Nas entranhas da Casa Branca: os anos Obama e os anos Trump – uma análise comparativa com foco nas políticas externas

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Nas entranhas da Casa Branca: os anos Obama e os anos Trump – uma análise comparativa com foco nas políticas externas 1

Os últimos dois presidentes estadunidenses, antes do atual Joe Biden, são considerados bastante diferentes entre si, através da opinião pública em geral. Este artigo traça uma análise comparativa entre ambos os mandatários, baseando-se, primordialmente, em dois livros recentes que vasculham os bastidores da Casa Branca nos respectivos mandatos de cada um. O primeiro, trata-se do livro “The World as It Is – A Memoir of the Obama White House” (Editora Random House, 2019) de Ben Rhodes, que ascendeu de escritor de discursos a assistente-deputado de Segurança Nacional a multi-assessor do governo do democrata Barack Obama (2009-2017). E o segundo, o livro “Fuego y Furia – En las entrañas de la Casa Blanca de Trump” (Editora Planeta, 2018) do jornalista Michael Wolff, que revela o dia a dia da administração do republicano Donald Trump (2017-2021) no seu primeiro ano do mandato.

A primeira seção deste artigo mostra uma análise comparativa de estilo dos dois mandatários, passando por comportamento, família e organização de equipe. A segunda seção mostra como os dois presidentes enxergavam a política externa e como os Estados Unidos (EUA) deveriam exercer seu papel nela. A terceira seção mostra resultados práticos, através de rápidos estudos de caso, que os dois mandatários obtiveram em importantes regiões da geopolítica mundial, com destaque para Oriente Médio, Afeganistão e Rússia

Estilo pessoal

Obama, que vivia em Chicago, fez da Casa Branca em Washington a casa da sua família por cerca de oito anos. Soube separar bem a sua família do seu papel profissional. O mesmo não pode ser dito para Trump. O presidente republicano, de origem novaiorquina (com a vida iniciada no Queens, mas que se estabeleceu com sucesso em Manhattan), teve mais dificuldade em adaptar-se a Washington e em separar a família da sua atribuição profissional de ser o presidente dos Estados Unidos. É razoável afirmar que Obama teve uma vida discreta com sua mulher e duas filhas em Washington. Trump, por sua vez, quase permitiu que seus dois filhos, Eric e Donald Junior, entrassem em sua equipe de trabalho. Segundo Wolff, ambos entendiam que poderiam realizar a atividade administrativa cotidiana da Casa Branca, abrindo espaço para que seu pai cuidasse das suas aparições públicas e da sua arte de venda (WOLFF, 2018, p. 44). Não obstante, Trump permitiu que sua filha Yvanka e seu genro Jared fossem influentes nas decisões de poder executivo dos Estados Unidos. O casal era tão unido no seu propósito dentro do poder presidencial na Casa Branca, que se criou a expressão que junta os nomes em “Jarvanka” para definir esta força política, cuja presença nas decisões de Trump era uma constante. Segundo Wolff (2018, p. 94), a informal dupla Jarvanka era tão influente quanto os assessores formais Steve Bannon e Reince Priebus.

Ainda segundo Wolff, Trump – que é um empresário que veio do setor imobiliário, vivia criticando a estrutura da Casa Branca, segundo ele mais desconfortável que sua residência e escritório na Trump Tower, na Quinta Avenida, em Nova Iorque. Sua mulher, Melania, passava considerável parte do seu tempo em Nova Iorque, e não em Washington. Diferentemente do casal Obama, o casal Trump não dividia o mesmo quarto na Casa Branca.

Segundo relata Rhodes (2019), Obama definia bem os papéis de sua equipe de trabalho. Trump era mais confuso. Segundo Wolff, o presidente republicano era na prática seu próprio chefe de gabinete (WOLFF, 2018, p. 140). Wolff (2018, p. 145) comenta que Trump lia muito pouco e não escutava muito as pessoas à sua volta, e confiava apenas em sua experiência. Trump também raramente tomava notas das reuniões em que participava. Para completar, tinha em Mike Pence um vice-presidente que Wolff caracteriza como “um zero à esquerda”, baseado em afirmações do próprio Pence a confidentes que dizia que sua função era de ir a funerais e aparar arestas (WOLFF, 2018, p. 155). Barack Obama, por sua vez, teve Joe Biden como seu vice-presidente, alguém que era mais ativo em reuniões, segundo relata Ben Rhodes ao longo do seu livro.

