis.
Temos, então, três representações do mesmo país. Nenhuma delas é simplesmente falsa. Nenhuma delas é suficiente.
A atividade poderia terminar aí, pedindo aos estudantes que escolhessem “qual teoria explica melhor a China”. Considero mais produtivo fazer justamente o contrário: introduzir elementos que os três mapas têm dificuldade para representar.
Onde estão os semicondutores? Onde estão as cadeias globais de produção? Como representar empresas? Onde está a informação? Onde estão as redes digitais? Como colocar no mesmo mapa comércio, finanças, tecnologia, capacidade militar e infraestrutura?
Nesse momento, o exercício deixa de ser uma aplicação dos clássicos e se transforma em sua crítica.
É aqui que Milton Santos ganha importância no percurso. Redes não são abstrações suspensas sobre o território. Elas conectam lugares desigualmente equipados com objetos técnicos e inseridos em diferentes relações de poder. Portos, ferrovias, cabos, centros tecnológicos e sistemas logísticos passam a ser observados simultaneamente como objetos localizados e componentes de redes mais amplas.
A pergunta “onde está o poder chinês?” torna-se mais difícil depois da aula do que antes dela. Isso não representa fracasso didático. Ao contrário, pode ser justamente um sinal de que o problema deixou de admitir uma resposta simplificada.
O poder chinês pode estar simultaneamente na capacidade estatal, no território, nas redes de infraestrutura, no comércio, na tecnologia, nos portos, na capacidade produtiva e nas relações construídas com outros Estados. Os clássicos ajudam a começar essa investigação. Não conseguem terminá-la.
6. Considerações finais — ensinar a pensar geopoliticamente
Voltemos à pergunta inicial: Mackinder ainda explica o mundo?
Depois do percurso desenvolvido neste artigo, a formulação talvez pareça menos importante como pergunta sobre Mackinder do que como pergunta sobre a maneira pela qual ensinamos Geopolítica.
Se procurarmos no autor britânico uma teoria geral capaz de explicar o comportamento dos Estados no século XXI, a resposta será necessariamente limitada. O mundo de 1904 não é o nosso. As tecnologias mudaram, novos atores adquiriram poder, as redes se tornaram mais densas e a própria relação entre território e circulação assumiu configurações que Mackinder não poderia conhecer.
A história do pensamento geopolítico permite algo que a simples atualização de conteúdos dificilmente consegue oferecer: acompanhar a construção de perguntas sobre o espaço e observar como diferentes autores procuraram respondê-las em seus próprios contextos.
Foi essa percepção que aproximou, neste artigo, história da Geopolítica e ensino. A contribuição de Alvim e Zanotello para pensar a História das Ciências como parte de uma formação reflexiva ajuda a deslocar a atenção do produto acabado para o processo histórico de produção do conhecimento. Aplicado à Geopolítica, esse movimento permite que uma teoria seja simultaneamente estudada e questionada.
Ratzel pode ser lido para compreender como território e Estado se tornaram problemas geográficos sem que suas formulações sejam convertidas em leis sobre o comportamento estatal. Mahan permite recuperar a circulação marítima como dimensão do poder sem reduzir o presente ao mundo naval do século XIX. Mackinder mostra como tecnologia e mobilidade podem modificar a importância estratégica do espaço sem transformar a Eurásia em destino político. Spykman permite observar as zonas de contato entre poderes sem que o Rimland se torne uma moldura obrigatória para qualquer conflito contemporâneo.
Essa última etapa é decisiva. Se a história da Geopolítica servir apenas para mostrar que os clássicos continuam certos, teremos transformado o passado em argumento de autoridade. Seu potencial pedagógico é maior quando permitimos que o presente também interrogue os clássicos.
É nesse sentido que Milton Santos cumpre uma função importante na proposta. Não para substituir Mackinder, Mahan ou Spykman por uma teoria mais recente, mas para mostrar que a própria transformação histórica do espaço exige novas categorias. Redes, técnica e informação não tornam o território obsoleto; modificam as formas pelas quais ele é utilizado, conectado e valorizado.
O conflito contemporâneo passa a dialogar com a história das ideias utilizadas para explicá-lo. O mapa deixa de ser apenas ilustração. A teoria deixa de ser uma definição a memorizar. E o clássico deixa de ser uma autoridade cuja permanência precisa ser demonstrada.
Nesse sentido, ensinar os clássicos da Geopolítica significa aprender a pensar com eles, contra eles e, quando necessário, para além deles.
Referências
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Marcelo Nascimento Guerra é Geógrafo, mestre em Educação pela Universidade Federal do ABC e professor de Geografia e Geopolítica na Educação Básica pela prefeitura de São Paulo e Colégio Stocco Santo André. Atua no Ensino Fundamental e Médio, com experiência em ensino de Geografia, Geopolítica, Educação Digital e projetos interdisciplinares. Desenvolve práticas pedagógicas voltadas à leitura crítica do território e das relações internacionais contemporâneas. Seus interesses de pesquisa incluem ensino de Geografia, Geopolítica, interdisciplinaridade, trabalho e educação.