A data de 1 de novembro de 1955 oficialmente marca o início da Guerra do Vietnã. Os conflitos foram muito mais intensos no período de 1964 a 1973, porém, em 1998, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos definiu essa data como a oficial para o início do confronto, uma vez que já haviam tropas norte-americanas no país, e foi quando foi estabelecida uma força-tarefa específica para o país pelo Presidente Dwight Eisenhower. Portanto, pouco mais de dez anos após o comemorado final da Segunda Guerra Mundial, o mundo já se preparava para mergulhar em um novo período de conflitos em escala internacional; na realidade, alguns anos antes, já houve um enfrentamento, comparativamente menor, entre as Coreias.

Apresento a seguir um breve resumo das origens, fatos e consequências desta guerra. A maioria das asserções tem como fonte o filme-documentário The Vietnam War, dirigido por Ken Burns e Lynn Novick, e disponível na plataforma Netflix. Ao final, coloco eventuais lições que podem ser aprendidas para que a história não se repita no futuro.

A Guerra do Vietnã é de certa forma fruto de uma reivindicação feita pelo líder vietnamita Ho Chi Minh, não aceita duas vezes pelo Ocidente. Logo após o final da Primeira Guerra Mundial, Ho Chi Minh procurou capitalizar nos 14 pontos do Presidente Woodrow Wilson (EUA), que incluíam mais especificamente o item 5, “ajuste imparcial das reinvindicações coloniais versus soberania própria”. Minh procurou o Presidente Wilson alegando que o Vietnã deveria ser um país soberano. Apesar da retórica aparentemente progressista de Wilson, Minh não foi ouvido, e outras forças se aproveitaram do vácuo. A França, que esteve no país por décadas, e depois o Japão, que o invadiu a partir de 1940 tinham planos de continuar colonizando o Vietnã. Logo após o final da Segunda Guerra Mundial, a ONU foi criada e Minh tentou novamente defender a soberania do seu país em uma reinvindicação pública na entidade. Novamente, não teve sucesso com o mundo ocidental. A nova negativa recebida pela causa de um Vietnã soberano fez Minh buscar apoio do outro lado do novo mundo bipolar que se desenhava. Minh aproximou-se da União Soviética e da China.

A data de 1 de novembro de 1955 relaciona-se com os importantes eventos ocorridos no Vietnã no ano anterior. Em 1954, os vietnamitas expulsaram de vez os franceses de seu território, e formaram um país que estava dividido entre duas ideologias, a do Norte alinhada com o bloco soviético e a do Sul mais alinhada com o Ocidente. O Acordo de Genebra do mesmo ano buscou aproximar os dois lados, propondo uma eleição em 1956 para que o país se unisse em uma única liderança e território. Não houve sucesso pois o Sul se antecipou em formar um governo próprio, autocrático e capitalista. O Norte por sua vez estava cada vez mais próximo a ideais da China, que testemunhara sua Revolução Comunista em 1949.  

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Guerra do Vietnã - Combatentes vietcongues cruzando um rio
Guerra do Vietnã – Combatentes vietcongues cruzando um rio | Autor desconhecido – George Esper

A Guerra do Vietnã teve conflitos de maior escala entre Estados Unidos e o dividido país asiático a partir de 1964. Estima-se que morreram, até meados de 1973, entre um e três milhões de vietnamitas além de quase 60 mil norte-americanos. Esta guerra apresentou novidades tecnológicas, como o constante uso de helicópteros nos campos de batalha (estima-se que foram feitos 36 milhões de voos pelos americanos) e o uso das bombas de napalm. Os conflitos se estenderam muito porque os Estados Unidos estavam fixados na sua teoria do dominó, que entendia que se um primeiro país do sudeste asiático adotasse o comunismo, seus vizinhos o seguiriam rapidamente como uma sequência de peças de dominó caindo. Tal teoria foi dividida tanto pelo Partido Democrata quanto pelo Partido Republicano quando estiveram no poder dos Estados Unidos na época dos conflitos no Vietnã. Por ter sido uma guerra de longa duração, mais longa que a Segunda Guerra Mundial, o efeito psicológico de seu aparentemente interminável horizonte deixou marcas traumáticas em ambos os lados. Soldados frustrados norte-americanos cometeram atrocidades das piores espécies contra civis vietnamitas, mas em contrapartida, e como consequência de tais atos, muitos carregaram a síndrome do stress pós-traumático. Vietnamitas tiveram suas famílias, comida e casas destruídas, apesar de que alguns membros do seu exército não respeitaram as regras mínimas de condução humanitária em conflito, por exemplo, não deixando norte-americanos recolherem corpos de alguns de seus colegas perdidos.

Os aprendizados que devem ser levados desta guerra são os seguintes: primeiramente, reinvindicações de líderes de países “periféricos” têm de ser ouvidas com um mínimo de atenção por líderes do mundo mais desenvolvido. Em segundo lugar, a asserção de teorias, como a do dominó, pode ter fundamentos geopolíticos no curto prazo, mas isso não necessariamente implica que seja válida em uma nova avaliação no médio prazo. Após a poeira ter baixado no Vietnã, historiadores e políticos chegaram à conclusão que o país asiático queria apenas sua independência. Tão simples quanto isso. Se os Estados Unidos entenderam que os vietnamitas os odiavam, deveriam entender também que o mesmo país tinha um ódio anterior, centenário, pela sua vizinha China.

Lições da Guerra do Vietnã

Lições foram aprendidas? Os Estados Unidos puderam aprender algumas delas. As guerras do Iraque (a primeira mais justificada em 1991 mas a segunda mal fundamentada em 2003), a invasão ao Afeganistão em 2001-02, os bombardeios à Líbia em 2011 mas o não-bombardeio à Síria em 2013, foram eventos muito mais cirúrgicos, em que pese que a tecnologia mais avançada assim os permitia. E foram fruto de um aprendizado acumulado. O Vietnã, por sua vez, é hoje uma república socialista, que soube desenvolver sua economia positivamente e deixar para trás a maioria das marcas de conflituosas décadas do século passado.

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Mestre em Relações Internacionais pela Florida State University (EUA), programa realizado no campus da cidade do Panamá, Panamá, MBA pela University of Rochester (EUA) e bacharelado em Administração de Empresas pela FGV-SP (Brasil).

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