Em relação à Trump, é válido trazer uma personalidade que esteve por trás de sua campanha eleitoral em 2016, e foi estrategista-chefe na Casa Branca por cerca de oito meses no início do mandato em 2017: Steve Bannon. Bannon, antes de juntar-se a Trump em 2016, era executivo e ativista político da Breitbart News – canal vociferante da chamada “Direita Alternativa”, que defendia posições misóginas, antiglobalistas e radicais de outras sortes. Wolff assinala que Bannon, em seus pensamentos, acreditava que sua ideia de Direita Alternativa era maior que Trump, e que este último na verdade poderia ser apenas um instrumento para algo maior e de maior duração. Bannon tinha um pensamento bem peculiar de que os Estados Unidos deveriam voltar ao período “dourado” de 1955-1965, onde a força do caráter do trabalhador americano, o isolacionismo, o antiglobalismo e as guerras comerciais pró-Estados Unidos – em detrimento a acordos comerciais com outros países, davam o tom do país. Tais pensamentos podem gerar ressonância com alguns estratos da população estadunidense que viveu o período, mas não possuem aderência histórica à realidade.

A figura de Bannon é importante de ser mencionada, porque é, segundo Wolff, uma peça fundamental (ao menos no início) da administração Trump, enquanto um similar guru de impacto não se verificou para a administração Obama, segundo pode-se capturar pela leitura de Rhodes. Trazendo Bannon para a atualidade, ele ameaça envolver-se na eleição presidencial do Brasil em 2022, advogando e maquinando a favor de Jair Bolsonaro. Há teorias inclusive que conectam Bannon às eleições brasileiras de 2018.

O dia a dia do POTUS (acrônimo usado na Casa Branca para se referir ao Presidente dos Estados Unidos) e seu círculo de funcionários foi bastante caótico e disfuncional na administração Trump, conforme relata Wolff. Em contrapartida, Rhodes narra seus oito anos lá como razoavelmente organizados e mais transparentes, à exceção de dois episódios onde as salas de reunião da Casa Branca se fecharam em enorme segredo: os dias que antecederam a captura de Osama Bin Laden, em 2011, e as discussões sobre os vazamentos do Wikileaks e da potencial interferência russa nas eleições de 2016.

Visões de política externa

Para Trump, o inimigo de tudo relacionado à política externa era a complexidade e a burocracia, e a solução para tudo passava por encontrar atalhos; desviar ou ignorar as dificuldades, apenas caminhar em linha reta ao objetivo que, se suficientemente audaz e grandioso, vender-se-ia por si mesmo (WOLFF, 2018, p. 268). Wolff complementa que na visão de Trump, nessa fórmula sempre haveria uma série de intermediários que prometeriam ajudar no encontro de atalhos, assim como, sócios que estariam felizes de juntar-se à grandiosidade do objetivo. Wolff transparece um Trump também muito focado em obter um ganho econômico de cada situação atrelada às relações internacionais dos EUA.

Para Obama, a complexidade de uma política exterior estadunidense era uma constante, e segundo Rhodes, ele resumiu o seu aprendizado sobre o assunto após conversas com diversos historiadores presidenciais, logo após ter sido reeleito: “a coisa mais importante a se fazer em política exterior é evitar um erro muito custoso – exemplos de erros custosos no passado foram Johnson no Vietnã, Carter no Irã e Bush no Iraque; e usando a lógica do beisebol, obter avanços através de rebatidas simples ou duplas era muitas vezes mais importante que apenas mirar em um home run” (a tacada mais valiosa em uma partida de beisebol) (RHODES, 2019, p. 277).

Estudos de casos

A partir dos diferentes entendimentos sobre política externa, que foram resumidos acima, apresento breves estudos de casos sobre como a geopolítica estadunidense foi moldada por seus dois líderes executivos em algumas das principais regiões ou países do mundo, e os efetivos resultados obtidos.

