Curso de Política Externa Coreana
Modo Escuro Modo Luz
O que as eleições podem mudar na política externa do Brasil
Cartografia e poder: o novo mapa-múndi da ONU e a reconfiguração do sistema internacional 
From above of sunlit aged paper world map with continents countries and oceans From above of sunlit aged paper world map with continents countries and oceans

Cartografia e poder: o novo mapa-múndi da ONU e a reconfiguração do sistema internacional 

Photo by Nothing Ahead on Pexels

A linguagem cartográfica sempre desempenhou papel fundamental nas navegações, na representação do espaço e no conhecimento das rotas marítimas. Todavia, a cartografia não constitui uma representação neutra da realidade, uma vez que suas escolhas de projeção, escala e centralidade podem refletir determinadas concepções de mundo e relações de poder. Nesse sentido, a projeção de Mercator, amplamente utilizada desde o século XVI, contribuiu para consolidar uma representação do espaço mundial marcada pela centralidade europeia e pelas assimetrias de poder características de seu contexto histórico. Diante disso, o presente trabalho busca analisar como a projeção Equal Earth pode contribuir para uma nova percepção geopolítica do sistema internacional. 

A Resolução da ONU em setembro de 2026 aprovou a projeção Equal Earth como cartografia recomendada para substituir a projeção de Mercator e suas distorções. Com a projeção pseudo-cilíndrica de áreas equivalentes, o novo mapa revela o verdadeiro tamanho do continente africano e de países do Sul Global, como o Brasil e a Indonésia. Paralelamente, a representação possibilita uma leitura mais precisa das proporções relativas do território europeu e das extensas superfícies oceânicas, contribuindo para uma percepção menos assimétrica da distribuição espacial das massas continentais e dos oceanos. 

A cartografia como instrumento de poder 

Os mapas devem ser vistos não como mera representação do espaço, mas sim como discursos sociais. Como um sistema de comunicação, em que as representações espaciais também expressam determinada maneira de interpretar e organizar o mundo.  A forma como os elementos são destacados pode construir mitos políticos ou sociais, como colocar um país no centro do mapa com dimensões ampliadas transmite o mito da centralidade e superioridade dessa região com relação às outras, fazendo com que uma escolha ideológica pareça uma verdade universal da Terra. Sendo assim, a linguagem geográfica legitima a construção dos significados atribuídos ao território (Girardi, 1997).

A primeira vista pode parecer uma recomendação meramente geo-cartográfica com a função de buscar uma representação mais realista do globo. Todavia, a escolha de mapas não deixa de ser uma escolha política. Existem muitas formas de representação das massas continentais e dos oceanos no globo, desde projeções azimutais até plana, cada qual fundamentada em diferentes critérios de representação do espaço. A escolha cartográfica reflete a percepção de mundo daqueles que as escolhem. Assim como o espaço geográfico não resulta da disposição aleatória de objetos e técnicas, mas de processos históricos e relações sociais, os mapas tampouco são representações neutras do território. Sua elaboração e utilização estão associadas a estratégias de apropriação, organização e controle do espaço, bem como às táticas empregadas sobre o terreno (Lacoste, 2012).

A representação geográfica é essencial contudo, não é neutra. Para exercer poder sobre determinado território é essencial que ele seja reconhecido, delimitado e descrito, de forma que as relações de poder possam adentrar no terreno. De forma semelhante, para que seja possível desenvolver estratégias geopolíticas de expansão e consolidação do Estado é essencial que o mapa escolhido reflita da maneira mais precisa possível as distâncias e a posição relativa entre os territórios. Nesse sentido, a cartografia pode ser compreendida, a partir de Raffestin (1993), como um dos instrumentos por meio dos quais o espaço é conhecido, apropriado e submetido a relações de poder. Assim, a escolha de uma projeção pode assumir importância estratégica, uma vez que condiciona a forma como o território é percebido, planejado e utilizado pelo Estado. 

Assim, a cartografia constitui instrumento fundamental para a compreensão da geopolítica, uma vez que a representação espacial fornece elementos essenciais para a formulação de estratégias militares e diplomáticas. A leitura do território, de suas dimensões, posições, fronteiras, recursos e vias de circulação permite compreender as possibilidades e limitações da atuação dos Estados. Nesse sentido, a análise das estratégias estatais está diretamente vinculada à importância da geopolítica, entendida como o estudo da influência dos fatores geográficos sobre as relações de poder e sobre a organização política do espaço (Kaplan, 2017).

