A Possível Ameaça à Ordem Liberal e o Impacto do Coronavírus

A Possível Ameaça à Ordem Liberal e o Impacto do Coronavírus 1

A Teoria da Estabilidade Hegemônica (TEH) evidencia que a estabilidade do sistema é dada por um ator disposto a arcar com custos da ordem internacional liberal, promovendo bens coletivos para países inseridos nela. Nesse caso, os Estados Unidos pode ser considerado o provedor de tais bens, a partir dos anos de 1950, com a criação de instituições liberais presentes até os dias de hoje. Esses bens constituem uma espécie de incentivos para que países adiram a uma ordem liberal democrática que objetiva mercados internacionais sem restrições (GILPIN, 2002).

Em teoria, os Estados que se inserem nessa ordem tornam-se mais eficientes dado a Economia de Mercado que exige níveis crescentes de produção e integração entre países, para que haja um mercado internacional aberto. Tendo em vista os Mecanismos de Preço (preços de bens ou serviços que afetam a oferta e demanda), o foco em maior produtividade e menor custo leva à busca por locais com menores custos de estrutura e de produção, garantido uma maior competitividade no mercado internacional. Consequentemente, atividades indústrias “esparramam” para as periferias havendo uma maior difusão de poder econômico, emergindo novas economiascompetitivas e tornando Estados periféricos em possíveis potências econômicas. Como resultado, tais países acabam por contrabalancear o ator hegemônico.

Esse é o caso da China que ascendeu da região periférica, tornando-se a maior competição aos EUA (hegemônico). O país vem se destacando desde o início dos anos 2000 com sua efetividade industrial e “vantagens” de subdesenvolvimento (mão-de-obra barata, indústrias novas e oportunidades de investimentos em expansão). Tais características foram atrativas para as corporações ao redor do mundo que viam na China excelente oportunidade de investimento com alta margem de lucro, dado os baixos custos de produção do país com suas indústrias tecnológicas e mão-de-obra desvalorizada.

O Enfraquecimento Hegemônico Norte-Americano

No mesmo período de ascensão chinesa, a ordem liberal já se mostrava abalada. Além da China, diversos países que não compartilhavam dos ideais democráticos ocidentais adentraram nessa Ordem com o fim da Guerra Fria, dificultando a atuação norte-americana como estabilizador do sistema. Novas agendas internacionais passaram a ser demandadas levando aos desafios de cooperação multilateral, problemas de autoridade americana e aumento dos custos para manter tal ordem (IKENBERRY, 2018).

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Tudo isso contribuiu para que os Estados Unidos estagnassem economicamente nos últimos tempos, principalmente pela realocação da zona industrial para a China. O país, desde a crise financeira de 2008, vem passando por estagnação nos crescimentos salariais das classes trabalhadoras e média, bem como a perda de indústrias com sedes locais. Com isso, nos últimos anos, houve uma mudança em potencial na gestão norte-americana. Previsto por Gilpin (2002), o país optou por aderir a um protecionismo, na busca por barrar essa difusão industrial e a perda de autoridade internacional, contribuindo para a crise da ordem com a eleição de Donald Trump. Chegando aos dias atuais, com o surgimento da pandemia do covid-19, essa crise se intensificou e a China passou a conquistar uma posição para além das bases econômicas.

A ordem internacional liberal, que já se mostrava instável, hoje, está sendo posta em dúvida devido à postura da liderança global frente à pior crise pandémica da modernidade. Pode-se destacar alguns dos fatores que contribuem para a crise e o questionamento da ordem: caos gerado no sistema mundial de saúde, protecionismo norte-americano descumprindo funções esperadas e o aumento da liderança chinesa frente à pandemia. O caos gerado no sistema de saúde, principalmente das maiores potências, têm sido algo marcante. Países no centro do sistema estão com sérios problemas devido à falta de equipamentos, de estrutura e do tardio isolamento realizado. Destacando os Estados Unidos, tal fato contribuiu para o aumento do protecionismo norte-americano e também pela ascensão chinesa no combate ao vírus (STUENKEL, 2020).