Oriente Médio

Trump, apegando-se a sua ideia de atalhos e sócios para a resolução de problemas, escolheu seu sócio: o príncipe saudita Mohammed bin Salman (MBS), acreditando que ele o guiaria para paz duradoura no Oriente Médio. Trump, muito influenciado por seu assessor Michael Flynn, um anti-Irã absoluto (WOLFF, 2018, p. 169), entendia que a máxima “o inimigo do meu inimigo é meu amigo” resolveria os problemas da região. Trump confiou à MBS uma solução “simples”, onde o Irã seria isolado e as soluções seriam encaminhadas. O começo até foi promissor. Em maio de 2017, MBS convidou Trump e sua equipe para uma extensa (e megalomaníaca como se mostrará adiante) turnê pelo mundo árabe – segundo Wolff, Trump tinha fobia a longas viagens. Para bancar esta turnê, MBS conseguiu que cinquenta países árabes e muçulmanos pagassem a conta, que custou 75 milhões de dólares (WOLFF, 2018, p. 273-275). Segundo Wolff, Trump retribuiu a opulenta recepção oferecendo, aberta e automaticamente, à Arábia Saudita 110 milhões de dólares em armamentos e mais 350 milhões de dólares nos dez anos seguintes. Recentemente, Joe Biden revogou todo esse plano de armamento à Arábia Saudita. Em relação ao Iraque, de acordo com Wolff (2018, p. 70), Trump trazia em reuniões um ressentimento econômico de “não ter aproveitado a oportunidade de ter ficado com o petróleo do país quando isto foi possível”.

Trump não conseguiu resolver as questões do Oriente Médio. Já na fase final do seu mandato, Trump conseguiu que Israel atasse relações diplomáticas com o Bahrein e com os Emirados Árabes Unidos assim como, com o norte africano, na figura do Reino de Marrocos. E em janeiro de 2020, Trump propôs ao mundo um acordo de paz para a questão Israel-Palestina. O acordo, apresentado em uma singela apresentação que continha um “mapa-solução”, era um reflexo da sua visão simplista de desenhar um atalho, com viés econômico potencialmente positivo para os Estados Unidos. Trump propôs a aceitação pela comunidade internacional do Estado da Palestina, e Israel permaneceria com a maior parte da cidade de Jerusalém, deixando apenas uma parte menor, a oriental, com a Palestina. A extensa e ocidental Jerusalém seria, portanto, formalmente de Israel e seria confirmada como a sua capital diplomática aos olhos do mundo.

A “sacada” de Trump seria desenvolver a cidade de Jerusalém Oriental, do futuro Estado palestino, através de investimento maciço de bilhões de dólares, sobretudo em infraestrutura. Conceitualmente, a solução de Trump não era ruim. A debilidade da ideia é que os detalhes de onde viriam tais vultosos recursos para a parte oriental não eram abordados em seu powerpoint. Talvez o plano pudesse ser, ou de fato já havia sido, mais embasado. Mas aí Trump, talvez em um lance de azar do destino, teve de enfrentar a crise do coronavírus e o assunto se perdeu. Infelicidade do destino ou não, o fato é que Trump realizou pouco pelo Oriente Médio em seu mandato. A manobra mais importante de Trump na região foi a saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã, que havia sido costurada por Obama.

Obama, em seus oito anos de mandato, teve de enfrentar uma série de acontecimentos, muitos destes extremamente complexos, no Oriente Médio. Em ordem cronológica, comecemos por 2009. Em junho desse ano, Obama proferiu um discurso histórico no Cairo (Egito) quando buscou mostrar ao mundo islâmico, e ao mundo em geral, que essa cultura tão estigmatizada em partes do globo, deveria ser mais respeitada. Foi em parte uma resposta a uma perseguição que Obama sofria em casa, sendo o ativista político outsider Donald Trump um dos principais provocadores, que questionava se Obama havia de fato nascido nos Estados Unidos e se não tinha inclinações muçulmanas que poderiam ir contra os interesses da Casa Branca. O corajoso discurso do Cairo, sob os olhos do seu coautor Ben Rhodes (2019, p. 61), tornou-se um catalisador-chave da Primavera Árabe, demonstração pró-democracia que tomou diversos países a partir do final de 2011. Os desejos de democracia de Obama se chocaram com ditadores de longa data do mundo árabe, que aumentaram sua repressão. O primeiro, e mais grave, caso foi o da Líbia.