Diante disso, a recomendação da Assembleia Geral da ONU por uma projeção mais fiel aos tamanhos e distâncias dos territórios reflete o reconhecimento internacional de uma possível reconfiguração do sistema internacional. A projeção de Mercator foi utilizada e considerada referência desde o século XVI, em que mesmo com as diversas transformações sociais, econômicas e até mesmo geográficas, pelas quais o mundo passou, não houve manifestação massiva internacional sobre sua mudança. Todavia, o atual cenário internacional reflete uma mudança na distribuição de poder entre as nações e na configuração do sistema internacional, gerando um ambiente fértil para mudanças em conceitos e técnicas consideradas tradicionais. 

A recomendação para a utilização da projeção Equal Earth pode ser interpretada em conjunto com o processo de reconfiguração da ordem internacional e de crescente centralidade de novos atores e rotas marítimas. A referida projeção evidencia com maior clareza a magnitude do continente asiático e sua principal rota marítima, o Oceano Índico. A análise do mundo segundo a nova projeção permite redirecionar tradicionalmente orientado para a Europa e o Atlântico em direção à Ásia e ao Oceano Índico. Ao conferir maior proporcionalidade à representação territorial de regiões historicamente subdimensionadas nas projeções convencionais, a nova representação cartográfica contribui para questionar uma determinada centralidade visual do espaço euro-atlântico. 

Além disso, a representação da projeção Equal Earth assume particular relevância ao ressaltar a importância geopolítica dos países do Sul Global, especialmente para a África e a América do Sul, ao conferir maior proporcionalidade à dimensão territorial desses espaços. Cabe salientar que, a alteração da escala visual não modifica a extensão física dos territórios, mas transforma a maneira como eles são apreendidos e interpretados no imaginário geográfico internacional. Tal mudança pode favorecer a construção de narrativas que enfatizam a posição geográfica e a relevância estratégica desses espaços, elementos que também integram a formulação das percepções e dos interesses associados à política externa dos Estados. 

A reconfiguração do sistema internacional 

A ascensão da China, desde os anos 2000, conjuntamente com o crescimento econômico acelerado dos países asiáticos têm demonstrado como o sistema internacional caminha cada vez mais para um processo de “asianização”. Ao abordar o termo “asianização” é importante destacar que se trata do conceito desenvolvido pelo autor Khanna em seu livro “The Future is Asian” (2019), em que o termo é empregado para descrever um processo de transformação da ordem internacional caracterizado pelo crescente peso econômico, político, tecnológico e estratégico dos países asiáticos. Segundo o autor, esse processo não representa apenas a emergência isolada de determinadas potências, mas uma transformação mais ampla da distribuição do poder no sistema internacional, à medida que a Ásia recupera centralidade nos fluxos de comércio, investimentos, infraestrutura e tecnologia. 

O avanço do processo de globalização ao longo das últimas décadas desempenhou um papel paradoxal e determinante em que longe de apenas ocidentalizar o globo, serviu como o catalisador primordial para que o continente asiático retomasse sua centralidade histórica no cenário internacional, a qual havia sido fragilizada pelo colonialismo e pelo imperialismo ocidental. Portanto, trata-se de um movimento multidimensional em que a Ásia vivencia um profundo resgate de suas redes intrarregionais de comércio, infraestrutura, cultura e diplomacia. Esse fenômeno reconfigura o continente não mais como uma periferia fornecedora de insumos para o Ocidente, mas sim como um sistema autônomo, altamente integrado (Khanna, 2019).

Ao dizer que o futuro é asiático, busca-se demonstrar como o sistema asiático irá retomar a sua centralidade no sistema internacional. Todavia, não significa dizer que os países da região buscam construir uma nova ordem internacional por meio de uma potência hegemônica asiática, uma vez que historicamente o sistema asiático é caracterizado pela sua diversidade e multipolaridade. Sendo assim, a crescente interdependência intra-asiática, por meio de organizações internacionais e fóruns de concertação política, reforça a dimensão cooperativa entre os países e contribui para a crescente centralidade da Ásia na configuração da ordem internacional contemporânea (Khanna, 2019).

Diante disso, nota-se como o processo conhecido como asianização ocorrerá com um fluxo multidirecional, em que o processo de integração será em rede. O passado histórico da região, marcado sobretudo pelas intervenções estrangeiras e pelas conquistas territoriais que se intensificaram nos séculos XIX e XX, pode ser compreendido como uma ruptura em relação à posição historicamente desempenhada por diversas sociedades asiáticas nas redes comerciais, na circulação de conhecimentos e no desenvolvimento de inovações tecnológicas. Durante diferentes períodos, importantes centros políticos e econômicos asiáticos exerceram papel central nas rotas comerciais entre o Ocidente e o Oriente e nas inovações tecnológicas que depois se espalharam pelo globo (Khanna, 2019).