Os Estados Unidos vêm desapontando a sociedade internacional no que tange ao seu posicionamento. O país, desde a eleição de Trump, já se mostrava distante de um ideal liberal, devido ao aumento de protecionismo realizado pelo mesmo. Ikenberry (2018) já havia destacado que o governo faltava com preceitos básicos da ordem liberal com a intensificação de xenofobia, nacionalismo e não-pragmatismo. Isso se acentuou com o coronavírus, abrindo um vácuo de poder. Cada vez mais fechado, age de forma unilateral até com seus aliados europeus. Adotou um discurso vitimista e xenofóbico ao denominar o vírus como “chinese virus”. O país se encontra impotente frente ao vírus e, com isso, têm realizados políticas totalmente descabidas para uma potência mundial.

Era esperado dos Estados Unidos a liderança no combate ao Covid-19 mas, dado o negacionismo no início da pandemia, peca em diversas ações totalmente nacionalistas e autocentradas. O país não tem difundido boas práticas para países afetados dado a promoção de abertura de comercial, não auxiliar na sustentação da ordem internacional liberal de entregar bens públicos e por estar fechando as portas para todos os países mais fragilizados, não dando apoio que lhe é esperado. Pelo contrário, nos últimos meses o governo americano havia confiscado encomendas de equipamentos e produtos de proteção feitas pelos países aliados. Em seu discurso, Trump deixou claro ser uma retaliação por precisarem desses equipamentos e que não queria outros Estados pegando-os. Por fim, o auxílio financeiro dado a OMS para combate ao vírus foi cortado, o país não está mais auxiliando a Organização- um bem público do Sistema Internacional criado na Ordem Liberal. (BBC NEWS, 2020).

Enquanto os Estados Unidos, liderança desta ordem, vai de contrário a tudo que lhe é esperado, a China, por sua vez, assume uma posição de maior responsabilidade. O país tem agido de tal forma que levanta dúvidas sobre como será a ordem pós-crise. Ela vem ocupando espaço de poder ao enviar medicamentos e materiais para países, até mesmo para os Estados Unidos. Também oferece bens públicos, informações e conhecimento. Muito do que se tem para combate ao covid-19 é fabricado pela China, fazendo com que o país se torne o centro mundial de combate ao vírus. Além disso, realiza diversas conferências para disseminação de conhecimento acerca das medidas a serem adotadas. O vácuo deixado pelos Estados Unidos está sendo preenchido pela China (ZANINI, 2020).

A Possível Alternância de Poder

O maior teste à Ordem Liberal no atual cenário torna-se, então, a capacidade do ator estabilizador de promover esses bens. Como evidenciado acima, além de não cumprir tal função, deixa espaço para a China se posicionar, agindo contrariamente ao clima de cooperação internacional. Diante dessa ameaça de substituição hegemônica, há alguns cenários possíveis de acontecer com o fim da crise do Covid-19, são eles: Estados Unidos e China passarem a cooperar para a estabilização do sistema; possível queda norte-americana como legítimo ator hegemônico e ascensão chinesa; ou uma guerra econômica entre ambos. No primeiro caso, a cooperação pode reforçar a Ordem Internacional com a mudança de atuação dos EUA, levando à um possível realinhamento do governo americano com os pretextos liberais esquecidos com a ascensão de Trump.

A possível ascensão chinesa, a luz da TEH, pode não vingar. Como relatado por Ikenberry (2018), uma ordem liberal não sobreviverá sem um ator que defenda democracias liberais ocidental. Tendo a China um país atuando contrariamente nos pretextos democráticos, seria quase impossível, com sua ascensão à hegemonia, manter a Ordem Internacional Liberal. Em relação ao primeiro caso, as vias pela cooperação com o atual governo norte-americano não são tão fáceis quanto parece. Trump a cada dia que passa reforça uma política de austeridade, culpando a OMS e China pela crise global.

No segundo caso, a China, país que saiu da periferia através de intensa industrialização e desvalorização cambial para venda de seus produtos, pode não querer assumir as responsabilidades de um ator hegemônico mundial. Para tornar-se um ator hegemônico no atual cenário liberal, o Estado deve agir por vias democráticas, manter sua moeda estável e valorizada, dado sua utilização como referência e indicador econômico mundial, e ter seu crescimento doméstico como “motor de crescimento” para o resto do Sistema- algo não objetivado pelo país, dado sua atuação competitiva nos preços de ofertas e de produção, bem como no seu câmbio.