O ditador líbio, Muammar al-Gadaffi, repreendeu manifestações por abertura com muita força e violência. Obama reagiu e bombardeou posições militares do ditador, enfraquecendo-o, e o resultado que veio a seguir das ruas foi a sua morte nas mãos de protestantes. A (conturbada) troca de poder no Egito que ocorreu logo a seguir também foi arquitetada sob certa medida por Obama. E logo em seguida, veio a crise da Síria. O ditador sírio de longa data, Bashar al-Assad, com 99% de comprovação executou ataques químicos a seus cidadãos, incluindo crianças. Obama refletiu bastante sobre um novo bombardeio, assim como tinha sido feito na Líbia, mas acabou recuando na sua ideia. Obama entendeu que mobilizar mais recursos militares para a região seria muito custoso, e não geraria o efeito desejado de retirar do poder um ditador que era claramente apoiado por forças como a Rússia e o Irã. Em meio a esta crise, é bom lembrar que Obama tinha um número significativo de tropas no Afeganistão e no Iraque, onde houve esforços estadunidenses – em boa parte frustrados – de reconstrução política, social e de infraestrutura. O vácuo de poder de partes do território sírio, somado a partes do território iraquiano, gerou o ISIS – Estado Islâmico do Iraque e da Síria, cujos ataques terroristas Obama soube neutralizar melhor do que países da Europa Ocidental.

Em relação ao tema Israel-Palestina, Obama teve um primeiro mandato desafiador. Obama ganhou uma antipatia – declarada em público, do líder de Israel, Benjamin Netanyahu, sobretudo porque estava costurando um acordo nuclear com o Irã, o que enfurecia o israelense “Bibi”. Mas Obama também ganhou alguma antipatia dos palestinos, porque segundo eles, Obama fazia vista grossa à assentamentos israelenses que se faziam em territórios da Cisjordânia. Ao final do seu primeiro mandato, um Obama frustrado confidencia a Rhodes a fórmula para que ele não fosse reeleito: apoiar a criação do estado palestino na ONU (RHODES, 2019, p. 163). De fato, os EUA sempre foram um dos raros países a bloquear o pedido palestino de um estado próprio na ONU. Segundo Rhodes (2019, p. 147), Obama, que possui um sobrenome árabe, Hussein, ressaltava a ele que vinha de uma comunidade judaica de Chicago. Obama defendia– aberta e avidamente, diferentemente do seu sucessor Trump – elementos de tolerância e coexistência entre os povos, por mais difícil que fosse executá-los na vida real. Resulta que Obama conseguiu colocar de pé de forma relativamente amistosa o acordo de fiscalização e redução do enriquecimento de urânio com o Irã, para desgosto de israelenses, mas soube manter forte a relação dos Estados Unidos com Israel, que, por sua vez, continuou realizando assentamentos na Cisjordânia. Trump teve uma postura de enfrentamento direto ao Irã.  

Afeganistão

A mais atual e aguda crise da geopolítica mundial, o Afeganistão, foi tratado de forma distinta pelos dois presidentes, porém com resultados similares. Trata-se de uma batalha que está prestes a completar vinte anos. Traçando uma rápida cronologia, cujos dados têm como fonte a autora Christina Lamb da revista Foreign Affairs, que resenhou o livro The American War in Afghanistan (2021), de Carter Malkasian, após o 11 de setembro de 2001, em revide, os Estados Unidos com aliados conduziram uma rápida e massiva expedição ao Afeganistão. A expedição foi um sucesso, custou “apenas” 3,8 bilhões de dólares e praticamente destruiu o Talibã, grupo apontado pelos EUA como incentivador de atividades terroristas, em 60 dias, com apenas a morte de quatro soldados norte-americanos, três deles mortos por fogo amigo (LAMB, 2021, p. 175). A partir de um plano de democracia almejado para o Afeganistão, George W. Bush declarou em 2002 que as mulheres do Afeganistão estavam livres. Sentado neste, inicialmente, estrondoso sucesso militar, os EUA foram permanecendo no país e as coisas só pioraram desde então. A implantação de democracia em um país sem este histórico e sobretudo descentralizado em diferentes etnias e tribos e com o Talibã sendo uma constante referência de poder em comparação a um típico governo central, foi se provando um desejo de difícil consecução. Segundo Lamb (2021, p. 176), o Talibã em 2006 tinha um exército de cerca de 10 mil combatentes, um número ainda passível de contenção. Dividido entre o Afeganistão e o Iraque, os Estados Unidos foram aos poucos deixando de lado a sua missão no Afeganistão, e deixaram de investir no exército nacional afegão, um dos planos originais. Bush então deixou a presidência no início de 2009.