Contudo, a expansão das potências europeias alterou significativamente essa dinâmica, submetendo amplas parcelas do continente a diferentes formas de dominação política e econômica, reorganizando as relações comerciais e sociais em benefício das potências coloniais. Nesse sentido, a experiência de subordinação vivenciada por parte significativa da região durante os séculos XIX e XX contrasta com sua trajetória anterior de protagonismo nas redes de circulação e intercâmbio. Assim, não se trata de um novo centro de poder emergente, mas sim da retomada da importância histórica do sistema asiático (Khanna, 2019).

A dimensão conflitiva da região, considerando sua ampla diversidade étnica, religiosa e territorial pode ser vista por alguns analistas como um obstáculo para a construção de um sistema asiático multipolar, uma vez que são construídas esferas de influências. A diversidade que abarca o território asiático não pode ser vista como um obstáculo à sua integração, mas, sobretudo, como uma de suas principais características. Longe de impedir a aproximação entre os países, essa heterogeneidade contribui para a formação de diferentes redes de cooperação e interdependência, que se articulam em torno de interesses econômicos, políticos, tecnológicos e estratégicos comuns. Dessa forma, a crescente integração asiática não pressupõe a homogeneização do continente, mas a capacidade de diferentes Estados e sociedades de estabelecer mecanismos de cooperação preservando suas especificidades (Khanna, 2019).

Os mapas fornecem uma visão espacial da política mundial, podendo deduzir tendências futuras. Embora o desenvolvimento econômico e tecnológico de determinadas regiões encoraje novas maneiras de interpretar as relações entre os Estados, a cartografia continua tendo uma função essencial ao representar outro elemento importante para a geopolítica, a geografia (Kaplan, 2010).

Durante séculos, a projeção de Mercator contribuiu para conferir centralidade aos oceanos Atlântico e Pacífico. A referida projeção tende a posicionar o Hemisfério Ocidental no centro da representação cartográfica, fazendo com que o Oceano Índico seja frequentemente fragmentado nas extremidades do mapa, reduzindo sua percepção como um espaço marítimo contínuo e estratégico. Todavia, sua importância é reconhecida desde as viagens de Marco Polo e as antigas redes de circulação que conectavam a Ásia, o Oriente Médio e a África (Kaplan, 2010).

Além de ser uma importante rota para o transporte de petróleo, é no Oceano Índico que estão as principais rotas de estrangulamento da navegação comercial, com os estreitos de Bab el-Mandeb, Ormuz e Malaca. Dessa forma, o Oceano Índico constitui uma rota marítima essencial para o comércio intercontinental, conectando importantes centros econômicos da Ásia, da África, do Oriente Médio e da Europa. 

Cabe salientar que, com o crescimento econômico e demográfico de países asiático, como a Índia, a tendência é que cada vez mais containers utilizem o Oceano Índico como rota de transporte de energia e produtos. Nesse sentido, o processo de asianização do sistema internacional evidencia a relevância que o Oceano Índico tende a assumir nas próximas décadas para o comércio internacional, a circulação de recursos energéticos e a conexão entre os principais polos econômicos do mundo. 

Diante disso, nota-se como o Oceano Índico é fundamental para o funcionamento do comércio e das relações internacionais, demandando uma estabilidade estratégica única para manter sua livre navegação. Diferente do Atlântico e do Pacífico, o Índico pode ser considerado o mais nuclearizado, uma vez que todas as marinhas das potências nucleares navegam por essas águas e, em alguns casos, mantêm bases e instalações militares na região.  

Além disso, a dinâmica do Oceano Índico também se diferencia por sua histórica diversidade, com a presença de diversos grupos étnicos e religiosos que foram presentes na região. Assim como o sistema asiático é marcado pelo multipolaridade e pela diversidade, o Oceano Índico segue a mesma dinâmica, caracterizando-se historicamente pela presença e pela interação de diferentes potências e centros de poder, sem que uma única potência tenha exercido domínio incontestado sobre a totalidade de suas águas (Kaplan, 2010). 

Contudo, as rivalidades e ameaças que marcam o século XXI parecem se entrelaçar nessa região, fazendo do Oceano Índico o palco central de conflitos e competições que marcam as relações internacionais entre os Estados. Tal realidade deixa claro a atualidade da geopolítica naval formulada por Alfred Mahan, ao reforçar a centralidade do poder marítimo, do controle de rotas estratégicas e da projeção naval como fundamentos da primazia internacional. 