Não se exclui a possibilidade de uma mudança na política chinesa em busca de hegemonia global, mas, o que até hoje nos foi mostrado é que a China possui maior interesse nos setores econômicos com suas políticas contrárias à de um possível ator hegemônico estabilizador. Relembrando que o país possui um senso de responsabilidade dado os erros cometidos no início da proliferação, ele também possui um comércio extremamente dependente de vendas aos países que estão em caos econômico e de saúde. Não se pode descartar a possibilidade de ajuda chinesa para evitar maior perda comercial pós-crise. Contudo, após o ápice da pandemia, a possibilidade de retomada da Ordem Liberal inalterada não será possível. Anterior à pandemia, a ordem já sofria com a disputa econômica americana e chinesa, após a ameaça mundial do vírus, isso irá se acirrar.

Conclusão

Reconhece-se que a ordem liberal, se não modificada, promoverá intensificação de nacionalismos e protecionismos a diversos outros países, podendo haver uma possível queda da ordem liberal. Pelas vias de uma guerra econômica, há grande possibilidade de legitimação chinesa como contrapeso aos EUA gerando uma bipolaridade acentuada. Com a ascensão chinesa nesse momento, surge a dúvida de uma possível transição de Ordem. Porém, a maioria dos países ainda condenam meios políticos adotados pelo país, reiterando que a troca de ordem deva vir pela legitimidade reconhecida pelos Estados. O fato é que o país Ocidental já não possui a força que possuía anterior ao Covid-19, mas não há nada definido acerca do futuro do Sistema Internacional. A política é algo imprevisível e, assim como não esperávamos uma crise desse porte, podemos nos surpreender com mudanças norte-americana para salvaguardar a Ordem Liberal.

Referências Bibliográficas

BARDIE, Bertrand. “Os profetas do neoliberalismo viraram promotores da economia social. É preciso voltar aos imperativos sociais”. El Pais, [S. l.], p. 1-1, 6 abr. 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/ideas/2020-04-06/bertrand-badie-cientista-politico-a-acao-da-oms-se-reduz-a-ler-um-comunicado-todas-as-noites.html> Acesso em: 16 abr. 2020.

BBC NEWS. Coronavírus: o que está por trás da decisão de Donald Trump de suspender financiamento à OMS. BBC Brasil, [S. l.], p. 1-1, 15 abr. 2020. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/internacional-52302892> Acesso em: 15 abr. 2020.

GILPIN, Robert. A dinâmica da Economia Política Internacional. In: GILPIN, Robert. A economia política das relações internacionais. Tradução: Sérgio Bath. Brasília: UNB, 2002. cap. 3, p. 84-137. ISBN 85-230-0669-9.

IKENBERRY, G. John. The end of liberal international order?. International Affairs, Oxford Academic, v. 94, p. 7-23, 1 jan. 2018.

STUENKEL, Oliver. Pandemia Revela que Mundo Pós-Ocidental Já Chegou. El Pais, [S. l.], 6 abr. 2020. Disponível em: <https://brasil.elpais.com/opiniao/2020-04-06/pandemia-revela-que-mundo-pos-ocidental-ja-chegou.html?event_log=fa> Acesso em: 16 abr. 2020. ZANINI, Fábio. Apesar de erros, China terá ganho geopolítico com crise de corona vírus, diz Robert Ross. Folha de São Paulo, [S. l.], 2 abr. 2020. Disponível em: <https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/04/apesar-de-erros-china-tera-ganho-geopolitico-com-crise-diz-professor.shtml> Acesso em: 16 abr. 2020.

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Graduanda em Relações Internacionais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Áreas de pesquisa: Segurança Internacional e Geopolítica, em especial a região do Golfo Pérsico (Relações Arábia Saudita e Irã). Interesse de pesquisa voltado para Economia Política Internacional e Política Externa Brasileira. Colunista na Revista Relações Exteriores.

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