Obama prometeu retirar todas as tropas do país ao longo de seus anos no poder, mas voltou atrás observando a dificuldade de fazê-lo, em parte por seguir conselhos de seus assessores militares. Obama entendeu que o mais sensato seria tentar agregar mais democracia ao Afeganistão, mantendo presença no país. O plano inicial de Obama não se concretizou, na verdade, Obama agiu contra seu próprio desejo e aumentou, substancialmente, as tropas no país. Segundo Lamb, o número de tropas americanas triplicou a partir de 2006, chegando a 80 mil em 2010; e em 2011, atingiu-se a marca impressionante de 140 mil soldados no país (LAMB, 2021, pp. 174-78).

Trump por sua vez, herdou o alto número de soldados no Afeganistão e elegeu tal herança maldita como razão para não se preocupar tanto com o caso. Segundo Wolff (2018, p. 312-316), a postura de Trump sobre o Afeganistão era de considerá-lo um “lamaçal militar sobre o qual não sabia muito, além do fato de ser um lamaçal”. Wolff comenta que Trump subitamente esbravejou contra seus generais, e quis um plano de saída, mas os questionou se os Estados Unidos não poderiam obter um lucro monetário com a situação, citando que a China explorava minas no país. Em fevereiro de 2020, Trump decidiu assinar um acordo prometendo a saída total do país até maio de 2021.

Segundo Lamb (2021, p. 178), o acordo foi costurado com o próprio Talibã, e excluiu o governo afegão de todas as conversas. A sucessão de erros acima nos levou à situação mais atual, onde o Talibã tem cerca de 75 mil homens e está recapturando o país para si. Se aqui cabe uma análise comparativa, é razoável arguir que tanto Obama quanto Trump fracassaram no Afeganistão – se houve um presidente que apresentou um melhor resultado lá, este foi George W. Bush.

Alemanha, África do Sul e Cuba

Nestes três países, Obama executou discursos de grande importância histórica frente a dezenas de milhares de espectadores, em Berlim, no memorial de morte de Nelson Mandela e em Havana, respectivamente. No caso da Alemanha, Obama cita a líder Angela Merkel como uma de suas mais importantes aliadas na busca global por mais democracia. Trump teve uma relação com Merkel bastante fria. Cuba foi um caso de uma reaproximação de Obama com um país com o qual os Estados Unidos não se comunicavam formalmente há décadas, e cujo plano foi arquitetado em grande parte pelo seu assessor Ben Rhodes, através de diversas reuniões secretas com líderes cubanos no Canadá. O Vaticano foi peça importante na aproximação final e início de abertura entre os dois países. Trump também visitou o Papa no Vaticano, mas reverteu todo o plano de Obama em relação à Cuba.

Coréia do Norte

Obama tinha um comportamento (deliberadamente) distante perante o líder norte-coreano Kim Jong-un. Durante seus anos na presidência, era comum, de tempos em tempos, ver os norte-coreanos desfilarem sua propaganda de mísseis nucleares. Segundo Rhodes, em abril de 2009, no dia de um dos grandes testes balísticos executados e divulgados pela Coréia do Norte no mar próximo ao Japão, Obama daria um discurso para dezenas de milhares de pessoas em Praga (República Checa). Surpreendido com a audácia persistente do líder norte-coreano, Obama pediu ajuda ao seu co-escritor de discursos, Rhodes, para que este incluísse na última hora o tema de um mundo idealmente sem armas nucleares neste discurso (RHODES, 2019, p. 42). Após indiretas como esta, o líder norte-coreano baixava a temperatura da sua propaganda nuclear.