Para o autor, o mar seria uma planície aberta com menos obstáculos do que o espaço terrestre. Diferentemente da terra, o mar oferece maior mobilidade para a concentração de forças e projeção de poder em escala mundial. As estratégias marítimas possuem maior flexibilidade e adaptabilidade diante da mudança rápida de cenários, garantindo não apenas a circulação de bens por meio do comércio, mas também a rápida capacidade de intervenção e defesa. Portanto, o domínio dos mares seria essencial para as dinâmicas de balança de poder, uma vez que as potências teriam maior acesso e controle dos mares, projetando força além de suas fronteiras e influenciando os fluxos econômicos no sistema internacional (Mahan, 2004).

A teoria de Mahan não compreende apenas o poder naval, isto é, militar sobre os mares, mas sim entende o poder marítimo como a expressão de aspectos políticos, econômicos e militares que permitem a supremacia naval. Além disso, o poder marítimo estaria estruturado em três pilares: 1-a economia produtiva, sendo essencial a proteção de rotas comerciais; 2- a existência de bases ultramarinas, sendo bases de apoio e defesa das rotas de comércio e 3- a construção de uma frota naval, tanto mercado quanto de guerra. A centralidade geopolítica do Oceano Índico evidencia a atualidade desses elementos, com a crescente importância do controle das rotas comerciais, da instalação de bases estratégicas e da presença de frotas navais na região (Mahan, 2004).

Considerações Finais

Diante do exposto, observa-se que o novo mapa recomendado pela Assembleia Geral das Nações Unidas representa um avanço na compreensão de que o sistema internacional contemporâneo não é mais o mesmo e, portanto, não pode continuar sendo representado e interpretado da mesma forma que desde o século XVI. Mais do que uma forma de representação do espaço, a cartografia constitui também um instrumento de poder, capaz de reproduzir e, simultaneamente, revelar as disputas de poder na maneira como os espaços territoriais e oceânicos são representados, lidos e interpretados. A projeção cartográfica, portanto, não é neutra nem deve ser compreendida como uma representação objetiva da realidade, mas como uma construção resultante de múltiplas escolhas e subjetividades, tanto daqueles que a produzem quanto daqueles que a interpretam.

A representação mais igualitária sobre o tamanho e a distância real dos países evidência o peso dos países do Sul Global na composição do globo e da geopolítica contemporânea. Continentes como a América do Sul, a África e a Ásia adquirem maior destaque quando observados em suas dimensões territoriais reais, evidenciando uma transformação que não se restringe à cartografia, mas também se relaciona à crescente multipolaridade do sistema internacional. 

A projeção Equal Earth evidencia uma mudança no centro dinâmico da representação espacial, na medida em que a perspectiva euro-atlântica, que marcou a interpretação do sistema internacional durante séculos, dá lugar a uma visão cada vez mais orientada para a Ásia e para o Oceano Índico. A ideia de que o futuro é asiático corrobora para mudanças em estruturas de significados desenvolvidas pelas antigas potências durante séculos. A reconfiguração de poder no sistema internacional demanda, muitas vezes de forma inconsciente, mudanças de padrões interpretativos e subjetivos historicamente associados a uma estrutura de poder euro-americana.

Portanto, o reconhecimento de que a projeção de Mercator não é mais ideal para representar o globo, devendo ser substituída por uma com proporções mais fidedignas está diretamente relacionada com as mudanças pelas quais o sistema internacional está passando. O novo mapa recomendado evidencia a necessidade de repensar as formas tradicionais de representação espacial diante da crescente importância de novos centros dinâmicos do mundo. Nesse sentido, a cartografia do globo serve para representar espacialmente as disputas de poder e, simultaneamente, produzir formas particulares de interpretar a organização do sistema internacional. 

Referências

GIRARDI, Gisele. A cartografia e os mitos: ensaios de leitura de mapas. São Paulo, FFLCH-USP, 1997. 143 p. 

KAPLAN, Robert D. La venganza de la geografía: La geografía marca el destino de las naciones. Espanha: RBA libros, S.A., 2017.

KAPLAN, Robert D. Monsoon: The Indian ocean and the future of american power. New York: Random House Trade, 2010.

KHANNA, Parag. The future is Asian. New York: Simon & Schuster, 2019.

LACOSTE, Yves. A geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra. Campinas: Papirus, 2012.

MAHAN, Alfred T. The influence of  Sea Power upon History, 1660-1783”. Connecticut: Martino Fine Book, 2004.

RAFFESTIN, Claude. Por uma geografia do poder. São Paulo: Ática, 1993. 

Cartografia e poder: o novo mapa-múndi da ONU e a reconfiguração do sistema internacional  1
+ posts
Adicionar um comentário Adicionar um comentário

Deixe um comentário

Post Anterior
O que as eleições podem mudar na política externa do Brasil 2

O que as eleições podem mudar na política externa do Brasil

Advertisement