Trump, por sua vez, adotou uma postura mais ativa de aproximação com Kim Jong-un. Trump costurou uma reunião com o norte-coreano, no campo neutro de Singapura, em 12 de junho de 2018. No ano seguinte, Trump foi o primeiro presidente norte-americano em mandato a pisar em território norte-coreano. Os termos práticos das reuniões nunca foram muito bem divulgados, mas o fato é que a Coréia do Norte deixou de aparecer nos noticiários a partir de então. Não dá para afirmar se isto, de fato, se deve à engenhosidade de Trump ou ao fato de que o líder norte-coreano adoeceu, chegando inclusive a ser dado como morto, de forma intensa em 2020. Trump apostou que poderia ganhar um Prêmio Nobel da Paz pelas tratativas de paz com a Coréia do Norte. Perdeu sua aposta. Obama, por sua vez, já havia ganho tal prêmio em 2009.

Rússia

De acordo com o escritor Tim Marshall, no seu livro Prisoners of Geography (Editora Scribner, 2015), em 1939, Winston Churchill cunhou uma famosa observação sobre a Rússia: “é uma charada embrulhada dentro de um mistério dentro de um enigma”; mas em seguida continuou a frase, o que não é muito citado em geral, dizendo que “talvez exista uma chave, e esta chave é o interesse nacional russo” (MARSHALL, 2015, p. 12). Tal definição é adequada para comparar os acontecimentos e interações com os russos que envolveram os presidentes Obama e Trump.

Começando por Obama, este passou por dois líderes russos bastante distintos: Dmitry Medvedev (até 2012) e Vladimir Putin (líder desde então). Rhodes participou de reuniões de Obama com ambos os líderes. Rhodes, ecoando Obama, ressalta que a mudança foi brutal. Medvedev era um líder de conversa simpática, e defendia uma Rússia mais aberta a relações de diversos tipos com o Ocidente. Putin mudou totalmente a cara da política internacional russa. Rhodes comenta que todos os avanços que Obama desenhou com Medvedev, foram revertidos de forma enigmaticamente monossilábica por Putin. O ponto de maior tensão ocorreu no início de 2014, quando a Rússia anexou a região ucraniana da Crimeia. A Rússia defendeu seus interesses numa região que tinha uma relevante parcela populacional de origem russa, publicamente informando que estava em desacordo com os avanços que a OTAN fazia à Ucrânia e a outras ex-repúblicas soviéticas. Mas o maior interesse real talvez fosse mais geopolítico, de assegurar o comando do importante porto de águas quentes de Sebastopol, no Mar Negro. Obama, ao lado de sua parceira Angela Merkel, tiveram que aceitar a anexação. A distância da Crimeia para o território russo era tão pequena, que o Ocidente não ousou enfrentar a anexação de uma forma mais contundente, além das costumeiras sanções econômicas impostas à Rússia.

Voltando ao caráter enigmático do comportamento russo citado no início desta análise, a Rússia apareceu de forma protagonista na transição entre os mandatos de Obama e Trump. No final de 2016, o FBI e a CIA acreditavam ter evidências que a inteligência russa havia interferido nas eleições estadunidenses. Obama entendeu, segundo Rhodes, que a Rússia havia descoberto o ponto fraco da democracia nos tempos tecnológicos mais atuais: a manipulação em redes sociais de informações que enfraqueciam politicamente um dos lados da disputa, no caso, o lado supostamente atingido era o democrata (RHODES, 2019, p. 398). Obviamente a Rússia, seguindo o seu seco líder, não se manifestou muito a respeito. Avancemos até o início do mandato Trump, que teoricamente pode ter sido beneficiado pela interferência russa.

Segundo Wolff (2018, p. 126), em fevereiro de 2017 a história russa impunha a Washington o início avassalador de uma guerra de fake news, verdades (falsas), entre espectros políticos rivais, que na realidade alastrou-se pelo mundo afora. No meio de 2017, uma matéria do New York Times apontou claros indícios que Trump havia conduzido uma reunião com pessoas da inteligência russa em meados das eleições de 2016. Trump, obviamente, negou. Alguns meses antes, em março, já prevendo tais acusações, Trump se antecipou em seu Twitter, acusando Obama de tê-lo grampeado no dia em que estava entregando a presidência a ele. Segundo Wolff, que consultou a vários integrantes do governo Trump, tais acusações não tinham nenhum fundamento real. Wolff comenta que os assessores de Trump se mostraram totalmente surpreendidos com os tweets de Trump, e mais especificamente Sean Spicer, o diretor de comunicação da Casa Branca de Trump da época, se mostrou estupefato ao dizer que seu chefe “não poderia inventar tais maluquices” (WOLFF, 2018, p. 195).

Para tentar resumir o assunto Rússia, um tema cheio de enigmas – o que não surpreenderia a Winston Churchill, se ele ainda estivesse vivo,  já que a maioria das partes não conseguiu provar suas alegações a respeito da real interferência na política americana, o que pode ser afirmado de forma mais categórica é que desde a entrada de Putin no poder em 2012, o seu país ganhou mais proeminência no cenário internacional. Primeiramente, com o seu braço forte na Síria, depois com a anexação-relâmpago da Crimeia, e desembocando numa demonstrada força de sua inteligência cibernética perante o mundo. Tanto Obama quanto Trump sentiram a ascensão geopolítica da Rússia, um país que notadamente perdeu sua relevância econômica de outrora, mas que ainda é uma voz importante em impasses internacionais.

Conclusão

Este artigo buscou traçar uma análise comparativa entre os mandatos de Obama e Trump, focando inicialmente nos estilos e visões de política externa de ambos, avançando para resultados práticos nas relações com importantes jogadores da geopolítica mundial. Obama caracterizou-se por ser um líder que imprimiu à sua figura os temas de diversidade e tolerância entre as diferentes culturas, de forma vencedora, tais quais nos discursos importantes que apresentou no Cairo, Berlim, Havana, Praga e Johanesburgo. Trump não se notabilizou por nenhum discurso à tal altura, fora dos Estados Unidos.

Em relação aos resultados práticos, Obama colheu resultados mais marcantes, em que pese que muitos destes foram revertidos por Trump, tais quais o acordo nuclear com o Irã e o acordo de reabertura de diálogo com Cuba. Trump por sua vez, apresentou um resultado um pouco mais positivo na questão da Coréia do Norte, quando decidiu realizar inéditas reuniões com o líder daquele país. E Trump apresentou ao mundo uma solução potencialmente produtiva, mas que carecia de maior embasamento, para a questão Israel-Palestina, mas que perdeu fôlego quando foi sucedida pela crise do coronavírus.

Obama seguramente enfrentou mais dificuldades geopolíticas ao longo dos seus oito anos, quando comparamos com os quatro anos de Trump, em que pese que a muito complexa crise do COVID-19 veio no mandato do último. Obama passou pela Primavera Árabe, pelas guerras da Líbia e da Síria e pela anexação da Crimeia pela Rússia. Entende-se que Obama fica marcado por uma performance superior no quesito política externa, quando o comparamos com Trump. Nem Obama nem Trump conseguiram resolver muitas das complexas questões geopolíticas que surgiram nos últimos anos, e os Estados Unidos também sentiram que sua influência em tal departamento caiu, em que pese que manteve sua hegemonia econômica fortalecida. Entretanto, discursos inspiradores de Obama, que inclusive ganhou um Prêmio Nobel da Paz, são os seus legados, o que não se verifica para Trump.

Referências

Marshall, T. (2015). Prisoners of Geography – Ten Maps That Explain Everything About the World. New York:Scribner.

Rhodes, B. (2019). The World as It Is – A Memoir of the Obama White House. New York:Random House.

Wolff, M. (2018). Fuego y Furia – En las Entrañas de la Casa Blanca de Trump. Barcelona:Planeta.

Lamb, C. (2021). Chronicle of a Defeat Foretold – Why America Failed in Afghanistan. Foreign Affairs 100:4, 174-79.

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Sobre o Autor

Mestre em Relações Internacionais pela Florida State University (EUA), programa realizado no campus da cidade do Panamá, Panamá. MBA pela University of Rochester (EUA). Bacharelado em Administração de Empresas pela FGV-SP (Brasil). Trabalha na área financeira do Programa do Meio Ambiente das Nações Unidas (PNUMA) - ONU

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